Foto: Sarah Cass
Japanther + Shellshag @ Galeria Zé dos Bois, 20/01/2011
Essa coisa do rock'n'roll é juventude. É subversão. É rebelião. É diversão. É energia. É adrenalina. É transpiração. É uma data de coisas que, geralmente, emanam dos subterrâneos e chegam à superfície descodificadas em produtos de consumo em massa. Não que os nova-iorquinos Japanther venham um dia a ser referência para fenómeno em larga escala. Eles próprios são já uma reactualização dessa instituição punk-pop intitulada Ramones (com micro-versão de "Blitzkrieg Bop" incluída). Mas o que é indesmentível é que, nos dez anos já que levam a agitar pequenas salas apinhadas, abriram caminho para pequenos cultos como Wavves, No Age e mais um punhado de nomes ligados à secção mais poppy do chamado shitgaze.
Em happenings que tendem para a indisciplina, os resultados podem variar entre o triunfo absoluto e o desastre completo, dependendo, quase exclusivamente do mood da assistência. Ontem, quis o acaso que o duo em palco e a imensa turba que lotou o "aquário" da ZdB, e não arredou pé por um instante, se alinhassem num propósito comum - celebrar o espírito libertário do rock'n'roll. A cargo da parelha de agitadores, sob a forma de pequenos petardos contagiantes, ficou o revisitar de seis décadas de tal ofício. Ele houve ortodoxia punk-rock, com direito a versão de Black Flag; ele houve surf-rock tal como entendido por putos fodidos de NYC que nunca viram uma praia; ele houve canções pop escorreitas que não mereciam ser relegadas para pequenos nichos de curiosos; ele houve balanço em dose massivas para sacudir corpos com excesso de energia; ele houve libertação do ennui juvenil. E houve muito humor: do mais inteligente e corrosivo, nas letras que debatem uma série de clichés da cultura pop estandardizada; e do mais inane, tanto nos pequenos trechos pré-gravados que medeiam as canções, como nas tiradas absurdas da dupla nesses mesmos interlúdios. O único pecadilho a apontar será, porventura, a duração excessiva de um concerto com estas características, o que faz com que o entusiasmo inicial esmoreça pelo cansaço, deixando a pairar uma sensação de repetição.
Também um duo, mas substancialmente mais contidos na subversão, os Shellshag alinham por um indie-rock mais canónico, num espectro mal definido que pode ir dos Pixies aos Royal Trux. Acusam ainda alguma insegurança, sobretudo o guitarrista, que não consegue disfarçar uma timidez pouco de acordo com o exercício do ministério rock. Mas nota-se que há por ali talento, engenho e, acima de tudo CANÇÕES. Umas vezes melódicas e sexy, outras cacofónicas e iradas, mas sempre fiéis à crença da baixa-fidelidade. Uma agradável surpresa que se tinha revelado recentemente via myspace, e cumpre, embora ainda sem distinção, em palco.

