"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Good covers versions #78
















THE PRIMITIVES - "I'll Be Your Mirror" [RCA, 1989]
[Original: The Velvet Underground (1967)] 

I'll Be Your Mirror by The Primitives on Grooveshark

Vejo-me na obrigação de concordar com alguns amigos que tendem a classificar Nico como um logro, um mito criado em torno da imagem e da lenda, com dotes vocais diminutos. Por outro lado, também compreendo aqueles que a idolatram, como o elemento de uma frieza gélida no meio dos temas de mundanidades narcóticas no álbum de estreia dos Velvet Underground. Suponho que fosse esse o efeito que Andy Warhol tinha em mente quando a impingiu à banda nova-iorquina. Com efeito, por oposição à extridência do restante alinhamento, o trio de temas por ela cantado é solene no ambiente lúgubre, temas esses que parecem extraídos de um cabaré negro. No entanto, e em particular "I'll Be Your Mirror", o manto de negrume não consegue ofuscar o potencial pop latente, pelo menos noutra voz.

Assim o entenderam os britânicos The Primitives, uma das bandas mais visíveis do período pós-C86, graças essencialmente ao sucesso do inevitável "Crash". Embora não seja "oficialmente" reconhecido, esta banda vale bem mais do que esse hit retumbante, já que o primeiro par de discos editados em finais de oitentas estão pejados de pérolas inspiradas no classicismo pop dos girl-groups dos sessentas à luz dos conceitos indie da altura. É esta a receita aplicada à revisão de "I'll Be Your Mirror", pop de guitarras em estado de graça, de um brilho resplandecente, com o suave toque de distorção a não molestar o sentido melódico. O maior trunfo desta versão, misto de inocência e perversão, é a voz de Tracy Tracy, de uma pureza quase juvenil, portanto, bem distinto do registo grave do anjo negro germânico no original.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Good cover versions #68












BELLE & SEBASTIAN _ "Crash" [LateNightTales, 2012]
[Original: The Primitives (1988)]

Talvez já aqui o tenha dito, mas não me canso de repetir que os britânicos The Primitives são uma das melhores e mais injustiçadas bandas indie-pop da vaga que vai de meados a finais de oitentas. Com uma mão cheia de singles aspirantes a hits já em carteira, não lograram algum até à edição de "Crash", um tema que não é de forma alguma representativo da banda, tanto pela sua polidez como pelo refrear de um certo impulso punky. Não é um mau tema, bem longe disso, mas peca pelas razões atrás apontadas para merecer ser o tema definitivo - e talvez o único conhecido das massas - da banda. Valha-nos, em compensação, que serviu de amostra para o grande público do irresistível sentir pop sessentista da "geração C86".

Recentemente, e por ocasião da sua segunda investida como "curadores" para as compilações LateNightTales, os Belle & Sebastian pegaram em "Crash" e deram-lhe um cunho bastante pessoal. Foi o tema eleito pelos escoceses para a habitual versão de cada capítulo daquela série de edições dedicada a música de suposta audição nocturna. Representativo da actual fase da banda de Stuart Murdoch, substancialmente mais uptempo que outrora, "Crash" tem um delicioso travo vintage, com pianadas e ritmos de danças de salão. Se na versão original o tema privilegiava a luminosidade pop em detrimento da profundidade, pelos B&S regista um incremento do carácter lúdico. Portanto, uma versão em nome diversão, porque não?


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Ecos do passado

















Foto: Alison Wonderland

É com alguma injustiça que os Primitives são hoje, essencialmente, lembrados pelo hit "Crash". Se aprofundarmos a sua obra ficamos a saber que, antes desse caso de sucesso isolado, já a banda de Coventry tinha urdido uma boa mão cheia de canções dignas de figurar entre a melhor jangle-pop despoletada pela compilação C86. Todos eles saíram com selo da Lazy Records, editora fundada pela própria banda que deu ao mundo alguns dos primeiros registos dos My Bloody Valentine. Por outro lado, também me causa uma certa revolta que, derivado do visual da frontwoman Tracy Tracy, os Primitives sejam muitas vezes apontados como descendentes dos Blondie, quando na realidade é bem evidente que as bases da sua música sempre estiveram na pop da época áurea da primeira metade dos sixties.

Regressados ao activo no ano passado, depois de quase de vinte anos de paragem, deram à estampa um EP que, em primeiro lugar, serviu para demarcar a sua influência junto de bandas actuais como Dum Dum Girls, Best Coast, ou Vivian Girls. Tomaram-lhe o gosto, e agora acabam de editar o excelente álbum Echoes And Rhymes, carregadinho de versões de temas yé-yé de algumas girl bands das décadas de 1960 (essencialmente) e de 1970, que não se restringem ao eixo anglo-saxónico e repescam também uma série de curiosidades com origem em França, na Alemanha ou na Holanda. Da audição sobressai a qualidade da gravação, pejada de orquestrações à la Joe Meek em colisão com a guitarra fuzzy de PJ Court, e com um travo clássico que nos remete para as épocas revisitadas. Outra das particularidades é que, na escolha do alinhamento, a banda não se deixa cair na tentação do óbvio e opta por um conjunto de temas que, não obstante terem sido sucessos relativos, são hoje pouco mais que obscuridades. Entre os contemplados, os nomes de Nico (com um tema anterior à sua ligação aos Velvet Underground) ou os holandeses Shocking Blue serão, eventualmente, os mais "sonantes". Verdadeiros tesouros perdidos são os temas originais de gente como Laura Ulmer (merecedor de um francês quase perfeito por parte de Tracy), Sandy Posey, Jackie De Shannon, The She Trinity, ou Sue Lyon. É pertença desta última, estrela do filme Lolita de Stanley Kubrick, o original da amostra que se apresenta:

 
"Turn Off The Moon" [Elefant, 2012]

quarta-feira, 23 de março de 2011

Sei de um segredo


















Para a generalidade das pessoas, mesmo as músico-esclarecidas, falar de The Primitives é falar de "Crash", êxito com tanto de inesperado como de aziago, pois a partir deste foi o definhar até à extinção em 1992. Ou então, The Primitives significa Tracy Tracy, a bombástica vocalista loira importada da Austrália. Porém, a banda de Coventry teve um passado anterior a esse único hit, por sinal bem mais estimulante. Está todo ele documentado em Lazy 86-88, a compilação que reúne o material auto-editado (através da Lazy Records, está-se mesmo a ver...) antes do namoro com as majors. No alinhamento, entre outras pérolas da época, podem encontrem "Really Stupid", tema paradigmático de uma certa expressão indie que eclodiu em meados de oitentas, inspirada em partes iguais pelo sentido melódico dos sixties, a simplicidade dos Ramones, e a ingenuidade dos Buzzcocks.

Soube há relativamente pouco tempo que, desde 2009, os Primitives renderam-se à tendência nostálgica e regressaram ao activo, já sem o baixista Steve Dullaghan, falecido meses antes. O primeiro fruto da reunião já anda por aí. Chama-se Never Kill A Secret e consiste num EP de quatro temas curtos e concisos, como convém. Já o ouvi e posso afiançar que reúne todos os condimentos para puder ombrear com a actual legião de carinhas larocas que, a partir da América, reabilitam o passado pop do Reino Unido. Aos desconfiados recomendo a audição/visualização da amostra infra. Está lá tudo, menos a Tracy da nossa juventude.

"Rattle My Cage" [Fortuna Pop!, 2011]