"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Em escuta #51









WILD NOTHING _ Gemini [Captured Tracks, 2010]

Nos últimos tempos, nos Estados Unidos, avoluma-se o rol de estetas adeptos das produções caseiras de baixa-fidelidade. Embora novato nessa extensa lista, Jack Tatum conta já com um currículo que inclui diversas solicitações para remisturas do trabalho de outrém. Na obra em nome próprio, assinada como Wild Nothing, envereda por uma sonoridade liberta de artifícios que sugere, inevitavelmente, algum recolhimento. As tapeçarias sonoras, essencialmente geradas a partir de sintetizadores analógicos, tanto evocam as paisagens idílicas dos Cocteau Twins como a pop fracturada dos Felt. Umas vezes banhado num mar de doce melancolia, outras penetrado por tímidos raios de sol, Gemini deixa no ar uma leve brisa de mistério que seduz desde o primeiro instante. [8]


ARCADE FIRE _ The Suburbs [Merge, 2010]

Ao terceiro registo, o combo canadiano mais celebrado dos últimos tempos, salvas as devidas distâncias, retoma os tons sépia do debutante Funeral, em detrimento da pompa balofa que marcou o subsequente Neon Bible. Contudo, nas entrelinhas, The Suburbs ainda deixa escapar alguns anseios de grandeza, seja na discrição dos arranjos de cordas, seja na limpidez da produção que arrasa a veia tosca de outrora. A voz de Win Butler abandonou o ar de gravidade do passado e envereda agora por uma reserva mais de acordo com as suas limitações. A sombra de Springsteen paira a cada recanto e as guitarras ganham terreno, por vezes em despique desenfreado ("Mouth Of May", "Ready To Start"), noutras a sublinhar o rigor formal que roça o classicismo pop (o profusamente catchy "Modern Man"). Interpretado por Régine Chassagne, "Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)" segue, sem pudores, por uma via electrónica retro que, possivelmente, aponta pistas para um futuro próximo. Segundo os membros da banda, a inspiração para este disco provém das experiências de vida nos subúrbios, e daí o ambiente de desencanto que emana. Como obra conceptual que é, The Suburbs não escapa aos piores tiques do "género", na circunstância manifestados na duração que vai para além do razoável. Pela parte que me toca, e para melhor fruição, saltei "Rococo" e "Empty Room", manifestações da irritação épica que me causa profunda repulsa. [7,5]


THE CORAL _ Butterfly House [Deltasonic, 2010]

Com este são já meia dúzia os álbuns da banda que, discretamente, se tem firmado como um dos mais sólidos colectivos nascidos no Reino Unido do novo século. Se a isto somarmos o facto de os seus membros ainda andarem pela casa dos vintes, ganha outras proporções o feito dos The Coral, banda que, desde cedo, manifestou o apego à tradição do psicadelismo pop sessentista comum a outros dignos representantes da Liverpool natal (Echo & The Bunnymen, The La's, Shack). Sem surpresas, Butterfly House segue essa mesma via, pese embora revele uma banda próxima de um estádio de amadurecimento, com toda a carga positiva que o termo possa sugerir. Obreiro desta pequena (r)evolução foi o produtor John Leckie que, aproveitando as transformações no seio da banda (a substituição do guitarrista), extraiu dos The Coral potencialidades que revelam extrema auto-confiança. A voz de James Skelly já não é a do puto meramente dotado, mas sim a do homem-feito com aptidões para um registo próximo do crooning. Das guitarras, geradoras de melodias tão formais quanto inventivas, tanto podem brotar laivos de flamenco a fazer lembrar os Love, como manifestações de virtuosismo próximas da versão contida de uns Stone Roses do segundo disco. Desta conjugação de factores, nasce uma dúzia de canções que, sem excepção, primam pela eficiência só ao alcance das obras intemporais. Para melhor entendimento, pasmem-se com a previsibilidade feita gema pop de "1000 Years", até prova em contrário, uma das canções que marcarão positivamente o corrente ano. [8,5]


TAME IMPALA _ Innerspeaker [Modular, 2010]

Não se pense a Austrália dos nossos dias, e em particular a editora Modular, apenas capaz de gerar sub-produtos de saudosismo oitentista que, ultimamente, tem entretido o gosto direccionado para modinhas fúteis. Quem no-lo afirma são os Tame Impala, quatro putos obcecados com os devaneios guitarrísticos de Hendrix e dos Cream da melhor safra, os mesmos que, há coisa de dois anos, presentearam os mortais com um fulgurante EP homónimo. A hora da aventura em longa-duração é também a de correr riscos, materializados num alargar de horizontes que se expandem até a uma faceta mais contemplativa - e, forçosamente, mais pop - que lembra The Beatles, em particular os do Álbum Branco. Há até algumas semelhanças vocais com o Lennon desses tempos que chegam a ser assustadoras. Não se pense, contudo, os Tame Impala apenas apostados na deriva mental por via da psicadelia sonora: quando investem a fundo no groove, sacodem irremediavelmente o corpo sem dó nem piedade. "Solitude Is Bliss", o tema eleito para single promocional é disso o melhor exemplo. [8,5]

quarta-feira, 8 de julho de 2009

20 anos de música "merginal"











Fundada por Mac McCaughan e Laura Ballance, respectivamente vocalista/guitarrista e baixista dos Superchunk, com o intuito de lançar os discos da sua banda, a Merge Records leva já 20 anos de história. Desviada do plano inicial, nestas duas décadas a editora sedeada na Carolina do Norte foi responsável por discos marcantes de bandas como Neutral Milk Hotel, Arcade Fire, Lambchop, The Trail of Dead, Polvo, The Clientele e, claro, Superchunk. Para assinalar a efeméride, os últimos meses têm conhecido uma série de edições comemorativas, todas elas com fins beneméritos.
Score! - 20 Years Of Merge Records consiste numa colecção de 14 CDs que fazem o resumo destes últimos 20 anos de edições, com a particularidade de o alinhamento ter sido escolhido por um curador diferente. Georgia Hubley (Yo La Tengo), David Byrne, Peter Buck (R.E.M.), e realizadora Miranda July estiveram entre os "jurados". Sujeita a subscrição entretanto encerrada, a boxset tinha um preço proibitivo nestes tempos de crise.
Mais em conta para o consumidor é Score!... - The Covers, como o próprio título indica, uma compilação de temas originalmente lançados pela Merge. Ao todo, são 20 versões interpretadas por uma série de convidados externos à editora. Da lista fazem parte, entre outros, Les Savy Fav, The New Pornographers, The National, Bright Eyes, Okkervil River, Ryan Adams, The Shins, The Apples in Stereo, e Broken Social Scene. Dos temas escolhidos, os Superchunk são obviamente os mais representados com um total de quatro. Caso estejam interessados, convém que se apressem, pois a edição é limitada a 7000 exemplares. De entre as duas dezenas de versões, não resisto a exibir a transformação radical levada a cabo pelos noiseniks Times New Viking de um original de um certo colectivo canadiano, até há bem pouco tempo visto como a melhor banda de todos os tempos. Ainda se lembram deles, suponho.


segunda-feira, 18 de junho de 2007

A BÍBLIA DE GREEN

No seguimento do comentário de um estimado camarada bloguista a propósito de um post recente, esclareço que não tenho qualquer animosidade contida em relação aos Arcade Fire. Quem me conhece sabe que fui um entusiasta da banda canadiana desde que Funeral me chegou aos ouvidos, já lá vão dois anos e meio. No entanto, e como ninguém é perfeito, acho que Neon Bible é mesmo muito fraco (eu fiz um esforço para gostar, acreditem). E também acho que só mereceu tamanho destaque por vir de onde vem.

Segundo um post publicado pelo grande Simon Reynolds, Green Gartside, o galês que há quase trinta anos dirige de forma intermitente os desígnios dos Scritti Politti (ainda no ano passado, perante a indiferença geral, editaram o mui recomendável White Bread, Black Beer), traduz de forma perfeita a minha opinião acerca de Neon Bible. Passo a citar:

People who enjoy this album may think I'm cloth-eared and unperceptive, and I accept it's the result of my personal shortcomings, but what I hear in Arcade Fire is an agglomeration of mannerisms, cliches and devices. I find it solidly unattractive, texturally nasty, a bit harmonically and melodically dull, bombastic and melodramatic, and the rhythms are pedestrian. It's monotonous in its textures and in the old-fashioned, nasty, clunky 80s rhythms and eighth-note basslines. It isn't, as people are suggesting, richly rewarding and inventive. The melodies stick too closely to the chord changes. Win Butler's voice uses certain stylistic devices - it goes wobbly and shouty, then whispery - and I guess people like wobbly and shouty going to whispery, they think it signifies real feeling. It's some people's idea of unmediated emotion. I can imagine Jeremy Clarkson liking it; it's for people in cars. It's rather flat and unlovely. The album and the response to it represent a bunch of beliefs about expression and truth that I don't share. The battle against unreconstructed rock music continues.

NOTA: A citação transcrita acima faz parte de uma série de entrevistas levadas a cabo pelo jornalista Paul Lester para o jornal The Guardian. Na peça que podem ler na íntegra aqui, diversas personalidades do mundo da música são convidadas a fazer a sua apreciação de um disco que consideram sobrevalorizado. E digo-lhes que é, no mínimo, hilariante... principalmente quando são abordados discos que temos em boa conta.

domingo, 11 de março de 2007

EM ESCUTA #6

ARCADE FIRE
Neon Bible (Merge, 2007)

Cerca de dois anos e meio após da edição do excelente Funeral é já possível afirmar que esse disco não era perfeito, o que não deverá ser visto como redutor, e que os Arcade Fire acabaram por não ser os salvadores da música pop como alguma imprensa estabeleceu. Mas, defeitos menores à parte, é um dos grandes discos da década e deixou mossa, pelo que será legítimo ter grandes expectativas em relação a este Neon Bible.
Quem, como eu, tinha a remota esperança que a urgência e excelência de temas como "Laika" tivessem continuidade neste novo capítulo da vida do grupo de Montreal vai sair de Neon Bible com uma ligeira sensação de desapontamento. Em vez disso, com o recurso aos préstimos de uma orquestra húngara, o lado pomposo, épico e orquestral saem a ganhar na maioria dos temas. No entanto, o som abafado presente na maioria da obra levanta algumas questões em relação às opções da produção.
Coincidência, ou não, aqueles que muitas vezes são os temas dos quais pode depender o sucesso de um disco, são em Neon Bible os momentos menos conseguidos: o tema de abertura ("Black Mirror"), o tema-título e o primeiro single ("Intervention"). Neste último chega mesmo a ser confrangedor detectar as fragilidades da voz de Win Butler perante tamanha magnitude.
Num todo onde a sensação de déja vu é um fantasma omnipresente, os momentos de redenção acabam por ser os mais atípicos no "som Arcade Fire". Primeiro com a adição dos banjos a conferirem um travo folky a "Keep The Car Running" e, perdida lá no meio do disco, a beleza da springsteeana "(Antichrist Television Blues)". Com alguma condescendência, poderemos ainda destacar "No Cars Go", o tema mais catchy e funcional de Neon Bible e onde, por uma vez, o violino não tem aquele som de assobio irritante.
Mesmo assim, honra seja feita aos Arcade Fire que, preparados para entrar no estádio, encerram o seu ingresso no território arena rock com o exercício lo-fi de "My Body Is Cage", o que prova que ainda não renegaram de todo as suas raízes e deixa alguma esperança para um futuro que se espera melhor.