"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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sábado, 1 de outubro de 2011

Good cover versions #58















14 ICED BEARS _ "Coming Down" [Thunderball, 1989]
[Original: The United States of America (1968)]



Colectivo de breve existência, os angelinos The United States of America são um dos segredos mais bem guardados do movimento contra-cultura que agitou o país que lhes deu o nome em finais de sessentas. Renderam apenas um álbum, único também na proposta que apresentava, com pretensões arty e orientada algures na intersecção de diferentes projectos mais conhecidos da mesma época. Assim, assimilavam elementos de diferentes proveniências, tais como o positivismo acidificado dos Jefferson Airplane, a exploração electrónica pioneira dos Silver Apples, ou até os encantos enegrecidos dos Velvet Underground com Nico.  Acredite-se ou não, esta sonoridade tão peculiar teve forte impacto em projectos recentes como os finados Broadcast, influência que, de resto, os próprios nunca refutaram. Na sua curta duração, inferior aos três minutos, "Coming Down", um dos temas desse álbum único, é a súmula perfeita da combinação dessas diferentes sensibilidades.

Igualmente originais no contexto das bandas nascidas da explosão indie propiciada pela C86, porque rendidos ao então demodé psicadelismo, os britânicos 14 Iced Bears seriam certamente conhecedores desta e de muitas outras obscuridades do género. Por inerência, tiveram direito à sua reinterpretação de "Coming Down", relativamente fiel ao original mas, ainda assim, em linha com outras expressões indie contemporâneas. A primeira diferença significativa que ressalta das duas versões é a voz, feminina e encantada no original, masculina e imberbe na releitura. Embora substancialmente menos dados aos delírios hedonistas que alguns dos seus pares mais célebres, os 14 Iced Bears têm aqui uma inusitada concessão ao groove. Como resultado, a espaços, temos a sensação de estar na presença de uma variação empoeirada do brilho multicolor com que, à época, os Stone Roses agitavam as massas.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Discos pe(r)didos #55








14 ICED BEARS
14 Iced Bears
[Thunderball, 1988]




Hoje praticamente esquecidos pelas massas consumidoras de música, em tempos idos, os 14 Iced Bears foram uma das mais laudadas bandas da explosão indie da segunda metade de oitentas. Nascidos em Londres sob a égide das premissas da C86, assentaram arraiais na cidade de Brighton. Foi nessa sede que desenvolveram uma linguagem musical muito própria, que à raiz indie juntava uma indisfarçável devoção pelos sons da psicadelia de outras eras. E isto numa era de relativo desprezo pelas heranças dos sixties...

O primeiro álbum, homónimo, é bem demonstrativo da invulgar proposta dos 14 Iced Bears. A abrir, "Take It" é momento único em todo o reportório da banda, com uma tempestade de fuzz que liberta silvos de feedback. Nas vezes do refrão inexistente, uma rajada de distorção lança algumas das sementes dessa vertente da pop ruidosa a que se convencionou chamar shoegaze. Devidamente alinhadas no espírito psych, tal como professado pelos 13th Floor Elevators, pelos United States of America, ou por outras luminárias afins, são "Train Song" (tomado pelo ritmo vertiginoso), "Florence" (que evolui do difuso para uma espiral caocofónica), e Spangle (a expirar ares de "garagem"). No segmento intermédio de 14 Iced Bears, o quarteto investe todo o seu poder lisérgico, com uma dupla de semi-canções-de-embalar. Em "Moths", uma guitarra lânguida realça o tom terno da voz de Rob Sekula, enquanto "Hay Fever" envereda por uma via mais melodiosa, com discretas harmonias vocais incluídas. Outra faceta da banda, bem mais da acordo com o seu tempo, é expressa em temas como "Dust Remains" e "Cut", ambos em consonância com a facção indie letrada e sensível da qual foram expoentes The Housemartins e The Smiths. No último, significativamente mais jangly, os dedilhados característicos de um Johnny Marr espreitam a cada recanto. Para o encerramento fica guardado "Surfacer", o tema mais longo de todo o alinhamento e que lança pistas para o regime jam aflorado no subsequente Wonder (1991).

Depois de escassos dois álbuns, e um número razoável de singles, os 14 Iced Bears encerraram actividades em 1992, incapazes de remar contra a maré de bandas de guitarras que chegavam do outro lado do Atlântico. Recentemente, e de forma algo discreta, renderam-se ao mercado da saudade e reagruparam-se para alguns concertos. Por estas bandas, cruzam-se os dedos para que aterrem no cartaz de um "certo" festival do país vizinho.


"Take It"


"Florence"


"Cut"