"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Probabilidade de chuva


















É ainda jovem, talvez perto de chegar aos trinta, mas até pode aparentar menos. No entanto, num par de anos, Laurel Halo tornou-se um nome de referência na electrónica actual. A sua proeza ganha maior relevo por ser mulher, neste universo quase exclusivamente habitado pelo género masculino. Tal como muitos dos seus contemporâneos, não é pessoa de se deixar corroer pela estagnação, pelo que, muitas vezes no espaço de meses, lança discos alinhados em tendências completamente díspares. Os primeiros registos, ainda à procura de uma identidade, caracterizam-se por uma certa obliquidade, que não enjeita a experimentação e o abstraccionismo. Bem diferente é Quarantine (2012), magnífico primeiro álbum no qual faz uso da voz sem qualquer pudor de se aproximar do formato canção. O resultado é uma espécie de avant-pop enevoado, que convoca o ambient e extractos sintetizados das chamadas "músicas do mundo", com aquela particularidade dos discos muito especiais que é crescer com as sucessivas audições.

Talvez possa ser uma reacção a algum do relativo imediatismo do antecessor, ou apenas uma transição natural da artista, mas o que é certo é que o novo Chance Of Rain já está extremamente afastado daquele. Desde logo, a voz de Laurel Halo, que se estranhava ao primeiro contacto, está totalmente ausente, assim como aquela atmosfera de apaziguamento, por vezes obscuro, que Quarantine proporcionava. Supostamente, boa parte de Chance Of Rain foi misturado directamente versão final que surge em disco, arte na qual a autora já deu provas de mestria por cá. Por conseguinte, este é um trabalho absolutamente electrónico, com a frieza que tal implica. Porém, Laurel Halo é substancialmente mais focada no desenvolvimento das ideias que no passado, resgatando ideias à chamada IDM de noventas, mas também ao techno de Detroit (as suas raízes estão no Michigan, refira-se). Isso quer dizer que, não obstante a profusão de andamentos em cada tema, Chance Of Rain tem algumas hipóteses de fazer parte do menu de estabelecimentos nocturnos dedicados à dança. Enquanto tal não acontece, e a chuva não passa, vamos aproveitando para ir ensaiando uns passos no aconchego do lar.

Chance of Rain by Laurel Halo on Grooveshark
[Hyperdub, 2013]

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Ao vivo #97














Laurel Halo + Tropa Macaca @ MusicBox, 10/11/2012

Aqui há coisa de meio ano, aquando da anterior passagem de Laurel Halo pelo burgo, apontava a esta jovem norte-americana algumas carências ao nível da qualidade vocal. Entretanto, após repetidas audições de Quarantine, o excelente álbum em que faz um maior uso da voz e que acabou por trazer algum arejamento ao soturno catálogo da Hyperdub Records, a estranheza inicial parece ultrapassada. Ainda que assim não fosse, esse pormenor não constituiria senão no concerto do passado sábado, pois neste, apenas em um dos temas a moça nascida Ina Cube se apodera do microfone. No resto, a voz surge apenas samplada pois, desta feita, opta por uma actuação baseada numa "remistura" em directo, ao invés de apresentar os temas próximos das suas versões gravadas. Em regime non-stop, funde a essência do último álbum e do EP que o antecedeu sem, contudo, ocultar traços de reconhecimento. Mais do que mera curiosidade, o espectáculo acaba por revelar uma outra faceta de Halo, diga-se, desempenhada com assinalável destreza. Por seu turno, a sua música, normalmente mais dada ao deleite auditivo em privado, ganha um balanço rítmico que a atira para as pistas de dança menos dadas ao previsível.

Com algum atraso relativamente ao previsto, a abertura da noite coube à dupla portuguesa Tropa Macaca, um casal já com algum currículo nos meandros "exploratórios" da música nacional. Recentemente editaram pela Software Records, selo fundado por Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never) com crescente reputação no meio. E diga-se que o meio dos Tropa Macaca não é o da convencionalidade, algo que fazem questão de deixar claro ao primeiro tema, no qual a guitarra liquifeita próxima de uns Durutti Column encontra oposição nos processamentos electrónicos desconexos. A sensação inicial só pode ser de estranheza, dissipada progressivamente nos temas seguintes, com maior homogeneidade das texturas sonoras, varáveis entre o idílico e a afronta noisy. Ficam do concerto boas impressões para exploração futura.

domingo, 27 de maio de 2012

Ao vivo #84

















Laurel Halo + Gala Drop @ Galeria Zé dos Bois, 24/05/2012

Primeiro facto a apontar ao concerto da passada quinta-feira é o atraso interminável relativamente à hora inicialmente prevista para o começo do mesmo, um hábito antigo na ZdB que julgava praticamente corrigido. No entanto, e se não estou errado, do atraso foi possível extrair algo tão positivo como a alteração da ordem dos nomes em palco, colocando o motivo da minha ida em primeiro lugar, algo que só agradeço em véspera de dia de trabalho.

Passando ao que interessa, nomeadamente Laurel Halo, essa carinha laroca que, apesar da tenra idade, conta no currículo com colaborações com arquitectos sonoros das electrónicas da dimensão de Daniel Lopatin ou James Ferraro, poderemos dizer que o regalo para a vista tem correspondência directa no deleite auditivo. Dona de uma simpatia discreta mas aparentemente genuína, a moça começa a função com uma peça que poderá causar alguma estranheza. Para a mesma concorrem elementos das mais dispersas proveniências, como o dub, o noise, o ambient, ou até a mais convencional electrónica que hoje é aceite nas pistas de dança. Ao segundo tema já o público está conquistado pela peculiar amálgama de sonoridades díspares, deixando-se embrenhar por um som que esteve irrepreensível, quer ao nível do volume (bem alto!), quer ao nível da clareza. A ementa faz-se essencialmente  do novíssimo Quarantine, disco no qual a voz é usada de uma forma mais convencional, e não como mero elemento decorativo. Talvez seja neste particular que resida o grande senão do concerto, pois estaríamos a ser tendenciosos se disséssemos que Laurel Halo nasceu para cantar. Valha-nos que uma ou outra nota vocal menos feliz é, geralmente, corrigida pela manipulação electrónica. Nos assomos de maior acessibilidade às tendências dominantes do presente noto algumas familiaridades com o universo Grimes, algo que, arrisco dizer, poderá a breve trecho e com novos desenvolvimentos, valer um contrato com a "parasitária" 4AD. Resta-me cruzar os dedos e torcer para que o espírito subversivo de Halo não permita tal coisa, pois são bem conhecidos os casos recentes de hype desmedido que conduzem dos píncaros ao esquecimento num ápice, abortando expectativas de carreiras duráveis.

Dos portugas Gala Drop, que têm vindo a merecer um bom acolhimento extra-muros, o "meu" concerto resume-se a um par de temas. Ao colectivo há que reconhecer a qualidade técnica dos executantes, todos eles já com nome feito no undeground nacional, algo que não significa necessariamente que tragam ao palco qualquer ideia nova. O primeiro tema, mais amigável para estes tímpanos, evolui de um começo atmosférico e esparso para um bem balançado kraut, tendência que parece quase omnipresente nas actuais expressões pop, facção leftfield. Ao segundo tema, substancialmente mais ritmado, as revisitações do universo Santana implicam a desistência. Repelido pelos sons "tropicais", saio da sala com a sensação de que os Gala Drop poderão estar a um curto passo da freakalhice bacoca de uns Blasted Mechanism...