"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Singles Bar #79














DINOSAUR JR.
Freak Scene
[SST, 1988]





Embora relativamente mais novos que aqueles, consta que os Dinosaur Jr. terão tido uma influência determinante na abordagem mais pop à ruideira seguida pelos Sonic Youth de finais de oitentas, colectivo até aí mais dado ao experimentalismo. Apesar de as vendas dos discos não o reflectirem, por alturas do terceiro álbum já os Dinosaur Jr. eram uma banda com créditos firmados na "cena alternativa" norte-americana. Faltava apenas o tema definitivo, aquele que asseguraria a imortalidade rock, que acabou por aparecer logo na abertura de Bug, esse mesmo terceiro longa-duração registado com o três membros da banda e rota de colisão.

Para qualquer observador moderadamente atento das movimentações e tendências indie, "Freak Scene" é, inequivocamente, um marco naquele universo, um paradigma pelo qual toda a produção subsequente se haveria de guiar. Do jangle-pop já algo estafado, os My Bloody Valentine retirariam daqui ensinamentos que fariam deles obreiros da canção pop servida pelo ruído. Na dinâmica quiet-loud-quiet os Nirvana colheram a matriz para um tema que haveria de mudar irreversivelmente a face da música pop/rock. Atente-se ainda no momento da letra em que J Mascis, com o seu tom alheado de sempre, pronuncia algo como "Just don't let me fuck up, will you / 'cause when I need a friend it's still you", assumindo já o mesmo ennui juvenil ao qual Kurt Cobain daria voz para toda uma geração. Guitarrista de dotes acima na média nos meandros indie, Mascis não tem também qualquer temor em espalhar pequenos solos pelos três minutos e meio de duração de "Freak Scene". Esta prática, até aí olhada de lado neste meio, haveria de se tornar imagem de marca dos Dinosaur Jr., tendo, igualmente forte impacto nos Teenage Fanclub mais ruidosos dos primórdios. Num single que representa na perfeição os gostos e influências de Mascis da altura, o lado B reserva-nos a sensibilidade folky daquele que se assumia cada vez mais como o líder algo contestado dos Dinosaur Jr.. Com inflexões ao country-rock dos Byrds, "Keep The Glove" não enjeita, porém, na sua parte final, um delírio de distorção a piscar o olho à psicadelia.


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Aposta ganha



















Sem desprimor para gente como os Sonic Youth, os Pixies, ou os Hüsker Dü, sou da opinião que nenhuma outra banda foi tão determinante para a explosão "alternativa" de inícios de noventas, dos Nirvana e quejandos, como os Dinosaur Jr.. Nos três primeiros álbuns deste trio de putos dos arredores de Boston vislumbram-se a olho nu as principais características da música de Kurt Cobain e companhia: um rotundo assalto sónico que, fazendo gala da distorção, não enjeita uns curtos solos de guitarra, e um acentuado ennui. Claro que a tensão latente, própria da tenra idade mas também da coexistência de três egos difíceis, acabaria por dar bronca. Como consequência, aos Dinosaur Jr. pertence um dos mais acrimonisos e propalados divórcios das últimas três décadas da música popular. Ao longo da década de 1990, com formações variáveis, J Mascis, que os outros dois (o baixista Lou Barlow e o baterista Murph) acusavam de governar a banda pouco democrática, conduziria a marca Dinosaur Jr. num penoso definhar.

Foi com alguma surpresa que, em 2005, recebemos a notícia da reunião do trio original, agora amadurecido e mais tolerante ao feitio pessoal de cada um. Desde que lamberam as feridas do passado, os Dinosaur Jr. não param de surpreender com o lançamento de álbuns de elevado grau qualitativo, mesmo para os mais cépticos deste fenómeno das reuniões. Já aí está o terceiro, I Bet On Sky de seu nome, que apesar de ser, eventualmente, o mais límpido dos trabalhos da banda, não deixa de lado as suas marcas identitárias. A grande novidade a saltar à vista, porém, é a introdução das teclas por via de um discreto piano martelado num par de temas, por curiosidade ambos próximos da calorosa melancolia de uns Built to Spill. Lou Barlow contribui com o seu já habitual par de temas, que desta feita até nem são o elemento emocional do disco, mas antes os representantes de uma certa secura jangly. A emotividade fica sobretudo a cargo de um Mascis que, sem baixar o volume da guitarra nem tirar o pé do pedal de distorção, desacelera os seus riffs em combinação com o habitual tom lamurioso da voz. Em linha com a "alta-fidelidade" dos vídeos mais recentes, por oposição ao amadorismo low budget de outrora (conferir aqui e aqui), o novo promo até tem guião interpretado por actores profissionais em franca ascensão de visibilidade. Vale a pena ver:

 
"Watch The Corners" [Jagjaguwar, 2012]

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Em escuta #43







VIVA VOCE Rose City [Barsuk, 2009]
Com a adição de dois novos membros, os Viva Voce contam pela primeira vez em mais de dez anos de história com colaborações exteriores ao casal Kevin e Anita Robinson. Composto e produzido pelos próprios num curto período de tempo, Rose City reflecte simultaneamente urgência e espontaniedade, embora muitos dos temas ostentem claras preocupações melódicas. Equidistantes entre o flower power e o shoegazing, parecem ter perdido o poder lisérgico de outrora. [7]


GRIZZLY BEAR Veckatimest [Warp, 2009]
Se Yellow House (2006) era fechado sobre si, e em certa medida até opressivo, o novo disco expõe os Grizzly Bear à vastidão dos espaços abertos. Com arranjos sumptuosos, especial ênfase no detalhe, e queda para a harmonia, Veckatimest poderia ter sido criado pelos primos "campónios" dos Beach Boys da melhor safra. Em parte, estas belas melodias têm o mesmo poder de sedução dos Fleet Foxes, embora menos imediatas mas, potencialmente, mais perenes. [8,5]


DINOSAUR JR. Farm [Jagjaguwar, 2009]

Logo na abertura com "Pieces" somos confrontados com um riff monstruoso. Porém a melodia é suficientemente catchy. Estamos, portanto, em território dinossáurico. Ao longo de Farm, a formação original renovada desta mítica banda ostenta uma pujança e uma coesão capazes de fazer inveja a muita banda com menos vinte anos de vida. A confiança readquirida faz com que se aventurem por peças altamente estruturadas capazes de ir até ao sete/oito minutos de duração. Como sinal da cicatrização das feridas do passado (há até um tema intitulado "Friends"!), Lou Barlow contribui pela primeira vez com dois temas dentro de um só disco. A parelha funciona como contraponto groovy às composições mais "arrastadas" de J Mascis. [9]


SUNN O))) Monoliths & Dimensions [Southern Lord, 2009]

Metade dos quatro longos temas de Monoliths... nada acrescentam àquilo que já conhecíamos do projecto com liderança partilhada por Greg Anderson e Stephen O'Malley: longas divagações drone obtidas, cortesia das baixas afinações das guitarras, e mantras guturais quase imperceptíveis. Já a liturgia negra de "Big Church", tanto faz lembrar algumas das experiências do minimalista Steve Reich, como muitos dos clichés do black metal. Bem melhor é o instrumental e cinemático "Alice" que, ao integrar teclados, cordas, e sopros, poderá apontar algumas pistas para o futuro. [7,5]


caUSE co-MOTION! It's Time! - Singles & EPs 2005-08 [Slumberland, 2008]

Enquanto não chega o álbum de estreia, It's Time! é uma recomendada porta de entrada no universo deste quarteto nova-iorquino, mais um que escava fundo nas memórias do indie pop canónico. Ao todo, são catorze temas quase indistintos em pouco mais de vinte minutos. Têm a naïvitée dos Television Personalities, a doçura dos Pastels, e até a rudeza dos Wedding Present. Porém, de futuro, pede-se-lhes um pouco mais de variedade. [7]

terça-feira, 16 de junho de 2009

For all the fucked up children of the world #8

"I feel the pain of everyone
then I feel nothing"

Spike Jonze dirige...


Dinosaur Jr. "Feel The Pain" [Blanco y Negro, 1994]

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Quero que saibam...












... que os renovados Dinosaur Jr. têm um novo álbum prestes a editar, o segundo desde que Mascis, Barlow e Murph enterraram o machado de guerra. Chama-se Farm, chega a 23 de Junho com selo da Jagjaguwar, e tem uma capa digna de Tolkien (confiram, s.f.f.). Em "I Want You To Know", primeiro avanço descarregável legal e gratuitamente aqui, aplicam a velha fórmula dinossáurica: vocais arrastados, distorção a rodos, e solos despudorados. Pelos vistos, a tradição ainda é o que era... e ainda bem!

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Discos pe(r)didos #19


















DINOSAUR JR.
You're Living All Over Me
[SST, 1987]

Do underground norte-americano de meados de oitenta brotaram muitas das pistas para o futuro da música dita alternativa. De entre um lote de discos marcantes lançados numa era altamente profícua, sobressai este You're Living All Over Me. Algo que não deixa de surpreender se tivermos em conta tratar-se de um disco de baixo custo, gerado por três putos a quem sobrava em ideias o que faltava em experiência: os fabulosos Dinosaur Jr.!
J Mascis, guitarrista/vocalista e líder incontestado do trio, disse em ocasiões futuras que se sentiu motivado a aprender guitarra para puder tocar os riffs de que realmente gostava. Por conseguinte, em You're Living... consumam-se muitas das intenções afloradas no disco de estreia (Dinosaur, de 1985): ruído amplificado incapaz de esconder um apelo pela melodia, e solos de guitarra no lugar dos refrões, subvertendo por completo o conceito de "canção".
Paradigma do "fórmula dinossáurica", que deixou descendência (já lá vamos...), será provavelmente "Sludgefest" nos seus mais de cinco minutos de alterações de ritmo, em que os diversos momentos de calma redundam em outras tantas explosões de distorção. Em registo diametralmente oposto, a quase acústica "In A Jar" é igualmente momento inspirado. Neste tema, fica patente uma certa devoção por Neil Young, uma das poucas influências assumidas por Mascis.
As letras, reflexo de um certo angst juvenil e invariavelmente cantadas num lamento, por contraponto à fúria post-hardcore vigente, permitem diferentes interpretações, roçando os limites do surreal. Tome-se por exemplo "Little Fury Things", a deliciosa faixa de abertura em que Lee Ranaldo (dos Sonic Youth) dá uma preciosa ajuda: o destinatário dos "recados" de Mascis é um coelho... que poderá muito bem ser uma miúda... ou nem uma coisa nem outra...
Reservando para si a parte de leão nas nove faixas do disco, o líder "permite" ainda que Lou Barlow dê um ar da sua graça nos dois temas finais. Se por um lado "Lose" segue a toada dominante, já o exercício lo-fi (com direito a ukelele e quatro minutos de devaneio de sons caseiros mais ou menos aleatórios) de "Poledo" é completamente atípico, lançando pistas para aquilo que este baixista de créditos firmados viria a desenvolver nos Sebadoh.
Depois de You're Living... nada seria como dantes. Se não acreditam, perguntem aos Lemonheads, aos Teenage Fanclub, aos Nirvana, ou até aos "rodados" Sonic Youth. Estes últimos retirariam daqui muitos ensinamentos para o incontornável Daydream Nation, disco lançado no ano seguinte e responsável pela afirmação definitiva de uma identidade. Mas isso é outra História...

"Little Fury Things"

terça-feira, 4 de setembro de 2007

SINGLES BAR #14

DINOSAUR JR.
Little Fury Things (SST, 1987)

A rabbit falls away from me, I guess I'll crawl
A rabbit always smashes me, again I'll crawl
Tried to think what's over me, it makes me crawl
Then she runs away from me, faster than I crawl

Aos Dinosaur Jr. bastaria "Freak Scene", o tema histórico que lançou as premissas do som grunge e que abre o álbum Bug (1988), para garantirem um lugar na história.
Porém, um ano antes, servindo de porta de entrada em You're Living All Over Me, o influente trio de Boston deu a conhecer ao mundo aquela que é a canção que melhor sintetiza toda a filosofia inerente à sua música.
"Little Fury Things" abre com uma guitarra bem alta e distorcida à qual se juntam os gritos de um Lou Barlow que mais parece possuído. Após esta espécie de intro, a melodia serena sem reduzir no volume das guitarras. A letra de J Mascis, ainda um jovem recém-entrado na idade adulta, cantada pelo próprio com a preciosa ajuda de Lee Ranaldo dos Sonic Youth, é uma das formas de traduzir o desespero em poucas palavras. Depois de anos a fio a ouvir este tema repetidas vezes, aquela interpretação in vivo em Paredes de Coura ainda ressoa na minha cabeça, tal a intensidade da experiência.
Por contraponto ao tema principal, o lado B deste single apresenta dois temas bem distintos: "In A Jar", uma canção semi-acústica herdeira directa do legado de Neil Young e igualmente incluída em You're Living..., e "Show Me The Way", versão dessa aberração original de Peter Frampton que tem tanto de puro gozo como de exemplo da falta de preconceitos deste trio maravilha.
Vídeo de Little Fury Things

segunda-feira, 23 de julho de 2007

HÁ COISAS FANTÁSTICAS, NÃO HÁ?

DINOSAUR JR.
Beyond (Fat Possum, 2007)

Quase vinte anos depois de desfeita a formação canónica (J Mascis - Lou Barlow - Murph), os Dinosaur Jr. originais decidiram enterrar o machado de guerra e regressar para uma série de concertos. Isto ocorreu há uma parelha de anos.
Esta reunião seria igual a tantas outras caso os Dinosaur Jr. não se tivessem também disposto a fazer um novo disco. Mas não um disco qualquer!
Depois do penoso definhamento ao longo da década passada, bastou a Mascis esta reunião com os velhos comparsas para recuperar a magia de outrora. Nas onze faixas que compõem Beyond não faltam os típicos ingredientes dinossáuricos: guitarras bem altas e solos vistosos. Como sinal de maior abertura do "ditador" Mascis, que no passado pôs Barlow a berrar o humilhante "Don't", surge a inclusão de "Back To Your Heart", canção a cargo do senhor Sebadoh e momento alto do disco.
Um dos grandes discos rock do ano para comprovar em breve em terras do Alto Minho, à mistura com clássicos do calibre de "Freak Scene" ou "Little Fury Things". Só é pena os Sonic Youth não tocarem no mesmo dia...
Dinosaur Jr. no MySpace

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

BEBÉ-DINOSSAURO JÁ TEM NOME

Beyond é o nome do tão ansiado disco de regresso dos Dinosaur Jr., o qual marca também o regresso da formação original da banda aos discos, após quase 20 anos. A data anunciada para a edição deste novo rebento do trio-maravilha é 1 de Maio através da Fat Possum.
Recorde-se que foi com esta formação canónica (J Mascis, Lou Barlow, Murph) que, há duas decadas atrás, os Dinosaur Jr. lançaram dois discos fundamentais na história do indie rock americano: You're Living All Over Me (1987) e Bug (1988), responsáveis por trilhar o caminho para os Nirvana et al. Após a edição de Bug, o relacionamento conflituoso entre Mascis e Barlow chegou a um ponto de ruptura, tendo o segundo abandonado o barco.
Na década seguinte, e quase sempre acompanhado por Murph, J Mascis lançou vários discos sob a capa Dinosaur Jr. sem nunca ter repetido o brilhantismo do passado.
Melhor sorte teve Lou Barlow, pois os "seus" Sebadoh acabariam por granjear um enorme culto durante o mesmo período, tendo ainda tempo para outros projectos como Sentridoh e Folk Implosion.
Com os ânimos serenados entre os dois músicos, os Dinosaur Jr. originais regressaram aos concertos em 2005, tendo mesmo feito parte do cartaz do Festival Sudoeste desse ano. Segundo Mascis, este novo disco surge da vontade de ter canções novas para apresentar nos concertos futuros. Por isso preparem-se: the loud guitars are back!