"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Good cover versions #32

 

HÜSKER DÜ "Eight Miles High" [SST, 1984]
[Original: The Byrds (1966)]

Aquando da sua edição original, devido a alegadas referências ao uso de drogas, "Eight Miles High" causou acesa discussão junto das alas mais conservadoras da sociedade norte-americana, ao ponto de chegar ser banida das rádios. Apesar do boicote, a polémica jogaria a favor dos Byrds, que viram um dos seus temas mais profundamente imersos no psicadelismo, com influências da música indiana e do jazz experimental, fazer uma improvável carreira nos tops de vendas. Na altura, a banda foi pronta a refutar tais acusações. Porém, anos mais tarde, tanto Gene Clark como David Crosby, confessaram que a letra fora baseada nas experiências com substâncias ilícitas vividas pelos próprios membros da banda.
Quase vinte anos mais tarde, os Hüsker Dü revisitam "Eight Miles High", e de novo o tema foi gerador de controvérsia. Desta feita, a ortodoxia hardcore dos seguidores mais fervorosos do trio de Minneapolis não aceitou de bom grado que os ídolos reinterpretassem hits de figuras associadas ao movimento hippie. O que os pobres coitados não sabiam, é que, pouco tempo volvido, os huskers estavam a confessar a sua paixão não só pela música dos Byrds, mas também de Dylan e dos Beatles, e até a gravar (sacrilégio!) discos duplos semi-conceptuais.Vistas bem as coisas, "Eight Miles High" até mantém bem vincadas as marcas registadas da sonoridade até aí praticada pelos Hüsker Dü, bem evidentes na velocidade alucinante das guitarras distorcidas e nas vocalizações alienadas de Bob Mould. Contudo, esta simples reinterpretação teve o condão de fazer ruir convenções sem qualquer sentido. E, mais importante, ganhou vida autónoma do original, feito conseguido por um número diminuto de versões.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Straight from the Hart















Nos idos de 1980, Grant Hart ficou conhecido como uma das metades criativa dos Hüsker Dü, tarefa que, tal como as vozes, dividia com Bob Mould. O relacionamento tempestuoso com este, em parte derivado da adicção à heroína, ditaria uma fim abrupto em 1987, deixando a sensação que algo ficara por contar. De então para cá, e enquanto Mould obteve significativo reconhecimento, tanto a solo como com os Sugar, Hart tem mantido uma carreira intermitente e errática. Nos últimos vinte anos, conhecem-se-lhe dois álbuns de originais, outros tantos EPs, e mais um par de registos longa-duração com os Nova Mob. Nos últimos anos, recuperado da dependência, tem servido como voluntário junto de aviadores veteranos. Ainda assim, arranjou tempo para gravar Hot Wax, álbum que acaba de ser lançado com alguma discrição e que interrompe um jejum longo de dez anos. A produção ficou a cargo do ex-Arcade Fire Howard Bilerman e, entre os colaboradores contam-se músicos ligados aos Godspeed You! Black Emperor. Pela singela amostra disponível no MySpace, somos levados a crer que quem sabe nunca esquece...

terça-feira, 21 de julho de 2009

Discos pe(r)didos #28



















HÜSKER DÜ
Metal Circus [SST, 1983]

Nascidos em berço hardcore, os Hüsker Dü cedo manifestaram alguma insatisfação com limitações do género. Nas edições em catadupa que marcaram os primeiros anos de vida do trio de Minneapolis, era notório um progressivo afastamento das temáticas politizadas nas canções de Bob Mould e Grant Hart, os dois compositores-vocalistas de serviço. Em sentido contrário, as questões pessoais e emocionais iam ganhando terreno. O ponto de ruptura definitiva deu-se com Metal Circus, um EP de sete temas originalmente previsto como um álbum (ou mini-álbum) de onze. A intenção inicial foi sabotada por um pequeno insólito: por falta de pagamento da conta da electricidade, a companhia cortou a corrente no estúdio em que os hüskers gravavam. Eram difíceis aqueles tempos...
Nos iniciais e quase-siameses "Real World" e "Deadly Skies" (e nos restantes temas saídos da pena de Mould) ainda está bem patente a velocidade vertiginosa característica dos primórdios. Porém, por entre a muralha de ruído, vislumbra-se um sentido melódico inaudito. No primeiro, Mould, num dos vocais mais furiosos que se lhe conhecem, é contundente para com os fiéis à ortodoxia hardcore: "You want to change the world / By breaking rules and laws / People don't do things like that / In the real world at all". Escrito e interpretado por Hart, "It's Not Funny Anymore" ataca novamente o género "proscrito". Aqui, a paixão pela pop dos Byrds e dos Beatles é assumida sem preconceitos. Seguindo numa linha contígua, "Diane" é o relato do ponto de vista do criminoso de um trágico caso real: a violação e homicídio de uma empregada de mesa local. Na distorção cortante da guitarra, uma certa banda de Seattle, cujo nome começa por N, encontraria a sua génese. Por coincidência, ou talvez não, a frieza da temática de "Diane" é semelhante à de um tema chamado "Polly", certamente vosso conhecido... Já o derradeiro "Out On A Limb" terá sido ouvido vezes sem conta por Charles Thompson e Joey Santiago, dois putos de Boston. A partir dos riffs esquizofrénicos, a dupla desenvolveu a essência de uma lenda chamada Pixies...
Embora padecendo ainda uma produção deficiente derivada da escassez de meios, Metal Circus acaba por ser o passo corajoso e necessário antes da concepção do duplo Zen Arcade (1984), obra incontornável não só da década de 1980, como de toda a música dita alternativa.


"Real World"

quinta-feira, 5 de março de 2009

Singles Bar #31



















GRANT HART
2541 [SST, 1988]

"Jimmy gave us the number
and Gerry gave us a place to stay
and Billy got a hold of a van
and man, we moved in the very next day
to twenty-five forty-one
big windows to let in the sun
twenty-five forty-one
(...)
now everything is over
everything is done
everything's in boxes
at twenty-five forty-one"

Muitas vezes visto como figura secundária quando comparado com o ex-ccompincha Bob Mould, Grant Hart foi cantor/compositor de quase metade das canções dos Hüsker Dü na sua fase mais relevante. Na influente banda de Minneapolis, Hart era sobretudo o principal impulsionador da veia melódica, por oposição ao pendor mais abrasivo das composições de Mould. Curiosamente, após o fim acrimonioso dos Hüsker Dü, o início da aventura a solo de Hart foi até mais fulgurante do que a do seu antigo colega. Pelo menos enquanto o consumo de drogas não se tornou uma actividade quase a tempo inteiro...
O cartão de visita ao mundo pós-huskers deu-se com este single, talvez intencionalmente, a milhas de distância da sonoridade anteriormente praticada. O tema-título baseia-se essencialmente numa melodia simples de guitarra acústica, em crescendo de tensão nos momentos mais dramáticos da voz. Com a totalidade dos instrumentos tocados pelo autor, "2541" revela-se uma canção de um intimidade chocante. Nela se conta a ascensão e queda de um relacionamento que parece ter deixado marcas profundas em, pelo menos, uma das partes. Quando questionado, Grant Hart nunca escondeu haver em "2541" não só uma referência explícita à história dos Hüsker Dü, mas simultaneamente a uma aventura amorosa: por coincidência, o número do título era o da porta da sala de ensaios da banda, e também o do apartamento partilhado com outra pessoa.
Robert Forster, o membro sobrevivo dos Go-Betweens, ele próprio um artesão de grandes canções, haveria de reconhecer as qualidades de "2541" gravando uma versão. O próprio Grant Hart, no ano seguinte ao da edição original, haveria de incluir uma nova versão, com arranjos mais elaborados, no álbum Intolerance (Aviso à navegação: obrigatório!). Como grande canção que é, a segunda gravação de "2541" sobrevive com distinção à operação de cosmética, mas não supera a simplicidade despida da original.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

For all the fucked up children of the world #2

Os discos dos Hüsker Dü sempre viveram da dinâmica criada pelas diferenças estéticas dos dois compositores/vocalistas: da pena de Bob Mould saíam os temas mais abrasivos, enquanto Grant Hart era responsável pelas canções marcadas por uma maior sensibilidade e, por isso, mais orelhudas.
Este tema, incluído em Candy Apple Grey, o primeiro álbum para uma major, é o paradigma da composição do segundo. Situado algures naquele ponto onde a pop e o punk se intersectam, segundo a "escola Buzzcocks", "Don't Want To Know If You Are Lonely" trata de um tema recorrente na escrita de Hart: como ultrapassar e sobreviver à dor da perda.
Enérgico, intenso, sentido, terá sido o mais próximo que os huskers estiveram de um verdadeiro hit...

Hüsker Dü "Don't Want To Know If You Are Lonely"
(Warner Bros., 1986)

quarta-feira, 11 de abril de 2007

DISCOS PE(R)DIDOS #8

HÜSKER DÜ
Zen Arcade (SST, 1984)

Desde a sua formação, no final da década de 1970, que a ambição do trio constituído por Bob Mould (voz, guitarra), Grant Hart (voz, bateria) e Greg Norton (baixo) era desmedida para as amarras do hardcore. Confessos admiradores tanto dos Beatles como dos Byrds, os Hüsker Dü, ao contrário da linha dura do hardcore de Washington DC, sempre gostaram de dar uma pincelada pop às suas composições enraizadas no punk norte-americano. Mas o verdadeiro ponto de viragem seria apenas dado em Zen Arcade, o seu terceiro LP.
Um verdadeiro choque para os seguidores mais fundamentalistas, Zen Arcade era, simultaneamente, um disco duplo e conceptual. Acusações de vendidos não faltaram ao trio por estes dias e, para cúmulo, em jeito de provocação Bob Mould costumava empunhar uma Flying V, imagem pouco consentânea com o meio. Mas com a alienação dos fãs da primeira hora viria também a conquista do lugar na história, confirmada pela devoção confessa de nomes posteriores como The Pixies e Nirvana.
Com Mould e Hart dividindo quase equitativamente os créditos das 23 faixas, cantando cada um as suas composições (o guitarrista com a sua voz de arame farpado era responsável pelos momentos de maior rugosidade, cabendo ao baterista os momentos mais melódicos), Zen Arcade faz o relato na primeira pessoa de um adolescente insatisfeito que abandona o lar para procurar a felicidade no mundo exterior. Mas cedo percebe que esse mundo é ainda pior. Pelo caminho acontece o contacto com a religião ("Hare Krsna") e com as drogas (o genial "Pink Turns To Blue"). No final, através da longa jam intrumental de "Reocurring Dreams" fica a sugestão de que tudo poderá não ter passado de um sonho...
Musicalmente a paleta sonora não poderia ser mais rica: temas punk acelerados ("Something I Learned Today"), arremedos folk psicadélicos ("Never Talking To You Again"), indie pop melodioso ("Pink Turns..."), interlúdios noise ("Dreams Reocurring") e improviso vanguardista ("Reocurring Dreams").
Dois anos mais tarde, já com os dois compositores em rota de colisão e mergulhados no calvário do álcool e das drogas, os Hüsker Dü haveriam que concretizar a metamorfose completa em mais uma obra-prima: Candy Apple Grey.