"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Desenterrar o passado
















Embora não gozem da mesmo estatuto em território europeu, em casa as Sleater-Kinney são aquilo a que se pode chamar uma instituição, um expoente da fervilhante cena musical do noroeste estado-unidense. Com alguma desconfiança, pode até argumentar-se que as moças de Portland souberam apenas capitalizar o estilhaço riot grrrl que as antecedeu, bem como a atenção posta na vizinha Seattle em inícios de noventas. No entanto, tais alegações serão tremendamente injustas com o percurso ímpar de uma banda que, sem abdicar de um teor altamente politizado (essencialmente feminista), nunca se rendeu à estagnação. Afinal, não são muitas as bandas que se podem gabar de um legado de sete álbuns, sem pontos baixos, e em constante e subtil progressão. Do lote altamente conistente, contudo, é imperativo destacar um par de discos, um da sonoridade mais directa da primeira fase, outro da complexidade adquirida do período avançado. Falamos, obviamente, do terceiro Dig Me Out (1997), e primeiro em que a baterista Janet Weiss se juntou às guitarristas/vocalistas Corin Tucker e Carrie Brownstein para constituir a formação clássica que perduraria até à despedida, e do derradeiro e avassalador The Woods (2005). Perante o brilhantismo deste último, foi com alguma estupefacção que recebemos a notícia da separação em 2006, suavemente anunciada como um "hiato por tempo indeterminado".

Desde então, Corin dedicou-se à família e a uma discreta carreira a solo, enquanto Carrie e Janet se reuniram no super-grupo Wild Flag, projecto breve que rendeu apenas um álbum homónimo, ao qual o tempo ainda concederá o estatuto de clássico. A última fez também parte dos The Jicks, a banda que tem acompanhado o ex-Pavement Stephen Malkmus. Porém, cada aparição de qualquer das três com novo projecto, era sempre motivo para manifestação da nostalgia das Sleater-Kinney. Para que os infiéis possam entender toda a importância atribuída ao trio como um dos mais relevantes colectivos do rock no feminino, a novíssima caixa retrospectiva Start Together é ferramenta indispensável. Digo-vos que inclui a totalidade da obra gravada numa edição limitada a 3000 exemplares em vinil colorido, sendo que também é possível adquirir cada um dos sete álbuns remasterizados individualmente, em CD ou no convencional vinil negro, e sem os habituais brindes dos boxsets. Além de extremamente apetecível, o pacote completo tem um preço quase proibitivo, pelo que, pode ser extremamente útil para atestar amizades pelo Natal. Não obstante, a melhor das prendas é algo não propriamente material: o regresso das Sleater-Kinney ao activo, algo que os mais optimistas já profetizavam com o fim abrupto das Wild Flag e a saída de Janet Weiss dos The Jicks. O boato confirmou-se, e até há já álbum novo no horizonte, com edição prevista para Janeiro do ano próximo e com título genérico No Cities To Love. Há até um primeiro avanço em formato single, incluído como bónus em Start Together. A julgar pelo aperitivo, será um regresso das Sleater-Kinney a crueza "punkóide" dos primórdios. Portanto, um recomeço, completo que foi o anterior ciclo evolutivo.

"Bury Our Friends" [Sub Pop, 2014]

sábado, 9 de agosto de 2014

Batcave
















Aproveitamos a viagem até à Nova Zelândia do último post e ficamos por lá mais um pouco. Não é que no distante arquipélago estejam a ocorrer novidades em número comparável ao da vizinha Austrália, mas toda e qualquer reedição das pérolas do baú da Flying Nun Records é sempre digna de nota neste blogue. Aproveitamos a deixa para uma breve referência à edição expandida de Anthology, a compilação de 2002 que resumia a primeira vida dos The Clean, banda que foi pedra-de-toque no chamado Dunedin Sound mesmo sem ter editado qualquer álbum, mas espalhando a sua influência além-fronteiras para bandas como Yo La Tengo ou Pavement. Quando suspenderam actividades abruptamente em 1982 (só as retomariam no começo da década seguinte), o baixista Robert Scott fundou os The Bats, banda de formação mais ou menos estável que tem mantido uma actividade regular nestes mais de trinta anos, algo que não podemos dizer de outros notáveis do catálogo da mítica editora, como The Chills e The Verlaines. O nível qualitativo em alta tem sido também uma constante, e o último álbum Free All The Monsters (2011) é mesmo um dos melhores espécimes da pop amadurecida e outonal do passado recente.

Até ao aprimorar daquele último registo foi um longo caminho, como de resto se pode aferir pelo conjunto de reedições recentemente levadas a cabo pela incansável Captured Tracks. De uma penada, a editora nova-iorquina acaba de lançar em vinil os três primeiros registos em formato grande dos The Bats, a saber: Compilitely Bats (1987), compilação dos três EPs do período formativo que vem acrescentada de faixas avulsas e raridades da mesma era; Daddy's Highway, primeiro álbum do mesmo ano; e The Law Of Things (1990), segundo álbum acrescido do EP Four Songs (1988) e vários outtakes. Se o preço do pacote de cinco rodelas estriadas é praticamente proibitivo, mais em conta, e com os mesmos 53 temas no conteúdo, é o 3 CD boxset The Bats: Volume 1, título que presume futuros desenvolvimentos no programa de reedições. Do todo temos de destacar o disco do meio, inteiramente dedicado ao primeiro álbum, recheado de enormes canções jangle-pop a meio caminho entre o optimismo romântico e o quase desespero, não totalmente diferente daquilo que os vizinhos The Go-Betweens andavam a congeminar na mesma altura. Se aos The Bats ainda não pertence o estatuto de lenda daqueles congéneres australianos, mas porque nunca é tarde, Volume 1 pode muito bem ser um passo nesse sentido. Ora oiçam e acrescentem mais esta paixão à vossa vida!

 
"Block Of Wood" [Flying Nun, 1987]

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Sonhos de toupeira














Por esta altura, decerto que já deverão ter ouvido pelo menos falar dos Cardinal. Se não for esse o caso, digo-vos, com toda a franqueza, que não o que andam a fazer neste mundo. A título adicional, gostava ainda de vos dizer que o álbum homónimo que editaram em 1994, apesar de ter passado despercebido a muita boa gente, tornou-se com tempo objecto de um culto fervoroso, um autêntico tratado de qualquer coisa como a pop de câmara/orquestral/barroca (riscar o que não interessa). Esse trabalho, concebido em Boston com alguns colaboradores locais, é fruto do génio do australiano Richard Davies, complementado pelos arranjos luxuosos do americano Eric Matthews. O primeiro encontrava-se ali deslocado por razões sentimentais, depois de ter seguido a sina de muitos artistas conterrâneos e tentar a sorte, sucessivamente em Nova Iorque e Londres, com a sua banda prévia: The Moles.

Deixando a dica de que Cardinal foi (mais uma vez) reeditado recentemente, hoje é destes últimos que me apetece falar-vos, até porque, tentando combater a obscuridade a que foram votados, acabam de ser alvo de uma retrospectiva integral da (escassa) obra numa única edição. De título genérico Flashback And Dream Sequences, o disco duplo tem selo precisamente da britânica Fire Records, neste momento a principal editora responsável pela revitalização do passado e presente da música das antípodas. Num total de 35 temas, inclui os dois álbuns da banda - Untune The Sky (1991) e Instinct (1994) -, bem como todas as canções originalmente espalhadas por uns escassos pequenos formatos. Se os pergaminhos de Richard Davies nos Cardinal, assim como a tradição das bandas clássicas australianas (The Go-Betweens, The Triffids), pode fazer crer que também os The Moles eram dados a um romantismo maior que a própria vida, desenganem-se, pois estes estavam na realidade mais sintonizados com as bandas da vizinha Nova Zelândia da década anterior à da sua existência. Assim, em Flashback And Dream Sequences podem encontrar o mesmo espírito indie-pop imperfeito, salpicado de psicadelismo e kraut, que habitava nos trabalhos seminais de gente como Tall Dwarfs, The Clean, The Chills. Refira-se ainda que estes últimos têm especial impacto ao nível da essência pop das canções. No entanto, apesar da opção pela imperfeição, no último longa-duração, que é na prática já um trabalho a solo de Richard Davies creditado à marca The Moles, já são audíveis alguns ímpetos orquestrais.

Resta acrescentar que, movido pelo súbito reavivar do interesse na banda, Davies decidiu reactivar o projecto The Moles, embora com diferentes acompanhantes. Há até planos para um álbum futuro que, a julgar pelo single de avanço, parece justificar a ressurreição. Sugiro que aproveitem o limitado Flashback And Dream Sequences, e que estejam preparados para receber o novo trabalho com o conhecimento da obra passada desta pequena mas belíssima obscuridade.

Bury Me Happy by The Moles on Grooveshark
[Seaside, 1991]

Eros Lunch (1963) by The Moles on Grooveshark
[Flydaddy, 1994]

quinta-feira, 27 de março de 2014

Conspiração do barulho














Passados uns bons vinte anos desde os grandes acontecimentos, o universo post-hardcore norte-americano ainda contém matéria de estudo suficiente para quem procura na música a vertigem que falta à produção actual. Se por um lado foi este o habitat de nascimento de "celebridades" como os Nirvana, ou de objectos de culto firme como os Fugazi e os Girls Against Boys, por outro ainda guarda semi-obscuridades cujo reconhecimento público não foi consentâneo com a excelência da obra discográfica. Um dos exemplos mais flagrantes é o dos Unwound, um trio formado em 1991 no fervor indie da zona de Olympia, no mesmo noroeste que pariu os tais Nirvana. A dissolução ocorreu em 2002, um ano depois da edição de Leaves Turn Inside You, um duplo álbum complexo e profundo que era o culminar de um trajecto em crescendo de ambição (frustrada).

Se aquele derradeiro trabalho dos Unwound até goza de um culto digno de registo, toda a anterior discografia da banda raramente é referida nos resumos de noventas. Para tentar corrigir a história ninguém melhor que o Numero Group, selo que se tem notabilizado na recuperação de excelentes discografias relativamente esquecidas, como já antes aconteceu com a dos nova-iorquinos Codeine. Sendo estas reedições em vinil, tanto melhor, pois no caso dos Unwound era este o formato predilecto. A empreitada agora em marcha processa-se por etapas, com vários box sets, o primeiro dos quais foi Kid Is Gone no final do ano passado, com um apanhado bastante exaustivo dos primórdios da banda. Se aquelas gravações primárias são mera curiosidade para completistas, a nova Rat Conspiracy é verdadeiramente imprescindível. Nesta edição tripla podem encontrar o segundo e terceiro álbuns, respectivamente Fake Train (1993) e New Plastic Ideas (1994), ambos assistidos pelo reputado produtor Steve Fisk, figura intimamente ligada ao "som do noroeste", e aqueles em que se revelou a real valia do trio. No primeiro dos discos está resumido o código genético dos Unwound, num lote de temas prenhes de tensão, alternando longos devaneios instrumentais abrasivos com as explosões espasmódicas da berraria de Justin Trosper. Já no segundo, refina-se a fórmula, ao mesmo tempo que se evidenciam heranças post-punk britânicas, expressas tanto no sentido arty de uns Wire como na claustrofobia de uns Joy Division. Como bónus, a terceira rodela reúne temas da mesma fase incluídos em 7'' e em compilações avulsas, bem como resultados de sessões radiofónicas e alguns inéditos. A acrescer, Rat Conspiracy é objecto de apurado trabalho gráfico, no qual se incluem testemunhos na primeira pessoa que dão conta das condições precárias que rodeavam a concepção destes excelentes discos.

Valentine Card / Kantina / Were, Are And Was Or Is. by Unwound on Grooveshark
[Kill Rock Stars, 1993]  

Envelope by Unwound on Grooveshark
[Kill Rock Stars, 1994]

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Do you like Paul Verlaine?
















Embora não seja matéria abundantemente aflorada nas enciclopédias pop, é indesmentível o contributo do chamado Dunedin Sound da Nova Zelândia, criado à volta da lendária Flying Nun Records, no moldar de uma sonoridade da "América alternativa" de noventas. Embora obscura, esta referência está tão presente em bandas como os Pavement ou os Superchunk quanto o estão as iminências post-punk britânicas. À cabeça, é obrigatório referir nomes como Tall Dwarfs, The Clean e The Chills, bandas com uma linguagem muito própria, com laivos de psicadelismo e em regime de baixa fidelidade, embora recuperadora de toda a rebeldia rock que as precedeu, dos Velvet Underground aos Modern Lovers, de Captain Beefheart aos Television. Estes últimos tiveram especial impacto na música dos The Verlaines, banda normalmente não apontada como pioneira como as citadas, mas talvez com maior projecção extra-muros que aquelas. Ainda se encontram activos no presente, depois de inúmeras alterações no line-up, sempre à volta do constante líder Graeme Downes, e a editar com uma regularidade que faz inveja aos seus pares.

Depois dos seminais Toy Love, que por sinal se extinguiram ainda antes da fundação da Flying Nun, são, com alguma surpresa, os Verlaines os contemplados no programa de reedições da editora neozelandesa previsto pela norte-americana Captured Tracks. E logo em pacote duplo, no qual se estranha a não inclusão de Bird Dog (1987), segundo e mais representativo álbum da banda que lhe valeu intensa rotação nas college radios americanas, mesmo antes dos The Chills terem augurado semelhante proeza. Ao invés, a opção recaiu sobre o debute Hallelujah All The Way Home (1985), disco ainda algo imberbe, com canções em estado bruto, dado o seu registo num jangle algo rudimentar. Mais apelativo será Juvenilia, compilação originalmente editada em 1987 e que reúne a totalidade dos temas até então editados em singles e EPs. É um documento que, além de abrangente, permite aferir os progressos da banda, da rudeza inicial ao engrandecimento das canções posterior, sempre altamente romantizadas e aproximarem-se tenuemente do pompa da big music. No alinhamento sobressai "Death And The Maiden", canção pop de primeira água e um quase-hit. É da letra desse tema que se extrai o título acima, referência ao poeta francês que originou o nome da banda mas também o nome artístico adoptado por Tom Verlaine, líder dos Television, denunciado o forte cunho literário das composições de Graeme Downes, bem como os seus tutores musicais. Oiçam, e de seguida corram a comprar, se não ambos os discos, pelo menos o imprescindível Juvenilia.

 
"Death And The Maiden" [Flying Nun, 1983]

domingo, 15 de julho de 2012

O sol quando nasce não é para todos















Quando se fala de slow/sadcore ocorrem-nos os nomes dos Galaxie 500 e dos American Music Club como pioneiros, ou os dos Red House Painters e dos Low como vedetas da "cena". No entanto, dada a definição que o rótulo encerra, penso que não haverá no meio banda mais paradigmática do que os Codeine. No curto período que estiveram activos, entre 1990 e 1994, estes nova-iorquinos foram também um dos nomes mais sui generis do "género", com uma aproximação relativamente mais experimental e ruidosa da coisa do que os seus pares, como que estabelecendo a ponte entre a urgência post-hardcore e a contemplação post-rock. Para a posteridade deixaram uma singela obra de três registos: os álbuns Frigid Stars (1990) e The White Birch (1994) e o EP Barely Real (1992). Confesso que a minha preferência recai sobre o primeiro, embora de forma algo relutante, pois qualquer dos trabalhos dos Codeine é marcado pela mesma carga dramática, os mesmos ambientes claustrofóbicos, as mesmas notas repetidas com todo o vagar do mundo, e mesmas guitarras ríspidas a sublinhar os momentos de maior tensão. Se estão a pensar chamar-lhes repetitivos, chamem-lhes antes coerentes ou homogéneos.

Se o baterista Chris Brokaw cedo abandonou para se dedicar ao papel de guitarrista nos aparentados Come e se notabilizar em múltiplas colaborações com outros músicos, e o substituto Doug Scharin ocupou o tempo pós-Codeine em bandas de um espectro que vai do slowcore ao math-rock, passando pelo post-rock (Rex, June of 44, HiM), de 1994 para cá pouco ou nada se soube do vocalista/baixista Stephen Immerwahr e do guitarrista John Engle. A dupla voltou a ser falada só muito recentemente quando, juntamente com Brokaw, anunciou o regresso aos palcos. Desta ressurreição da qual se desconhecem outros planos já beneficiei com a presença num belíssimo concerto na última edição barcelonesa do Primavera Sound, concerto obviamente apinhado de devotos acérrimos. A ocasião proporcionou também a reedição quase obrigatória da obra integral dos Codeine, há muito fora de catálogo. A tarefa ficou a cargo do Numero Group, casa especializada neste género de edições com embalagens sempre cuidadas. Ao alinhamento original de cada disco foram acrescidos inúmeros temas extra (demos, Peel sessions, temas ao vivo) em edições duplas, tanto em vinil como em CD. O preço unitário é que não é o mais apelativo, mas ainda assim é bem mais acessível do que o da luxuosa caixa When I See The Sun, composta pelos mesmos três registos em ambos os formatos. Caso ainda gozem de algum desafogo nestes tempos de contenção orçamental, tentem a vossa sorte, mas sem demasiadas esperanças, pois consta que o pacote é limitado a 1000 exemplares.

 
"Loss Leader" [Sub Pop, 1994]

sexta-feira, 4 de maio de 2012

It's everything!

















No que concerne aos My Bloody Valentine já é com significativa descrença que os devotos recebem cada notícia, tal o número de vezes que, no últimos vinte(!) anos, a banda dá o dito pelo não dito. Já nem vale a pena vale a pena acreditar num eventual sucessor do colossal Loveless (1991), recentemente prometido por Kevin Shields (mais uma vez) para muito breve. No que toca à reedição remasterizada desse mesmo disco, e do anterior Isn´t Anything (1988), convém lembrar que as primeiras notícias distam já mais de dez anos no tempo. Sabemos agora que, a somar à propalada inércia de Shields, o projecto foi também adiado por motivos de ordem contratual, com desaparecimento súbitos de fitas originais incluídos.

Porém, e  numa analogia com aquela história do miúdo e do lobo, tanto se apregoa a chegada de algo que um dia esse algo chega quando já ninguém acredita. Isto a propósito da garantia definitiva da reedição da dupla de álbuns dos My Bloody Valentine no começo da próxima semana, para já apenas em suporte CD mas com o vinil da ordem do dia prometido para uma data futura. Loveless, que no seu tempo se destacou pela introdução de novos métodos de gravação, criando desde então uma vasta legião de seguidores, será merecedor de edição em formato de disco duplo com duas diferentes remasterizações. A cereja no topo do bolo é, porém, a edição simultânea de EPs 1988-1991. Isto porque aqueles formatos editados pelos MBV no período assinalado estão há algum tempo fora do mercado. Também em disco duplo, a compilação reúne um total de 23 temas, três deles nunca antes editados. Pela amostra que vos deixo, sou levado a concluir que poucas bandas se podem gabar de ter temas "oficiais" ao nível das "sobras" dos MBV.


 "Good For You" [Sony-BMG, 2012]

sábado, 31 de março de 2012

Discos pe(r)didos #62








GNR
Defeitos Especiais
[Vadeca, 1984]




É natural que as novas gerações olhem para os portuenses GNR como o fenómeno de massas, a banda que encheu estádios e salas de grandes dimensões com o seu pop/rock conformista da primeira metade de noventas. Esses mais novos não têm idade suficiente para ter conhecido a banda no seu auge, seguramente a mais aventureira no espectro portuga de oitentas, indiscutivelmente pop sem enjeitar algumas tendências vanguardistas. Portanto, na altura em que a banda fazia jus ao nome simplificado na sigla que muitos confundem com o de uma certa corporação - Grupo Novo Rock.

Olhando para trás, não deixa de ser caricato pensar que esse período dourado, e consequentemente a posterior consagração massiva, poderiam nunca ter ocorrido. Isto se os GNR têm levado por diante a ideia que ditou uma breve dissolução, precipitada pelo abandono, com apenas o primeiro álbum editado, do fundador Vítor Rua rumo aos Telectu, estes bem mais distantes da estandardização pop. Também Alexandre Soares, o mago da guitarra, abandonou temporariamente, mas cedo reconsiderou a opção e juntou-se ao vocalista e letrista Rui Reininho e ao baterista Toli César Machado, bem como a novo baixista Jorge Romão, os quatro compondo a formação que embarcaria na mais bela aventura pop operada em Portugal.

Escutando hoje Defeitos Especiais, o segundo álbum e o primeiro desta segunda vida - que acaba de ser reeditado para gáudio de uma vasta falange e curiosidade de outra mais curta -, facilmente se afere que o quarteto, liberto do controlo de Rua, dá largas à creatividade ao mesmo tempo que inflecte para uma sonoridade mais acessível. Como já foi dito, esta acessibilidade não significa que os GNR tenham posto de lado os seus impulsos vanguardistas. A grande conquista, e neste particular apenas com correspondência nuns Mler Ife Dada, é um certo sentir indubitavelmente lusitano numa linguagem pop com origens anglo-saxónicas. A este respeito, escutem-se o doce "Muçulmania", com ecos que vão do Alentejo ao Norte de África, ou o erótico "Mau Pastor", espécie de valsa popularucha que merecia trazer a sofisticação aos arraiais desse Portugal profundo. Para quem julga estes GNR como meros seguidores dos Talking Heads, eles comunicam o desquite com o funk no bilingue "I Don't Feel Funky (Anymore)", número que cruza o doo-wop com a canção ligeira italiana. Mais convencional para o parâmetros post-punk da época, e talvez por isso o tema mais rodado de todo o disco, "Piloto Automático" é uma celebração boémia que não perdeu o seu imediatismo com estes quase trinta anos volvidos. Passando para a secção mais arriscada do ecléctico Defeitos Especiais, temos de referir um trio de temas: o tenso "Absurdina", mergulhado em ecos e com o Reininho mais animalesco que se conhece; o global "A Última Vaga", que põe o Médio Oriente em contacto com o mundo ocidental sob algumas concessões às electrónicas; e o pulsante "Pershingopólis", manifesto anti-armamento em plena Guerra Fria que percorre territórios country-western.

À riqueza de pormenores e à variedade estilística, Defeitos Especiais junta ainda aquela que sempre foi a marca mais distinta dos GNR: as letras engenhosas de Reininho. Nesta fase ainda preservam todo a sua força subversiva, algo que afrouxou com decorrer dos anos, naturalmente. Com um domínio da Língua Portuguesa ímpar no universo pop 'tuga, o vocalista consegue ser corrosivo ("Absurdina"), perverso ("Mau Pastor"), auto-complacente ("Desnorteado"), ou senhor dos melhores jogos de palavras ("A Última Vaga"). Este estado de graça conheceria novos desenvolvimentos no subsequente Os Homens Não Se Querem Bonitos (1985), e continuidade no fenómeno de vendas Psicopátria (1986), este a beneficiar de um renovado interesse na música moderna feita em Portugal. Depois disso, veio a curva descendente sob os olhares das massas, interrompida aqui e ali com algumas ideias interessantes.


"Piloto Automático"


"Mau Pastor"


"Pershingopólis"

quinta-feira, 1 de março de 2012

Kid pre-A
















Tempos houve, antes dos proveitos retirados do sucesso dos Franz Ferdinand ou dos Arctic Monkeys, em que a Domino Records era casa quase certa de toda a música pop mais desafiadora que se fazia no Reino Unido. Nesse tempos em que o risco e a aventura eram uma prioridade, uma das contratações da editora londrina foram os Hood, colectivo de Leeds que, desde 1991, gira há volta dos irmãos Chris e Richard Adams. Praticantes de uma música de cariz reflexivo, em que a electrónica e os instrumentos analógicos convivem sem diatribes, os Hood estiveram na base, juntamente com os Talk Talk, os Bark Psychosis, ou os Disco Inferno, daquilo a que um dia Simon Reynolds chamou post-rock, muito antes de o "rótulo" ficar quase exclusivamente colado a uma certa forma de fazer rock instrumental progressivamente mais enfadonho. Ouvintes atentos devem ter sido os Radiohead, que de há uma meia dúzia a esta parte andam a vender a fórmula às massas, abertas à "esquisitice" desde que praticada pelas suas vacas sagradas.

Se a "provocação" da última frase vos espicaçou a curiosidade, recomendo-vos vivamente Recollected, a caixa de seis CD que a Domino acaba de lançar numa edição limitadíssima. No pacote podem encontrar a totalidade da obra dos Hood desde o início da ligação a editora, nomeadamente os quatro álbuns, uma compilação com os temas dos singles e dos EPs, e um disco com as raríssimas Hood Tapes. De fora, por razões óbvios, ficou o par de álbuns prévio lançado pela excelsa Slumberland. Do todo, destaca-se a obra-prima Cold House (2001), também merecedora de reedição isolada em vinil. Ponto de encontro de discretas pinceladas de guitarra e piano com a electrónica glitch, e com algumas derivações jazzísticas, Cold House é um disco granuloso, introspectivo e com um algum apelo pastoral que, grosso modo, resulta como uma espécie de Arab Strap depois de uma (suave) injecção de ritmo. À voz de Chris Adams, normalmente próxima de uma cadência spoken word, juntam-se Doseone e Why?, dois terços dos seminais cLOUDDEAD. São eles os responsáveis pelos "rappanços" alienados num trio de temas, contributo decisivo para o pendor esquizóide do conjunto.


"They Removed All Trace That Anything Had Ever Happened Here" [Domino, 2001]


"Useless" [Domino, 1997]

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Medicinas alternativas












Embora de génese britânica e com maior impacto em terras de Sua Majestade, a vaga shoegaze também deixou marcas do outro lado do Atlântico. Com algum atraso e menos originalidade, é certo, mas são muitos os casos de bandas norte-americanas de noventas alinhadas com o "movimento", bem antes do revivalismo a que assistimos de há uns anos a esta parte. Um dos casos mais visíveis é o dos Medicine, banda californiana onde pontificavam Brad Laner e Shannon Lee, eles que habitualmente aternavam vozes ao melhor estilo boy/girl dos "padrinhos" My Bloody Valentine. Tiveram a honra de assinar pela American Recordings, a editora do peso-pesado Rick Rubin, e mereceram distribuição europeia pela Creation Records, a casa-mãe oficiosa do shoegaze. Estiveram activos até 1995 e regressaram em 2003, agora apenas para perpetuar as conquistas do passado.

Concentremo-nos então na fase da vida dos Medicine que realmente importa, a dos primórdios. É precisamente esse período que merecerá a atenção da iniciativa The Shoegaze Archives da Captured Tracks, mais concretamente com a recuperação dos dois primeiros álbuns: Shot Forth Self Living (1992) e The Buried Life (1993). O par de discos, com reedição apontada para a próxima Primavera, é paradigmático das sonoridades shoegaze tipicamente americanas, substancialmente mais melódicas que as britânicas e com as vozes a sobressaírem com mais evidência das cascatas de distorção. Portanto, não venham aqui à procura das torrentes sónicas dos Ride ou das atmosferas carregadas dos Slowdive. Esperem antes encontrar uma versão distorcida da frescura dos Lush. Antes, porém, a mesma editora prepara um rebuçadinho para os melómanos ávidos de objectos raros, na forma de 7" de tiragem limitada que reúne "Time Baby II" e "Miss Drugstore", provavelmente os dois temas mais memoráveis de toda a obra dos Medicine. Convido-vos a escutar o primeiro, na sua versão original, mais simples e eficaz do que aquela que apareceria na banda sonora do filme The Crow, arruinada pela opulência da produção.


"Time Baby II" [Creation, 1993]

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Backgazing
















Para além de ser uma das mais estimulantes editoras independentes da América actual, no que a "descobertas" diz respeito, a Captured Tracks começa também a representar um importante papel no campo das reedições. Ainda há relativamente pouco tempo, a editora nova-iorquina fez chegar ao mercado compilações de dois dos tesouros mais bem guardados do indie britânico de ointentas: The Servants e The Wake. Em qualquer dos casos, e na eventualidade de não haver motivos musicais para a aquisição das rodelas, poderíamos sempre invocar a importância das bandas por terem integrado, em determinada altura do seu trajecto, dois figurões da década seguinte, respectivamente Luke Haines (The Auteurs) e Bobby Gillespie (Primal Scream).

Dando asas à veia arqueologista do fundador Mike Sniper (também mentor dos Blank Dogs), a Captured Tracks tem prevista uma série de reedições dedicadas às obscuridades shoegaze. A iniciativa leva o apropriado título The Shoegaze Archives. Pelo primeiro par de lançamentos anunciados, mais lá para finais de Novembro, somos levados a pensar que a coisa de baseie na facção norte-americana do movimento, persistente no tempo muito para além do desvanecer da "cena" original britânica. Um deles é A Folding Sieve, único EP de toda a carreira dos texanos shiFt que, à semelhança do que aconteceu há uns anos, será expandido e creditado aos Should, designação assumida pela banda até à actualidade. O outro é Oceanside 1991-1993, compilação que reúne os EPs dos jersianos deardarkhead naquele período além de outras curiosidades. Pelas amostras, somos levados a pensar que os primeiros enveredam por uma via mais abstraccionista, enquanto os últimos optam por uma sonoridade de atmosferas diáfanas. Ambos, conclui-se, são bem merecedores de um "estudo" aprofundado.


shiFt (Should) _ "Faded" [N D, 1995]


deardarkhead _ "Oceanside" [Fertile Crescent, 1992]