"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Desenterrar o passado
















Embora não gozem da mesmo estatuto em território europeu, em casa as Sleater-Kinney são aquilo a que se pode chamar uma instituição, um expoente da fervilhante cena musical do noroeste estado-unidense. Com alguma desconfiança, pode até argumentar-se que as moças de Portland souberam apenas capitalizar o estilhaço riot grrrl que as antecedeu, bem como a atenção posta na vizinha Seattle em inícios de noventas. No entanto, tais alegações serão tremendamente injustas com o percurso ímpar de uma banda que, sem abdicar de um teor altamente politizado (essencialmente feminista), nunca se rendeu à estagnação. Afinal, não são muitas as bandas que se podem gabar de um legado de sete álbuns, sem pontos baixos, e em constante e subtil progressão. Do lote altamente conistente, contudo, é imperativo destacar um par de discos, um da sonoridade mais directa da primeira fase, outro da complexidade adquirida do período avançado. Falamos, obviamente, do terceiro Dig Me Out (1997), e primeiro em que a baterista Janet Weiss se juntou às guitarristas/vocalistas Corin Tucker e Carrie Brownstein para constituir a formação clássica que perduraria até à despedida, e do derradeiro e avassalador The Woods (2005). Perante o brilhantismo deste último, foi com alguma estupefacção que recebemos a notícia da separação em 2006, suavemente anunciada como um "hiato por tempo indeterminado".

Desde então, Corin dedicou-se à família e a uma discreta carreira a solo, enquanto Carrie e Janet se reuniram no super-grupo Wild Flag, projecto breve que rendeu apenas um álbum homónimo, ao qual o tempo ainda concederá o estatuto de clássico. A última fez também parte dos The Jicks, a banda que tem acompanhado o ex-Pavement Stephen Malkmus. Porém, cada aparição de qualquer das três com novo projecto, era sempre motivo para manifestação da nostalgia das Sleater-Kinney. Para que os infiéis possam entender toda a importância atribuída ao trio como um dos mais relevantes colectivos do rock no feminino, a novíssima caixa retrospectiva Start Together é ferramenta indispensável. Digo-vos que inclui a totalidade da obra gravada numa edição limitada a 3000 exemplares em vinil colorido, sendo que também é possível adquirir cada um dos sete álbuns remasterizados individualmente, em CD ou no convencional vinil negro, e sem os habituais brindes dos boxsets. Além de extremamente apetecível, o pacote completo tem um preço quase proibitivo, pelo que, pode ser extremamente útil para atestar amizades pelo Natal. Não obstante, a melhor das prendas é algo não propriamente material: o regresso das Sleater-Kinney ao activo, algo que os mais optimistas já profetizavam com o fim abrupto das Wild Flag e a saída de Janet Weiss dos The Jicks. O boato confirmou-se, e até há já álbum novo no horizonte, com edição prevista para Janeiro do ano próximo e com título genérico No Cities To Love. Há até um primeiro avanço em formato single, incluído como bónus em Start Together. A julgar pelo aperitivo, será um regresso das Sleater-Kinney a crueza "punkóide" dos primórdios. Portanto, um recomeço, completo que foi o anterior ciclo evolutivo.

"Bury Our Friends" [Sub Pop, 2014]

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Sonhos de toupeira














Por esta altura, decerto que já deverão ter ouvido pelo menos falar dos Cardinal. Se não for esse o caso, digo-vos, com toda a franqueza, que não o que andam a fazer neste mundo. A título adicional, gostava ainda de vos dizer que o álbum homónimo que editaram em 1994, apesar de ter passado despercebido a muita boa gente, tornou-se com tempo objecto de um culto fervoroso, um autêntico tratado de qualquer coisa como a pop de câmara/orquestral/barroca (riscar o que não interessa). Esse trabalho, concebido em Boston com alguns colaboradores locais, é fruto do génio do australiano Richard Davies, complementado pelos arranjos luxuosos do americano Eric Matthews. O primeiro encontrava-se ali deslocado por razões sentimentais, depois de ter seguido a sina de muitos artistas conterrâneos e tentar a sorte, sucessivamente em Nova Iorque e Londres, com a sua banda prévia: The Moles.

Deixando a dica de que Cardinal foi (mais uma vez) reeditado recentemente, hoje é destes últimos que me apetece falar-vos, até porque, tentando combater a obscuridade a que foram votados, acabam de ser alvo de uma retrospectiva integral da (escassa) obra numa única edição. De título genérico Flashback And Dream Sequences, o disco duplo tem selo precisamente da britânica Fire Records, neste momento a principal editora responsável pela revitalização do passado e presente da música das antípodas. Num total de 35 temas, inclui os dois álbuns da banda - Untune The Sky (1991) e Instinct (1994) -, bem como todas as canções originalmente espalhadas por uns escassos pequenos formatos. Se os pergaminhos de Richard Davies nos Cardinal, assim como a tradição das bandas clássicas australianas (The Go-Betweens, The Triffids), pode fazer crer que também os The Moles eram dados a um romantismo maior que a própria vida, desenganem-se, pois estes estavam na realidade mais sintonizados com as bandas da vizinha Nova Zelândia da década anterior à da sua existência. Assim, em Flashback And Dream Sequences podem encontrar o mesmo espírito indie-pop imperfeito, salpicado de psicadelismo e kraut, que habitava nos trabalhos seminais de gente como Tall Dwarfs, The Clean, The Chills. Refira-se ainda que estes últimos têm especial impacto ao nível da essência pop das canções. No entanto, apesar da opção pela imperfeição, no último longa-duração, que é na prática já um trabalho a solo de Richard Davies creditado à marca The Moles, já são audíveis alguns ímpetos orquestrais.

Resta acrescentar que, movido pelo súbito reavivar do interesse na banda, Davies decidiu reactivar o projecto The Moles, embora com diferentes acompanhantes. Há até planos para um álbum futuro que, a julgar pelo single de avanço, parece justificar a ressurreição. Sugiro que aproveitem o limitado Flashback And Dream Sequences, e que estejam preparados para receber o novo trabalho com o conhecimento da obra passada desta pequena mas belíssima obscuridade.

Bury Me Happy by The Moles on Grooveshark
[Seaside, 1991]

Eros Lunch (1963) by The Moles on Grooveshark
[Flydaddy, 1994]

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Xerifes de Nottingham

















Fazendo orelhas moucas ao buzz hiperbólico do "a América isto, o Canadá aquilo" que nos tentam impingir, aqui no April Skies há muito que defendemos que, embora num nível mais subterrâneo, a produção musical britânica dos últimos anos tem sido relativamente mais estimulante que aquela que vem do outro lado do Atlântico. Não podemos falar propriamente de uma era dourada como aquela do post-punk, mas é imperioso reconhecer, pelo menos no largo espectro da chamada música urbana, os benefícios trazidos pelo advento do dubstep e a sua propagação. Basta atentar nas muitas ramificações da electrónica recente, ou até no universo hip-hop, no qual os criadores britânicos parecem apostados em evitar os clichés do país dos progenitores da coisa.

De estética algo difusa para arrumar apenas num género estanque, a dupla Sleaford Mods arrisca-se a ser a próxima coqueluche a chegar de terras de Sua Majestade, pese embora já tenha alguns anitos no activo. Pelo menos desde 2007, têm editado álbuns com alguma regularidade, com títulos como Austerity Dogs (2013) ou Wank (2012), que sugerem sobeja irreverência. Com base no formato dupla e nas fotos promocionais, já alguém lhes chamou "os Pet Shop Boys do bairro social", descrição que tem algum cabimento também pelo cariz working class que nos parece genuíno, naquele estilo rufia que é tipicamente brit. O mestre de cerimónias é o trintão Jason Williamson, um rapper pouco convencional capaz de debitar slogans com a mesma prolificidade de uns Half Man Half Biscuit. A principal particularidade do discurso afiado, porém, é o uso desbragado do vernáculo, num cerrado sotaque de Nottingham. Os alvos da acidez podem variar, e para além do obrigatório comentário sócio-político, qual velho jarreta, Williamson dispara em todas das direcções, inclusive junto do mundo do showbizz e da actual geração dos gadgets. Estas crónicas de costumes corroídas de sarcasmo têm o devido acompanhamento nos samples, simplistas mas certeiros, de Andrew Fearn, algo que faz a ponte com o alegado passado rock, mod, e até rave, da dupla. À falta de qualquer descrição cabal - porque ela não existe - para este produto tão peculiar, vamos resumir os Sleaford Mods como um híbrido tão desempoeirado e fresco como muitos do período post-punk, devidamente recontextualizado para o presente. Depois de toda esta prosa, que vos poderá levar a questionar para que precisa o século XXI do seu Shaun Ryder, sugiro que os oiçam e tirem as vossas conclusões, sob pena de estarem a perder a maior pedrada no charco da monotonia instalada detectada desde há uns bons anos. Caso a falta de actualidade vos cause algum prurido, apanhem a boleia do novo Divide And Exit, adiado mas prestes a estourar nos próximos dias.

 
"Tied Up In Nottz" [Harbinger Sound, 2014]

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Feridas abertas













Sem se conseguir explicar bem o porquê, desde cedo o nome dos Swervedriver foi associado à vaga shoegazer da alvorada de noventas. É quase certo que esta arrumação desajustada da sonoridade da banda fique a dever-se à sua ligação à Creation Records, editora por excelência da "coisa", a mesma dos Ride e dos Slowdive. No entanto, por contraste com a música contemplativa destes, os londrinos eram adeptos do espalhafato, da adrenalina e da sujidade, com uma proposta que ia beber directamente numa América selvagem de estradas poeirentas. As referências tanto podiam ser as do rock mais rebelde de uma vintena de anos antes, como as mais recentes expressões sónicas do indie-rock ianque. Foi sob estas regras que editaram Raise (1991) e Mezcal Head (1993), dois óptimos álbuns que fizeram frente à brigada de guitarras desalinhadas que chegava do outro lado do Atlântico. Até à dissolução, em 1998, haveria ainda tempo para mais um par de registos, menos inspirados e algo desenquadrados das sonoridades plácidas que entretanto dominavam o gosto do público consumidor de música.

Uma década volvida desde o fim, os Swervedriver deixaram-se contagiar pelo síndroma da nostalgia e regressaram ao activo. Desde então, têm pisado os palcos com a assiduidade permitida pela carreira a solo do vocalista Adam Franklin. Só neste que é o ano de todos os regressos aos discos, e com uma agenda de concertos progressivamente mais preenchida, se decidiram a presentear-nos com música nova. O álbum está prometido para o ano que vem, mas já roda por aí um aperitivo que antes apenas estava disponível na edição limitada em vinil colorido, destinada à venda nos concertos. Este novo tema é já um indício de que, no futuro álbum, poderemos contar com todas as marcas identitárias dos Swervedriver, isto é, espirais de guitarras distorcidas, nível de decibéis perto do vermelho, e um mergulho na imagética da América rebelde. Quase aposto que o título seja uma referência à primeira encarnação dos Dinosaur Jr., em jeito de homenagem à banda que mais os terá influenciado na vontade subversiva de fazer as guitarras soar bem alto, precisamente numa altura em que a esmagadora maioria da Inglaterra indie ainda andava deslumbrada com os sonoridades jangly pós-Smiths.

 
"Deep Wound" [TYM, 2013]

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Arrepios na espinha

















Como sabem os entendidos na matéria, o pioneirismo da torrente indie-pop proveniente da Nova Zelândia há mais de três décadas, intimamente ligada à Flying Nun Records, pertence a bandas como Toy Love, Tall Dwarfs ou The Clean. Porém, não estaremos a ser injustos ao eleger como nome mais representativo daquilo que é muitas vezes designado como Dunedin Sound os The Chills. Na realidade, esta entidade criada em 1980 mais não tem sido do que Martin Phillips, variando na companhia consoante aqueles que estiverem disponíveis nas espaçadas interrupções do exílio, em muito provocado por uma longa dependência narcótica. Desde então, a chancela The Chills, que não dava sinais de vida há quase uma década, rendeu apenas três álbuns, outros tantos EPs, e mais de duas mãos cheias de singles. É pouco, é certo, mas muito se vos disser que esta parca produção contém pérolas pop em maior número que muitos catálogos de gente madura habituada ao ritmo das edições bianuais.

Neste contexto, é com incontida emoção que é recebida  junto dos adeptos POP, facção indie, a notícia de uma nova edição dos The Chills. Mesmo tratando-se apenas de um single com selo da Fire Records, editora responsável por algumas alegrias recentes através do que melhor se vai fazendo nas antípodas. Mas que single, meus caros! Sem qualquer ponta de exagero, e consciente da emotividade do momento, elevaria este novo tema ao nível da alquimia pop dos eternos "Pink Frost" (1984), "Wet Blanket" (1988), ou "Heavenly Pop Hit" (1990). Como poderão constatar mais abaixo, permanecem intactas todas as marcas identitárias do "som The Chills", i.e., sunshine pop intemporal de travo agridoce, desta feita adornada pela elegância das cordas. Agora é cruzar os dedos para que o álbum não tarde. E, já agora, porque não alguém aproveitar a saída do casulo para trazer Martin Phillips & C.ª a essas primaveras da vida?


"Molten Gold" [Fire, 2013]

quarta-feira, 1 de maio de 2013

This is the sound of silence


















Foto: Richard Dumas

É reacção mais ou menos natural a desconfiança relativamente a algo que nos é anunciado como a oitava maravilha do mundo musical, aquilo a que vulgarmente se chama hype. A tendência para este comportamento faz parte da nossa natureza, embora, com alguma racionalidade, muitas vezes tenhamos de admitir que aquilo que querem impingir à nossa autonomia pensante é de facto muito bom. Envoltas numa aura deste género, há mais de um ano, as londrinas Savages são um daqueles casos que nos levam a considerar que, por vezes, o hype é justificado. Isso é algo que já sabíamos do par de pequenos formatos lançados em 2012, que apesar de derivados de tendências post-punk mil vezes revisitadas, exibiam uma genica que envergonha a esmagadora maioria de bandecas revivalistas da última dúzia de anos.

Faltava às raparigas a prova dos nove do álbum de estreia, teste que, afirmo sem hesitações, passam com distinção. Embora só chegue às lojas na próxima segunda-feira, a audição de Silence Yourself já foi disponibilizada em streaming. A meia dúzia de escutas a que me sujeitei nas últimas 48 horas leva-me a crer que será um dos discos mais aclamados do ano, em diferentes estratos de público, e a concluir o que já desconfiava: as Savages são algo mais, muito mais, do que um mimetismo de Siouxsie & The Banshees. Apesar de alguns tiques vocais de Jehnny Beth remeterem para os trejeitos da "madrinha dos góticos", sou da opinião que Silence Yourself revela outros ecos post-punk talvez mais evidentes, nomeadamente dos Public Image Ltd. e dos Crass, bem como de um número considerável de expressões de feminismo daquela época. Dos PiL recupera-se uma certa frieza, traduzida num pulsar kraut que faz do minimalismo uma ferramenta usada com abundância. Já em comum com a filosofia dos Crass há uma certa militância política, não necessariamente engajada, antes como uma espécie de porta-vozes de uma imensa minoria que se rebela contra inimigos invisíveis neste nosso mundo em desagregação, onde o excesso de informação conduz à desinformação, onde todos opinam sobre tudo. Nesta postura faz todo o sentido o negro da indumentária, usado quase como um uniforme nos concertos que nos relatam como electrizantes. Da inflamabilidade das Savages em palco é algo que apenas poderei aferir, logo em dose dupla, lá mais para o final do mês...

 
"Shut Up" [Matador, 2013]

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Vai ser bonita a phesta, pá!



No dia das mentiras, queria dar-vos conta de um acontecimento marcado para breve que, não o parecendo, é a mais pura realidade. Fala-vos d'O Phestival, o primeiro festival de música organizado neste país, e quiçá na galáxia, por um grupo do Facebook. O grupo em questão dá pelo nome de Igreja Universal dos Fazedores de Bonitas Listas Musicais dos Últimos Dias, IUFBLMUD para os amigos, e é composto por um generoso número de devotos das listas musicais, entre os quais me orgulho de estar deste o primeiro dia, há quase três anos e meio.

A ter lugar na Cidade Invicta, nos próximos dias 19 e 20 de Abril, O Phestival decorre essencialmente no Hard Club, embora muitas actividades paralelas estejam programadas para o Radio Bar. Do cartaz, composto por bandas ainda - e sublinho o "ainda" - com pouca projecção, gostaria de ser parcial e destacar as bandas que incluem alguns amigos. A saber: os Malcontent com o seu fuzz-rock de inspiração marychainiana, os Tallowate com o seu post-hardcore incendiário, a pop melódica e emocional dos Jameson Blair, e, last but not least, o cantautor Olavo Lüpia com as suas trovas da dor-de-corno. No dito, incluem-se ainda os Denário, O Abominável, Blaze & The Stars, e Our New Lie. Em cada uma das datas, a noite será também abrilhantada até às quinhentas por seis duplas de DJs, todos eles ilustres membros da IUFBLMUD, à razão de três parelhas por noite.

Resta acrescentar que, nesta primeira edição, o cartaz d'O Phestival contempla apenas bandas com pelo menos um membro fiel da IUFBLMUD, cenário que, estamos em crer, poderá mudar no futuro, dependendo do sucesso da organização e da adesão a esta iniciativa pioneira. Vá lá, agora toca a comprar as entradas, que o resto está bem entregue!


quarta-feira, 20 de março de 2013

O subestimado
















Há músicos que, pelo seu contributo, mesmo que constantemente escapem ao radar dos fazedores de modinhas ou dos adoradores de vacas sagradas, mereciam estar num pedestal. Um deles é Edwyn Collins que, nos poucos anos que encabeçou os Orange Juice, foi o principal responsável pela "invenção" da indie-pop, isto ainda no tempo que tal rótulo significava qualquer coisa. Sem ele, por exemplo, talvez gente como The Smiths ou The Wedding Present não tivesse soado como soou ou, quiçá, até nem tivesse existido. Mesmo assim, nunca teve o reconhecimento público que merece, o que, somado à fome de sucesso da juventude, terá sido factor de perturbação numa subsequente carreira a solo algo errática no que à frequência de discos diz respeito. Curiosamente, só depois de 2005, altura em que, na sequência de uma dupla hemorragia cerebral se viu privado de muitas funções elementares, quanto mais de tocar e cantar, é que os discos se sucederam a um ritmo mais convencional. Coincidindo com a lenta recuperação que poderá não chegar a ser absoluta, tem sido referido e reconhecido com maior insistência, mas talvez nunca na dose devidamente ajustada à grandeza da sua obra.

Posto isto, se há alguém com o direito de intitular um disco seu de Understated essa pessoa é Edwyn Collins. É precisamente esse o título do seu oitavo álbum, com saída agendada para a próxima segunda-feira, que tem a ingrata tarefa de suceder a Losing Sleep (2010). Se bem se lembram, era nesse disco soberbo que se fazia rodear de um grupo significativo de músicos amigos e admiradores, todos por ele influenciados. Posso sossegar-vos revelando que, depois de insistentes audições do dito nos locais onde tal foi disponibilizado, que, como já vem sendo hábito, Edwyn Collins está na plenitude da sua forma. Os conhecedores já devem saber que podem esperar de Understated um naipe de canções pop de travo clássico, adornadas pelo folk-rock dos Byrds que já havia inspirado os Orange Juice e, sobretudo, pela northern soul e outras formas da música negra que são uma paixão antiga do seu autor. De igual forma, poderão contar com o inconfundível barítono em temas que, apesar da melancolia latente, têm subjacente um vincado optimismo. Na circunstância, e certamente com o recente infortúnio em mente, são várias as vezes que se celebra essa alegria que é a vida.


"Too Bad (That's Sad)" [AED, 2013]

terça-feira, 19 de março de 2013

The year that the world broke



















Foto: Dean Chlakley

Também sendo verdade o contrário, há bandas pelas quais não damos um chavo ao começo e que, com o tempo, vêm a revelar-se capazes de operar autênticas revoluções no seio da música popular. Não haverá, com certeza, melhor exemplo do que os dos Primal Scream, dos quais a estreia jangly não fazia deles mais do que uma das muitas bandas indie que, há época, viviam ensombradas pelos Byrds. Mais periclitante se previu o futuro quando se vestiram de cabedal, deixaram o cabelo crescer, e assumiram uma postura rock de travo retro algo bafiento. Nada faria prever que, em alvores de noventas, esta seria a banda que melhor assimilaria a "cultura pastilhada" num portentoso disco que cruzava o rock e a dance music com a eficácia de nenhum outro até então ou depois de então. A partir daí, tornaram-se motivo de seguidismo e não o contrário. Sem esconderem a reverência pelos seus ícones, experimentaram a facção funky do rock, a electrónica vanguardista com contaminações dub, o extremismo noise ligado à mesma electrónica, e ainda sonhos narcóticos temperados com kraut. A longo deste trajecto verdadeiramente camaleónico, duas coisas permaneceram imutáveis: a liderança incontestada de Bobby Gillespie e a atitude irreverente de quem não se conforma com o establishment.

Depois de um par de discos que nada trouxeram de novo ao caminho já trilhado, com o anúncio de um novo trabalho surge sempre a esperança que a carreira desta banda tão imprevisível ganhe novo fôlego. Afinal de contas, já lá vai uma boa década desde o último registo digno de nota. Com a iminência de More Light, a sair no actual contexto mundial lá para meados, não terei sido o único a prever nova insurreição sob a forma de um petardo tão demolidor quanto XTRMNTR (2000). Tanto mais que é conhecido o envolvimento de Kevin Shields e Debbie Googe, ambos dos My Bloody Valentine, o primeiro de regresso às colaborações com a banda, a baixista em substituição (temporária) de Mani, que entretanto se dedicou a 100% ao sonho antigo da reunião dos Stone Roses. Entretanto, sabe-se que esta última, agora também envolvida no regresso dos MBV, já no decurso das gravações, cedeu o seu lugar à desconhecida Simone Butler. Sabe-se ainda que o lote de convidados inclui Robert Plant, Mark Stewart (The Pop Group), e a Sun Ra Arkestra.

Com tais condimentos, a julgar pela primeira amostra e para nossa desilusão, More Light não será a tão esperada revolução que o mundo no seu global, e o mundo musical em particular, precisam. O tema em questão, que leva o título do ano em curso, mais não é do que um tema na linha do anterior trabalho, o relativamente desapontante Beautiful Future (2008). No entanto, há que enaltecer o brilhante tratamento de guitarra, cortesia de Kevin Shields, e o desenvolvimento de um mantra psicadélico na versão longa que se apresenta mais abaixo. Igualmente nesta versão, ganha todo o esplendor o magnífico vídeo realizado por Rei Nadal. Uma nota ainda para as invectivas panfletárias apontadas aos "senhores do poder", ou não fosse este o ano de todas as convulsões. Portanto, nem tudo estará perdido se os restantes temas não resumirem o inconformismo a pouco mais do que palavras.

 
"2013" [First International, 2013]

quinta-feira, 7 de março de 2013

Museu de cera

















Voltamos hoje ao constante retorno ao passado que é a música actual e à Califórnia, terra que tem sido pródiga nessas viagens no tempo. É de lá, mais concretamente de San Francisco, que são os Wax Idols, quarteto quase exclusivamente feminino com uma proposta deveras interessante, daquelas em que as fontes de referência, embora identificáveis, se misturam sem primazias para dar origem a uma linguagem algo própria. A prova está em No Future, o álbum de estreia de finais de 2011 que passou despercebido a meio mundo, e que gravita em torno de diferentes tendências de finais de setentas para inícios de oitentas. Nos temas que o compõem, curtos e directos, sentimos tanto o espírito rock'n'roller de uma Joan Jett, como o modo do-it-yourself de fazer as coisas de algum post-punk, com alguma sujidade e muita irreverência à mistura.

Com lançamento previsto para finais deste mês, os Wax Idols têm pronto Discipline & Desire, disco com selo da Slumberland Records, que entretanto lhes deitou a mão. Segundo anúncios da editora, este segundo álbum focaliza-se ainda num passado relativamente distante, no entanto avançando a mira para a primeira metade da década de 1980. Ao contrário do trabalho anterior, que foi concebido quase na íntegra pela mentora Heather Fedewa, Discipline & Desire é fruto do trabalho conjunto do quarteto. Ainda segundo a mesma fonte, o clima está agora mais em consonância com a nebulosidade das ilhas britânicas do que propriamente com o sol californiano. Para o adensar do negrume, dizem-nos, contribuem ecos de Siouxsie & The Banshees e de alguns projectos ligados à 4AD dos primeiros tempos, algo que a primeira amostra nos confirma:


"Sound Of A Void" [Slumberland, 2013]

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

King for a day














Sobre o cenário pop actual, e no respeita aos seus dois principais eixos, tenho uma opinião que não coincide com a da maioria. Quem ainda tem paciência para ler o que por aqui se vai escrevendo já saberá que não acho que o produção britânica esteja tão mal como a pintam e, por outro lado, o que vem das Américas nem sempre tem o brilho que os poderosos meios de divulgação que emitem a partir daquelas bandas nos querem fazer crer. Se tomarmos como exemplo o meio indie, enquanto que os ianques se limitam, com mais ou menos graça, a mimetizar bandas do passado (a maior parte delas britânicas!) facilmente reconhecíveis, os "bifes" vão à procura de fontes de inspiração mais obscuras. Se partirmos para as novas tendências da chamada música urbana e seus derivados, aí então os britânicos ganham por goleada.

Neste último quadrante, um nome a ter em atenção para os próximos tempos será, com toda a certeza, o de Archy Marsall. Com apenas 18 anos, este "cenoura" revela já uma maturidade de ideias que só é possível graças à exposição a uma rica cultura musical, algo que é comum a muitos súbditos de Sua Majestade. Com essas bases, e um imenso talento, ainda antes da maioridade, com apenas 16 anos, sob o pseudónimo Zoo Kid, já Archy se fizera notar com a sua apurada visão do quotidiano londrino, uma espécie ruiva e adolescente de cruzamento entre Ian Dury e Billy Bragg para os novos tempos. Se as letras do single que deixou meio mundo boquiaberto eram surpreendentes, não menos singular era o suporte instrumental: uma base minimalista de guitarra a abusar do tremolo, com tiques tanto de ska como de afrobeat, num ambiente soturno que evoca os Suicide. Nestes dois anos Archy cresceu, não restringindo a sua música à guitarra. Este nova faceta, ainda a percorrer a temática da tensão urbana no aspecto lírico, exigiu, no entender do rapaz que responde agora por King Krule, uma mudança de alter-ego. Nos novos temas nota-se um aperfeiçoamento da técnica da guitarra, agora acompanhada por outros instrumentos. Embora a matéria prima seja 100% orgânica, há notórios ecos de algumas linguagens recentes, do meio que o rodeia, como é o caso do dubstep. Óptimos indicadores para um álbum que se avizinha, o qual se prevê já que venha a ser motivo de abundante conversa. Pelo menos entre aqueles que, há mais de uma década, viram na estreia de The Streets uma pedrada no charco.

 
Zoo Kid "Out Getting Ribs" [House Anxiety, 2010]

 
King Krule "Rock Bottom" [Rinse, 2012]

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

The new dark age

















Nas terras mais a norte da Europa, parece andar a solta a miscigenação da energia punk com o minimalismo de um algum post-punk mais enegrecido. Da Suécia, chegaram-nos no ano passado o Holograms, com um interessante disco no qual realçam a segunda faceta, embora não se escusem a exibir alguns maneirismos calculados obviamente dispensáveis. Antes deles, mais a sul, na Dinamarca, já os Iceage se tinham movido em zonas limítrofes. Fruto da sua maior juventude, no caso destes, o disco de estreia libertava maior carga de adrenalina sem, contudo, dispensar o lado negro, expresso tanto nas letras como nos grafismos a remeter para símbolos de feitiçaria à la Blair Witch Project.

O quarteto de Copenhaga deu nas vistas ao ponto de seduzir os executivos da prestigiada Matador Records, que na próxima semana lançará o sucessor de New Brigade (2011). O novo disco leva o retumbante título You're Nothing, que é como quem expressa o célebre No future! ao sabor do ennui dos novos tempos. Desde há dois dias disponível para pré-escuta, o segundo álbum dos Iceage representa um passo evolutivo gigantesco para uma banda cujos elementos acabaram de entrar na casa dos vintes. Por um lado mais contido no aspecto da descarga enérgica gratuita, é por outro uma demonstração na arte de manipular o ruído em curtos petardos. Das audições a que já me sujeitei, concluo que o lado sinistro dos Iceage surge agora mais à superfície. A título de exemplo, remeto-vos para aquele que foi o primeiro avanço de You're Nothing, a promessa de ser disco para arrumar na prateleira próximo do homónimo dos canadianos METZ, que justamente hoje (Porto) e amanhã (Lisboa) nos visitam para uma daquelas sessões de ruideira de que já tínhamos saudades.

 
"Ecstasy" [Matador, 2013]

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Em busca da redenção

















Retomando a personagem principal de um post recente, volto hoje a falar-vos de Dean Blunt, um nome que convém fixar. Hoje ainda apenas seguido pelos adeptos das electrónicas, sobretudo da facção pós-dubstep, este britânico é, a avaliar pelo ritmo das suas edições, um trabalhador incansável. No ano passado, não só nos deu o brilhante Black Is Beautiful, também creditado a Inga Copeland, que juntamente com ele antes respondia por Hype Williams, como The Narcissist II, um longo EP de uma única faixa dividida em vários segmentos. Neste último, era notório um afastamento dos abastraccionismos do passado, numa peça cinemática que nos revelava cenas da vida íntima de um casal à beira da ruptura.

Os desenvolvimentos do último registo em nome individual serão, certamente, seguidos no próximo - o álbum The Redemeer, agendado para inícios de Maio. Assim nos leva a crer "Papi", a primeira faixa tornada pública que, curiosamente, sampla ostensivamente "Echoes" dos Pink Floyd. Neste tema, Blunt surge-nos naquilo que poderemos catalogar como o seu registo mais "romântico". Com frases ternas como "You bring out the best in me", e num ritmo lento de music hall para horários tardios, é suprimida toda a asfixia do ambiente denso que ainda caracterizava The Narcissist II. Com a redenção, lá mais para a Primavera, virá um maior reconhecimento das massas. É só uma aposta...


"Papi" [Hippos in Tanks, 2013]

domingo, 13 de janeiro de 2013

Life on Marr?

















Em reacção às constantes perguntas sobre os Smiths, Johnny Marr disse um dia que estranhava que não o questionassem mais sobre os The The, banda com  a qual, efectivamente, passou um período de tempo bem mais longo. Aceita-se a recusa em querer alimentar o mito em torno de uma das mais propaladas rupturas da pop, mas também se compreende quem o interroga, até porque é incomparável a dimensão histórica de uma e outra banda, bem como a importância do seu papel em cada uma delas. 

Antes dos The The, se bem se lembram, este que é um dos mais requisitados músicos da pop dos últimos 30 anos, já se tinha envolvido nos Electronic, projecto em parceria com Bernard Sumner que, segundo consta, terá provocado a ira de Morrissey, tal era a antipatia do vocalista pela "família" New Order/Joy Division. Mais recentemente, sem vedetismos, integrou-se de corpo e alma em bandas como Modest Mouse e The Cribs, que abandonou sem animosidades quando bem entendeu. No capítulo das colaborações, a lista é infindável, e conta com favores de resultados variáveis com amigos como Talking Heads, The Pretenders, Bryan Ferry, Billy Bragg, Kirsty MacColl, Neil Finn, Lisa Germano, ou Edwyn Collins. E há ainda para referir, na ressaca da britpop, o projecto pessoal de má memória intitulado The Healers, que nos leva a pensar que Marr obtém melhores resultados quando não é ele o coordenador principal.

Por isso, e pelo respeito por um músico de excepção, é com algum temor que aguardo a chegada de The Messenger, o primeiro álbum a solo previsto para o próximo mês. Para já, o tema-título, em rodagem há já algum tempo, deixa-me relativamente sossegado. Não é que esteja sequer perto do nível do melhor que Johnny Marr já nos proporcionou (alguém dia alguém estará?) mas, não só nos assegura que o homem tem voz para a coisa, como é uma canção digna desse nome neste tempo em que elas escasseiam. Além disso, tem um trabalho de guitarra, assente na melodia e sem exibicionismos inúteis, típico de um génio discreto. Ora oiçam:

 
"The Messenger" [Warner Bros., 2012]

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Cimeira de pasteleiros












Já que rumámos à Escócia no post anterior, por lá vamos ficar por mais uns breves instantes para vos falar de boas novas dessa "instituição" chamada The Pastels. Apesar da aparência de eterno adolescente do mentor Stephen McRobbie, a.k.a. Stephen Pastel, talvez seja preciso referir que esta aventura já leva umas três décadas de existência. É claro que tem sido um percurso com longas paragens, que até ao momento, para além de uma catrefada de singles, rendeu apenas quatro álbuns de originais. Mas, apesar dos hiatos prolongados, o núcleo duro, que além de Stephen inclui a baterista e vocalista Katrina Mitchell, tem estado sempre próximo para um possível regresso da vida ociosa.

Tanto quanto nos faz saber a Domino Records sem, no entanto, especificar uma data, o próximo regresso está marcado para o ano corrente. Acontecerá com Slow Summits, o álbum que sucede a Illumination e interrompe uma hibernação de dezasseis anos, se descontarmos uma banda sonora para um filme de David Mackenzie (The Last Great Wilderness, de 2002) e o disco em colaboração com os japoneses Tenniscoats (Two Sunsets, de 2009). A editora avança também com o curto teaser que se apresenta mais abaixo que, de tão curto, deixa indefectíveis como este que vos escreve num estado de ansiedade exasperante, só atenuada porque nos promete aquele mel refinado do qual já tínhamos saudades. Ou, ainda citando a Domino, o optimismo de que 2013 tanto necessita.


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Tarte com creme















Sobre os escoceses Veronica Falls, alguém disse um dia que soavam tão britânicos que pareciam americanos. A provocação, carregada de ironia, ficou a dever-se à constatação da existência de uma enxurrada de bandas dos states a recuperar hoje em dia as sonoridades de finais de oitentas, da jangle e da twee-pop que emergiram a partir da C86 e que tiveram origem no Reino Unido.

O mesmo se pode aplicar aos londrinos The History of Apple Pie, um quinteto já com cerca de dois anos de rodagem. Neste período, lançaram um promissor trio de singles preparatórios para o primeiro álbum, a sair perto do final do mês corrente. O disco, intitulado Out Of View, integrará todos os três temas já conhecidos. A julgar por estas amostras, é de esperar um trabalho que, a partir das referências supra citadas e do primeiro álbum dos My Bloody Valentine, alinha por aquela noise-pop carregada de sacarina que fez história em inícios de noventas. Se estão já à espera de uma derivação dos xoninhas The Pains of Being Pure at Heart, esclareço-vos que os History of Apple Pie parecem ter o sangue na guelra que falta àqueles, em parte derivado da ingenuidade falsa da vocalista Stephanie Min, uma pequena com ascendência asiática com voz doce e insinuante. Sejam optimistas e pensem antes num transplante dos Velocity Girl de boa memória para a actualidade, o que parecem mais elogioso e ajustado.

 
"Mallory" [Roundtable, 2011]

 
"Do It Wrong" [Marshall Teller, 2012]

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Bons amigos















Cá por casa buscam-se, com uma frequência quase diária, novas sobre os Tashaki Miyaki, uma dupla angelina que vos "apresentei" vai para mais de um ano. Até à data, continua a aguardar-se o anúncio do álbum de estreia desta banda tão promissora. Porém, a insistência não tem sido completamente inglória, pois assim vou sabendo em primeira mão dos pequenos formatos que a parelha vai lançando amiúde, o que, por outro lado, apenas alimenta a ansiedade pela prova-dos-nove do longa-duração.

O último desses pequenos formatos, pelo menos em formato físico, é um 7'' intitulado Best Friend que deverá ser mesmo motivo para total aclamação. Muito por culpa do tema-título, uma pérola de uma pop sonhadora com moderado fuzz e uma boa dose de sacarina. Logo à primeira escuta, são detectáveis ecos dos Mazzy Star e dos Galaxie 500 em igual intensidade, nomeadamente a veia folky dos primeiros e a aura estelar dos últimos. Contudo, os Tashaki Miyaki insuflam "Best Friend" de um cunho pop e de uma sensualidade falsamente ingénua que estavam ausentes nas canções daqueles dois nomes maiores. A condizer com o enlevo da música, o magnífico vídeo promocional (ver abaixo) é um pequeno road movie a preto-e-branco que termina com a tensão de um final em aberto. Por seu lado, "Tonight", o lado b, é uma espécie de power-pop no feminino desacelerado, um pouco a hipótese de umas Bangles sem medo de fazer uso dos pedais de efeitos.

Para além de gente talentosa e com bom-gosto, os Tashaki Miyaki são também gente generosa. Isto porque acabam de disponibilizar, para download completamente gratuito, dois registos completamente preenchidos com algumas das muitas versões que têm feito. Um deles contempla originais de Father John Misty, Bob Dylan e Sam Cooke, o outro inclui duas versões de outros tantos clássicos mainstream dos eighties. É ir aqui e aqui e aproveitar a oferta, porque nenhuma das versões é inferior a boa e porque amigos destes não há muitos.

 
"Best Friend" [Luv Luv Luv, 2012]

domingo, 14 de outubro de 2012

'Allelujah, here it comes
















No submundo hoje superpovoado do post-rock, facção instrumental, duas bandas funcionam hoje como unidade de medida, sob a qual todas as outras são avaliadas: os escoceses Mogwai e os canadianos Godspeed You! Black Emperor. Se os primeiros, talvez pela omnipresença, são já aceites como um produto pop, os últimos ainda carregam uma aura de mistério em seu redor, factor determinante para o culto acérrimo que geram. Muito provavelmente cientes de que a abundância de edições num "género" tão restrito poderia implicar riscos de repetição, os GY!BE entraram em hiato por tempo indeterminado em 2003, sem que daí adviesse qualquer perda de devoção por parte dos seus fiéis seguidores. Foi pois, em ambiente de euforia que se recebeu a notícia do regresso do colectivo aos palcos, há coisa de dois anos, sem, contudo, se especular sobre o eventual interesse mercantilista da operação. A filosofia anti-capitalismo, bem expressa nos títulos deveras eloquentes dos temas sem letras, e a estratégia que pouco ou nada se coaduna com a norma pop são por demais conhecidas de todos para serem postos em causa.

Seguindo esta rigorosa ética, portanto sem qualquer anúncio com meses de antecedência, o mundo prepara-se para receber (amanhã) 'Allelujah! Don't Bend! Ascend!, o quarto longa-duração dos GY!BE, desde há alguns dias em streaming exclusivo no sítio on-line do jornal britânico The Guardian. Composto por quatro temas, dois deles perto da marca dos 2o minutos de duração, os outros dois substancialmente mais curtos para os padrões habituais, o novo álbum soa-me mais como uma espécie de reactualização das mini-sinfonias do esplendoroso álbum de estreia, do que como um desenvolvimento da menor linearidade dos registos posteriores. Opção compreensível, se tivermos em conta que a aura apocalíptica de F#A#Infinity (1997) faz tanto sentido no mundo em convulsões de hoje, como fazia na tensão pré-milenar em que foi gerado. O tema mais imediatamente assimilável é o inaugural "Mladic", com um crescendo de rompante a evoluir para uma cavalgada próxima de ser catalogada como "industrial". Neste, não passam despercebidos os elementos étnicos, primeiro com tonalidades arabizantes, perto do final com percussões e chocalhadas índias. Os três temas remanescentes reforçam a tese de que os GY!BE têm uma capacidade única de extrair rara beleza de ambientes opressivos em que o ruído não é factor de todo desprezável. Ainda que 'Allelujah! fosse um prolongar da semi-desilusão que foi Yanqui U.X.O. (2002), experiência mal sucedida com Steve Albini nos comandos técnicos, o que fica já definido que está longe de ser, teríamos sempre a quase certeza de que qualquer vislumbre dos GY!BE num palco será sempre uma experiência de contornos próximos do sacro. A próxima cerimónia a que farei os possíveis por assistir terá lugar dentro de duas semanas exactas, na mui nobre e invicta cidade do Porto.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Pára tudo!
















Já não será novidade para os devotos mais atentos, mas fica aí a notícia do ano para os mais distraídos: os Sebadoh estão de volta aos discos! Não é a formação "clássica", pois Eric Gaffney abandonou o barco logo a seguir à série de concertos que assinalou a reedição de boa parte do catálogo desta que é uma das mais importantes "instituições" indie de noventas. Nem tão pouco é a formação que gravou o último The Sebadoh (1999), pois o papel de baterista é agora entregue ao ex-Fiery Furnaces Bob D'Amico. Mas tem, obviamente, os eternos Lou Barlow e Jason Loewenstein que, como é hábito, alternam os créditos da composição e as vozes.

Secret, o EP de cinco temas hoje lançado pode ser escutado aqui. Como poderão constatar, longe vão os tempos das catarses de ruído e berraria. Agora os Sebadoh, sem beliscar a identidade, apostam em temas mais ortodoxos, pese embora a distorção e o modo caseiro de fazer as coisas ainda façam parte da ementa. Os três temas de Barlow têm uma maior carga melancólica, os dois de Loewenstein alternam entre o rock descarnado e o folksy e são mais ambíguos. As boas notícias não se ficam por aqui, pois o EP antecede um álbum já em preparação com edição prevista para o próximo ano. Este regresso súbito é também motivo para mais uma ronda de concertos, por ora com datas marcadas apenas para os states. Agora, é tudo uma questão de cruzar os dedos e torcer para que as boas gentes da Catalunha nos realizem um desejo antigo...

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Do cabeleireiro ao matadouro















Um pouco à semelhança de Nathan Williams (Wavves) ou do malogrado Jay Reatard, Ty Segall é um daqueles putos americanos que combatem o tédio com uma hiperactividade estonteante no que respeita a edições discográficas. Depois de uma catrefada de discos de confecção caseira nos vários formatos, no ano passado, brindou-nos com o álbum Goodbye Bread, um óptimo registo significativamente mais "limpo" que os esboços toscos dos anteriores. Neste, os impulsos garage abriam espaço para alguns laivos glam que denunciavam apreço por Marc Bolan. Também na progressão rumo a um formato de canção mais escorreita, o percurso de Segall é em tudo semelhante ao daqueles dois outros ícones do novo lo-fi.

Já no decurso do corrente ano, Ty Segall uniu-se a White Fence, que é como quem diz Tim Presley, outro puto californiano hiperactivo, para editar Hair. Neste trabalho conjunto, que tem rodado com alguma insistência por estas paragens, a dupla oferece um conjunto de temas em que o garage e o psych dão as mãos num autêntico puzzle que desafia o ouvinte pelas estruturas pouco ortodoxas de cada faixa. Ainda mal refeito do último assalto sónico, saído há escassos dois meses, sei que Ty Segall tem nova investida prevista para a próxima semana. O novo álbum chama-se Slaughterhouse e é creditado à Ty Segall Band, já que, tal como as duas outras duas luminárias referidas, também o nosso jovem intrépido se viu na necessidade de se fazer acompanhar de uma banda completa para fazer face ao número crescente de solicitações para concertos. A amostra infra faz-nos crer que a feitura de canções dignas desse nome é tendência para continuar. Basta que se descortine a pop borbulhante de travo clássico que se oculta por detrás das barreiras de eco e reverberação.

 
Ty Segall & White Fence _ "I Am Not A Game" [Drag City, 2012]

   
Ty Segall Band _ "I Bought My Eyes" [In The Red, 2012]