"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel

segunda-feira, 26 de maio de 2014

sábado, 24 de maio de 2014

Teenage kicks, so hard to beat
















Apesar de "pop" e "juventude" serem conceitos praticamente indissociáveis, não estão fáceis as coisas para quem faz dessa combinação uma forma de vida. Talvez derivado da permanência no activo, e do consequente envelhecimento, de quem habitualmente escreve sobre e divulga música, fica a sensação que a inanidade primordial caiu em desuso, e tudo o que merece atenção tem de ter uma certa profundidade. Há, porém, bolsas de resistência, como vamos detectando na Escócia, quanto mais não seja pela longa tradição das highlands na devoção à causa pop. Foi de lá que, no final de 2012, recebemos os PAWS com o álbum Cokefloat!, um disco com a irreverência própria da tenra idade do trio que recuperava aquela forma de fazer as coisas à maneira dos alvores de noventas, isto é, com igual comprometimento entre o chinfrim e a estrutura de canção pop. Foi um trabalho que passou despercebido à maioria, mas não a uma minoria irredutível que ainda busca algo para além do que lhe tentam impingir.

Um ano e meio volvido, os PAWS estão de volta ao local do crime com Youth Culture Forever, segundo álbum com um título que não deixa dúvidas quanto aos propósitos do trio de Glasgow. Na comparação com o anterior regista-se um relativo abrandamento da sonoridade, em favor de uma maior focagem na ortodoxia das canções (pop, obviamente), ainda que, paradoxalmente, realce o espírito lo-fi que já aflorava em Cokefloat!. No entanto, ainda abundam os temas buliçosos, herdeiros directos da escola punk-pop que tem nos americanos Superchunk figura tutelar. Por contraste com estes petardos de adrenalina, uma mão cheia de temas são contemplativos o bastante, pese embora façam uso e abuso da fórmula quiet-loud-quiet. É nestes, e no ennui que lhes está subjacente, que o título Youth Culture Forever ganha outro significado que não o literal. Ou seja, na moderada amargura da voz de Phillip Taylor, estão expressos os primeiros desgostos de uma juventude em estado terminal, e também a constatação da inevitabilidade da idade adulta. Tema atípico no alinhamento, feito de canções breves e imediatas, é o derradeiro "War Cry", longo de perto dos doze minutos, uma boa parte dos quais ocupados com devaneios guitarrísticos carregados de feedback. Este número de maior complexidade pode indicar pistas para um próximo trabalho, isto se acaso os PAWS não quiserem saborear a juventude que se esvai até ao último instante.

 
"Tongues" [FatCat, 2014]

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Mil imagens #49



The Specials - Southend, 1980
[Foto: Janette Beckman]

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Ao vivo #120
















Laraaji & Sun Araw @ Teatro Maria Matos, 20/05/2014

Nos programas irrepetíveis a que o Maria Matos já nos habituou, são já habituais as colaborações entre gente da actualidade das franjas da música popular. A última dessas propostas teve lugar na última terça-feira, e juntou paisagistas sonoros de duas diferentes geraçções, embora ambos estejam na ordem do dia. O mais velho é Laraaji, músico septagenário de formação académica radicado em Nova Iorque que tem como nome de baptismo Edward Larry Gordon. Figura do ambientalismo a tanger a new age, atravessa uma fase de redescoberta depois de no passado ter impressionado o figurão Brian Eno, com o qual chegou a colaborar com a sua citara adaptada a ferramenta electrónica. Substancialmente mais jovem, Cameron Stallones tem sido ultra-produtivo como Sun Araw, projecto de texturas moldáveis e inclassificáveis, numa nebulosa para a qual convergem o psicadelismo, o kraut, o tropicalismo, e até a pop.

O concerto conjunto consiste em três partes distintas mas ininterruptas, duas delas reservadas a cada um dos nomes do cartaz em separado, e a parte central dedicada à colaboração propriamente dita. Cabe ao texano migrado em Los Angeles a abertura, acompanhado do habitual manipulador electrónico Alex Gray. Na guitarra e nos teclados, Stallones liberta notas, à partida desconexas, que esbarram nas perturbações daquele. Gradualmente, do caos aparente nasce algo, um emaranhado de sugestões sensoriais sublinhadas pelo estilo único da guitarra, esta com uma soberba amplificação que ganha com as boas condições de acústica do Maria Matos. Da estranheza inicial, portanto, a dupla conquistou os sentidos da assistência, e preparou-a para o banho de misticismo prometido por Laraaji. Quando este entra em cena, torna-se o mestre de cerimónias, conduzindo a massa sonora para uma toada planante. Explorando, além da cítara, uma panóplia de percussões (sininhos, espanta-espíritos), permite aos Sun Araw um papel mais discreto, mas determinante na quase subida aos céus: Stallones limita-se a um silvo contínuo, Gray é mais reservado nas interferências. O todo, porém, é inseparável nas suas partes. Já em solitário, talvez a música de Laraaji peque pelo excessivo apelo ao misticismo, e pelo recurso às vocalizações de origem indefinida. É nesta derradeira parte do concerto que se escapa por um triz à actual conotação pejorativa do rótulo new age, embora este seja um momento extremamente didáctico no que concerne às potencialidades de uma citara.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Good cover versions #83
















SHONEN KNIFE - "When You Sleep" [High Fader, 2013]
[Original: My Bloody Valentine (1991)] 

When You Sleep by Shonen Knife on Grooveshark

Se a memória não me atraiçoa, a recepção inicial ao álbum Loveless, segundo dos My Bloody Valentine, não foi propriamente aquele que é reservada clássico instantâneo. Se bem me recordo, foi francamente positiva, mas com alguma moderação. Só com a passagem dos anos o estatuto de culto foi conquistado gradualmente. Não estava lá para o presenciar, mas quase aposto que no Japão a coisa tenha sido diferente, e que a devoção de uns quantos geeks tenha sido imediata. Ou não fosse o país do sol nascente terra propícia a gerar pequenos nichos de culto a toda e qualquer tendência gerada no ocidente, por mais bizarra que ele possa ser, como era o caso do disco mais experimentalista do denominado shoegaze. Foi precisamente lá, nessa terra distante, onde decerto os clones dos MBV surgirão como cogumelos, que no ano passado foi confeccionado um tributo integral a Loveless.

Como todo e qualquer disco do género, o apropriadamente intitulado Yellow Loveless é desequilibrado nos resultados obtidos. Igualmente previsível é que abundem bandas obscuras, e no caso em apreço também os projectos amantes do ruído. No oceano de distorção mais ou menos reverencial, sobressai a proposta que mais destoa da linha condutora, levada a cabo pelas Shonen Knife. Estas eternas adolescentes já andam nisto desde os alvores de oitentas, funcionando como um equivalente oriental e feminino dos Ramones. Se bem se lembram, a ingenuidade latente em cada uma das suas canções faziam as delícias de Kurt Cobain, em parte responsável pelo seu crescendo de exposição no ocidente no começo da década de 1990. A sua versão de "When You Sleep" tem todas as marcas identitárias típicas, com a benesse de conter uma frescura pop que, apesar de retro, fica bem em qualquer época. Uma batida inicial evocativa da de "Be My Baby", das Ronettes, dá o mote para uma verdadeira apropriação do tema, numa versão toda ela imersa no espírito dos girl-groups dos sixties, recheada de coros pa-pa-pa quase infantis. Ao contrário do original, ainda assim aquele com resquícios pop mais evidentes no alinhamento de Loveless, e no qual as vozes surgem submersas na torrente de distorção, a versão das Shonen Knife puxa as vozes juvenis (de espírito) para a frente, resultando tão irradiantes quanto a melodia infecciosa, esta com um cheirinho de "You Can't Hurry Love", das Supremes. 

domingo, 18 de maio de 2014

Esplendor de cores















Desculpem-me a insistência, mas hoje voltamos a denunciar a incapacidade da "música de guitarras" actual em criar algo de verdadeiramente refrescante a partir da herança do passado de seis décadas. Admitindo a inevitabilidade da eterna regressão, o que me desilude é a tendência generalizada para o decalque descarado de tiques e truques, muitas vezes gastos. Ainda não há nada, éramos bombardeados pelo revivalismo garage com cheiro a mofo e por uma imensidão de xonices de inspiração shoegaze. Mais recentemente, os adjectivos psych e kraut passaram a servir de rótulo a qualquer sub-produto vendido aos incautos como a mais radiosa novidade. Neste deserto de ideias brilham com mais intensidade as honrosas excepções, aquelas propostas assumidamente mergulhadas no passado, mas com o olhar fixo no presente e nas possibilidades do futuro. Portanto, hoje mais que nunca, é um trabalho redobrado o de separar o trigo do joio. 

Deste campo tomado pelas ervas daninhas, gostava de extrair os norte-americanos Quilt que, depois do interessante mas algo difuso debute homónimo em 2001, superam as expectativas mais optimistas com o novo Held In Splendor. Toda a retórica introdutória faz sentido porque este trio formado em Boston não disfarça sequer a inspiração nas sonoridades da segunda metade dos sixties, aquelas que têm nos The Byrds e The Mamas & The Papas figuras tutelares, e se estendem à brigada que fazia da Rickenbacker, do Farfisa, e do abuso da reverberação, ferramentas predilectas. Ao contrário da maioria da concorrência, porém, não se confinam ao mimetismo localizado, baralhando a bel-prazer as múltiplas referências dispersas com o propósito atingir aquele limbo em que os conceitos "pop" e "folk" se confundem. O grande trunfo reside, no entanto, no engenho para escrever canções escorreitas e altamente coloridas, não obstante por mais que uma vez arrisquem a mutação de forma dentro do mesmo tema, mas sem perder o sentido de linearidade. Substancialmente menos dado às harmonias vocais conjuntas que o antecessor, este segundo álbum é mais ou menos democrático na repartição das vocalizações separadas de Shane Butler e Anna Fox Rochinski. Produzido por Jarvis Taveniere, dos parentes próximos Woods, Held In Splendor ganha na dicotomia boy/girl uma variedade que não ameaça a coesão do todo. Assim, nos temas "dele" vagueia-se na encruzilhada entre a pop ensolarada da west coast e a sujidade garage, enquanto os temas cantados por ela, normalmente mais luminosos, têm a dose trippy e sexy da Grace Slick dos melhores tempos, evocando em simultâneo o encanto das "divas" psych-folk britânicas. Com discos destes servir de suporte sonoro, o Verão já podia começar amanhã.

 
"Arctic Shark" [Mexican Summer, 2014]

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Xerifes de Nottingham

















Fazendo orelhas moucas ao buzz hiperbólico do "a América isto, o Canadá aquilo" que nos tentam impingir, aqui no April Skies há muito que defendemos que, embora num nível mais subterrâneo, a produção musical britânica dos últimos anos tem sido relativamente mais estimulante que aquela que vem do outro lado do Atlântico. Não podemos falar propriamente de uma era dourada como aquela do post-punk, mas é imperioso reconhecer, pelo menos no largo espectro da chamada música urbana, os benefícios trazidos pelo advento do dubstep e a sua propagação. Basta atentar nas muitas ramificações da electrónica recente, ou até no universo hip-hop, no qual os criadores britânicos parecem apostados em evitar os clichés do país dos progenitores da coisa.

De estética algo difusa para arrumar apenas num género estanque, a dupla Sleaford Mods arrisca-se a ser a próxima coqueluche a chegar de terras de Sua Majestade, pese embora já tenha alguns anitos no activo. Pelo menos desde 2007, têm editado álbuns com alguma regularidade, com títulos como Austerity Dogs (2013) ou Wank (2012), que sugerem sobeja irreverência. Com base no formato dupla e nas fotos promocionais, já alguém lhes chamou "os Pet Shop Boys do bairro social", descrição que tem algum cabimento também pelo cariz working class que nos parece genuíno, naquele estilo rufia que é tipicamente brit. O mestre de cerimónias é o trintão Jason Williamson, um rapper pouco convencional capaz de debitar slogans com a mesma prolificidade de uns Half Man Half Biscuit. A principal particularidade do discurso afiado, porém, é o uso desbragado do vernáculo, num cerrado sotaque de Nottingham. Os alvos da acidez podem variar, e para além do obrigatório comentário sócio-político, qual velho jarreta, Williamson dispara em todas das direcções, inclusive junto do mundo do showbizz e da actual geração dos gadgets. Estas crónicas de costumes corroídas de sarcasmo têm o devido acompanhamento nos samples, simplistas mas certeiros, de Andrew Fearn, algo que faz a ponte com o alegado passado rock, mod, e até rave, da dupla. À falta de qualquer descrição cabal - porque ela não existe - para este produto tão peculiar, vamos resumir os Sleaford Mods como um híbrido tão desempoeirado e fresco como muitos do período post-punk, devidamente recontextualizado para o presente. Depois de toda esta prosa, que vos poderá levar a questionar para que precisa o século XXI do seu Shaun Ryder, sugiro que os oiçam e tirem as vossas conclusões, sob pena de estarem a perder a maior pedrada no charco da monotonia instalada detectada desde há uns bons anos. Caso a falta de actualidade vos cause algum prurido, apanhem a boleia do novo Divide And Exit, adiado mas prestes a estourar nos próximos dias.

 
"Tied Up In Nottz" [Harbinger Sound, 2014]

segunda-feira, 12 de maio de 2014

First exposure #66















LITTLE BIG LEAGUE

Gente com origem em diferentes obscuridades de Filadélfia e também um ex-Titus Andronicus. Da pomposidade punk destes nem um traço; apenas uma indie-pop entre a luz e as sombras, com uma pitada de feminismo reminiscente da alvorada de noventas.

Formação: Michelle Zauner (voz, gtr); Deven Craige (bx); Kevin O'Halloran (gtr); Ian Dykstra (btr)
Origem: Filadélfia, Pensilvânia [US]
Género(s): Indie-Pop, Indie-Rock, Noise-Pop
Influências / Referências: Velocity Girl, Versus, Throwing Muses, Belly, Speedy Ortiz

 
"My Very Own You" [Tiny Engines, 2013]

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Na idade dos porquês

















Foto: Danny Cohen

Talvez tenha tido azar, o aclamado "jovem prodígio" canadiano Mac DeMarco para não me ter caído no goto à primeira. À época, a do lançamento do álbum 2 (2012), começava a esgotar-se a receptividade para aquela zona nebulosa, entre o denominado hypnagogic e as memórias da ingenuidade proto-indie dos primórdios da britânica Cherry Red Records. Aquele registo inscrevia-se precisamente nessa tendência densamente habitada, a dos jovens prolíferos que resumem essa hiperactividade a gravar novas canções em regime caseiro. Isto quando não estão a fumar marijuana. Do que retenho das três - não mais que cinco - audições é que, não sendo um mau disco, faltava-lhe o golpe de asa para se destacar em terreno concorrido.

Se antes tinha sido "vítima" da má fortuna, agora DeMarco goza de uma segunda oportunidade, coisa rara nestes dias em que a quantidade (não confundir com qualidade) da oferta é excessiva para a escassez do tempo disponível. Aconteceu com o novo Salad Days, e foi o suficiente para que o agora emigrado em Brooklyn, provocasse "aquele" clique. Assim intitulado com a expressão inglesa para o período juvenil da inexperiência, o álbum surge na ressaca de uma longa tournée e do crescendo de exposição de alguém que, já se percebeu, não está disposto aos sacrifícios do estrelato. Por consequência, os onze temas de Salad Days são uma reacção, não irada como seria expectável da idade do autor, mas sim enfadada. Mais que isso, e embora ainda concebido em ambiente doméstico, o disco está recheado de canções que já não são meros esboços, conhecedoras de todos os Malkmus, os Richman, e os Lawrence deste mundo, mas acima de tudo reflexo dos progressos de Mac DeMarco como compositor. Na maioria nota-se até o desenvolvimento de uma técnica própria na guitarra, com malhas tendencialmente elípticas, mas eficazmente melódicas. Neste particular, detectam-se afinidades com um Kurt Vile. Porém, se este, obcecado por um concepção de perfeccionismo, satura os espaços, DeMarco é mais simplista e reduz as canções à sua essência. Fica a ganhar a pureza da pop de guitarras, num disco ainda com espaço para a curiosidade "Chamber Of Reflection", tema baseado em sintetizadores primitivos e numa atmosfera entre os cerimoniais dos Beach House e o dramatismo exacerbado de Arthur Russell. Uma possível pista para o futuro? A ver vamos...

Blue Boy by Mac DeMarco on Grooveshark
[Captured Tracks, 2014]

quinta-feira, 8 de maio de 2014

O jogo das diferenças #29


THE 13TH FLOOR ELEVATORS
The Psychedelic Sounds Of The 13th Floor Elevators
[International Artists, 1966]


MATT JOHNSON
Burning Blue Soul
[4AD, 1981]

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Estádio da luz














Ao contrário do que faria supor o ócio com que normalmente se espraia a sua música, os Woods são uma banda de árduos trabalhadores. Basta lembrar que no espaço de cinco anos, até 2012, nos deram outros tantos álbuns, todos eles de considerável nível qualitativo. Também é verdade que nesses discos não operavam grandes revoluções, já que qualquer deles era o espelho de quatro nova-iorquinos encantados com a pop pintalgada de folk e psicadelismo da west coast de sessentas. Normalmente, as canções eram ligeiramente obscurecidas e rústicas, como que no longo trajecto que separa as duas costas dos states a ruralidade do extenso interior as tivesse coberto de pó.

Depois de um hiato de dois anos, longo para os parâmetros woodsianos, estão de regresso aos discos com With Light And With Love, registo que, verdade seja dita, sem descaracterizar a sonoridade típica, traz novidades dignas de nota. É, por sinal, o trabalho em que os Woods se esmeram numa linguagem assumidamente pop, com dez temas do mais luminoso e arejado que já editaram. O elemento folk ainda está dissimulado nas entrelinhas, quanto mais não seja pelo timbre nasalado de Jeremy Earl, e a psicadelia ainda marca presença, se bem que naquela forma delicada que não beliscava a essência pop de uns The Shins do começo. Caso tenham ficado curiosos com a referência à banda que melhor representou a facção indie norte-americana na primeira década deste século, é imperativo que oiçam com "Moving To The Left", o mais refrescante banho de melodia do álbum. De horizontes largos, mas sem se desviar dos propósitos pop, With Light And With Love expande a paleta, imagine-se, a tonalidades soul, como acontece no tema-título - que nos seus nove minutos tem espaço de sobra para outros delírios - e mais declaradamente na amostra abaixo. Agora que perderam a suposta "estranheza" que bloqueava alguns ouvidos, já não me parece que haja motivos para que os Woods não façam parte da banda sonora estival de mais alguém que o punhado de geeks do costume.

[Woodsist, 2014]

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Há 20 anos era assim #13









RODAN
Rusty
[Quarterstick, 1994]




Corria o ano de 1994 quando, a propósito do excelso Hex, dos britânicos Bark Psychosis, o jornalista musical Simon Reynolds fazia pela primeira vez uso da expressão post-rock. A designação não pretendia abarcar uma estética estanque, mas sim definir algo que, usando as ferramentas rock, dificilmente poderia ser catalogado como tal. Reynolds recorria ao "neologismo" detectando uma tendência em vigor à época no Reino Unido, e na qual incluía coisas tão díspares como os Stereolab e os High Llamas. Com o passar dos anos, e à medida que a expressão começou a vulgarizar-se, em particular no continente norte-americano, o conceito post-rock foi subvertido para se restringir quase exclusivamente às divagações maioritariamente instrumentais que tinham nos canadianos Godspeed You! Black Emperor e nos escoceses Mogwai os modelos a seguir. No entanto, lá atrás, e ainda que não em regime instrumental, os Slint tinham definido as regras posteriormente usadas e abusadas com o histórico Spiderland (1991), disco superlativo que denunciava as raízes post-hardcore da coisa e que, só com o passar de muitos anos, saiu do culto restrito para o estatuto de pioneiro.

Distando três anos daquele, mas ainda no período de obscuridade de Spiderland, merece igual estatuto enquanto pedra basilar do post-rock norte-americano Rusty, álbum isolado dos Rodan. Não fosse o hiato temporal a separar a sua gestação, e arriscaria nomeá-los discos gémeos, ambos de bandas oriundas de Louisville, no Kenrucky, e com uma forma muito própria de exprimir o ennui juvenil que era característica do post-hardcore. Registe-se uma maior apatia no caso dos Slint, e uma maior expressividade no caso dos Rodan. Também mais abrasivo, Rusty, assim intitulado por ser essa a alcunha do engenheiro de som Bob Weston (baixista dos Shellac), cai facilmente no rótulo math-rock, porém com demasiados recursos para se deter unicamente nos espasmos provocados pelas acelerações e paragens bruscas. Para o conferir basta escutar "Bible Silver Corner", tema instrumental que abre o disco num diálogo em toada contemplativa das guitarras de Jason Noble e Jeff Mueller, com uma aridez provavelmente derivada das origens sulistas do quarteto. No pólo oposto está o curto "Shiner", petardo de bílis na linha de uns Fugazi, mas com uma propulsão no baixo de Tara Jane O'Neil que confere um inusitado sentir funky. Este jogo de contrastes coabita em "Jungle Jim", que vive da dinâmica da alternância do lamento minimalista da baixista com as descargas ásperas de dissonância. Se neste tema a dualidade daqueles elementos é uma constante apenas repetida, no derradeiro "Tooth Fairy Retribution Manifesto" os Rodan apostam numa variedade de nuances mais vasta e imprevisível, o que nos leva a pensar que há no regime de composição da banda afinidades com algumas formas mais livres do jazz. Porém, ao nível da complexidade, na meia dúzia de temas do alinhamento, nenhum supera "The Everyday World Of Bodies", o mais longo de todos e porventura a peça central de Rusty. Com vocalizações virulentas e guitarras rasgadinhas ao começo, este detém-se em contemplação por diversas vezes, progredindo gradualmente até à explosão final naquilo que tem tanto de fúria violenta como de desespero incontido.

Ainda no mesmo ano da edição de Rusty, os Rodan colocaram um ponto final nas actividades, espalhando-se os seus membros por projectos com algum reconhecimento, também veículos para as diferentes sensibilidades presentes: Noble embarcou nos Rachel's, Mueller nos June of 44; ambos fundaram posteriormente os Shipping News. Por seu lado, antes de iniciar uma carreira a solo já com reportório considerável, Tara Jane O'Neil fundou primeiro os Retsin e depois The Sonora Pine, estes últimos também com o baterista Kevin Coultas no line up. Quanto aos Rodan, e ao seu papel percursor na música dita "alternativa" destas duas décadas, digamos que só foi verdadeiramente reavaliado há dois anos e pelos piores motivos: a morte de Jason Noble. Este evento fatídico terá também motivado a edição de Fifteen Quiet Years no ano passado, compilação que reúne temas dispersos por lançamentos anteriores a Rusty, e que com este constitui o escasso mas valioso legado desta banda que urge (re)descobrir.

Bible Silver Corner by Rodan on Grooveshark

The Everyday World Of Bodies by Rodan on Grooveshark

Jungle Jim by Rodan on Grooveshark

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Sentido de posse














Ainda ontem aqui dávamos conta da passagem cá pelo burgo de Calvin Johnson, natural de Olympia, e provavelmente o maior embaixador do espírito indie que parece imperar no noroeste dos states. Com principais epicentros naquela cidade do estado de Washington, na vizinha Seattle, ou em Portland, mais a sul no Oregon, é impressionante a resistência na independência de um infindável número de músicos e bandas daquela região chuvosa, vai para mais de três décadas. Para estes cultores do underground, da baixa-fidelidade, e da filosofia do-it-yourself, não terá sido benfazeja a visibilidade excessiva e a consequente ressaca dos movimentos riot grrrl e grunge. No entanto, há muito afastada a incidência dos holofotes, ainda hoje a "cena" do West Pacific vai dando importantes sinais vitais.

Uma das últimas revelações vindas daquelas paragens são os Posse, trio de Seattle que não comunga das características da malta das camisas de flanela de há mais de vinte anos. Senhores do seu nariz, auto-editam os seus discos, o primeiro dos quais, homónimo, data de 2012 e é uma boa amostra de indie pop irrequieta. Para o recente e altamente recomendável Soft Opening, os Posse reduziram consideravelmente os níveis de adrenalina, inscrevendo-se agora naquela tendência das bandas de guitarras para um distanciamento enfadado, vulgo slacker rock, de que os Pavement foram quase paradigmáticos. Nos oito temas deste novo álbum são notórias as referências àquela banda lendária, bem como aos Yo La Tengo e aos Sebadoh de outros tempos. Falar de uns Real Estate desprovidos do romantismo ou de uns Galaxie 500 mais despertos também não é totalmente descabido. O melhor de tudo é que, apesar de admitir as suas influências, Soft Opening é disco com a frescura suficiente para fazer as delícias dos cultores desta tendência. Parte da sua magia provém da dinâmica da alternância das vozes boy/girl da dupla de guitarristas Paul Wittmann-Todd e Sacha Maxim. Quando é esta a assumir o protagonismo, as canções ganham um cunho mais melódico. Já quando é ele a tomar conta do microfone, ganha-se em secura e em sarcasmo carregado de azedume. Registe-se ainda que, não obstante a catalogação inequivocamente indie dos Posse, Wittmann-Todd é um daquelas guitarristas que, à boa maneira de um Doug Martsch dos Built to Spill, não tem qualquer pudor em subverter as convenções ao dinamitar alguns temas com solos moderadamente longos.

[Beating a Dead Horse, 2014]

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Ao vivo #119

















Calvin Johnson @ St. George's Church, 30/04/2014

Deixe-mos de merdas: independentemente da ironia da frase da epígrafe, este ainda é um pasquim assumidamente indie. Não do conceito entretanto subvertido e apropriado pelas modernas formas de distribuir música como quem distribui amostras de champô, mas sim daquilo que antes se definia como indie, implicando, se não uma estética definida, uma filosofia rigorosa. Noutros tempos, talvez poucos tivessem encarnado melhor o espírito da coisa do que Calvin Johnson, entusiasta e promotor de múltiplas iniciativas do-it-yourself, e ele próprio músico desafiador dos estereótipos da técnica musical, da qualidade das gravações, ou da postura das rock stars, sobretudo à frente dos Beat Happening. Consta que um jovem, um tal Kurt Cobain, era um entusiasta, não só de Calvin mas de muitas das suas almas-gémeas. Portanto, a partir de ontem, 30 de Abril passou a ser dia feriado aqui no April Skies.

Nome normalmente arredado dos grandes palcos, não só pelas regras actuais da modas passageiras, mas sobretudo por escolha própria, digamos que Calvin Johnson encontrou o seu habitat natural na igreja anglicana lisboeta: um belo templo, embora sóbrio e discreto, com a vantagem de proporcionar uma excelente acústica. Tal como se desconfiava, na bagagem não vinham os semi-clássicos dos Beat Happening, ou de qualquer de muitos outros projectos de duração variável, mas sim temas dos vários álbuns entretanto editados em nome próprio. Além disso, apenas uma guitarra acústica. Microfones ou cabos eléctricos nem vê-los, que este era o verdadeiro unplugged!

Convenhamos que, até para os mais familiarizados com o universo calviniano, o formato adoptado pode causar alguma estranheza num primeiro momento. Mas isso é algo que rapidamente se dissipa, quando aquele barítono irresistivelmente imperfeito enche a imensidão do templo. A guitarra assume papel secundário, para não dizer que é mesmo posta de parte logo ao terceiro tema, apresentado num rigoroso a capella. Por esta altura já estamos rendidos aos encantos destas canções, de eterna adolescência e com muita malandrice à mistura, que nas suas imperfeições são a essência do espírito pop imaculado. Ficamos com a sensação de que, quanto maior o despojamento, maior a eficácia destes pequenos extractos de uma juventude de espírito tardia. A título de exemplo refira-se a magnífica interpretação do Bond theme "Diamonds Are Forever", tema imponente no seu original, mas igualmente sedutor nesta versão praticamente reduzida ao esqueleto. Num ambiente completamente descontraído, Calvin Johnson não se priva ainda de nos provocar alguns sorrisos com várias tiradas de um sentido de humor apuradíssimo e pouco benevolente com a pátria estado unidense. Isto sem esquecer uma expressão corporal sui generis, imagem de marca do entertainer que desafia os paradigmas da "macheza" rock. Plenamente satisfeito ao fim de uns oitenta minutos, mais coisa menos coisa, apenas lamento que não tenham sido mais os que presenciaram um dos concertos mais peculiares a que esta cidade assistiu em vários anos. Estou quase certo de que em breve dificilmente teremos privilégio semelhante.