"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Ao vivo #102

















METZ + Cangarra @ Galeria Zé dos Bois, 13/02/2013

Para quem, como eu, nunca teve a oportunidade de assistir a um concerto dos Nirvana pós-1991, a ZdB proporcionou ontem algo ainda mais exclusivo: os Nirvana de 1989/90. E ainda os Big Black com uns pozinhos de Jesus Lizard e de algum post-punk britânico. Referir assim, de forma tão descarada as influências dos METZ, não deve ser entendido como pejorativo. Isto porque o trio canadiano assimila tais referências com tal honestidade e tal brio que só pode ser saudado pelos adeptos de uma boa chinfrineira à maneira de antigamente. É esse o entendimento da turba que na noite passada, mesmo a meio de uma semana de trabalho, encheu o "aquário" para uma sessão de fustigamento noise-rock. Contam-nos que, na véspera, já a cidade Invicta proporcionara idêntica recepção. Feito mais notável se atentarmos que o interesse em torno dos METZ não é fruto dos fazedores de "fenómenos" institucionalizados, apenas algo derivado da curiosidade de quem assume a música como uma paixão verdadeira independentemente de modas e tendências.

Num concerto curto a rondar os 45 minutos de duração, penso que nenhum dos presentes se terá sentido defraudado. O tempo, que incluiu um pequeno encore com guitarra emprestada depois dos maus tratos às cordas durante o "período regulamentar", foi o bastante para a banda desfilar a totalidade do seu bombástico álbum de estreia. Preservando a energia até ao último fôlego, o trio, e em particular o vocalista/guitarrista Alex Edkins, não parou de incitar à dança e à libertação de suor. O público respondeu à altura, inclusive com pernas pelo ar, a voar sobre as cabeças. Não obstante algumas queixas quanto ao volume do som, algo abaixo do que era expectável da audição do disco e de algumas crónicas de concertos avulsas, penso nada haver a apontar ao técnico responsável, que proporcionou a equalização perfeita para uma sala com as características da ZdB. Da massa sonora vinda do palco, com muita distorção e berraria, sobressai a principal qualidade dos METZ, uma unicidade entre a guitarra, o baixo, e a bateria, como se se tratasse de um monstro tricéfalo que arrasa tudo em seu redor. 

A aquecer o ambiente estiveram os 'tugas Cangarra, dupla que integra metade dos Lobster, banda que é uma verdadeira instituição do underground nacional que tem espalhado as suas sementes - leia-se dois elementos - por uma miríade de projectos. Nestes caso, o envolvido é o baterista Ricardo Martins, com uma proposta cujas semelhanças com a banda-mãe vão muito para além do díptico guitarra-bateria. No entanto, se estes fossem os Lobster, já os teríamos num estágio avançado daquele noise em bruto que os notabilizou. Neste projecto, e a avaliar pela única (e longa) peça apresentada, a "viagem" sónica e mental é uma prioridade. O soco no estômago deu lugar a algo mais ponderado, diria até mais cerebral. Há, portanto, passagens por diferentes ambiências, desde o noise tecnicista, ao psych mais pesadão. Algumas ideias talvez ainda careçam de limagem, mas fica da prestação dos Cangarra a memória de terem cumprido aquilo a que se lhes pedia: um aquecimento ajustado para uma noite de chinfrim que ecoará nestes tímpanos por mais alguns dias.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Dores de ouvidos

















Num passado não muito distante, o Canadá andava nas bocas do mundo musical. Não se passava uma semana sem que, nessa blogosfera, não assistíssemos ao incensamento de uma nova banda praticante de uma pop entendida como "erudita". Perante o deslumbramento de hordas de novos burgueses, na produção musical do país da folha de ácer parecia não haver espaço para a urgência rock, essencial para o chamamento das novas gerações à melomania. Até que, há pouco mais de três anos, entraram em cena os Japandroids e com eles revisitou-se aquele período de inícios de noventas em que as guitarras desalinhadas ameaçavam dominar o mundo.

À celebrada dupla de Vancouver, e salvas as devidas distâncias estéticas, juntam-se agora os METZ, trio de Toronto que promete não deixar pedra na facção mais abrasiva do indie-rock actual. Com um álbum homónimo disponível comercialmente desde hoje (ouvir na íntegra aqui), estes três rapazes de aspecto perfeitamente normal, culminam um processo que já se desenrola desde 2009 na demanda de impressionar as almas rock mais inquietas, sedentas de uma descarga de adrenalina sónica como há muito não se ouvia. Generoso no volume, METZ remete-nos para uma certa brutalidade que marcou pontos naquele mesmo período da década de 1990, trazendo à liça memórias da aridez de gente como os Jesus Lizard, os Shellac, os Unsane, ou até os Nirvana dos primórdios. Além disso, as projecções do som e a demência latente remetem-nos para alguns dos sons mais desafiadores da era post-punk, relembrando algumas experiências de gente como Public Image Ltd. ou The Pop Group. Porém, a força unitária da banda vale muito mais do que a soma de todas essas partes. Como se de um monstro de três cabeças se tratasse, o poder demolidor da bateria, a incisão da guitarra, as linhas viciosas do baixo, e a fúria berrada da voz, encontram-se num uníssono que é bem capaz de deixar muita boa gente boquiaberta.


"Headache" [Sub Pop, 2012]