"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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terça-feira, 19 de novembro de 2013

Walking on thin ice

















Parece que ainda foi ontem, mas já passou praticamente uma década desde que, nas franjas do rock, as milhentas ramificações do noise estavam na ordem do dia. Entretanto, muitos dos nomes associados a esse surto súbito desapareceram do mapa, a maioria regrediu ao reduto ultra-underground de onde provinha. Em sentido contrário, os Magik Markers são um dos raros casos de ganho de visibilidade, sacrificando para isso alguns princípios, e aproximando-se de um modus operandi mais estandardizado. Na memória de uns quantos que tiveram a felicidade de assistir a qualquer concerto do trio do Connecticut nos primeiros tempos ainda permanece a imagem da banca de merchandise, recheada de dezenas de edições, por entre álbuns propriamente ditos, CD-Rs e 7'' de tiragem limitadíssima. Esse frémito de criação só abrandou quando a banda ficou reduzida ao duo da vocalista/guitarrista Elisa Ambrogio e do baterista Pete Nolan. Foi com esta formação que lançaram Boss (2007) e Balf Quarry (2009), dois álbuns de distribuição alargada, com aproximações claras ao formato de canção, facção sónica.

Numa banda caracterizada pelo impulsividade dos primeiros tempos, já se estranhava a falta de novidades desde há quatro anos. Neste hiato, os Magik Markers voltaram a ser um trio, com a inclusão do baixista John Shaw, e prepararam, em períodos alternados, o novíssimo álbum Surrender To The Fantasy. Alegadamente gravado entre o sótão de J Mascis e a cave dos pais de Ambrogio, este é, segundo a banda, um disco resultado do reavivar do prazer de compor em regime jam, agora sob uma perspectiva "adulta". Pelas condições em que foi concebido, é, obviamente, um disco caracterizado pela baixa fidelidade, embora com o conjunto de canções mais dignas desse nome que os Magik Markers já nos ofereceram. Há a ligá-las uma estranha sensação de fragilidade, apenas interrompida nos breves instantes em que a banda ainda se deixa tentar pelos espasmos noisy. A voz de Elisa Ambrogio, outrora colérica, é agora contida, muitas vezes apenas um murmúrio, outras enevoada por uma rugosidade subtil. Umas vezes surge acompanhada apenas pela guitarra acústica, outras também pelo lamento de um violoncelo, outras ainda pelas texturas de velhos sintetizadores, quase sempre com um silvo de distorção a irromper no horizonte. Para quem segue os Magik Markers desde há algum tempo, Surrender To The Fantasy poderá ser um disco que se estranha, com fortes probabilidades de se entranhar. Para os outros, este poderá ser ponto de partida para a relação com uma banda em momento de viragem, eventualmente para algo de maior.

 
"Ice Skater" [Drag City, 2013]

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Em escuta #42








PINK MOUNTAINTOPS Outside Love [Jagjaguwar, 2009]

Ao terceiro registo do projecto pessaol paralelo aos Black Mountain, Stephen McBean propõe-se esmiuçar as questões do amor e do ódio, como se de um romance cheesy de Danielle Steele se tratasse. É o próprio quem o afirma e a capa de Outside Love não o desmente. Musicalmente, há uma vontade - pelo menos até ao segundo tema - em conjugar uma certa grandiosidade southern rock com o fuzz dos Mary Chain. No resto, McBean oferece-nos o lado mais contido e reflexivo da sua banda principal maquilhado pela reverberação spectoriana. [7]


MAGIK MARKERS Balf Quarry [Drag City, 2009]

Longe vão os tempos em que os Magik Markers eram conhecidos pelo abstraccionismo ruidoso. Tal como o anterior BOSS, o novo disco apresenta um conjunto de canções dignas desse nome, ainda que sabotadas pela estrutura pouco convencional, e obviamente alinhadas na corrente desalinhada iniciada pelos Sonic Youth nos idos de oitenta. O que distingue Balf Quarry do antecessor é a maior panóplia de soluções apresentadas, tanto na voz de Elisa Ambrogio, agora mais confiante e eclética, como na instrumentação, com maior recurso ao piano e aos sons acidentais. Não abolido em definitivo o ruído, os elementos folk e blues começam a ganhar terreno. [7,5]


HANDSOME FURS Face Control [Sub Pop, 2009]

Contrariamente à ebulição desorientante dos Swan Lake "de" Spencer Krug , seu colega nos Wolf Parade, Dan Boeckner opta por um minimalismo grintante, tanto de meios como de formas ,neste segundo longa-duração dos Handsome Furs, projecto que divide com a esposa. Basicamente, Face Control resume-se a electrónicas primitivas e drum machines, entrecortadas pela voz monocórdica e lementosa de Boeckner e, mais esporadicamente, por uma guitarra dissonante. No final, fica a sensação de se ter ouvido o mesmo tema doze vezes. [5]


THE VANDELLES Del Black Aloha [edição de autor, 2009]

Olha-se para a capa, lê-se o título, e a imaginação vagueia de imediato pelas paisagens idílicas do Hawaïi. E, apesar de o negrume imperar, se olhar-mos bem de perto, conseguimos vislumbrar a luminosidade das melodias surf rock estão lá, imersas na muralha de distorção e vozes abafadas. Discípulos dos Mary Chain e similares, é certo, mas senhores de uma linguagem muito própria que faz dos pedais a sua ferramenta predilecta. Não desiludirá todos aqueles que ficaram impressionados com a devastação perpretada pelos A Place To Bury Strangers há coisa de dois anos. [7,5]

segunda-feira, 21 de abril de 2008

AO VIVO #14

Magik Markers + Pumice @ Museu Nacional de Arte Contemporânea, 19/04/2008

Quando os vi pela primeira vez, num concerto memorável há coisa de três anos na ZdB, os Magik Markers (MM) eram um trio praticante de um certo noise rock da velha guarda em que a experimentação tinha rédea larga.
Neste regresso, surgem reduzidos a um duo, depois da saída da baixista Leah Quimby em 2003 , e trazem na bagagem Boss, o elogiado registo do ano passado que marca o encontro dos MM com o formato canção, muito na linha dos gurus Sonic Youth da "fase pop" (Goo, Dirty). Imutável permanece uma certa propensão para o improviso.
Talvez por força das limitações impostas pelo formato duo, nesta espécie de matinée para trintões patrocinada pela Filho Único, as canções surgem nitidamente transfiguradas, como que tentando contornar o vácuo criado pela ausência de um baixo. Assim, os temas mais arrastados, como "Circle" a abrir a sessão, surgem com as partes instrumentais esticadas até ao infinito em exercícios de pura abstracção. Nestes segmentos, o protagonismo da performance bizarra da frontwoman Elisa Ambrogio prende a atenção do público. Por contraponto, os temas mais enérgicos ("Body Rot", por exemplo) são servidos a uma velocidade vertiginosa, com a voz quase imperceptível. No arrepiante "Bad Dream/Hartford's Beat Suite" (com o baterista Pete Nolan na guitarra e um elemento da assistência nos sininhos), os MM optam - e bem - por ser fiéis ao original para criarem o melhor momento de toda a actuação. Para encerrar com chave de ouro, nada melhor do que esse docinho chamado "Taste".
Uma prestação competente e informal, quase em família, em que senti apenas a falta do assombroso "Last Of The Lemach Line", e que fica ainda marcada por um pequeno insólito da enorme placa que constitui a "parede falsa" atrás do palco a ameaçar abater-se sobre banda depois de ter sido usada como meio de percussão pela vocalista/guitarrista. O amplificador junto à mesma acabou por evitar a queda mas não evitou a estupefacção no público.

Antes dos MM, passou pelo "palco" Pumice, uma espécie de "mini-one man band" (com bombo, tarola, guitarra electro-acústica, fitas gravadas de distorção, e uma excelente voz) que é o alter ego do neo-zelandês Stefan Neville. Música fracturada, submersa no caldeirão do americana, mas com curiosos desvios que vão desde o pioneirismo DIY dos Swell Maps até à pop sonhadora do contingente da conterrânea Flying Nun. Uma bela descoberta que irá merecer aprofundamento.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

EM ESCUTA #21

MAGIK MARKERS
Boss (Ecstatic Peace, 2007)

Dos MAGIK MARKERS (MM) guardo a recordação de uma excelente performance, ainda em formato trio, no palco da ZdB em finais de 2005. O palco sempre me pareceu, aliás, o ambiente natural para o noise rock fortemente enraízado nos ensinamentos da no wave desta banda do Connecticut. Terão sido estas características que atraíram a atenção dos Sonic Youth que os convidaram para algumas primeiras partes e, consequentemente, os MM assinaram pela editora de Thurston Moore.
Chegados a 2007 reduzidos ao duo Elisa Ambrogio (voz, guitarra) e Pete Nolan (bateria), e fruto de um constante work in progress documentado nos inúmeros CD-Rs gravados, contando com Lee Ranaldo na produção (que também dá uma mãozinha nas guitarras), os MM operam em Boss uma autêntica revolução no seu percurso, propiciando comparações a alguns contágios pop em cenário sónico de bandas como The Breeders, Helium ou Belly. Os maiores exemplos deste estado de coisas são também as duas maiores surpresas de Boss: a balada ao piano de "Empty Bottles" e a beleza planante da electro-acústica "Bad Dream". No extremo oposto a estes temas estão os resquícios de maior experimentalismo , seja o silvo dos primeiros instantes do inicial "Axis Mundi", sejam os loops fantasmagóricos do derradeiro "Circle".
Extremismos à parte, os grandes momentos de Boss resultam de um saudável equlíbrio entre os diferentes elementos: as melodias circulares e a voz lânguida de Ambrogio hipnotizam durante os nove minutos de "Last Of The Lemach Line", e "Taste" é um tema cativante que poderia resultar da união de esforços dos Sonic Youth e Patti Smith, com o baixo dos Morphine.
No seu espectro, duvido que Boss tenha paralelo em tempos mais recentes, pelo que, penso ser quase obrigatório para todos os apreciadores do género. Vejam uma pequena amostra aqui.