"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Singles Bar #80









ELVIS COSTELLO
Less Than Zero
[Stiff, 1977]





Less Than Zero by Elvis Costello on Grooveshark

Hoje olhado como um dos representantes da chamada "burguesia pop", não só pela produção musical acomodada, como pelos laços matrimoniais, Elvis Costello foi, em tempos, um dos compositores e músicos mais inconformados dos muitos surgidos no Reino Unido após a explosão punk. Símbolo maior daquilo a que convencionou chamar-se new-wave, este londrino nascido Declan MacManus, cedo se destacou na "cena" pub rock com uma escrita acutilante, demonstrativa de um observador da sociedade sem papas na língua.

Apresentou-se ao mundo com "Less Than Zero", tema que integraria o seu primeiro álbum, e logo aí fez questão de assumir uma postura de desbocado, capaz de causar algum incómodo em certos sectores da sociedade britânica. A inspiração para este tema partiu de uma entrevista concedida à BBC por Oswald Mosley, na qual este antigo líder da extrema direita britânica durante a década de 1930, que defendia ideias semelhantes às de Adolf Hitler na mesma época, procurava demarcar-se de tão tenebroso passado. Sem uma referência propriamente directa ao visado, mas com uma letra deveras inteligente, Costello tem um efeito contundente naquele sector político, ainda matéria para muitos outros temas do início de carreira. "Less Than Zero" marca o início de uma longa e proveitosa colaboração do músico e do produtor (e também músico) Nick Lowe. É o começo de uma linguagem muito própria, com a evidência dos tempos e dos ritmos inspirados pelo reggae, mas com uma sonoridade que também evoca o rock'n'roll depois de apropriado pelos brancos. O impacto da new-wave britânica, e em particular de Elvis Costello, na juventude norte-americana fica bem patente na escolha de Less Than Zero para título do primeiro romance de Brett Easton Ellis, também ele um observador atento e crítico da sociedade circundante, no caso da face negra por detrás do verniz da juventude da classe alta.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Singles Bar #74








ROBERT WYATT
Shipbuilding
[Rough Trade, 1982]






Por estes dias, comemoram-se os trinta anos sobre o início da curta guerra das Malvinas (ou Falkland, em inglês), conflito que opôs o Reino Unido à Argentina pela soberania de um pequeno arquipélago ao largo do extremo da América do Sul. Levaram a melhor os europeus mas, em terras de Sua Majestade, não faltaram as vozes críticas contra os gastos provenientes da posição inflexível de Margaret Thatcher, em contradição com as políticas que antes tinham levantado semelhante coro. No meio artístico em geral, e no musical em particular, a indignação fez-se ouvir com a mesma intensidade com que no conturbado início do consulado da Dama de Ferro.

Entre os indignados não poderia faltar Robert Wyatt, o irredutível contestatário "vermelho" que, apesar de pertencer a uma geração anterior, mereceu o respeito e a admiração de muitos jovens músicos pós-punk. Insatisfeito com a letra escrita para afirmar a sua contestação, e contando com música do produtor Clive Langer, recorreu aos serviços de Elvis Costello, amigo de ambos e, precisamente, produto da fornada gerada pela eclosão punk. Este respondeu ao apelo com uma das mais engenhosamente sarcásticas letras da música popular. Com mordaz ironia, questiona o súbito impulso do governo à indústria naval britânica, apenas para servir uma guerra, quando até aí este um dos sectores votados ao esquecimento por Thatcher. A temática, porém, surge apenas nas entrelinhas, pois a letra deriva à volta do drama dos pais que vêm os filhos partir para um hipotético destino fatal. Cantada por Wyatt no seu frágil tom peculiar, venerável para uns insuportável para outros, "Shipbuilding" acabaria por ser o único caso de relativo sucesso na carreira deste respeitável barbudo. Talvez inesperado, se tivermos em conta que não respeita propriamente os parâmetros em vigor para os hits da altura. A acrescer à "estranheza" da voz de Wyatt, a parte instrumental baseia-se no seu típico piano em repetições entrecortadas e numa subtil bateria tocada com alguma parcimónia jazzística, a remeter para os tempos do cantor nos Soft Machine.

Um ano volvido, também Elvis Costello gravaria a sua própria versão de "Shipbuilding". Não muito diferente da de Wyatt, diga-se em abono da verdade. Próxima inclusive no registo vocal, portanto bem diferente do neurótico new-waver que tinha agitado às aguas musicais britânicas poucos anos antes, e também assente no piano. Ligeiramente mais longa, tem como pormenor de charme a prestação de um convidado de honra: o trompetista Chet Baker. Costello subia assim o primeiro degrau na escadaria da "aristrocracia" pop.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Mil imagens #3

Elvis Costello - Amsterdam, 1977
[Foto: Anton Corbijn]

Ainda na Holanda natal, antes de ter rumado a Inglaterra onde ficou fascinado pelos Joy Division, Anton Corbijn era já um fotógrafo atraído pelas ebulições ocorridas nas franjas da música popular. Isto, muito antes do "estrelato" concretizado nas inúmeras fotos e nos videoclipes concebidos para nomes do calibre dos Depeche Mode, dos U2, dos R.E.M., ou dos Nirvana. Também muito antes da estreia na realização de longas metragens com o sofrível Control, eventual fecho de um ciclo novamente com a banda de Ian Curtis como pano de fundo. Este instantâneo data desse fase "juvenil" e capta Elvis Costello num quarto de hotel munido de uma guitarra eléctrica e um pequeno amplificador. Costello, recorde-se, era então uma das vozes mais contundentes do espectro post-punk/new-wave. Isto, muito antes do aburguesamento, das versões easy-listening para comédias românticas, dos discos chatinhos, e de uma tal de Diana Krall...