"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
Mostrar mensagens com a etiqueta Thurston Moore. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Thurston Moore. Mostrar todas as mensagens

domingo, 6 de abril de 2014

Ao vivo #116
















Sun Kil Moon + Thurston Moore @ Casa da Música, 29/03/2014

Para começar, uma confissão: não sou daqueles incondicionais que têm os Red House Painters no top das preferências da tendência sad/slowcore com mais de vinte anos. No entanto, sinto-me impressionado por uma boa meia dúzia de temas, mormente do trio inicial de álbuns, e pela voz de Mark Kozelek, capaz de condensar toda a tristeza do mundo mesmo que nos alheemos das palavras. O desinteresse foi crescendo com o avolumar da obra, e prolongou-se para o vasto catálogo subsequente, tanto em nome próprio como à frente do projecto Sun Kil Moon. De modos que, mesmo no auge da quase indigência, quando Kozelek era presença assídua no nosso país, nunca senti o estímulo para assistir a um dos seus concertos. A necessidade de colmatar tal lacuna foi provocada pelo recente e excelente Benji, pretexto também para a visita periódica e obrigatória à Invicta.

No espectáculo integrado em mais uma edição do Clubbing da Casa da Música, é precisamente esse trabalho que preenche na íntegra o alinhamento. Acompanhado por um trio de músicos (teclas, guitarra eléctrica e bateria) Kozelek apresenta-nos boa parte do álbum, baseado em memórias da infância e da juventude, com histórias povoadas pela sombra da morte mas com uma considerável dose de bom humor. Apesar da temática, este é seguramente a faceta mais upbeat conhecida do músico, progressivamente mais afoito e aventureiro na guitarra e com aquela voz - quase inexpressiva mas infalível - capaz de encher o mais amplo dos templos. Do concerto registe-se a capacidade de reproduzir cada tema quase a papel químico da sua versão gravada, pormenor que pode não conter o efeito surpresa, mas com o condão de preservar cada detalhe da complexidade destas canções, porém aparentemente simples numa audição desinteressada. Para o par de temas final, Kozelek ergue-se, larga a guitarra, e apenas de microfone em punho numa penumbra que contrasta com os holofotes que iluminam o trio acompanhante, mostra-se capaz de representar o entertainer. Ou, pelo menos, a antítese deste.

Perante a toda acústica do primeiro concerto da noite, seria expectável que Thurston Moore enveredasse pela mesma via, trazendo ao palco temas recolhidos do último par de álbuns em nome individual. Ao invés, o ex-Sonic Youth, à frente de um trio no qual pontifica o velho companheiro Steve Shelley na bateria, fez questão de mostrar os seus créditos ao serviço da manipulação da electricidade. O alinhamento assenta num novo álbum no horizonte, e será certamente ao desconhecimento por parte do público, mas também às muitas semelhanças entre temas, que fica a dever-se a recepção algo morna. Para fugir à monotonia, por um par de vezes Moore entre pela divagação free, aplaudida por muitos, rejeitada por outros tantos, mas bem demonstrativa das suas capacidades com uma guitarra em punho. Para o final, talvez o momento alto, pela revisitação de "Ono Soul", tema do já distante Psychic Hearts (1995), e paradigma daquele limbo entre a pop e o experimentalismo em que Thurston Moore é figura de proa.

segunda-feira, 11 de março de 2013

(I Want To Go To) Chelsea














Embora os comunicados da altura fossem vagos quanto ao futuro, vários indícios levam-me a crer que a anunciada paragem dos Sonic Youth seja mesmo definitiva. Ora, se o principal motivo para tal foi a separação de Kim Gordon e Thurston Moore, não me parece que a banda faça sentido sem um daqueles dois membros fundadores, ambos, e por diferentes motivos, fundamentais. Além disso, é preciso não esquecer que este último tem dedicado muito do seu tempo à carreira a solo, agora mais preocupado com canções intimistas de cariz acústico, e menos com as descargas de distorção de outrora.

Porém, ainda parece existir em Thurston Moore a vontade de se reunir em bandas, apenas e só com o intuito de manter vivo o espírito punky e niilista que o moveu há mais de trinta anos. Esse espírito materializa-se nos Chelsea Light Moving, quarteto no qual se junta a músicos com currículo nos meandros do psych mais profundo. No entanto, o resultado de tal encontro, reunido num álbum homónimo, é um trabalho mais abrasivo e dissonante que qualquer um dos Sonic Youth editaram na última dúzia de anos da sua discografia "linear". Diria até que Chelsea Light Moving é uma espécie de súmula das diferentes fases do desenvolvimento da vida da mítica banda de Nova Iorque. Apesar de um par de temas remeterem para as introspecções recentes de Moore, os delírios guitarrísticos são a nota dominante. Assim, temos indie-pop de cariz noisy ("Sleeping Where I Fall" e "Alighted"), reminiscências da crueza hardcore (a versão de "Communist Eyes", dos Germs), interlúdios dissonantes dos tempos da no-wave ("Groovy & Lisa", "Lip"), abrasão de distorção e dreivações sludgy ("Burroughs"), e divagações spoken word ("Mohawk"). Sem trazer propriamente nada de novo ao currículo de Thurston Moore, que envolve uma contínua exploração das potencialidades de uma guitarra eléctrica, Chelsea Light Moving é a feliz constatação de que nele ainda sobrevive o entusiasmo que o leva a trazer o experimentalismo para meio pop/rock, para gáudio dos inúmeros adeptos de uma boa dose de "barulho".

Burroughs by Chelsea Light Moving on Grooveshark
[Matador, 2013]

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Ao vivo #94

















Thurston Moore c/ Gabriel Ferrandini & Pedro Sousa + Sunflare @ Galeria Zé dos Bois, 04/10/2012

Se há concertos com um ambiente estranho, o de ontem à noite, incluído nas comemorações do 18.º aniversário da ZdB foi um deles. Devido há "dimensão" da estrela do cartaz, mais do que ao simbolismo da data, o público acorreu em massa. Contudo, e como se previa pela dupla portuguesa que o acompanhava, Thurston Moore não trazia na bagagem nada da sua mais recente e intimista faceta, muito menos as derivações noise-pop/rock que lhe deram fama nos Sonic Youth. Perante a radicalidade da proposta apresentada, assente num free-jazz da variante ruidosa, a reacção do público mais incauto foi de uma frieza assinalável. Refira-se que a postura do trio em palco, sem uma única palavra dirigida à assistência, também não favoreceu a empatia.

Digamos que o concerto abriu em alta, com uma longa peça de alternância de ritmos e texturas. Nesta, os espasmos guitarrísticos de Moore surgiam constantemente desafiados pelos ataques dissonantes do saxofone tenor de Pedro Costa, numa espécie de duelo de sons extremos que terminou num mar de distorção. Daí em diante, e com o refrear das expectativas iniciais, também as jams em palco entraram também numa toada mais morna. As duas ou três peças que se seguiram ao assalto sónico inicial enveredaram por uma sucessão de sons avulsos a carecer de alguma consistência. Do trio de músicos destaque-se a prestação do baterista Gabriel Ferrandini, jovem baterista já com invejável currículo no "género" que revelou uma assinalável precisão nas constantes alternâncias de velocidade e engrenagem. Quanto à "estrela" do cartaz, digamos que apresentou uma destreza única na demonstração das potencialidades de uma guitarra, pese embora a inconsequência detectada a espaços.

Na abertura do serão estiveram os portugueses Sunflare, trio que integra o guitarrista Guilherme Canhão (dos recomendáveis Lobster) e que começa a dar que falar lá por fora nas publicações "da especialidade". Do que pude discernir no meio da conversa do lado de fora do "aquário", a banda alinha por longas derivas instrumentais banhadas de distorção suficientemente envolventes. Contudo, pareceram-me ainda algo derivativos de alguns nomes grandes da música dedicada à "expansão da mente" como os Hawkwind ou os Comets on Fire, algo que, estou em crer, a banda saberá dissimular num futuro próximo.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Em escuta #59











GANG GANG DANCE _ Eye Contact [4AD, 2011]

Em relação aos GGD, tenho de admitir que nunca me senti particularmente seduzido pelas colagens surrealistas dos primórdios. E que também não foi a mudança estética do anterior e mui celebrado Saint Dymphna que me fez render ao colectivo nova-iorquino. Já o novo álbum (o quinto) é outra loiça... Caracterizado pela solidez e intersecção entre temas, Eye Contact é o estado actual da pop, num mundo acelerado e miscigenado culturalmente, materializado num disco. Para o melting pot concorrem melodias arabizantes, propulsões rítmicas dançantes, funk electrificado e abastardado, pedaços de velhas canções napolitanas, batidas tribalistas, revisões das "danças" de noventas, e o que mais vier à cabeça dos GGD. Sobre a unidade dos diferentes elementos, pairam os sintetizadores em estado líquido, em perfeita fusão com o exotismo da voz de Lizzi Bougatsos, uma espécie de Liz Fraser rendida ao esplendor multicolor dos ritmos. [8,5] 


IMPLODES _ Black Earth [Kranky, 2011]

Banda pouco dada à luz intensa, estes debutantes de Chicago vivem num mundo gelado e obscurecido. Amigos do ruído e das atmosferas densas, resgatam heranças noise e da psicadelia. Escondidas sob as camadas de reverberação, as guitarras e a voz debatem-se para se erguer nas trevas. Nos melhores momentos, que compõem quase metade do disco, os Implodes conseguem os seus intentos, ao criar um ambiente de um frio glaciar que seduz por via de um hipnotismo soturno. No resto, que são os temas que ali parecem estar para encher, falta-lhes engenho para criar algo mais que descargas de distorção arrastadas. Talvez, um futuro próximo, traga maior clarividência de ideias. [6]


GIRLS NAMES _ Dead To Me [Tough Love / Slumberland, 2011]

Poderiam vir da costa oeste dos states, mas não, estes Girls Names são uma daquelas bandas que muito esporadicamente são geradas na conturbada Irlanda do Norte. E digo que poderiam porque têm todas as marcas identitárias do noise-pop - derivado dos seminais Black Tambourine - que por estes dias germina livremente por aquelas paragens. Há falta de traços distintivos, porém, exibem um invulgar sentido melódico que se manifesta em canções escorreitas, divididas entre um sol tímido e uma cave obscurecida, ou a meio caminho entre a exultação surfy e a seriedade introspectiva. A isto adiciona-se um alarmante travo vintage, e está lançada a hipótese de como soariam os Crystal Stilts se convivessem mais horas com a luz do dia. [7,5]


LET'S WRESTLE _ Nursing Home [Merge, 2011]

Sem grande alarido, os Let's Wrestle lá são firmando como um dos valores seguros da "nova" música britânica, ao ponto de já terem assegurado transferência para uma das maiores independentes do outro lado do Atlântico. Esta proeza é tão mais notável se tivermos em conta que são uma banda que não encaixa em qualquer das tendências que presentemente movem as massas. O seu maior trunfo talvez seja o conhecimento que têm, como poucos, dos truques com que cose uma boa canção rock, facção punky galhofeira, matéria que amiúde afloram nas letras. Por conseguinte, Nursing Home é, sem grande novidade, mais um disco pejado de temas de guitarras picadinhas e voz de puto reguila, que não aspiram a mais do que alimentar o espírito lúdico de banda e público,  Desta feita, como bónus, oferecem um trio de temas em ritmo mais refreado, os quais, mais não são do que tiradas de um apurado sentido de humor, progressivamente de uma subtileza mais refinada. Aos comandos esteve Steve Albini que, pasme-se!, conseguiu fazer deste o registo mais alinhado com a "alta fidelidade" dos londrinos. À memória vem idêntico trabalho desenvolvido com os Wedding Present em Seamonters (1991), embora, claro, no caso dos Let's Wrestle sem o rigor sombrio daqueles. [7,5]


THURSTON MOORE _ Demolished Thoughts [Ecstatic Peace / Matador, 2011]

Não deixa de ser curioso constatar que, tal como o velho compincha J Mascis, outro embaixador da guitarra enquanto máquina fazedora de ruído, também o cabecilha dos Sonic Youth enverede pela via acústica na mais recente aventura em solitário. Mas, se aquele apostava sobretudo na nudez da canção, sublinhada pela quase solidão da guitarra, Thurston Moore investe mais na elaboração de um ambiente (soturno), deixando muitas vezes que longos devaneios instrumentais preencham a ausência das palavras. A acompanhar a guitarra, há um enchimento por via dos sintetizadores, da harpa, ou do violino, com este último a realçar o pendor melancólico que percorre o disco. Produzido por Beck, Demolished Thoughts acusa a imponência da sonoridade luxuriante dos trabalhos mais introspectivos do wunderkind. Por acaso, ou talvez não, remete para Sea Change (2002), o exercício de expiação da dor-de-corno perpetrado pelo rapaz encarregue da produção. Desconhecem-se é quaisquer desavenças no lar do casal Gordon-Moore... [7]

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Meio século sónico



















Thurston Joseph Moore
completa hoje 50 anos de vida. Na impossibilidade de o fazer pessoalmente, a gerência do tasco envia daqui um grande abraço ao aniversariante.