"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Um pequeno mundo em ruínas





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Liz Harris, a quem a timidez leva a gravar como Grouper, é daquelas artistas com uma dinâmica de lançamentos muito própria, que não obedece propriamente aos processos e intervalos criativos estabelecidos pela "indústria". Não se conclua daí que seja moça dada à preguiça. Bem pelo contrário, em dez anos tem já editados outros tantos álbuns, número nada desprezável nos tempos que correm. O que sucede é que o ritmo de edições não é regular, e muitas vezes um novo disco repesca velhos temas deixados em estado embrionário no manacial de criação que o trabalho em recolhimento caseiro proporciona. O último The Man Who Died In His Boat (2013), por exemplo, recuperava canções já com alguns anos de gestação, do tempo do soberbo Dragging A Dead Deer Up A Hill (2008) e, como tal, parente próximo daquele. Ou seja, ambos eram discos de temas densos mas simultaneamente frágeis, compostos por esboços de canções que vagueavam num limbo entre a perdição e a redenção.

Com o novíssimo e altamente recomendável Ruins sucedeu algo de semelhante, já que a concepção dos seus oito temas remonta a 2011, quando Liz Harris se remeteu a um retiro em Aljezur, no sul de Portugal, a fim de cicatrizar feridas de (des)amores antigos. Por conseguinte, este é o seu trabalho mais violentamente emocional, apesar de reduzir ao esqueleto as texturas que, outrora, eram de uma densidade quase impenetrável. Os ruídos incidentais, que antes eram uma medida recorrente, estão agora praticamente remetidos aos temas de abertura e de fecho. Estes são uma espécie de contextualização de lugar, uma vez que pelo meio, no cerne do disco, as delicadas canções ao piano fazem de nós uns voyeurs despudorados, que seguem cada passo da deriva da autora na sua clausura intimista. Com um gradiente de desfocagem menos evidente que os antecessores, Ruins é também o primeiro trabalho de Grouper em que a voz se assume como algo mais que um instrumento. Apesar de exigirem uma atenção especial, o balbuciar daquelas frases ténues denota a necessidade de expelir palavras urgentes. Por isso, este é um daqueles discos que exige que façam um pausa nas tarefas domésticas e se deixam imergir no íntimo em ruínas de Liz Harris. Não queria usar frases feitas, mas garanto-vos que, primeiro, Ruins estranha-se, mas depois entranha-se.

 
"Holding" [Kranky, 2014]

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A morte deu à costa














Parece quase uma inevitabilidade que, mais cedo ou mais tarde, as meninas do noise e do drone norte-americanos se emancipem e partam para outras sonoridades e outros públicos. Assim aconteceu com Bethany Cosentino que, enquanto rosto dos Best Coast, se tornou uma espécie de musa indie. Caminho semelhante seguiu Erika M. Anderson (EMA), que, embora mais não tão esteticamente afastada do seu passado, logrou alcançar públicos mais vastos. Antes delas já Liz Harris, com passado também ligado às sonoridades free-folk, editava com assinalável regularidade. Ao todo, e desde meados da década passada, sob o pseudónimo Grouper, esta californiana agora residente em Portland, já conta com duas mãos cheias de álbuns, alguns deles complementares de outros.

Do catálogo de Grouper destaca-se Dragging A Dead Deer Up A Hill (2008), talvez o seu disco mais acessível, no qual a voz se evidencia nas texturas drony que caracterizam o seu trabalho. É, consequentemente, um álbum com temas mais próximos da canção convencional. Da mesma altura da composição daquele, mas só agora gravados, datam os temas do novíssimo The Man Who Died In His Boat, este também um disco dado a canções dignas desse nome, embora geradoras de um torpor indutor dos sonhos. Às nuvens densas das programações drone, Liz Harris adiciona a guitarra acústica repetitiva e a voz de sereia, ora enevoada, ora cristalina. Apesar da fragilidade dos elementos, e do pendor dreamy da coisa, as canções são pesadas, quase com uma aura funérea que toca no lado mais negro da nosso íntimo. Daí resulta um disco com tanto de misterioso como apaixonante, seguramente dos melhores que ouviremos este ano. Consta que o título, ponto de partida para os onze temas que o integram, seja inspirado por acontecimentos que marcaram a infância de Liz Harris. Aliás, as memórias da tenra idade são presença assídua no sua obra como Grouper, algo que se reflecte também nas letras, muitas vezes próximas das lenga-lengas infantis.


"Vital" [Kranky, 2013]