The Walkmen + Os Golpes @ Coliseu dos Recreios, 14/11/2010
Caso não soubéssemos que o marcação do concerto dos nova-iorquinos The Walkmen já tivesse alguns meses, poderíamos ser levados a pensar que a opção da organização pelos lugares sentados visava dar à sala um aspecto mais composto, em pleno período de demasiada oferta para a potencial procura. Assim, sou levado a arriscar que tal ideia tenha partido de alguém apenas centrado no último par de discos da banda, pautados por uma melancolia em tons sépia pouco propícia às manifestações de fisicalidade típicas de um concerto rock.
Perante este cenário, louvem-se os Walkmen, que, mesmo com um público à partida já conquistado, souberam contornar a possível queda na soturnidade, oferecendo um alinhamento que intercalou canções de maior teor introspectivo - em maioria - com outras de uma expressividade trepidante. Nesta segunda categoria, destaca-se o inevitável e já clássico (mas não conhecido de toda a gente, pareceu-me) "The Rat", motivo para um erguer generalizado que, infelizmente, durou pouco tempo. É preciso ter presente que os Walkmen vinham para promover Lisbon - o tal que motivou tímidas manifestações de algum provincianismo -, disco onde as instrumentações esparsas mas certeiras de sempre, ainda atípicas mas progressivamente mais familiares, encontram o sentimento expresso nas tonalidades dylanescas da voz de Hamilton Leithauser, agora mais treinada e sem a rispidez que outrora repelia ouvidos mais sensíveis. O anterior, e relativamente mais desinspirado You & Me, é igualmente merecedor de uma atenção especial por parte da banda. Curiosamente, é em temas como "In The New Year" que o público mais se empolga. Para o restante catálogo, e com grande pena deste escriba, ficam reservadas apenas três canções, à razão de uma por disco. Neste particular, dou-me por feliz que uma delas tenha sido "We've Been Had", tema maior de primeiro, preferido, e já distante registo da banda. Foi precisamente este que encerrou a contenda, ao fim de pouco menos de hora e meia de canções onde a razão e o coração, o empenho e a emoção, se fundem harmoniosamente. Resumindo, óptimo, sem ser brilhante.
O aquecimento do concerto de domingo foi oportunidade de promoção para Os Golpes, eventualmente o mais tolerável dos nomes de certo pop/rock 'tuga alvo de um hype, a meu ver, algo desproporcionado. Para além do visual cuidado e da atitude adequada, trazem na bagagem uma mão cheia de boas melodias-de-sempre, cortesia de um guitarrista e de um baterista extremamente competentes. Para além das falhas esporádicas detectadas na entrada das vozes, a merecer reparo estão também as letras, de uma pobreza na linha de uma certa tradição já com décadas na pop cantada na língua de Camões.



