"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel

domingo, 30 de dezembro de 2012

Classe de 2012


De uma forma geral, o ano que agora termina não confirmou a tendência de recuperação do antecessor, um oásis qualitativo na produção musical da última meia dúzia de anos. Não foi, contudo, um ano de má colheita. Diria até que foi um ano bastante equilibrado, o que dificultou o escalonamento do top pessoal, ao qual apenas faltaram em quantidade aqueles discos que ouviremos dentro de uma década com o mesmo entusiasmo. Foi em 2012 que Bill Fay interrompeu um silêncio com quatro década e arrancou o título de "disco para gente crescida" do ano. Porém, a ter de eleger uma figura do ano, optaria sem hesitações por Ty Segall, o puto-maravilha que se destacou, não só pela quantidade, como pela qualidade da obra editada. Tal como ele, outros jovens músicos se apresentaram em bom plano em 2012, um ano em que os neófitos parecem ter ombreado com "veteranos" e regressados à linha de combate. Foi também em 2012 que fortaleci o renovado interesse pelas sonoridades electrónicas, algo que já se manifestava tenuemente no último par de anos. Neste espectro, a tabela dos melhores álbuns está bem representada. Quanto a concertos, este talvez tenha sido o ano de maior fartura, nestas mais de duas décadas de vida a rock'n'rollar, com alguns deles a entrarem para aquele grupo restrito dos concertos de uma vida. Com os votos de que 2013 seja um ano ainda mais positivo, a todos os níveis e para todos nós, passo ao que realmente interessa:

30 ÁLBUNS















  1. SPIRITUALIZED - Sweet Heart, Sweet Light
  2. JULIA HOLTER - Ekstasis
  3. LOWER DENS - Nootropics
  4. METZ - METZ
  5. SWANS - The Seer
  6. TEETH - The Strain
  7. CLOUD NOTHINGS - Attack On Memory
  8. BEACH HOUSE - Bloom
  9. LAUREL HALO - Quarantine
  10. BILL FAY - Life Is People
  11. GODSPEED YOU! BLACK EMPEROR - 'Alleluijah! Don't Bend! Ascend!
  12. TY SEGALL BAND - Slaughterhouse
  13. DEAN BLUNT & INGA COPELAND - Black Is Beautiful
  14. THE PRIMITIVES - Echoes & Rhymes
  15. ALLO DARLLIN' - Europe
  16. THE FRESH & ONLYS - Long Slow Dance
  17. DEATH GRIPS - The Money Store
  18. CLINIC - Free Reign
  19. TAME IMPALA - Loneirism
  20. TY SEGALL - Twins
  21. SWEARIN' - Swearin'
  22. ACTRESS - R.I.P.
  23. SHARON VAN ETTEN - Tramp
  24. JAPANDROIDS - Celebration Rock
  25. THE PHEROMOANS - Does This Guy Stack Up?
  26. THEE OH SEES - Putrifiers II
  27. BMX BANDITS - BMX Bandits In Space
  28. BAILTER SPACE - Strobosphere
  29. DJANGO DJANGO - Django Django
  30. ETERNAL SUMMERS - The Dawn Of Eternal Summers

10 SINGLES / EPs















  1. BURIAL - Kindred
  2. TASHAKI MIYAKI - Best Friend
  3. SAVAGES - Flying To Berlin/Husbands
  4. DEAN BLUNT - The Narcissist II
  5. SEBADOH - Secret
  6. BLACK TAMBOURINE - OneTwoThreeFour
  7. SAVAGES - I Am Here
  8. DUM DUM GIRLS - End Of Daze
  9. TIMES NEW VIKING - Over & Over
  10. FRIGHTENED RABBIT - State Hospital

10 REEDDIÇÕES / COMPILAÇÕES















  1. MY BLOODY VALENTINE - EPs 1988-1991
  2. A.R. KANE - The Complete Singles Collection
  3. CAN - The Lost Tapes
  4. CODEINE - When I See The Sun
  5. DONNIE & JOE EMERSON - Dreamin' Wild
  6. UNREST - Perfect Teeth
  7. TALK TALK - Spirit Of Eden
  8. THE AZUSA PLANE - Where The Sands Turn To Gold
  9. R.E.M. - Document
  10. JOSEF K - Sorry For Laughing

15 CONCERTOS












  1. BIG STAR'S THIRD @ Primavera Sound - Barcelona, 01 Jun.
  2. GODSPEED YOU! BLACK EMPEROR @ Amplifest - Porto, 28 Out.
  3. JULIA HOLTER @ St. George's Church - Lisboa, 27 Jun.
  4. THE AFGHAN WHIGS @ Primavera Sound - Porto, 09 Jun.
  5. THE POP GROUP @ Primavera Sound - Barcelona, 02 Jun.
  6. MAZZY STAR @ Primavera Sound - Barcelona, 31 Mai.
  7. THE MAGNETIC FIELDS @ Teatro Maria Matos, 02 Mai.
  8. MALE BONDING @ MusicBox - Lisboa, 21 Jan.
  9. THE AFGHAN WHIGS @ Primavera Sound - Barcelona, 31 Mai.
  10. SPIRITUALIZED @ Primavera Sound - Barcelona, 31 Mai.
  11. THE DRUMS @ Primavera Sound - Barcelona, 01 Jun.
  12. REAL ESTATE @ Primavera Sound - Barcelona, 02 Jun.
  13. THE WALKMEN @ Primavera Sound - Barcelona, 30 Mai.
  14. THE WEDDING PRESENT @ Primavera Sound, 30 Mai.
  15. DEATH IN VEGAS @ Optimus Alive - Algés, 13 Jul.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Smells like teen spirit, again

















Sob o risco de me estar a tornar repetitivo, gostava uma vez mais de assinalar a tendência, semi-discreta ainda, de as novas bandas recuperarem os sons que fizeram a "explosão alternativa" de inícios de noventas. É uma constatação da qual já aqui dei conta (quase) sempre que falei de gente como os Japandroids, os Cymbals Eat Guitars, os Male Bonding, ou os Yuck. Mais recentemente, foram os METZ, com o seu explosivo álbum debute, a juntar-se ao "contingente" que nos faz recuar a uma das mais brilhantes (a última?) eras pop/rock. Enquanto a coisa não der para o aparecimento em massa de sub-produtos derivados dos derivados, como tem acontecido com quase todos os revivalismos, é um "fenómeno" que me apraz registar. Até porque alimenta a esperança de que o bom-gosto das novas gerações varra da memória colectiva, de uma vez por todas, alguns dos piores tiques da década de oitentas que outros têm recuperado ad nauseum.

Embora ainda menos visíveis que os exemplos citados, hoje gostaria de acrescentar ao rol os Swearin', um quarteto com origens em Brooklyn mas que escolheu Filadélfia como poiso. Ainda com poucos meses de vida, em finais do ano passado, lançaram um promissor EP que nos deixou de sobreaviso. As melhores expectativas foram confirmadas com um álbum, homónimo, perto do final do Verão. Com uma dúzia de temas curtos, o disco embarca naquela inquietude juvenil que movia os Superchunk de há uma boa vintena de anos, com muito reboliço mas um apurado sentido melódico. Ou seja, fazendo uso do sempre eficaz jogo de vozes feminino/masculino, são temas implicitamente punk na atitude, mas inequivocamente pop no âmago. Quando é Kyle Gilbride o chamado à linha da frente, o tom nasalado deste remete-nos para um Doug Martsch em dia sim, sem a habitual gravidade dramática. Já Allison Crutchfield, que em tempos militou nos engraçaditos e extintos P.S. Eliot, lembra-nos a facção feminina e bostoniana da 4AD (Belly, The Breeders), ou ainda as vozes angelicais que se erguiam no ruído delicodoce da música dos Velocity Girl ou dos Helium. Na melhor tradição da pureza pop, as letras expressam as inanidades próprias de quem está nos vinte e poucos, aquele limbo entre o fim da adolescência e a chegada da idade adulta, quase com o mesmo encanto de uns Unrest dos tempos de Perfect Teeth (1993). Deste infindável citar de referências, facilmente se depreende que Swearin' poucas ou nenhumas novidades traz ao mundo pop. Apenas e só um pequeno contributo de pouco menos de meia hora de canções daquelas que ainda privilegiam o conteúdo em detrimento da "embalagem", espécie rara nos tempos que correm.

Fat Chance by Swearin' on Grooveshark
[Salinas, 2012]

Movie Star by Swearin' on Grooveshark
[Salinas, 2012]

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

R.I.P.



FONTELLA BASS
[1940-2012]

Em época de festividades, chega-nos a triste notícia da morte (ontem) de Fontella Bass, na sequência de complicações decorrentes de um ataque cardíaco há algumas semanas. Tinha 72 anos, os últimos dos quais já com uma saúde debilitada.

Não obstante a sua escassa obra discográfica, Fontella protagonizou um dos maiores sucessos da Chess Records, quando esta editora decidiu variar o seu catálogo assente no rock'n'roll e nos blues e apostar nas emergentes vozes soul femininas. Fala-vos de "Rescue Me", tema por si co-escrito (faceta rara nas cantoras de então) e gravado em 1965, e muitas vezes, erroneamente, confundido com um um hit da "diva" Aretha Franklin. Meses antes, já experimentara o sabor do sucesso com "Don't Mess Up A Good Thing", dueto com Bobby McClure. Até final de sessentas, gravaria outros temas com sucesso moderado, mas sem nunca atingir os níveis de reconhecimento daquele par de singles iniciais. Entre eles, os mais bem recebidos foram "I Can't Rest" e "Recovery", ambos de 1966. Ao desquite com a Chess, derivado de discussões autorais e divisão de royalties, seguiu-se um período de obscuridade que se prolongaria até esta data. Data de inícios de setentas um par discos, infelizmente negligenciados, com o Art Ensemble of Chicago, que assinalam a entrada de Fontella no mundo do jazz. Foi neste combo que conheceu Lester Bowie, com quem viria a casar e a gravar no início da década de 1980. As últimas gravações que se conhecem datam de 2007, com a participação vocal num par de temas da Cinematic Orchestra, repetição de idêntica colaboração com este colectivo britânico cinco anos antes.

 
"Rescue Me" [live @ Shindig!, 06.11.1965]

Ao vivo #101

















Ben Frost - Music for Six Guitars @ Teatro Maria Matos, 20/12/2012

Talvez porque fosse a véspera do dia marcado para o fim dos tempos, o Maria Matos presenciou, há uma semana exacta, o regresso de Ben Frost àquele palco. Escolha adequada para a data, se tivermos em conta que este músico australiano desterrado no rigor da Islândia tem povoado a sua obra discográfica com sugestões do medo e das trevas. Porém, não trazia na bagagem um reportório baseado nessa obra gravada, nem na sua implícita tenebrosidade, mas sim o espectáculo Music for Six Guitars, por si composto e concebido para formações de músicos flutuantes.

Para a paragem em território nacional, e um pouco à semelhança do que acontece por onde passa com este conceito, Ben Frost fez-se valer de músicos quase na sua totalidade recrutados na "cena" local. Com ele estiveram seis guitarristas habituados a operar nas franjas do rock, e ainda um sexteto de sopros (três trompas e outros tantos trombones), este composto por gente da Orquestra do Conservatório do Porto. No meio da assistência, de frente para o palco, Ben Frost era o responsável pela manipulação electrónica e pela direcção da peça musical a rondar a hora de duração. Dispostos ao acaso, sem pautas, os guitarristas deambulam livremente, deixando escapar muitos maneirismos da postura rock. Neste particular, faltou o rigor "erudito" a que já assisti, por exemplo, num espectáculo similar sob a direcção de Glenn Branca, no qual os músicos, estáticos, são secundarizados pela direcção do maestro. Na sua estrutura, Music for Six Guitars segue uma sequência óbvia, sem sobressaltos à lógica: entrada sob o domínio das guitarras, primeiro "desamplificadas", depois em uníssono ultra ruidoso; juntam-se-lhes os sopros que, posteriormente, são centro das atenções; final novamente ao som das guitarras que esmorecem num final, uma vez mais, desprovido de amplificação. Nesta simetria, o ponto alto é aquele em que o apogeu sónico toma conta dos sentidos, logo no primeiro terço do espectáculo. Talvez este efeito tivesse sido superado se Ben Frost tivesse optado por melhor conjugação da ruideira das guitarras com a dissonância dos sopros mas, na equação final, fica a sensação de que os metais tenham sido subaproveitados. Neste concerto de sabor agridoce, portanto com altos e baixos, uma palavra de apreço pela meia dúzia de guitarristas, (quase) incansáveis na fisicamente desgastante tarefa de repetir os mesmos escassos acordes ao longo de toda a sua prestação.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Uma casa na pradaria

















Talvez para descomprimir da vida de estrada e de estúdio das suas bandas "principais", respectivamente os Woods e as Vivian Girls, Kevin Morby e Cassie Ramone deram vida a um projecto ao qual deram o nome The Babies. A coisa materializou-se com um disco homónimo logo no começo do ano passado, um pequeno artefacto lo-fi com arremedos garage, algures entre a sensibilidade folk dele e a linguagem fuzz-pop dela. Entretanto, a brincadeira parece ter-se tornado coisa séria, e The Babies já é hoje nome de banda propriamente dita, com quatro elementos permanentes.

Foi já nesta condição que lançaram o recente Our House On The Hill, disco registado em condições técnicas melhoradas e mergulho profundo na country com sensibilidade indie. Não se querendo levar demasiado a sério, mas com umas quantas canções descomprometidas da melhor safra, resulta como um diário imaginário do abandono do conforto da grande cidade rumo à vastidão da América profunda. Pelo caminho, Kevin e Cassie, umas vezes vestindo a pele de Paul e Linda McCartney, outras a de Clyde e Bonnie, descobrem a grandeza e a beleza da América, mas também o seu lado críptico. Essa descoberta traduz-se em canções, umas vezes celebrando a liberdade da vida on the road, outras vezes como pequenas histórias de transgressão à lei, muitas das vezes com duetos prenhes de perversão e luxúria. Na sua dúzia de temas, curtos e directos, Our House On The Hill é daqueles discos que nos fazem crer que o maior trunfo da música pop, e talvez o seu maior encanto, ainda reside na mais despretensiosa simplicidade.


"Mean" [Woodsist, 2012]

Good cover versions #70












CARLA BOZULICH _ "Pissing" [Constellation, 2006]
[Original: Low (2005)] 

Pissing by Carla Bozulich on Grooveshark

Se bem se lembram, nos primórdios, os Low eram uma espécie de paradigma daquilo a que se convencionou chamar slowcore, com uma música de uma lentidão austera, ao mesmo tempo capaz de exprimir os sentimentos mais recônditos. Subtilmente, foram evoluindo nessa matriz, culminando em The Great Destroyer, o álbum que ficou conhecido como o seu "disco rock". Não obstante uma maior carga enérgica, nesse disco ainda podemos encontrar temas daquela progressão em lume brando que lhes deu fama. É o caso de "Pissing", que se inicia naquela lentidão hipnótica, com Alan Sparhawk e Mimi Parker em dueto numa letra desoladora, para rebentar num mar de distorção em alto volume.

Para o álbum Evangelista, que acabaria por dar nome à banda que hoje encabeça, Carla Bozulich contou com a participação de um naipe de músicos ligados à pandilha Godspeed You! Black Emperor e derivados. Se a isso somarmos o passado dela com os Geraldine Fibbers, uma das bandas mais viscerais saídas da explosão "alternativa" da América de noventas, concluímos estar na presença de uma alma atormentada, habituada à violência emocional e à terra queimada. Por tudo isso, naquele disco, acaba por encaixar na perfeição uma apropriação de "Pissing", com o devido tratamento avant-folk e a voz grave e dramática de Bozulich. O resultado final é bastante fiel ao original, talvez mais por respeito do que por falta de ideias. À parte a voz, as grandes diferenças residem nos ruídos ocasionais do intro, e na explosão da parte final, aqui transformada numa cacofonia apoteótica.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

América putrefacta

















Se nos cingirmos unicamente ao ano corrente, é inegável que a figura de proa da tendência psych-garage que tem eclodido da costa oeste norte-americana seja o inesgotável Ty Segall. No entanto, o puto-maravilha ainda tem muito caminho a palmilhar para atingir o estatuto de John Dwyer, já com década e meia ao serviço do métier, tanto num número infindável de bandas, como sempre disponível para dar uma mãozinha aos amigos. Desde então praticamente omnipresente no "movimento", tem nos Thee Oh Sees a sua ocupação presente. De todos os projectos que já abraçou, talvez este seja o mais visível e, como todos os outros, é extremamente prolífico em matéria de edições discográficas. 

Editado há cerca de três meses, Putrifiers II é já o décimo álbum de uma discografia que dá ameaça avolumar-se a qualquer instante. Por sinal, para uma banda com fama de cultivar a excelência em palco, desprezando a qualidade técnica em disco, é naquele em que o quarteto franciscano melhor explora as potencialidade de um estúdio. Consequentemente, o produto final é o seu disco mais límpido até à data. Espécie de súmula do caminho percorrido, Putrifiers II vem pejado de guitarras envoltas em fuzz, trips com sopros e órgãos em desalinho, canções convidativas à deriva mental, alguma sujidade e muita perversão, inevitáveis visitas à cave obscurecida dos Velvet Underground, e até incursões aos territórios do kraut (ver/ouvir abaixo). As vozes, alternando entre o grave e o falsetto, ficam quase em exclusivo a cargo de Dwyer, deixando, desta feita, Brigid Dawson praticamente remetida aos coros que abrilhantam o conjunto de canções mais dignas desse nome no reportório dos Thee Oh Sees.

 
"Lupine Dominus" [In The Red, 2012]

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Discos pe(r)didos #67









AZTEC CAMERA
High Land, Hard Rain
[Rough Trade, 1983]




Quando Alan Horne criou a Postcard Records, com o ambicioso, para não dizer utópico, objectivo de fazer pela pop escocesa o que a Motown tinha feito pela música negra norte-americana de sessentas, escolheu o ajustado lema "The Sound of Young Scotland". Se os Orange Juice ou os Josef K se enquadravam na eloquência de tal frase pela frescura da sua música e a idade dos seus membros, para os Aztec Camera não poderia haver melhor descrição. Neste colectivo dos subúrbios de Glasgow pontificava Roddy Frame, um talento precoce que ainda na adolescência já editava sob aquela designação.

Fundados como uma banda convencional, os Aztec Camera cedo se tornariam um alter-ego de Frame, à volta do qual gravitavam diversos músicos, variáveis de disco para disco. Pouco antes do primeiro álbum, o vocalista, guitarrista e compositor viu-se abandonado pelos colegas de banda, colhendo sozinho os louros de High Land, Hard Rain, uma das mais auspiciosas estreias daquela época. Fez-se jus ao nascimento de um pequeno génio, tanto na guitarra acústica, como na escrita de canções, nitidamente influenciada pelo Dylan de Blood On The Tracks. Editado quando Frame tinha ainda apenas dezanove anos, High Land, Hard Rain inspira algum do seu cinzentismo, como o próprio título indica, nas características morfológicas e climatéricas da Escócia. Este exacerbado romantismo ligeiramente sombrio não interfere com a luminosidade pop própria da composição de um músico tão jovem, sempre presente nas dez faixas, mesmo quando estas versam temáticas de maior gravidade. 

O disco abre em grande estilo com "Oblivious", tema escrito por Roddy Frame ainda adolescente e sinal inequívoco das aspirações deste à imortalidade pop. Provavelmente o tema mais cintilante de toda uma carreira, na guitarra absorve improváveis ecos de flamenco, de resto espalhados por cada recanto de High Land.... Esses ecos fazem-se ouvir com igual intensidade em "The Boy Wonders", canção sobre a fugacidade dos amores juvenis, mas de uma maturidade impressionante ao nível da composição, quer em termos melódicos, quer em termos de harmonia. "Walk Out To Winter" talvez seja responsável por toda a ternura agridoce que celebrizou os Prefab Sprout, inclusive com um refrão naquele tom bigger the life que fez escola. Neste, e também em "Pillar To Post" e no desolado "Release", são também notórias a inflexões jazzísticas de Roddy Frame, mormente da tendência mais relaxada com pitadas de bossanova. Sendo High Land... um daqueles raros álbuns de uma homogeneidade alarmante, sem pontos fracos, talvez seja injusto destacar qualquer dos seus temas como superior aos demais. A ter de fazê-lo, opto sem hesitações por "We Could Send Letters", recuperação de um tema dos primeiros dias dos Aztec Camera, que é, nem mais nem menos, uma das melhores canções sobre separação pela distância alguma vez escritas. Nesta regravação foram suprimidas quaisquer imperfeições da versão original. Na sumptuosidade dos arranjos, na urgência do refrão, e na pureza imaculada da voz, tem outra força a letra que, com nostalgia, nos remete para o Setembro das despedidas da nossa juventude.

Ao longo de quase mais década e meia, Roddy Frame escondeu-se ainda por detrás da "marca" Aztec Camera. Com uma discografia que não envergonha, contudo, jamais logrou alcançar o nível de excelência deste álbum debute. E digamos que não era fácil igualar a obra mais determinante para o desenvolvimento de uma facção letrada e sofisticada na pop britânica de oitentas. The Smiths, The Style Council, ou os citados Prefab Sprout, são apenas alguns - os mais sonantes - dos que escutaram High Land, Hard Rain atentamente e insistentemente, colhendo daí ensinamentos para as suas fulgurantes carreiras.

Oblivious by Aztec Camera on Grooveshark

The Boy Wonders by Aztec Camera on Grooveshark

We Could Send Letters by Aztec Camera on Grooveshark

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

First exposure #50



















BIG NILS

Formação: Coco Gordon Moore* (voz); Zoe Wardlaw (gtr); Lilly Daiber (bx); Sen Moritomo (btr)
Origem: Northampton, Massachusetts [US]
Género(s): Indie-Rock, Riot-Grrrl, Noise-Rock, Punk-Rock, No-Wave
Influências / Referências: Bikini Kill, Circle Jerks, Sonic Youth, Huggy Bear, Delta 5, Sleater-Kinney, Silverfish

(*) Filha de vocês-sabem-quem


[Abscess,2012]

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Mixtape #20: And We're Sorry All The Time



Como se já não nos bastasse os dias serem curtos, também têm andado frios e muitas vezes cinzentos. Tempo convidativo à permanência em casa, portanto. Nestas alturas, convém que a música seja a condizer, também ela tristonha. O April Skies encarrega-se de vos ajudar na escolha da banda sonora para este exílio no domicílio, com uma compilação centrada naquilo a que costuma chamar-se sadcore ou slowcore.

Ao todo são dezasseis faixas à razão de uma por banda, escolhas baseadas unicamente no gosto pessoal. Portanto, este não pretende ser o best of do "movimento" que, em particular de inícios a meados de noventas e sobretudo nos Estados Unidos, fez alguma da música mais lenta e dorida do espectro pop/rock. São contemplados tanto os pioneiros da coisa e sua descendência, como os seus maiores símbolos na era do apogeu. Do alinhamento ressalta que o sad/slowcore era, em si, um movimento abstracto, sem um tronco comum aos diversos figurantes. Assim, tanto temas de inspiração folk, como outras com derivações próximas dos post-rock. Há até um caso com referências jazzísticas, e muitos outros de mero indie-rock desacelerado por ex-punks aborrecidos com as rotinas da idade adulta. Não se confinando ao período referido, ainda hoje o sad/slowcore dá cartas, tanto através de alguns sobreviventes, como de novos rebentos, ou até por intermédio de bandas simbólicas entretanto reactivadas.

[Link nos comentários]

01. GALAXIE 500 - "Sorry" (1990)
02. ACETONE - "If You Only Knew" (1996)
03. IDAHO - "If You Dare" (1996)
04. BEDHEAD - "Bedside Table" (1994)
05. COME - "Sad Eyes" (1992)
06. THE FOR CARNATION - "Snoother" (2000)
07. AMERICAN MUSIC CLUB - "Sick Of Food" (1991)
08. LUNA - "Lost In Space" (1995)
09. CODEINE - "Second Chance" (1990)
10. LOW - "Cut" (1994)
11. RED HOUSE PAINTERS - "Bubble" (1993)
12. SPAIN - "Untitled #1" (1995)
13. IDA - "Post Prom Disorder" (1994)
14. DAMON & NAOMI - "Little Red Record Co." (1992)
15. BLUETILE LOUNGE - "Steeped" (1998)
16. MOVIETONE - "Useless Landscape" (1997)

R.I.P.



RAVI SHANKAR
[1920-2012]

Morreu ontem na Califórnia, onde se tinha estabelecido há muito, o músico e compositor indiano Ravi Shankar, provavelmente o mais notabilizado executante da sitar, instrumento tradicional do seu país natal.

O contacto com o grande público terá ocorrido por via dos Beatles, e em particular através de George Harrison e do seu interesse pela cultura e as ragas indianas. Shankar chegou a ser professor deste, acabando, por via indirecta, por ter um forte contributo na parte mais importante da discografia dos fab four. Antes, porém, já era um músico rodado no ocidente, um verdadeiro embaixador da música e culturas indianas e, por conseguinte, das chamadas "músicas do mundo" décadas antes dos fusionismos para consumo burguês. Dono de uma técnica apurada, apreendida com os grandes da sitar, Shankar era comparado, mesmo fora do seu meio, aos mais reconhecidos guitarristas rock. Nas últimas quatro décadas, imiscui-se no mundo da música erudita, em concertos e discos de colaboração que ajudaram, uma vez mais, a propagar a música indiana fora do contexto da world music.

Ragas In Minor Scale by Ravi Shankar & Philip Glass on Grooveshark
[Atlantic,1990]

Raga Hamsadhwani by Ravi Shankar on Grooveshark
[World Pacific, 1964]

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Músicas do mundo
















Por norma, sobretudo da Suécia, mas também dos restantes países escandinavos, estamos habituados a receber produtos musicais que equivalem a enlatados atraentes do que já foi feito e refeito noutras paragens.  Mas há excepções, para não dizer autênticas cartas fora do baralho, verdadeiros ovnis musicais. Talvez porque não se sintam obrigados respeitar uma herança de décadas de pop/rock que não têm, muitos dos músicos escandinavos não se sentem espartilhados pelos conceitos como os seus congéneres do eixo anglo-saxónico, ficando assim livres para transgredir regras e derrubar barreiras estilísticas.

Nesta categoria, temos forçosamente de incluir os Goat, colectivo de uns oito elementos idealizado segundo as visões musicais de Christian Johansson. A causar furor nos meios menos dados ao conservadorismo têm o álbum World Music, verdadeira esquizofrenia de estilos que, a pretexto da psicadelia, integra elementos de kraut, metal, drone, folk escandinava, prog, e infecciosos ritmos afrobeat. Alguns referem-se-lhes como um cruzamento entre Faust e Funkadelic, mas esta e qualquer descrição pecará sempre por defeito, tal a singularidade da proposta dos Goat. Porque vêm de uma pequena localidade no norte da Suécia associada a lendas de feitiçaria, ligam-nos a cultos voodoo e outras formas de magia negra. O facto de se apresentarem mascarados, e os ritmos tribais oriundos de África, também têm alimentado essa aura de ocultismo que tem ajudado na divulgação do projecto. Independentemente destes fait divers, é imperioso que o mundo conheça e se deixe embrenhar no maravilhoso mundo de World Music, um mundo de mistério que congrega muitas chamadas "músicas do mundo" sob a égide pop/rock, sem que soe forçado ou ausente de autenticidade. Salvas as devidas diferenças, este é o objecto musical estranho que faltava em 2012, um pouco como aconteceu com disco dos, entretanto alegadamente extintos, Wu Lyf no acto transacto.

"Goathead" [Stranded/Rocket, 2012]

O jogo das diferenças #13



BROKEN SOCIAL SCENE
Broken Social Scene
[Arts & Crafts, 2005]



PARTS & LABOR
Mapmaker
[Jagjaguwar, 2007]

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Ao vivo #100


















Lumerians + Black Bombaim @ Centro Cultural do Cartaxo, 07/12/2012

Com uma aliciante programação sobretudo para os adeptos da psicadelia, o Centro Cultural do Cartaxo é a prova de que, com vontade e persistência, é possível agitar as águas mesmo fora dos grandes centros urbanos. Os esforços de quem organiza e promove têm sido recompensados, com a crescente adesão de público a cada novo evento. 

Na passada sexta-feira, a boa massa humana presente pôde assistir a uma prestação competente, mas não propriamente deslumbrante, dos franciscanos Lumerians, nome diminuto para a esmagadora maioria dos melómanos, mas de relativo culto junto das hostes do psicadelismo. Na bagagem, o quinteto trazia um novo álbum, privilegiado na escolha do alinhamento. Dos novos temas fica a sensação de que enveredam uma toada mais dançante, consequentemente mais acessível, que poderá render algum airplay em espaços nocturnos que não limitam as suas escolhas musicais ao óbvio. Nestes, sobressai a riqueza instrumental, assente numa panóplia de ferramentas com que a banda faz de cada tema um colorido de sons. O pequeno senão dos mesmos é o facto de os Lumerians quererem mimetizar cada tique das suas referências, sem se decidirem por uma orientação definida. Assim, um tema decalcado do pioneirismo dos Silver Apples dá lugar a um outro cujo início surripia "Tomorrow Never Knows" dos Beatles, e este, por sua vez, antecipa mil e um lugares-comuns do kraut. É, por conseguinte, nos temas mais antigos que os Lumerians afirmam alguma personalidade, nomeadamente com pinceladas de tropicalismo - cortesia de um jovem percussionista - em texturas sonoras narcóticas.

Igualmente inspirados em referências facilmente reconhecíveis, os barcelenses Black Bombaim têm a virtude de explorar uma ideia concisa, sem pretensões a disparar em diferentes direcções. Não obstante a colagem a nomes do heavy psych e do stoner (de Hendrix aos Black Sabbath, dos Blue Cheer aos Stooges), o trio revela uma personalidade bem vincada, adquirida pela experiência de estrada e pela qualidade de execução dos seus músicos. Em consequência, não só têm uma prestação acima do nível da dos cabeças-de-cartaz, como se afirmam como dos poucos capazes de agitar o actual marasmo da música nacional. Os longos temas instrumentais assentam numa variedade de riffs infernais e elípticos, coadjuvados por um groove demolidor que confere significativo balanço à proposta. Dos três excelentes jovens músicos, destaque para o guitarrista, dono de uma precisão que não sai beliscada pela rapidez de execução quase sempre exigida. Exemplo disso é o último tema, por sinal o mais curto do alinhamento: uma espécie de tratado de riffologia com constantes ataques groovey da secção rítmica. Depois da trip lisérgica a que os Black Bombaim conduziram a assistência, este derradeiro tema, pela sua urgência e pela sua violência rítmica, assinala um final em apoteose quase orgásmica.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Ladies and gentlemen, we are floating in space

















A vida de Duglas T Stewart confunde-se com a já longa carreira dos BMX Bandits, pois é ele o único elemento omnipresente numa das mais belas e negligenciadas histórias da pop escocesa e, por inerência, da indie-pop mundial. Noutros tempos, e de forma intermitente, já passaram pelo colectivo membros de outras eminências como Teenage Fanclub, The Soup Dragons, ou The Vaselines. Porém, tem sido Duglas, apesar de um percurso de vida por vezes errático, que tem protagonizado esta história de devoção e persistência.

Nos tempos mais recentes, a cantora Rachel Allison tem sido a única companhia constante, mas os velhos amigos têm estado sempre por perto para dar uma mãozinha. É o que acontece no novíssimo BMX Bandits In Space, que conta com a colaboração de Norman Blake (Teenage Fanclub), Sean Dickson e Jim McCulloch (ambos ex-Soup Dragons). Para assinalar a reunião daquela que será a formação mais emblemática dos BMX Bandits, Duglas não deixou os créditos por mãos alheias e logrou o seu disco mais ambicioso e, quiçá, mais conseguido. Em estilo semi-conceptual, ...In Space é uma espécie de ópera pop na qual um astronauta, à deriva no espaço, vai recordando e discorrendo sobre os amores de uma vida. Vindo de quem vem, suspeita-se que nas letras haja muito de autobiográfico. Com um começo a fazer lembrar os já insuportáveis devaneios "espaciais" de uns Flaming Lips, chegamos a temer o pior. Mas, logo ao segundo tema, percebemos que a verve pop de Duglas, e a sua meticulosa dedicação aos tempos áureos da canção, se encontram no ponto mais refinado. No seu todo, ...In Space é um festim para os sentidos, com cada tema a revelar novos pormenores a cada audição, como se cada som fizesse parte de um complexo e gigantesco puzzle.

 
"Listen To Some Music" [Elefant, 2012]

R.I.P.



DAVE BRUBECK
[1920-2012]

Morreu ontem, apenas a um dia de completar uns generosos 92 anos, Dave Brubeck, pianista e compositor, e nome maior do jazz do século XX.

Verdadeira instituição da cultura norte-americana, Brubeck conheceu diversas honras e distinções pela sua longa carreira. Talvez o período mais determinante desse trajecto tenha ocorrido na década de 1950, quando comandava o Dave Brubeck Quartet, no qual pontificava o saxofonista Paul Desmond, compositor de "Take Five", a peça mais popular da sua vasta discografia. Foi também nesse período que adquiriu o estatuto de percursor do progressive jazz, em virtude dos tempos atípicos que usava na sua composição. Esses tempos, normalmente relaxados, por oposição à maior urgência do bebop, também lhe valeram o rótulo de cool jazz, tendência dominante na segunda metade do século passado. Deixa numerosa prole, a maior parte de músicos que chegaram a integrar os seus colectivos.

 
Dave Brubeck Quartet _ "Take Five" [ao vivo na televisão alemã em 1966; Columbia, 1959]

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Algo de novo no reino














Já lá vai uma boa dúzia de anos desde que os Clinic, quarteto de Liverpool em ruptura com a herança musical da cidade, surpreendeu o mundo pop/rock. Na bagagem traziam Internal Wrangler, um curto e magistral disco que, com um cunho muito pessoal, conjugava o melhor do rock mais marginal de sessentas, com igual veneração pela toxicidade dos Velvet Underground como pela sujidade garage dos Monks e afins. No registos seguintes, a banda apostou nesta mesma fórmula, com evoluções tão subtis que eram menos visíveis que as inovações na indumentária, sempre com as imprescindíveis máscaras de cirurgião responsáveis por uma certa aura de mistério. Apesar da aposta numa certa coesão, que nunca rendeu discos inferiores ao bonzito, há muito que os seguidores suspiravam por desenvolvimentos mais notórios. Só em Do It! (2008), em minha opinião o melhor dos seus discos logo a seguir ao de estreia, os Clinic apresentavam novidades significativas. Neste, apostava-se numa sonoridade mais contemplativa, a espaços próxima de uma espécie de lounge narcótico.

Desde há umas semanas, e até nova ponderação mais distanciada, o estatuto de Do It! como segundo melhor disco dos Clinic pode muito bem estar ameaçada por aquele que é o seu sétimo longa-duração. Sem adulterar a identidade da banda, Free Reign é também o seu disco mais refrescante no que a novidades diz respeito. O rock ácido, quase esquizofrénico, ainda está presente, mas em doses mais diluídas. Os temas são agora mais ponderados, menos urgentes, apostando em técnicas de indução como o dub. As guitarras estão ainda bem presente, mas cedem o protagonismo aos teclados e à muita manipulação electrónica. A sensualidade inerente às canções dos Clinic, outrora detectável apenas nas referências sexuais decifráveis, é agora mais notória, muito por causa da colocação da voz de timbre nasalado de Ade Blackburn, mais cristalina no todo. Para a mistura de um par de temas foram requisitados os serviços de Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never), que tratou de sublinhar o carácter lisérgico dos mesmos. Desta série de novas apostas dos Clinic resulta uma hipotética banda sonora para filmes de outros tempos, série B como os de sempre, sem o mesmo teor críptico, mas de maior torpor induzido.

 
"Miss You" [Domino, 2012]

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Singles Bar #79














DINOSAUR JR.
Freak Scene
[SST, 1988]





Embora relativamente mais novos que aqueles, consta que os Dinosaur Jr. terão tido uma influência determinante na abordagem mais pop à ruideira seguida pelos Sonic Youth de finais de oitentas, colectivo até aí mais dado ao experimentalismo. Apesar de as vendas dos discos não o reflectirem, por alturas do terceiro álbum já os Dinosaur Jr. eram uma banda com créditos firmados na "cena alternativa" norte-americana. Faltava apenas o tema definitivo, aquele que asseguraria a imortalidade rock, que acabou por aparecer logo na abertura de Bug, esse mesmo terceiro longa-duração registado com o três membros da banda e rota de colisão.

Para qualquer observador moderadamente atento das movimentações e tendências indie, "Freak Scene" é, inequivocamente, um marco naquele universo, um paradigma pelo qual toda a produção subsequente se haveria de guiar. Do jangle-pop já algo estafado, os My Bloody Valentine retirariam daqui ensinamentos que fariam deles obreiros da canção pop servida pelo ruído. Na dinâmica quiet-loud-quiet os Nirvana colheram a matriz para um tema que haveria de mudar irreversivelmente a face da música pop/rock. Atente-se ainda no momento da letra em que J Mascis, com o seu tom alheado de sempre, pronuncia algo como "Just don't let me fuck up, will you / 'cause when I need a friend it's still you", assumindo já o mesmo ennui juvenil ao qual Kurt Cobain daria voz para toda uma geração. Guitarrista de dotes acima na média nos meandros indie, Mascis não tem também qualquer temor em espalhar pequenos solos pelos três minutos e meio de duração de "Freak Scene". Esta prática, até aí olhada de lado neste meio, haveria de se tornar imagem de marca dos Dinosaur Jr., tendo, igualmente forte impacto nos Teenage Fanclub mais ruidosos dos primórdios. Num single que representa na perfeição os gostos e influências de Mascis da altura, o lado B reserva-nos a sensibilidade folky daquele que se assumia cada vez mais como o líder algo contestado dos Dinosaur Jr.. Com inflexões ao country-rock dos Byrds, "Keep The Glove" não enjeita, porém, na sua parte final, um delírio de distorção a piscar o olho à psicadelia.


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Ao vivo #99

















The Underground Youth + Blaze & The Stars @ Caixa Económica Operária, 01/12/2012

Mancuniano de nascimento, o trio The Underground Youth é uma banda que, em termos de projecção, faz jus ao nome. A avaliar pela obra gravada já escutada por estas bandas, são uma das centenas (milhares?) que, nos tempos que correm, mimetizam os truques dos Spacemen 3, em particular pela via da repetição com vista à indução dos sentidos. Sem que se esperarem grandes novidades para o concerto do passado sábado, esperava-se, pelo menos, um punhado de temas de características lisérgicas, previsivelmente reforçadas na transposição para palco. No entanto, o trio troca as voltas (pelo menos a mim) e, sem renegar em absoluto a principal referência, aponta primordialmente para os igualmente tutelares The Velvet Underground, com pontos de contacto que vão além da própria música e passam também pelas projecções (talvez o melhor do concerto) e pela baterista aluna da escola Maureen Tucker. Quando investem em algum groove, denotam também afinidades com The Cramps que, caso fossem mais óbvias, roçariam o plágio. Para agravar o quadro, talvez impelida pela herança musical da cidade de origem, parece que o vocalista, que em disco opta por um tom inexpressivo e algo distante, se sentiu na obrigação de expandir o leque de colagens ao forçar o tom grave de um Ian Curtis, com tímidos ensaios de teatralidade incluídos. O resultado acaba por redundar, em vários dos temas, em algo próximo dos risíveis She Wants Revenge, algo que parece não desagradar à "brigada do negrume", parte considerável da assistência.

Igualmente seguidores dos Spacemen 3, os portugueses Blaze & The Stars, aos quais couberam as honras de abertura da noite, conseguem ser minimamente toleráveis quando enveredam pelos trechos instrumentais que, não acrescentando coisa nenhuma ao que já foi feito, revelam alguma destreza na manipulação da distorção. A porca torce o rabo quando o também trio inclui voz nos seus temas. Não sei se por limitações vocais, se por mera colagem a um certo "ícone" bracarense, o rapaz das vozes faz uso da manipulação via microfone de forma a soar àquela usada e gasta cantilena "tipo radiofónica". As letras, quando perceptíveis, aspiram à mesma verve poética do citado "ícone", algo que nos impressionaria se acaso tivéssemos 15 anos e nunca tivéssemos folheado um livro minimamente decente.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Bons amigos















Cá por casa buscam-se, com uma frequência quase diária, novas sobre os Tashaki Miyaki, uma dupla angelina que vos "apresentei" vai para mais de um ano. Até à data, continua a aguardar-se o anúncio do álbum de estreia desta banda tão promissora. Porém, a insistência não tem sido completamente inglória, pois assim vou sabendo em primeira mão dos pequenos formatos que a parelha vai lançando amiúde, o que, por outro lado, apenas alimenta a ansiedade pela prova-dos-nove do longa-duração.

O último desses pequenos formatos, pelo menos em formato físico, é um 7'' intitulado Best Friend que deverá ser mesmo motivo para total aclamação. Muito por culpa do tema-título, uma pérola de uma pop sonhadora com moderado fuzz e uma boa dose de sacarina. Logo à primeira escuta, são detectáveis ecos dos Mazzy Star e dos Galaxie 500 em igual intensidade, nomeadamente a veia folky dos primeiros e a aura estelar dos últimos. Contudo, os Tashaki Miyaki insuflam "Best Friend" de um cunho pop e de uma sensualidade falsamente ingénua que estavam ausentes nas canções daqueles dois nomes maiores. A condizer com o enlevo da música, o magnífico vídeo promocional (ver abaixo) é um pequeno road movie a preto-e-branco que termina com a tensão de um final em aberto. Por seu lado, "Tonight", o lado b, é uma espécie de power-pop no feminino desacelerado, um pouco a hipótese de umas Bangles sem medo de fazer uso dos pedais de efeitos.

Para além de gente talentosa e com bom-gosto, os Tashaki Miyaki são também gente generosa. Isto porque acabam de disponibilizar, para download completamente gratuito, dois registos completamente preenchidos com algumas das muitas versões que têm feito. Um deles contempla originais de Father John Misty, Bob Dylan e Sam Cooke, o outro inclui duas versões de outros tantos clássicos mainstream dos eighties. É ir aqui e aqui e aproveitar a oferta, porque nenhuma das versões é inferior a boa e porque amigos destes não há muitos.

 
"Best Friend" [Luv Luv Luv, 2012]

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Ao vivo #98

















Alva Noto @ Teatro Maria Matos, 27/11/2012

Nome incontornável da chamada electrónica minimalista e territórios adjacentes, Alva Noto parece gozar de um culto sólido dentro destas fronteiras. Se dúvidas houvesse, elas ficaram desfeitas ontem pela excelente moldura humana que compunha a plateia do Maria Matos, justamente em dia de semana e dia de concerto na capital de um "fenómeno" que ainda estou para entender. Falando pela generalidade, diria que, por muito altas que fossem as expectativas, poucos esperariam um dos melhores concertos a que esta cidade assistiu nos tempos mais recentes. Ou melhor, não um simples concerto, mas um espectáculo pluridisciplinar, no qual som e imagem desempenham papel de igual importância, talvez só possível de realizar na sua plenitude com as magníficas condições oferecidas pela - não tenham dúvidas! - melhor sala de espectáculos lisboeta.

Nascido Carsten Nicolai, este músico alemão tem já obra significativa, tanto em solitário, como em colaborações com músicos de sensibilidades idênticas ou nem por isso. Ao Maria Matos trouxe Unvrs (2011), o seu último álbum, com o propósito de demonstrar o porquê de ser tratado como artista audiovisual. Ao desconforto inicial provocado pelas interferências quase industrias e pela imprevisibilidade das batidas, segue-se um período de relativa percepção dos múltiplos sons que são oferecidos aos sentidos (por algum motivo se fala em micro-electrónica). Daqui em diante, até à imersão, para não dizer o total abandono, na peculiar linguagem de Alva Noto é apenas um instante. Para tal, muito contribuem as projecções em tela gigante, que nos expõem aquilo a que chamaria "as entranhas da música" em diferentes gráficos que vão reagindo aos sons debitados. A cada trecho, estes gráficos são-nos apresentados em diferentes planos, sempre no sentido do geral para o pormenor, proporcionado a verdadeira experiência "sound + vision". Recusando a frieza com que é conotado, Alva Noto faz-nos ainda perceber que é um espectador atento da alienação do mundo actual com uma bizarra e divertida peça, na qual se sucedem, à velocidade dos ritmos, toda e qualquer sigla de três letras conhecida, devidamente acompanhada do respectivo logotipo e do nome pronunciado num francês robótico. Este é o típico número que fará sempre mais sentido vivido do que contado, como praticamente todo o espectáculo, impossível de teorizar em palavras que serão sempre escassas.

Ao fim de uma hora, perante a ovação geral de uma plateia por fim na posse dos seus sentidos, Alva Noto regressa ao palco disposto a presentear-nos pelo aplauso. Antes não o tivesse feito, pois o curto trecho apresentado - não mais que uma reinterpretação dos instantes finais do concerto - não flui o tempo suficiente para nova viagem aos interstícios dos sons. Contudo, este é apenas um pormenor que retira brilho a um espectáculo de altíssima nota em todos os critérios.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Ooh la la

















Vivemos, indiscutivelmente, um período de reciclagem de vários passados, mais ou menos distantes consoante os casos. Neste espírito de nostalgia, as diversas expressões musicais conotadas com o psicadelismo estão na ordem do dia, mormente na Califórnia de origem, mas também um pouco espalhadas pelo globo. Seguidores desta tendência, os Allah-Las vêm, por acaso, da terra de adopção da coisa, mais precisamente de Los Angeles. Segundo reza a história, estes quatro rapazes trabalharam todos eles numa loja de discos, na qual foram sujeitos a uma dieta musical diária à base da compilação Nuggets original e de alguns produtos similares, o que acabaria por se reflectir na música que produzem. De tal forma imersos na década de sessentas, e para que não restem dúvidas quanto a tal, contam que o nome da banda faz referência às históricas Shangri-Las.

Com tais propósitos, seria expectável Allah-Las, o álbum de estreia lançado há um par de meses perante o júbilo de muitos e a indiferença de outros tantos, fosse um mergulho nos bons velhos sixties. Com efeito, a dúzia de temas que o compõem, registados sem qualquer espécie de efeitos como que a querer atestar uma maior autenticidade, é uma espécie de súmula dos sons west coast e da british invasion que, há quase cinco décadas, faziam as delícias de uma boa fatia da juventude norte-americana. Ao longo da audição são facilmente detectáveis ecos de The Byrds e The Animals no seu estado mais pop, ou dos Stones da sua fase ainda imberbe. Como curiosidade, há até um tema (instrumental) com pitadas de tropicalismo bossanova. Porém, a marca mais vincada em Allah-Las é a do psych-garage, com assumida reverência pelos primeiros Love, pelos Count Five, e pela Chocolate Watchband. A fidelidade a essas referências é tal que me chego a questionar se o mundo precisa destas canções quando já tem os "originais". O cepticismo dissipa-se quando me deixo embrenhar nos temas solarengos dos Allah-Las, danadas de catchy e com alto teor melódico.

 
"Tell Me (What's On Your Mind)" [Innovative Leisure, 2012]

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Hormonas de baixa fidelidade



















Se John Peel ainda fosse vivo, temos a certeza que, ao contrário do comum dos mortais, não lhe passaria despercebido cada novo registo dos Half Man Half Biscuit ou dos The Fall. Aliás, até seria bastante provável que, nas suas emissões radiofónicas, os difundisse com o entusiasmo e a frequência que lhe eram habituais. Sem novos discos para divulgar, presume-se que os finados Hefner fossem revisitados com alguma assiduidade. Afinal de contas, o guru da "rádio indie" britânica nunca escondeu a sua afeição por bandas que fazem música desengonçada, privilegiando a crónica jocosa de costumes em relação ao primor técnico da execução. Partindo deste pressuposto, caso Ele fosse vivo, estamos em crer que cairia de amores pelos The Pheromoans, um sexteto que, na linha de uma longa tradição tipicamente inglesa, cumpre ambas as premissas e, diria, vai até mais além.

Oriunda da cidade costeira de Brighton, esta banda já cá anda desde meados da década passada, tendo até à data lançado quatro álbuns de distribuição algo restrita. Só com o último - o recente e mui recomendável Does This Guy Stack Up? - espreitaram para além da barreira da obscuridade e me chegaram aos ouvidos. Sem uma colagem óbvia às referências supracitadas, o quarto longa-duração dos The Pheromoans é um tratado crítico do quotidiano inglês, não dispensando um humor cáustico que passa pela auto-indulgência. Na dúzia de temas que ameaçam desintegrar-se a cada instante, tal o "amadorismo" imposto, e sem enjeitar algum experimentalismo, sobre o trio de instrumentos tradicional do pop-rock, impera um órgão infantilóide com reminiscências das edições da editora Cherry Red dos primeiros tempos, em período pós-punk. A voz arrastada e desafinada de Russell Walker, aqui e ali possuída pelo desvario, bem como a deliberada naïvité, acabam por resultar como factores de credibilidade às breves tiras do dia-a-dia, quase como se estas nos fossem relatadas pelo vizinho do lado. Por conseguinte, na sua voluntária imperfeição, Does This Guy Stack Up? contém em si mais sinceridade que os últimos 30 discos de cada das últimas 20 tendências hipster todos juntos.

 
"Grab A Chair" [Upset The Rhythm, 2012]

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Mil imagens #34



Nirvana - Seattle, 1993
[Foto: Anton Corbijn]

First exposure #49
















TEMPLES

Formação: James Bagshaw (voz, gtr); Thomas Warmsley (bx, voz); Sam Toms (btr); Adam Smith (tcls)
Origem: Kettering, Inglaterra [UK]
Género(s): Pop, Psych-Pop, Indie-Pop
Influências / Referências: The Beatles, The Byrds, Tame Impala, The Turtles, The Coral, The Stone Roses, Shack

 
"Shelter Song" [Heavenly, 2012]

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Trigémeos

















Já começam a faltar as palavras para o elogio a Ty Segall, em definitivo o wunderkind da nova safra garage-pop de cariz lo-fi que tem brotado, essencialmente, da Califórnia, mas também um pouco do resto do território dos states. Além de talentoso e conhecedor do legado rock, e apesar da sua tenra idade, é também um puto altamente produtivo. Só neste ano já nos deu Hair, o disco em colaboração com White Fence com uma abordagem ao psicadelismo num regime quase jam, e Slaughterhouse, álbum gravado com a sua banda de palco no qual mostra devoção pelo história do hardcore e de algum rock mais duro.

Faltava apenas o disco exclusivamente em nome próprio, lacuna colmatada com a edição de Twins, que já roda por aqui há coisa de um mês. Neste que já é o seu sexto álbum, se contarmos apenas os da discografia "linear", Segall prossegue a aproximação a um formato convencional de canção, iniciada no anterior e excelente Goodbye Bread (2011). Para trás ficaram já os esboços de canções envoltos em ruído de outrora. Mas, como é seu hábito, ainda investe em força no fuzz, numa dúzia de temas maioritariamente curtos que percorrem os mil e um géneros pelos quais sente afinidade. Assim, não é de espantar que, a um tema de inspiração glam, com voz em falsetto e tudo, suceda uma descarga de sujidade garage, ou que a um outro de inflexão jangle-pop se siga uma balada lisérgica. Como os amigos são para as ocasiões, é num tema de estirpe praticamente incatalogável que Brigid Dawson, dos aliados Thee Oh Sees, dá uma preciosa ajuda:

 
"The Hill" [Drag City, 2012]

R.I.P.



PETE NAMLOOK
[1960-2012]

Embora só hoje tenha sido tornada pública, já ocorreu no passado dia 8 de Novembro a morte de Pete Namlook, por causas ainda desconhecidas até esta data. Nascido Peter Kuhlmann, este alemão dedicou uma boa parte dos seus quase 52 anos de vida à música electrónica, quer como executante, quer como produtor, ou ainda como patrocinador da obra de outrem. Neste último papel, fundou em 1992 a editora FAX, inicialmente pensada para lançar a sua música, mas que acabou por servir de selo a muitos afiliados e amigos.

Com interesses musicais tão diversos como Chopin ou Miles Davis, Tangerine Dream ou Pink Floyd,  Jobim ou Brian Eno, Namlook produziu uma vasta obra que percorre diferentes sub-géneros da electrónica, pese embora o seu nome seja mais habitualmente associado ao ambient. Estima-se que tenha gravado à volta de 130 discos, quer em solitário, quer em inúmeras parcerias consoante a tendência de cada um deles. Entre os músicos e projectos com quem colaborou listam-se nomes como Atom Heart, Biosphere, Bill Laswell, Klaus Schulze, ou Richie Hawtin. Foi com este último, o anglo-canadiano também conhecido por Plastikman, que gravou um dos seus trabalhos mais consagrados, um tríptico que constitui um marco no ambient e na techno minimalista de noventas.

Future Surfacing (What Lies Ahead) by Pete Namlook & Richie Hawtin on Grooveshark
[FAX, 1995]

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

10 anos é muito tempo #37









THE LIBERTINES
Up The Bracket
[Rough Trade, 2002]




Num fácil exercício de memória, ainda me lembro de a aceitação global dos americanos The Strokes só ter ocorrido, ironicamente, quando os discos da banda começavam a perder o fulgor inicial. O mesmo terá acontecido com os White Stripes, cujo disco do breakthrough, tal como o de estreia dos nova-iorquinos, foi de entusiasmo inicial quase exclusivo no Reino Unido. Quase, porque há sempre espalhados por esse mundo, uns quantos que ouvem a música antes darem a sua reprovação baseada naquele preconceito para com o hype de origem britânica. Daqui se conclui que, em inícios do século presente, os súbditos de Sua Majestade estavam sequiosos da adrenalina deste rock revigorado, e foi neste clima que lançaram para a linha da frente The Libertines, um grupo de amigos londrinos que há anos andava a espalhar as suas trovas rock pelos pubs dessa Inglaterra profunda. Orgulhosos das suas origens, estes intrépidos "bifes" demarcavam-se dos concorrentes ianques pelas suas referências, assentes na tradição musical da casa. Por conseguinte, os Libertines rapidamente se tornaram um símbolo da englishness, filtrando quatro décadas de rock britânico, tal como antes havia sido refinado por bandas como The Smiths, The Jam, ou The Clash.

Não sendo propriamente uma banda de consensos, bem longe disso, é natural que os fiéis de tais vacas sagradas não revejam tais referências no caos libertário dos Libertines. E terão algumas razões para isso, até porque a inspiração mais vincada da banda é bem mais obscura. Falo concretamente dos The Only Ones, outros londrinos cuja música denotava a mesma despreocupação pela perfeição, com o líder Peter Perrett a entoar igualmente tiras do quotidiano com a mesma preguiça vocal de Carl Barât e Pete Doherty, a dupla de vocalistas/guitarristas dos Libertines. Nas palavras do próprio Doherty, Perrett era para si uma espécie de ícone. Infelizmente não o foi apenas na música, mas também em alguns maus hábitos e desventuras que já estão mais que documentados e discutidos e que pouco ou nada têm a ver com a música. No entanto, e voltando às três bandas citadas, são indisfarçáveis os ecos de qualquer delas no meio da sujidade de Up The Bracket, o disco de estreia que catapultou os Libertines para os estatuto de adorados da crítica e (parte) do público britânicos. Logo no inaugural "Vertigo", é indisfarçável a mesma guitarra gingona da qual Johnny Marr muitas vezes fazia uso. Quanto ao balanço misturado com o impulso punky de Paul Weller e seus pares, estão bem patentes no excelente "Boys In The Band", tema que ironiza sobre os clichés do universo rock, à semelhança do que acontece no visceral "The Boy Looked At Johnny". A abrasão dos Clash dos primórdios, portanto antes da deriva para sons de outras paragens, está bem presente nos enérgicos "Time For Heroes" e "I Get Along". Além disso, a produção de Up The Bracket ficou a cargo do ex-Clash Mick Jones que, com experiência e muita paciência, soube domar a indisciplina dos quatro rapazes apenas até ao ponto de não eliminar a subversão, tarefa antes tentada mas não conseguida pelo ex-Suede Bernard Butler.

À parte a capacidade para filtrar referências, elogie-se nos Libertines o talento enquanto compositores da dupla Barât/Doherty, ambos a personificação da libertinagem do verdadeiro espírito rock, embora não reconhecida por todos pois, como já referido, esta é daquelas bandas capazes de gerar amores e ódios em igual medida. Factores para a dúvida em relação à genuidade dos Libertines talvez sejam a aversão ao hype e a uma certa arrogância de alguns, algo que já antes tinha ocorrido com os Oasis. Já que se fala da banda dos irmãos Gallagher, deixem-me lançar-vos a provocação de afirmar que Up The Bracket é o mais importante disco rock de matriz britânica desde Definitely Maybe (o magnífico debute dos Oasis), e talvez o último desde então, se excluirmos a estreia dos Arctic Monkeys. Um par de anos volvidos, e já em desagregação, os Libertines ainda lançaram um digno sucessor, um álbum que funcionou como uma espécie de lamber das feridas para os dois frontmen alegadamente desavindos depois de muitos anos de amizade. E depois implodiram, ainda em plena forma. Querem atitude mais rock que esta?!

Time For Heroes by The Libertines on Grooveshark

Up The Bracket by The Libertines on Grooveshark

I Get Along by The Libertines on Grooveshark