"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A solidão (ainda) é uma bênção

















Na altura do meu primeiro contacto com os australianos Tame Impala ainda estes eram uns autênticos putos (antes que venham com conjecturas de mau-gosto, esclareça-se que ainda eram um trio inteiramente masculino), surpreendentemente, para aquela idade, fascinados com o mundo da psicadelia sessentista. Em carteira tinham apenas um EP que, embora demasiado derivativo de uns Cream ou até de Hendrix, deixava antever algum potencial aos miúdos das antípodas. Entretanto, chegou o tão badalado álbum Innerspeaker (2012), viragem dentro do espectro psicadélico para uma abordagem mais próxima da pop, por vezes a tanger os fab four, e com ele a certeza de que os Tame Impala eram para se seguir com atenção.

Para tirar as teimas, aí está Loneirism, o novíssimo segundo álbum cujo título reforça a ideia de que esta gente cresce a enaltecer as benesses da solidão. Para o caso, talvez interesse referir que os Tame Impala vêm de Perth, conhecida como a metrópole mais isolada do mundo, o que poderá ter neles a mesma influência que teve na aura de alienação da música dos conterrâneos The Triffids, há vinte e tal anos. Passando à música contida na rodela, as diferenças estéticas - sempre dentro da psicadelia, como uma espécie de reactualização da coisa - relativamente ao antecessor são notórias. Logo no começo, sente-se um apelo das raízes, expresso numa batida tribal que, por mais do que uma vez, assoma ao longo do disco. As influências são agora mais difusas, com as aproximações beatlescas a resumirem-se aos escassos momentos em que a voz de Kevin Parker se assemelha à de Lennon, enveredando agora, na maioria dos temas, por uma espécie de semi-falsetto. Embora omnipresentes, as guitarras perdem terreno para os teclados, alargando os segmentos instrumentais em regime quase jam, e conferindo ao álbum uma certa uniformidade. Do todo, pressente-se um desejo de aspirar à grandiosidade, facto a que será alheio o envolvimento de Dave Fridmann, homem versado nesta "matéria", que alegadamente coadjuvou Kevin Parker na produção de Loneirism. Curiosamente, e em sentido contrário à tendência dominante, os Tame Impala escolheram para primeira amostra o tema em que os delírios guitarrísticos se revelam mais prementes:

 
"Elephant" [Modular, 2012]

terça-feira, 26 de junho de 2012

Exploding Fantastic Inevitable















Até há relativamente pouco tempo desconhecia em absoluto estes Pond (conhecia outros, que nos idos de noventas chegaram a lançar pela Sub Pop), colectivo australiano de formação variável assente num núcleo duro de três elementos. Desse trio, dois terços são também membros dos Tame Impala, mas fazem questão de esclarecer que não se trata de um simples projecto pararelo. É que, contra o até agora solitário e fulgurante disco de estreia destes últimos, os Pond têm já para mostrar um total de quatro álbuns. O mais recente é Beard, Wives, Denim, e poderia ser o disco que uns tais de MGMT teriam feito à segunda aparição se, além da óptima colecção de psicadelia, tivessem a arte e o engenho para tal.

Pelas linhas acima, já terão percebido que estamos, inevitavelmente, em terrenos próximos aos dos Tame Impala. Contudo, e pelo menos em Beard, Wives, Denim, que alegadamente foi gravado por um grupo de dez elementos ao longo de duas semanas com poucas horas de sono, os Pond expandem a paleta do psicadelismo e não se ficam pelo derivativo meio-caminho entre Cream e The Beatles. Desde os primeiros instantes, pressente-se um menor rigor no aperfeiçoamento dos temas, com alguma sujidade "garageira" a colidir com discretos laivos kraut. Mais à frente, um ou outro apontamento electrónico coexiste pacificamente com os falsettos e os sortidos de riffs descaradamente "zeppelianos". No todo, realce-se a capacidade que, a partir de fontes facilmente reconhecíveis, os Pond têm para proporcionar viragens bruscas - muitas das vezes dentro do mesmo tempo - que provocam no ouvinte o atordoamento pretendido. O tema de abertura, por exemplo, pega em restos da british invasion, ou até nos melhores Oasis em modo rolling, e atira tudo para o vácuo pelo meio de uma berraria ensandecida.

 
"Fantastic Explosion Of Time" [Modular, 2012]

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Em escuta #51









WILD NOTHING _ Gemini [Captured Tracks, 2010]

Nos últimos tempos, nos Estados Unidos, avoluma-se o rol de estetas adeptos das produções caseiras de baixa-fidelidade. Embora novato nessa extensa lista, Jack Tatum conta já com um currículo que inclui diversas solicitações para remisturas do trabalho de outrém. Na obra em nome próprio, assinada como Wild Nothing, envereda por uma sonoridade liberta de artifícios que sugere, inevitavelmente, algum recolhimento. As tapeçarias sonoras, essencialmente geradas a partir de sintetizadores analógicos, tanto evocam as paisagens idílicas dos Cocteau Twins como a pop fracturada dos Felt. Umas vezes banhado num mar de doce melancolia, outras penetrado por tímidos raios de sol, Gemini deixa no ar uma leve brisa de mistério que seduz desde o primeiro instante. [8]


ARCADE FIRE _ The Suburbs [Merge, 2010]

Ao terceiro registo, o combo canadiano mais celebrado dos últimos tempos, salvas as devidas distâncias, retoma os tons sépia do debutante Funeral, em detrimento da pompa balofa que marcou o subsequente Neon Bible. Contudo, nas entrelinhas, The Suburbs ainda deixa escapar alguns anseios de grandeza, seja na discrição dos arranjos de cordas, seja na limpidez da produção que arrasa a veia tosca de outrora. A voz de Win Butler abandonou o ar de gravidade do passado e envereda agora por uma reserva mais de acordo com as suas limitações. A sombra de Springsteen paira a cada recanto e as guitarras ganham terreno, por vezes em despique desenfreado ("Mouth Of May", "Ready To Start"), noutras a sublinhar o rigor formal que roça o classicismo pop (o profusamente catchy "Modern Man"). Interpretado por Régine Chassagne, "Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)" segue, sem pudores, por uma via electrónica retro que, possivelmente, aponta pistas para um futuro próximo. Segundo os membros da banda, a inspiração para este disco provém das experiências de vida nos subúrbios, e daí o ambiente de desencanto que emana. Como obra conceptual que é, The Suburbs não escapa aos piores tiques do "género", na circunstância manifestados na duração que vai para além do razoável. Pela parte que me toca, e para melhor fruição, saltei "Rococo" e "Empty Room", manifestações da irritação épica que me causa profunda repulsa. [7,5]


THE CORAL _ Butterfly House [Deltasonic, 2010]

Com este são já meia dúzia os álbuns da banda que, discretamente, se tem firmado como um dos mais sólidos colectivos nascidos no Reino Unido do novo século. Se a isto somarmos o facto de os seus membros ainda andarem pela casa dos vintes, ganha outras proporções o feito dos The Coral, banda que, desde cedo, manifestou o apego à tradição do psicadelismo pop sessentista comum a outros dignos representantes da Liverpool natal (Echo & The Bunnymen, The La's, Shack). Sem surpresas, Butterfly House segue essa mesma via, pese embora revele uma banda próxima de um estádio de amadurecimento, com toda a carga positiva que o termo possa sugerir. Obreiro desta pequena (r)evolução foi o produtor John Leckie que, aproveitando as transformações no seio da banda (a substituição do guitarrista), extraiu dos The Coral potencialidades que revelam extrema auto-confiança. A voz de James Skelly já não é a do puto meramente dotado, mas sim a do homem-feito com aptidões para um registo próximo do crooning. Das guitarras, geradoras de melodias tão formais quanto inventivas, tanto podem brotar laivos de flamenco a fazer lembrar os Love, como manifestações de virtuosismo próximas da versão contida de uns Stone Roses do segundo disco. Desta conjugação de factores, nasce uma dúzia de canções que, sem excepção, primam pela eficiência só ao alcance das obras intemporais. Para melhor entendimento, pasmem-se com a previsibilidade feita gema pop de "1000 Years", até prova em contrário, uma das canções que marcarão positivamente o corrente ano. [8,5]


TAME IMPALA _ Innerspeaker [Modular, 2010]

Não se pense a Austrália dos nossos dias, e em particular a editora Modular, apenas capaz de gerar sub-produtos de saudosismo oitentista que, ultimamente, tem entretido o gosto direccionado para modinhas fúteis. Quem no-lo afirma são os Tame Impala, quatro putos obcecados com os devaneios guitarrísticos de Hendrix e dos Cream da melhor safra, os mesmos que, há coisa de dois anos, presentearam os mortais com um fulgurante EP homónimo. A hora da aventura em longa-duração é também a de correr riscos, materializados num alargar de horizontes que se expandem até a uma faceta mais contemplativa - e, forçosamente, mais pop - que lembra The Beatles, em particular os do Álbum Branco. Há até algumas semelhanças vocais com o Lennon desses tempos que chegam a ser assustadoras. Não se pense, contudo, os Tame Impala apenas apostados na deriva mental por via da psicadelia sonora: quando investem a fundo no groove, sacodem irremediavelmente o corpo sem dó nem piedade. "Solitude Is Bliss", o tema eleito para single promocional é disso o melhor exemplo. [8,5]

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Bovídeos amansados








Chamam-se Tame Impala e são um trio oriundo de Perth, na Austrália. Se por um instante colocaram a hipótese de uma eventual rendição deste escriba à música para carrinhos-de-choque que tem chegada daquelas paragens, desenganem-se: a música dos Tame Impala cose-se com linhas bem distintas. Apesar de mal entrado na casa dos vintes, Kevin Parker, vocalista, guitarrista e estratega-mor, parece ter ficado encerrado numa garagem desde 1968, sujeito a uma dieta de Hendrix, The Nazz, Cream, e outras manifestações psicadélicas da mesma altura. Consequência directa deste gosto "retrógrado", o EP homónimo lançado na segunda metade do ano passado foi uma caso sério de popularidade na terra natal. Se se mantiverem ao mesmo nível, o álbum que se espera ainda no corrente ano poderá catapultá-los para o reconhecimento à escala global.


"Half Full Glass Of Wine" [Modular, 2008]