"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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segunda-feira, 21 de abril de 2014

A besta renascida

















Foto: Piper Ferguson

Quando essa coisa mal definida a que decidiram chamar grunge rebentou, já os Afghan Whigs contavam no currículo com um par de discos de rock agreste, descendente directo do underground pós-hardcore da América de oitentas. Talvez pressentindo que a fórmula rapidamente se esgotaria, a banda do Ohio deixou-se embrenhar na negritude sulista, e passou a beber descaradamente das fontes da música negra, da soul ao funk, passando pelo R&B. Era algo já latente em Congregation (1992) e na obra-prima Gentlemen (1993), discos ainda assim com uma considerável dose de crueza rock. Destes para a dupla de álbuns seguintes a mudança foi abrupta, já que Greg Dulli e companhia mergulharam de vez e de cabeça na sedução por aquelas sonoridades. Todos estes discos tinham como denominador comum a postura do frontman como o pecador hesitante, entre a redenção e a tentação, em temas de cenário nocturno, regadas a álcool e consumidas pelo desejo obsessivo. Não foram propriamente discos que tivessem caído no goto das regras do FM radiofónico entretanto estabelecidas, e os Afghan Whigs puseram um ponto final na carreira em 2001, com a sensação amarga de que o reconhecimento apenas moderado não estava à altura da sua valia.

Regressaram ao activo há coisa de dois anos, e na realidade foi como se nunca nos tivessem abandonado, tal a vitalidade com que se apresentaram por esses, algo que este que vos escreve pôde comprovar por duas vezes no espaço de uma semana. Como não são gente apenas disposta a alimentar a indústria do saudosismo, canalizaram aquela força bruta para a gravação de um novo álbum: Do To The Beast, editado há coisa de uma semana. Pelo equação ajustada da pujança rock com a sensibilidade negra, este poderia muito bem ter sido o sucessor directo do citado Gentlemen, uma possível ponte de transição mais suave para os discos seguintes. Para chegar a essa conclusão basta escutar o inaugural "Parked Outside", que abre com um dos riffs mais incisivos do reportório dos Afghan Whigs, mas tem a grooviness digna de um James Brown. Caso as dúvidas subsistam, escutem "Matamoros", logo a seguir, com improvável mescla math-rock com o funk irresistível do Prince de oitentas. Nos minutos que se seguem, são vários os temas construídos sob esta dinâmica da vertigem rock com a sensualidade soul/funk, entremeados com outros mais introspectivos, que permitem retomar o fôlego. Nestes, algumas vezes acompanhado pelo piano, Greg Dulli veste a pele do sedutor convicto, que não enjeita um falsetto, algo que explorou com bastante insistência nos Twilight Singers, o projecto que o ocupou durante boa parte da ausência dos Whigs. Portanto, se é certo que Do To The Beast não traga novidades de monta ao universo dulliano, também é justo dizer que os seus dez temas sejam de uma receita aprimorada pelo savoir faire adquirido com o tempo que Dulli leva ao serviço da sua causa.

 
"Algiers" [Sub Pop, 2014]

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Há 20 anos era assim #9









THE AFGHAN WHIGS
Gentlemen
[Elektra, 1993]




Só há coisa de ano e meio, por ocasião de um par de concertos a coberto da reunião da saudade, é que me dei conta da real dimensão do culto dos norte-americanos The Afghan Whigs, concertos esses presenciados por milhares de devotos que nos tempos gloriosos da banda viviam a sua paixão num isolamento que só as facilidades de comunicação dos novos tempos esbateram. Empacotado no contingente grunge - seja lá o que isso for -, e ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, este quarteto de Cincinnati, Ohio, percorreu a década de noventas como eterna promessa adiada de rebentamento junto de um público mais vasto, ficando sempre aquém do reconhecimento que a excelência da sua obra gravada merecia. Convenhamos que o trajecto e as opções musicais arriscadas também não ajudaram, numa época em que, após o empolgamento inicial, rapidamente se esteriotiparam os critérios da divulgação radiofónica. Os primeiros passos deram-se ainda sob os auspícios da rudeza do american underground dos eighties, com um par de álbuns com selo da Sub Pop que fizeram deles a primeira banda a editora de fora da zona de Seattle. No derradeiro disco com aquela editora (Congregation, de 1992), antes da partida para as multinacionais, o típico som dos Afghan Whigs começa a ganhar forma, com as influências soul a penetrarem na dominância da dureza rock.

A cedência definitiva à deriva soul deu-se com Gentlemen, o quarto álbum que é quase unanimemente considerado a obra-prima, que não poderia ter escolhido melhor lugar de gestação que os Ardent Studios de Memphis, local de gravação de várias lendas da música negra. Não obstante o sentir soul que o percorre, este ainda um disco másculo, de uma crueza rock de revolver as entranhas, que deve muita da sua força bruta ao interessante diálogo das guitarras: os riffs cortantes de Rick McCollum e os adornos rítmicos do também vocalista e compositor principal Greg Dulli. É nesta dinâmica que reside o poder abrasivo do tema-título, do soberbo "Debonair", ou do trepidante "Know You Know", ou a envolvência de "Be Sweet". Em certa medida, poderemos catalogar Gentlemen como um disco conceptual, no qual Dulli discorre invariavelmente sobre o fracasso das relações amorosas. Fá-lo com uma raiva tão sincera que não duvidamos da sua genuinidade, por força da desilusão sobrepondo muitas vezes o lado carnal ao sentimental, algo bem explícito em tiradas como "Ladies, let me tell you about myself / I got a dick for a brain / And my brain is gonna sell my ass to you" ("Be Sweet"). Pelo meio de sugestões várias de refúgios alcoólicos, Dulli chega ao extremo da visão desencantada, quase infernal, da vida a dois com uma comparação como a sugerida por "What Jail Is Like". Por esta altura já chegamos à conclusão que um título como Gentlemen só pode ser irónico, já para não dizer que começa a pairar um sentimento de misoginia. Esta ideia é desfeita na segunda metade do disco, em particular em "My Curse", um belíssimo lamento em lume brando cantado pela convidada Marcy Mays, conhecida pela militância feminista como vocalista das Scrawl. Se dúvidas restarem, Dulli sujeita-se à redenção em "I Keep Coming Back", o mesmo ritmo lento num tema algo soturno. Mais surpreendente como negação da rispidez que caracteriza a maior parte de Gentlemen é "Brother Woodrow / Closing Player", o delicado instrumental de encerramento que é guiado por uma secção de cordas.

Nestes temas mais atípicos pressente-se uma veia cinemática, algo que os Afghan Whighs sublimariam no par de discos subsequentes, com maior incidância em Black Love (1996), um autêntico filme negro em cenários nocturnos e enevoados. Já o derradeiro 1965 (1998) pauta-se por uma maior ternura, ainda e mais intensamente ensombrado pela soul, algo que conheceria novos desenvolvimentos nos Twilight Singers, projecto posterior de Greg Dulli. Escusado será dizer que cada um destes dois discos é mais uma pequeno tesouro injustiçado pela falta de reconhecimento das massas.

Gentlemen by The Afghan Whigs on Grooveshark

Debonair by The Afghan Whigs on Grooveshark

My Curse by The Afghan Whigs on Grooveshark

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Ao vivo #57

















Greg Dulli @ Santiago Alquimista, 02/11/2010

Antes de passar aos factos, compete-me lamentar que aquele que mais justamente poderá ser apontado como o sobrevivente da "geração grunge", com trabalho válido contínuo, mereça apenas a atenção de escassas dezenas de fiéis, ainda para mais com a acústica sofrível a que o Santiago Alquimista já nos habituou. Podem alegar a avalanche de concertos que eu não me conformo, pois tenho a certeza que o "azeiteiro", um tal de Vedder, teria à sua espera, no mínimo, três coliseus. Resta-me a triste constatação de que o mundo em que vivemos é um mundo injusto.
Quem não acorreu e quem abandonou a função ainda a meio, perdeu a revisão da carreira, em formato semi-acústico, daquele que canta como poucos as coisas do amor, com desejo, traição, e desespero acoplados. Ao longo de mais de hora e meia, Greg Dulli brindou-nos com o constante ziguezaguear pela carreira de mais de vinte anos, sem esquecer nenhuma das bandas pelas quais deu ou dá a cara: The Afghan Whigs, The Twilight Singers, e The Gutter Twins. Sem a imponência da banda completa da passagem destes últimos pelo mesmo local, surge em trio, com duas guitarras, um violino e um violoncelo em alternância, o ocasional piano já em encore, e uma comunicabilidade ímpar. No quinhão dos Whigs - que inclui "Let Me Lie To You" e "Debonair", justamente as "eleitas" deste que vos escreve -, a transposição para o novo formato perde em transpiração aquilo que ganha em humanismo. Assim se percebe melhor a complexidade destas canções, para muitos - já ouvi dizer - meras descargas rock com um pingo de alma soul. Dos Twilight Singers, Dulli traz na bagagem um trio de temas novos, a integrar, segundo nos foi dito, num álbum para muito em breve. Poderei estar enganado, mas notei nestes um pendor mais rockeiro que subverte o charme que presidiu à fundação do projecto. Mais previsíveis, talvez porque mais próximas da sua forma original, as canções dos Gutter Twins realçam uma certa religiosidade que faz as delícias dos convertidos mais recentes. No capítulo das versões, o amargo de outrora deu lugar ao amadurecido, ponderado e, eventualmente, apaixonado Dulli do presente, com um par de temas bem demonstrativos do actual estado de espírito: "A Love Supreme" (John Coltrane) e "She Loves You" (The Beatles).
Ligeiramente desequilibrado na qualidade dos temas apresentados, tal como tem sido a carreira do seu protagonista, mormente na última década, o concerto prima pelo empenho e pelo brio que se mantém ao longo toda a sua duração. Tal demonstração de fé na música popular, quer seja o rock'n'roll, a soul, ou as indefinidas correntes jazz-blues, merecia o aplauso não de dezenas, mas sim de milhares. Quem sabe, se da próxima...

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

ARTE POP #1

Lembrando e, simultanemente, homenageando este excelente blogue infelizmente extinto, inicio hoje uma nova rubrica. Nela darei destaque a capas de discos que, extravasando o fim a que se destinam, são autênticas obras de arte. O pontapé de saída é dado por uma banda que julgo não ter tido o reconhecimento merecido no seu período de vida e que, faço questão de lembrar mais uma vez. Não querendo soar pretensioso, penso tratar-se de uma capa a que só os mais versados nas linguagens pop darão o devido valor.

THE AFGHAN WHIGS
Debonair [single] (Blast First, 1994)

segunda-feira, 11 de junho de 2007

DOR-DE-CORNO COMPACTADA

THE AFGHAN WHIGS
Unbreakable: A Retrospective 1990-2006 (Rhino, 2007)

E se os Pumpkins foram durante um breve trecho um segredo bem guardado da geração grunge, os Afghan Whigs foram-no (muito injustamente) ao longo de toda a carreira terminada em 2001, após cinco álbuns indispensáveis.
Para quem sempre quis conhecer o rock tingido de soul em que Greg Dulli exorcisava os demónios da alma (com histórias de mulheres, álcool, prisões e quartos de hotéis rasca), e nunca soube por onde começar, a situação fica agora facilitada com a edição desta retrospectiva bem abrangente da carreira da banda de Cincinnati.
Não se trata de uma compilação de êxitos porque os Afghan Whigs nunca os tiveram, mas serve perfeitamente os seus intentos de introdução à música de uma das bandas mais injustiçadas da década passada.
Como aliciante para os convertidos que já têm os álbuns todos, nos quais orgulhosamente me incluo, os Whigs oferecem dois temas inéditos gravados no ano passado (daí o 2006 do subtítulo).
E fiquem já agora a saber que existem rumores de uma reunião. Vamos esperar para ver...