"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A decadência em tons de negro














Um pouco à semelhança de muitos confrades da actual "cena" californiana, Luis Vasquez sofre de hiper-actividade. À parte o envolvimento nos mui recomendáveis e psicadélicos Lumerians, fez nome como The Soft Moon, projecto assumidamente solitário que só em palco se alarga a trio. Foi sob esta designação que, recta final do ano transacto, deu à estampa um excelente álbum homónimo, plenamente imerso nas facções mais minimalistas e soturnas do post-punk. Com algumas afinidades com a nação gótica, The Soft Moon mereceu comparações com Joy Division, Bauhaus, ou The Sisters of Mercy. Porém, embora estejam lá, as referências não traduzem por si só a singularidade da proposta de Vasquez.

Desenvolvimento natural daquela obra, o novo Total Decay rende-se a um certo abstraccionismo que anula os resquícios de canção que ainda afloravam no antecessor. Igualmente envolto num espesso negrume que deixa transparcer o isolamento do acto criativo, este EP de quatro temas sabe esquivar-se à previsibilidade das "novas" sonoridades coldwave, supostamente na ordem do dia. Uma vez mais original na abordagem, tem um certo travo  "industrial", lembrando em "Repetition" a frieza mecânica dos Cabaret Voltaire, e em "Alive" as desconstruções de uns já distantes Nine Inch Nails, ainda do tempo em que estes tinham alguma relevância. Em ritmo lento de marcha fúnebre, o tema-título é, apesar da maior presença do elemento humano, uma porta de entrada num mundo gélido e obscurecido. De mais difícil digestão no imediato que o álbum de estreia, Total Decay consegue, contudo, repetir os ambientes envolventes daquele. 

"Total Decay" [Captured Tracks, 2011]

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Em escuta #55













THE SOFT MOON _ The Soft Moon [Captured Tracks, 2010]

Em editora que geralmente celebra o sol, a praia e a diversão, Luis Vasquez e o seu projecto The Soft Moon são o anjo negro, a criatura que celebra a noite e a escuridão. Tudo neste disco, supostamente de confecção caseira e solitária, é denso, tenso, sombrio e opressivo. Ou melhor, tudo excepto um ou outro apontamento surf-rock que se entrevê por entre a densa nebulosa de ruído branco que estrangula as vozes distantes e sofridas. Rótulos dispensam-se, tal a disparidade de tendências reconhecíveis que Vasquez combina neste apelativo convite à entrada no mundo das trevas. Por uma vez, e por alguns instantes, sejamos todos "góticos", daqueles "à maneira antiga". [7,5]


TORO Y MOI _ Causers Of This [Carpark, 2010]

No horizonte próximo há já um novo disco, que se anuncia de pendor mais "orgânico". Por ora, e com algum atraso, vai-se ainda digerindo o debute que revelou o projecto pessoal de Chaz Bundick como nome maior do chamado hypnogogic, uma das "tendências" que marcaram o ano transacto. Nesse largo espectro que sugere sons lisérgicos e atmosferas diáfanas, Chaz pertence à facção "electrónica", com um pé na pista de dança, outro na solidão do quarto. Causers Of This consegue os seus intentos quando o ouvinte se deixa toldar pelo dualidade frio/calor que resulta da combinação dos materiais sintéticos com a humanidade das vozes, normalmente em falsetto. Quando, na parte final, envereda por uma toada nas margens do disco, a coisa resvala para próximo dos sons que normalmente preenchem as compilações com as palavras "chill" e "Ibiza" impressas na capa. [7]


BRITISH SEA POWER _ Valhalla Dancehall [Rough Trade, 2011]

Três anos exactos desde o ambicioso e desequilibrado Do You Like Rock Music? e os BSP regressam à origens, deitando para trás das costas as tentações por um certo arena-rock que aquele denunciava. Quem os conhece bem, já sabe que o apelo pela grandiosidade não se extingue, antes sublima-se em canções de forte cunho emotivo que invocam o romantismo de uns Bunnymen ou de uns Furs. A reboque vêm as viragens bruscas para um rock descarnado movido por guitarradas desenfreadas. Isto, sem esquecer uma propensão proggy, algo que já não é mero devaneio e que o novo tomo até parece realçar. Com uma duração para além do que é corrente, Valhalla Dancehall aguenta-se graças a uma certa aura de mistério que advém da ambiguidade das letras, prendendo o ouvinte no mundo de fantasia e saudável loucura habitado pelos BSP e que faz deles um caso isolado na produção indie-rock britânica deste novo século. [7,5]


LOWER DENS _ Twin-Hand Movement [Gnomonsong, 2010]

Temporariamente desaparecida dos radares, Jana Hunter foi uma das primeiras revelações femininas do chamado freak-folk, apadrinhada pelo próprio guru do "género" Devendra Banhart. É precisamente através da editora dele (e de Andy Cabic, dos Vetiver) que se estreia enquanto frontwoman dos Lower Dens, um quarteto mais de acordo com os parâmetros indie-pop, facção dreamy. E que estreia, meus caros amigos! Os versados na coisa, vão reconhecer de imediato parentescos com o lento crepitar dos saudosos e apaixonantes Galaxie 500, o que, embora possa parecer redutor, é sempre de saudar. Olhando mais fixamente, detecta-se o elemento folky, não extinto, mas na medida certa e comum a muitas das mais interessantes expressões indie norte-americanas de hoje e de sempre. Contudo, a banda não se inibe com a calmaria dominante, e parte sem pudores para longas jams instrumentais carregadas de estridência e distorção. É neste habitat supostamente hostil que se ergue a voz (e que voz!) de Hunter, em serviços mínimos, mas calorosa, emotiva, e profundamente harmoniosa. Com T-HM, que chega tarde aos ouvidos para ingressar do top ten de 2010, mas a tempo para a merecida exultação, os Real Estate passam a ter companhia no seu bonito mundo em tons sépia. [8,5]