"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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segunda-feira, 21 de março de 2011

Em escuta #57











CLOUD NOTHINGS _ Cloud Nothings [Carpark, 2011]

Cloud Nothings é o veículo musical de Dylan Baldi, mais um puto norte-americano que encontrou no pop-punk o escape para a inesgotável energia juvenil. Em temos de afinidades musicais está próximo de gente como os No Age ou os Wavves, o que desde logo denuncia afeição pelo lo-fi ruidoso. Porém, mais do que nos casos citados, Cloud Nothings aposta sem pruridos na melodia e na limpeza da produção, resultando daí uma receita pop vitaminada, com as inevitáveis inflexões surf, que pisca o olho a inúmeras glórias indie-rock (Pixies, Guided by Voices, Apples in Stereo, ou Teenage Fanclub, para citar apenas alguns). Assimiladas as fontes, o único aspecto a merecer trabalho de casa é a voz nasalada, à qual se recomenda maior contenção. [7,5]


WYE OAK _ Civilian [Merge, 2011]

É com alguma estranheza que verifico a relativa obscuridade a que tem sido votada a dupla Wye Oak, especialista no contraste entre quietude e descarga sónica. E tenho a quase firme certeza que o seu destino não mudará com este terceiro disco. O que será uma tremenda injustiça, pois Civilian assinala o aprimorar da fórmula dos antecessores, com uma dezena de temas seguros e encorpados. À dicotomia guitarra-bateria, a banda adiciona agora alguns apontamentos electrónicos que sublinham os momentos mais explosivos. A toada reflexiva dominante é propiciada por um meio termo entre a dream-pop e o rock tipicamente noventista, aqui e ali com um laivo folk a despontar. Civilian é também a coroação de Jenn Wasner, dona de uma voz peculiar entre o abandono e o expressivo, como uma das mais dotadas executantes femininas à guitarra. [8]


SIC ALPS _ Napa Asylum [Drag City, 2011]

Outrora executantes de uma música fracturada, na qual os resquícios de canções pareciam querer libertaram-se, os Sic Alps investem agora numa maior objectividade. Napa Asylum foi gravado de forma a soar a disco de outras eras, mais concretamente à segunda metade de sessentas, cujo espírito das célebres Nuggets pretende recuperar. Sucede que os 22 temas (em apenas 47 minutos) são normalmente demasiado curtos para deixar fluir o ambiente psych pretendido. Como se não bastasse, soam, na sua maioria, a meros esboços de canções praticamente indistintos entre si. Infelizmente, confirmam-se em disco algumas das piores expectativas criadas da última vez que os vi em palco. [4]


SEEFEEL _ Seefeel [Warp, 2011]

O título é enganador, pois pode sugerir um trabalho de estreia. Mas os Seefeel já cá andam há quase duas décadas, embora o título homónimo interrompa um silêncio de 15 anos. Conforme anunciado pelo EP do ano passado, Seefeel segue a via da electrónica de pendor abstraccionista, carregada de estática e vozes submersas e alteradas. O elemento humano, a cortar a frieza dominante, é a bateria, normalmente esparsa e numa cadência vagamente jazzística. Portanto, a milhas de distância do hipnotismo planante e das texturas densas do marcante Quique (1993), do qual apenas o downtempo de "Rip-Run" é uma ligeira evocação. Não sendo propriamente um disco de ingestão fácil, Seefeel ganha, com sucessivas audições, estatuto de banda-sonora indicada para o quotidiano impessoal e acelerado dos dias que correm. [7]


THE TWILIGHT SINGERS _ Dynamite Steps [Sub Pop, 2011]

Por esta altura, Greg Dulli já contará tanto tempo à frente dos Twilight Singers como aquele que liderou os Afghan Whigs. Como tal, é natural que, à excepção da devoção soul, a herança destes últimos se vá desvanecendo. Diria até que este quinto registo do "novo" projecto é uma possível súmula do trabalho pós-Whigs: baladas enegrecidas adornadas a piano eléctrico e arranjos de cordas a preceito, tipicamente Singers, alternadas com a fúria das guitarras experimentada nos Gutter Twins. Em termos de letras, retomam-se as crónicas dullianas das batalhas libidinosas ("spread your legs in search of alibis" canta-se a plenos pulmões em "On The Corner"). Portanto, nada de particularmente novo para os seguidores mais próximos que, inclusive, poderão detectar alguma previsibilidade. Detectarão também, com mais agrado, que a voz não propriamente maleável de Dulli ultrapassa as limitações e vai amadurecendo com sapiência, ao ponto de ofuscar em absoluto os convidados Joseph Arthur, Anni DiFranco, e o granítico Mark Lanegan. [6,5]

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Ao vivo #29















Six Organs of Admittance + Wooden Shjips + Sic Alps @ Caixa Económica Operária, 07/11/2008

De uma penada, a Caixa Económica Operária recebeu três diferentes propostas da cena californiana. Foi na passada sexta-feira e, em breves resenhas, este escriba conta como foi.

Sem grandes atrasos relativamente ao previsto, coube aos Sic Alps abrir o serão musical. Em cerca de 45 minutos, com os dois membros a alternar entre a bateria e a guitarra, ofereceram ao público aquilo que deles se esperava: desconstrutivismo rock na veia dos Swell Maps, com os dois pés na garagem e a vista fixa no espaço. Caóticos e ruidosos, foram nitidamente prejudicados por alguns problemas técnicos. Nada que os tenha impedido de proporcionar alguns momentos de enérgica intensidade.

Após um breve intervalo, seguiram-se os Wooden Shjips, quarteto liderado por Erik Johnson, um verdadeiro freak fascinado pelo lado mais tribal e ácido do psicadelismo de sessentas. Com um som imponente e algum groove, começaram por prender a atenção de uma boa fatia do público aos primeiros temas. Com o decorrer do concerto - excessivamente longo -, a música dos Wooden Shjips começa a soar algo repetitiva, o que motiva muitos abandonos a meio da contenda. Tecnicamente, os músicos são irrepreensíveis (o baterista, então, é de uma precisão maquinal), mas fiquei com a impressão de que, se retirássemos a abusiva drone machine e o efeito da voz "projectada", a música perderia metade da sua força. No fundo, um daqueles casos em que as ideias resultam melhor em disco do que em palco.

Finalmente, o prato principal. E que prato!...
Ao contrário do que acontecera há dois anos na passagem do alter ego Six Organs of Admittance, Ben Chasny optou desta feita por apresentar um naipe de temas em que a voz é presença constante. Uma escolha sensata só possível graças ao extenso e heterogéneo repertório disponível. Como bónus adicional, do terceiro tema em diante, o músico, até aí solitário, passou a contar com a preciosa ajuda de Elisa Ambrogio (em voz e guitarra) e de um dotado baterista que denota filiações jazzísticas. Neste ponto, o concerto entra numa viagem de verdadeiras convulsões emocionais, com Chasny e a líder dos Magik Markers a entoar duetos emocionados, ora frágeis, ora em explosões de ruído e distorção. John Fahey reunido com Will Oldham e os Sebadoh da primeira safra poderia ser apenas uma imagem parcial dos acontecimentos...
Ao fim de mais de uma hora de puro deleite musical, saiu reforçada a minha admiração por Ben Chasny, um músico talentoso e multi-facetado, com uma entrega e uma humildade invulgares, capaz, como poucos, de proporcionar momentos para mais tarde recordar.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

California über alles

Há uma série de miúdos que, a partir das garagens da Califórnia, parecem apostados em revolver o cadáver do rock'n'roll a partir das entranhas. Foram mantidos na obscuridade durante algum tempo, mas agora tomaram de assalto as ruas e os lares dos melómanos mais esclarecidos.
A dupla conhecida como Sic Alps já tem alguns anos de estrada e acaba de editar o segundo longa-duração, o qual, beneficiando da conjuntura, tem merecido um inesperado destaque nos media mais improváveis. Descendente directo das linhagens punk-DIY e lo-fi, U.S. EZ é um conjunto de catorze temas curtos, em que uma pop transviada convive saudavelmente com algum psicadelismo e uma boa dose de non sense. Prevejo que seja um regalo para os saudosistas dos Swell Maps, dos Pavement, ou dos Guided by Voices.
O melhor de tudo isto é que, no próximo mês, os Sic Alps estarão de regresso ao nosso país para três datas: as duas primeiras são em Lisboa e Porto (7 e 8, respectivamente), numa triple bill com os mui recomendáveis Six Organs of Admittance (de Ben Chasny) e Wooden Shjips; no dia 9, rumam sozinhos à mais bela e setentrional capital de distrito de Portugal para um concerto com a chancela do meu caro camarada Nuno.