"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel

quinta-feira, 31 de março de 2011

Starrgaze















Texanos de nascimento, os Ringo Deathstarr (devo estar só, mas acho o nome infeliz) são uma das muitas bandas alinhadas no revivalismo shoegazer que, de há meia dúzia de anos a esta parte, varre os Estados Unidos de costa a costa. O primeiro longa-duração - Sparkler, de 2009 - era sombrio e opressivo, revisitando subterrâneos contíguos aos dos Mary Chain de Psychocandy, sem deixar de lado toda a aprendizagem rock, facção ruidosa, subsequente.

Pese embora ainda admita a herança dos irmãos Reid, sobretudo pela colocação da voz de Elliott Frazier em dois ou três temas, o novo Colour Trip reclama outras descendências, embora com um grau de parentalidade próximo. Ou, dito, por outras palavras, é uma apropriação descarada do esplendor noise-pop dos My Bloody Valentine de You Made Me Realise e Isn't Anything. Essa evidência surge logo aos primeiros segundos e mantém-se ao longo de todo o disco, abundante em camadas de guitarras, ora carregadas de distorção ora liquefeitas, desvios atonais, e alternância feminino-masculino nas vozes que penetram a densa muralha sonora. Evidentemente, as letras estão carregadas de lascívia. O mais surpreendente é que, apesar das indisfarçáveis semelhanças com os ascendentes, Colour Trip é um petardo sónico que não vai defraudar o consumidor mais exigente da pop feita ruído. Com o fim-de-semana à porta, em jeito de passatempo, lanço-vos o desafio de descobrirem as seis diferenças:

"Imagine Hearts" [Club AC30, 2011]

quarta-feira, 30 de março de 2011

Discos pe(r)didos #51








THE BOO RADLEYS
Giant Steps
[Creation, 1993]




A uma simples menção do nome The Boo Radleys a memória reage de imediato com a lembrança de "Wake Up Boo!", a dose de boa-disposição que a banda de Liverpool injectou na brit-pop. Para os mais distraídos, interessa referir que há toda uma vida para além desse hit isolado, sobretudo anterior, mas não tanto pela "infância" passada essencialmente a tentar apanhar o comboio shoegaze. Ao segundo álbum, contudo, e sem renegar as raízes, já se distinguiam traços de uma personalidade atípica na música de noventas. Ao terceiro, que não limita a ambição ao nome sacado ao clássico de John Coltrane, ocorre a afirmação plena. De difícil rotulação, Giant Steps é um disco caleidoscópico para o qual concorrem uma infinidade de géneros e doutrinas musicais: noise-pop, psicadelismo, reggae, dream-pop, dub, free-jazz, pop barroca e sinfónica, e uma vontade imensa de desafiar os padrões da música popular. Acusa, obviamente, a herança dos Beatles mais experimentalistas da "fase séria", ou não fossem os Boos seus concidadãos das margens do Mersey.

Perante a amálgama de sons que brotam, muitas vezes no mesmo tema, discernir uma canção próxima dos formatos estandardizados não se revela tarefa fácil. Exemplos de relativa aproximação são a deliciosa e luminosa "I Wish I Was Skinny", que condensa a inocência juvenil numa dose de sacarina, a balançada "Barney (... And Me)", que se inicia com uns dedilhados à la Cure e culmina numa fanfarra multicolor, e a explosiva "If You Want It, Take It", percorrida por um riff insinuante, aqui e ali acossado pela intrusão do mellotron. Para a pista de dança, necessariamente aberta à diversidade, recomenda-se "Rodney King (Song For Lenny Bruce)", ponto de encontro da batida Madchester com a leveza dos My Bloody Valentine anteriores à deriva Loveless. No extremo oposto, porque substancialmente menos imediatas, estão a parelha "Spun Around" e "One Is For". A primeira, com a voz de Sice Rowbottom atirada para a centrifugadora, parece resultar de uma bad trip dos "outros" MBV; a última é um abastardado da englishness bucólica, tanto dos Kinks, como dos Beatles. 

Como é óbvio, Giant Steps é um daqueles discos que valem pela experiência do todo. Contudo, não resisto a enumerar um trio de temas que são para mim o pico, talvez porque representativos do melting pot do conjunto: "Upon 9th And Fairchild", "Butterfly McQueen", e "Lazarus". O primeiro é marcado é marcado por um cadência entre o reggae e funk assaltada por estilhaços de feedback, e tem, na voz frágil e distorcida, traços de alguma melancolia. O segundo, que se inicia com uma melodia reminiscente de "Bigmouth Strikes Again" dos Smiths, divide-se em segmentos alternados de calma e reboliço, com o protagonismo a dividir-se, separadamente, pela voz, pelos sopros exultantes, e pelas guitarras. Por sua vez, "Lazarus" recupera a base reggae no intro narcótico, e rebenta num wall of sound celebratório adornado pelos pa-pa-pas dos coros.

Como habitualmente em toda a obra dos Boo Radleys, toda a concepção de Giant Steps ficou a cargo de Martin Carr, o perfeccionista obcecado pelos pormenores que não dá por desperdiçada qualquer fracção dos mais de 60 minutos de música. Surpreendentemente, na sua complexidade, resulta num esplendoroso tributo às virtudes e ao poder curativo da "arte" POP. Está tudo resumido nas primeiras frases do derradeiro "White Noise Revisited": "Hey! What's that noise? Do you remember? Kill yourself at work for what seems nothing at all. Then you go home and you cry and you feel so very small. So you listen to The Beatles and relax and close your eyes and you feel it running through you. Feel the hate well up inside.".


"Lazarus"


"Barney (... And Me)"

segunda-feira, 28 de março de 2011

A song from under the floorboards
















Do distrito nova-iorquino de Brooklyn já nos habituámos a ouvir falar de que cada vez que surge novo hype em torno de musiquinha de tons garridos e pretensamente esquizóide. Porém, nem tudo o que vem daquelas paragens alinha neste batalhão neo-freak para o qual começa a faltar paciência. Felizmente que, os projectos em contra-corrente abundam e recomendam-se. Um dos mais respeitados nesta casa são os Crystal Stilts, responsáveis, há coisa de três anos por uma fulgurante estreia com Alight Of Night, disco de sombras e ensombrado pelos espíritos dos Velvet Underground e de Ian Curtis.

De então para cá, paciente e gradualmente, o burburinho em torno da banda vai crescendo, e já se fazem apostas para uma subida de divisão com o segundo álbum. Ele está para breve - chama-se In Love With Oblivion e chega dentro de duas semanas. Algumas previews dão conta de uma evolução na continuidade, falando de um disco mais arejado que, contudo, não corrompe as premissas do antecessor. Pelo par de temas já escutados sou levado a acreditar em tais rumores que dão conta do diluir da nebulosidade. O primeiro, já com mais de meio ano de rotação, tem na tensão das guitarras o nervo que os Interpol não conseguiram repetir depois da estreia. De há alguns dias a esta parte, o entusiasmo indisfarçável deriva deste outro que se apresenta mais abaixo. Como poderão constatar, está impregnado de um subtil sentido melódico inaudito e tem uma vocalização que se projecta ligeiramente para lá da cortina de nevoeiro. Venham os outros nove!

"Through The Floor" [Slumberland, 2011]

sexta-feira, 25 de março de 2011

First Exposure #29














THE HISTORY OF APPLE PIE

Formação: Stephanie Min (voz); Jerome Watson (gtr); Aslam Ghauri (gtr); Kelly Lee Owens (bx, voz); James Thomas (btr)
Origem: Londres, Inglaterra [UK]
Género(s): Indie-Pop, Twee-Pop, Noise-Pop
Influências / Referências: Yuck, The Pains of Being Pure at Heart, The Juliana Hatfield Three, The Breeders, Belly


quinta-feira, 24 de março de 2011

Good cover versions #51












MARINE GIRLS _ "Fever" [Cherry Red, 1983]
[Original: Peggy Lee (1958)]



Na realidade, "Fever" foi interpretada pela primeira vez em 1956, na voz de Little Willie John. No entanto, a versão definitiva seria gravada dois anos mais tarde por Peggy Lee, agora com uma letra alterada/acrescentada pela própria. É um tema arrumado na secção vocal e mais ligeira do jazz, muito em voga à época. De então para cá, "Fever" tornou-se alvo de uma miríade de versões, na sua esmagadora maioria por artistas femininas. Mas é interpretada por Peggy Lee que é mais conhecida, um autêntico standard frequentemente associado ao acto de tirar a roupa perante o olhar alheio.

Trio feminino atípico no período pós-punk, as Marine Girls foram a primeira banda de Tracey Thorn, a cantora que faria fama nos Everything But the Girl. A sua música, marcada por um encantador amadorismo e reduzida aos serviços mínimos, mas profundamente harmoniosa, acabaria por ter um papel pioneiro para a criação de uma linguagem twee-pop. Por inerência, e embora bastante fiel à "original", a sua versão de "Fever" é talvez a mais ingénua de todas e, obviamente, aquela com menor carga sexual associada.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Sei de um segredo


















Para a generalidade das pessoas, mesmo as músico-esclarecidas, falar de The Primitives é falar de "Crash", êxito com tanto de inesperado como de aziago, pois a partir deste foi o definhar até à extinção em 1992. Ou então, The Primitives significa Tracy Tracy, a bombástica vocalista loira importada da Austrália. Porém, a banda de Coventry teve um passado anterior a esse único hit, por sinal bem mais estimulante. Está todo ele documentado em Lazy 86-88, a compilação que reúne o material auto-editado (através da Lazy Records, está-se mesmo a ver...) antes do namoro com as majors. No alinhamento, entre outras pérolas da época, podem encontrem "Really Stupid", tema paradigmático de uma certa expressão indie que eclodiu em meados de oitentas, inspirada em partes iguais pelo sentido melódico dos sixties, a simplicidade dos Ramones, e a ingenuidade dos Buzzcocks.

Soube há relativamente pouco tempo que, desde 2009, os Primitives renderam-se à tendência nostálgica e regressaram ao activo, já sem o baixista Steve Dullaghan, falecido meses antes. O primeiro fruto da reunião já anda por aí. Chama-se Never Kill A Secret e consiste num EP de quatro temas curtos e concisos, como convém. Já o ouvi e posso afiançar que reúne todos os condimentos para puder ombrear com a actual legião de carinhas larocas que, a partir da América, reabilitam o passado pop do Reino Unido. Aos desconfiados recomendo a audição/visualização da amostra infra. Está lá tudo, menos a Tracy da nossa juventude.

"Rattle My Cage" [Fortuna Pop!, 2011]

terça-feira, 22 de março de 2011

In a bar, overseas














Já leva anos a discussão em torno da perda de relevância da música britânica face ao progressivo domínio norte-americano. Por acaso, até sou da opinião que, de há uns anos a esta parte, do reino de Sua Majestade chegam amiúde propostas bastante estimulantes que contrariam alguma estagnação da concorrência ianque. E até acho que as mais interessantes são aquelas que exibem com maior orgulho os traços de uma certa englishness, ou aquilo a que alguns teóricos, em tom menos abonatório, gostam de chamar "demasiado inglês".

Um exemplo flagrante que sustenta a tese supra explanada são os Pete & The Pirates, colectivo de Reading responsável pelo pungente Little Death (2008), disco que, apesar da sua valente dose de saudável loucura ao bom estilo britânico, sustém aquele histrionismo que tomou de assalto o gosto de muitos consumidores de música. É um daqueles discos a que regresso frequentemente para uma reapreciação sempre em alta. De então para cá, recorde-se, o vocalista Thomas Sanders já nos brindou com o delicioso segundo álbum do projecto paralelo Tap Tap.

Satisfeitas as vontades pessoais, o ano passado foi ano de regresso ao estúdio para a concretização do segundo registo. O resultado está para breve - 23 de Maio é grande dia - sob o título genérico One Thousand Bars. Em relação ao dito, já levantaram a ponta do véu com um primeiro single cujo tema principal se apresenta mais abaixo. Como decerto irão constatar, esta primeira amostra é uma subtil incursão pelos territórios do synth-pop (também eles?!) que, ao bom estilo P&TP, culmina num refrão que é um frenesim de alegria agridoce. Até daqui a dois meses, é ouvir e chorar por mais...

"Come To The Bar" [Stolen, 2011]

segunda-feira, 21 de março de 2011

Em escuta #57











CLOUD NOTHINGS _ Cloud Nothings [Carpark, 2011]

Cloud Nothings é o veículo musical de Dylan Baldi, mais um puto norte-americano que encontrou no pop-punk o escape para a inesgotável energia juvenil. Em temos de afinidades musicais está próximo de gente como os No Age ou os Wavves, o que desde logo denuncia afeição pelo lo-fi ruidoso. Porém, mais do que nos casos citados, Cloud Nothings aposta sem pruridos na melodia e na limpeza da produção, resultando daí uma receita pop vitaminada, com as inevitáveis inflexões surf, que pisca o olho a inúmeras glórias indie-rock (Pixies, Guided by Voices, Apples in Stereo, ou Teenage Fanclub, para citar apenas alguns). Assimiladas as fontes, o único aspecto a merecer trabalho de casa é a voz nasalada, à qual se recomenda maior contenção. [7,5]


WYE OAK _ Civilian [Merge, 2011]

É com alguma estranheza que verifico a relativa obscuridade a que tem sido votada a dupla Wye Oak, especialista no contraste entre quietude e descarga sónica. E tenho a quase firme certeza que o seu destino não mudará com este terceiro disco. O que será uma tremenda injustiça, pois Civilian assinala o aprimorar da fórmula dos antecessores, com uma dezena de temas seguros e encorpados. À dicotomia guitarra-bateria, a banda adiciona agora alguns apontamentos electrónicos que sublinham os momentos mais explosivos. A toada reflexiva dominante é propiciada por um meio termo entre a dream-pop e o rock tipicamente noventista, aqui e ali com um laivo folk a despontar. Civilian é também a coroação de Jenn Wasner, dona de uma voz peculiar entre o abandono e o expressivo, como uma das mais dotadas executantes femininas à guitarra. [8]


SIC ALPS _ Napa Asylum [Drag City, 2011]

Outrora executantes de uma música fracturada, na qual os resquícios de canções pareciam querer libertaram-se, os Sic Alps investem agora numa maior objectividade. Napa Asylum foi gravado de forma a soar a disco de outras eras, mais concretamente à segunda metade de sessentas, cujo espírito das célebres Nuggets pretende recuperar. Sucede que os 22 temas (em apenas 47 minutos) são normalmente demasiado curtos para deixar fluir o ambiente psych pretendido. Como se não bastasse, soam, na sua maioria, a meros esboços de canções praticamente indistintos entre si. Infelizmente, confirmam-se em disco algumas das piores expectativas criadas da última vez que os vi em palco. [4]


SEEFEEL _ Seefeel [Warp, 2011]

O título é enganador, pois pode sugerir um trabalho de estreia. Mas os Seefeel já cá andam há quase duas décadas, embora o título homónimo interrompa um silêncio de 15 anos. Conforme anunciado pelo EP do ano passado, Seefeel segue a via da electrónica de pendor abstraccionista, carregada de estática e vozes submersas e alteradas. O elemento humano, a cortar a frieza dominante, é a bateria, normalmente esparsa e numa cadência vagamente jazzística. Portanto, a milhas de distância do hipnotismo planante e das texturas densas do marcante Quique (1993), do qual apenas o downtempo de "Rip-Run" é uma ligeira evocação. Não sendo propriamente um disco de ingestão fácil, Seefeel ganha, com sucessivas audições, estatuto de banda-sonora indicada para o quotidiano impessoal e acelerado dos dias que correm. [7]


THE TWILIGHT SINGERS _ Dynamite Steps [Sub Pop, 2011]

Por esta altura, Greg Dulli já contará tanto tempo à frente dos Twilight Singers como aquele que liderou os Afghan Whigs. Como tal, é natural que, à excepção da devoção soul, a herança destes últimos se vá desvanecendo. Diria até que este quinto registo do "novo" projecto é uma possível súmula do trabalho pós-Whigs: baladas enegrecidas adornadas a piano eléctrico e arranjos de cordas a preceito, tipicamente Singers, alternadas com a fúria das guitarras experimentada nos Gutter Twins. Em termos de letras, retomam-se as crónicas dullianas das batalhas libidinosas ("spread your legs in search of alibis" canta-se a plenos pulmões em "On The Corner"). Portanto, nada de particularmente novo para os seguidores mais próximos que, inclusive, poderão detectar alguma previsibilidade. Detectarão também, com mais agrado, que a voz não propriamente maleável de Dulli ultrapassa as limitações e vai amadurecendo com sapiência, ao ponto de ofuscar em absoluto os convidados Joseph Arthur, Anni DiFranco, e o granítico Mark Lanegan. [6,5]

domingo, 20 de março de 2011

R.I.P.


JET HARRIS
[1939-2011]

Na passada sexta-feira, dia 18, morreu Terence "Jet" Harris, primeiro baixista dos The Shadows, banda fundamental para a implementação do rock'n'roll, facção surf, no Reino Unido. Harris juntou-se-lhes em 1958, ainda se chamavam The Drifters e serviam de backing band a Cliff Richard, por convite deste último. Ficaria apenas até 1962, mas o tempo suficiente para moldar a sonoridade típica da banda e para promover o baixo eléctrico ao ponto de influenciar a vida de um então imberbe John Paul Jones. Curiosamente, o seu período de permanência, coincide com o auge dos Shadows. Ao abandono seguiu-se uma carreira errática, tanto a solo como em companhia de Tom Meehan (também ex-Shadows), na qual o alcoolismo e o comportamento tempestuoso seriam factor de destabilização. Dos hits esporádicos na vida pós-Shadows destaca-se uma versão, editada em 1963, do tema principal de The Man With The Golden Arm, o filme-culto de Otto Preminger. Como sinal do seu papel pioneiro da sua obra, no ano passado, foi distinguido como membro da Ordem do Império Britânico. Tinha 71 anos e sucumbiu a um cancro. 

The Shadows _ "Apache" [Columbia, 1960]

Evening standards

















Na vida dos Brown Recluse tudo é pensado e executado com tempo. Mais ou menos com o mesmo vagar com que as suas canções se espraiam, deixando no ar uma sobriedade outonal que lhes confere intemporalidade. No activo desde 2006, este colectivo de Filadélfia resumia a sua produção discográfica a um par de EPs nos quais confessavam uma profunda devoção tanto pela exuberância pop dos Zombies como pelas produções luxuriantes de Phil Spector.

Na semana passada chegou finalmente o tão esperado primeiro longa-duração. Chama-se Evening Tapestry e envereda inevitavelmente por uma pop de travo clássico que, a espaços, se deixa contaminar sem compromissos pela folk pastoral. Todas as onze canções são uma pequena celebração da melancolia com os mesmos tons sépia que normalmente reconhecemos no trabalho de bandas como The Clientele ou Belle & Sebastian. Para melhor entendimento, e eventual rendição, recomenda-se a audição da amostra que se segue.


"Impressions Of A City Morning" [Slumberland, 2011]

quinta-feira, 17 de março de 2011

quarta-feira, 16 de março de 2011

Temos (quase) novo viking

















Quando os No Age, os Wavves, ou a miríade de bandas similares reergueu a bandeira do lo-fi de confecção caseira, já os Times New Viking tinham algum currículo como corruptores da canção pop. Essa estava lá, no cerne, dissimulada pelo ruído e pelas gravações propositadamente mal-acabadas. Foi assim ao longo de quatro álbuns, registados nas mais precárias condições segundo os ensinamentos do-it-yourself.

No entanto, ao vivo, parecia evidente a vontade das canções em libertarem-se e ganharem corpo. Algo que agora nos é prometido para o próximo Dancer Equired, primeiro do trio do Ohio pela Merge Records depois da passagem pela não menos emblemática Matador. A editora avança-nos que o novo disco assinala a estreia dos TNV num estúdio digno desse nome, e também o primeiro com participações exteriores à banda. Consequentemente, os novos temas surgem limpos de alguma rugosidade e com uma luminosidade insolente, sem que, no entanto, traiam as premissas que juntaram estes três antigos estudantes de arte numa banda. O primeiro avanço, já conhecido de alguns de um split exclusivo da digressão com os "padrinhos" Guided by Voices, confirma a promessa e eleva as expectativas:

"No Room To Live" [Merge, 2011]

segunda-feira, 14 de março de 2011

Fair trade
















Foto: Brian Birzer

O ano em curso pode muito bem ser um ano especial para os adeptos de Jad Fair, figura amiúde citada por gente como Lou Barlow, Yo La Tengo ou Kurt Cobain. Pelo menos para mim, pois oportunidades destas, e com esta proximidade, não surgem com grande frequência. Os outros, podem sempre regalar-se com His Name Itself Is Music, o já disponível novo e enésimo álbum do patriarca do lo-fi e da metodologia do-it-yourself. Como se isso não bastasse, desde há coisa de um mês, está também disponível, igualmente com selo da Fire Records, a compilação Beautiful Songs: The Best Of Jad Fair que, em ao longo de três discos, reúne 109 temas que fazem um possível resumo de uma carreira impossível de acompanhar na íntegra até pelos mais dedicados. No alinhamento, que resume os trabalhos em parceria a meia dúzia de temas dos discos com Nao e Daniel Johnston, lamenta-se a ausência de qualquer tema resultante das colaborações com Teenage Fanclub, Yo La Tengo, The Pastels, ou Mark Kramer. Em compensação, Beautiful Songs inclui umas duas boas dezenas de temas da vasta discografia dos 35 anos de carreira dos Half Japanese, o colectivo que lidera conjuntamente com o irmão David Fair e que influenciou todos os citados. Este diamante em bruto é uma das contempladas:


Half Japanese _ "Miracles Happen Every Day" [50 Skidillion Watts, 1988]

The xx
















Canadianos de Toronto, os Sloan levam já duas décadas de relativa obscuridade. Contudo, os seus refrões orelhudos e os ganchos irrepreensíveis, sublimados nos essenciais One Chord To Another (1996) e Never Hear The End Of It (o duplo de 2006), não têm passado despercebidos aos power-poppers mais convictos. Talvez goradas as esperanças de um maior reconhecimento, e de alguns anos a esta parte regressada à independência, a banda apresta-se para lançar aquele que será o seu décimo álbum. Chega dentro de dois meses e intitula-se The Double Cross, numa clara referência ao vigésimo aniversário (XX, como se depreende) de actividades. Para já, a primeira amostra, impregnada de um ostensivo travo beatlesco, garante-nos que o quarteto permanece fiel à sua imagem de marca.


"Follow The Leader" [Yep Roc, 2011]

domingo, 13 de março de 2011

Selo de Qualidade #2














TOO PURE RECORDS
Londres, Inglaterra [UK], 1990-2008

Aquando da criação da Too Pure Records, precisamente na alvorada de noventas, os fundadores Paul Cox e Richard Roberts tinham como propósito o apoio à facção mais experimental do indie-rock britânico, universo então dividido pelo domínio das linguagens dançantes da Madchester e os sons etéreos do shoegaze. O remar contra as tendências instituídas haveria, de resto, acabar por ser a política omnipresente ao longo dos 18 anos de vida conturbada da editora londrina.

Ainda antes das primeiras edições discográficas, o manifesto de intenções foi tornado público nas noites de concertos multi-bandas designada Sausage Machine, posteriormente documentadas nos dois volumes da compilação Now That's Disgusting Music. Com as primeiras contratações, a Too Pure viu-se conotada na imprensa com a chamada Camden Lurch Scene, uma corrente artificial baseada na origem geográfica da maioria dos projectos. Desse primeiro lote de bandas, eventualmente o mais emblemático de todo o catálogo, faziam parte Stereolab, Th' Faith Healers e Moonshake, todos elas com manifesta influência kraut-rock, mas também PJ Harvey, na altura nome de power-trio que rivalizava com a crueza rock ruidosa que na altura vinha do outro lado do Atlântico. O apreço do tutelar John Peel pelo roster inicial da Too Pure foi imediato, ao ponto de o radialista promover sessões com a totalidade do quarteto de bandas ainda numa fase imberbe.

A seguir à euforia inicial, a Too Pure marcou novamente pontos com a edição dos Seefeel, banda responsável pelo cruzamento do shoegaze experimental de uns My Bloody Valentine com a electrónica vanguardista. A britpop estava eminente, e com ela avizinhavam-se tempos difíceis para todas as pequenas editoras não alinhadas com aquele movimento. Contudo, se as vendas caíram a pique, em termos meramente artísticos a Too Pure deu a volta por cima com a "descoberta" da incatalogável feitiçaria pop dos Pram, a dream-pop de cariz electrónico dos Laika, os abstraccionismos digitais dos germânicos Mouse on Mars, e a irrepreensível escrita de canções dos Hefner e dos Jack. Com o cenário da música independente transfigurado, e coincidindo com o abandono da dupla fundadora, em 1998, a Too Pure viu-se integrada no Beggars Group, então já um coglemerado com uma boa fatia na distribuição na música de filiação indie.

Após um período de escassa actividade, os primeiros anos do novo século trouxeram um novo fôlego. Primeiro com o post-hardcore jocoso dos galeses Mclusky, depois com o post-rock de inflexão kraut das Electrelane e o sadcore descarnado de Scout Niblett. Esta última parelha é representativa de uma certa tendência da Too Pure, na sua última fase, para as expressões rock no feminino, denunciada também pelas edições europeias das canadianas The Organ e do trio norte-americano The Rogers Sisters.

Inexplicavelmente, ou talvez derivado da conjunta económica, em 2008, a administração do grupo editorial decidiu encerrar a editora, transferindo as bandas ainda no activo para o selo da 4AD. De então para cá, a Too Pure tem dado excelente conta de si como mero singles club de edições esporádicas e de tiragem limitada.

10 DISCOS ESSENCIAIS
  • STEREOLAB _ Switched On (compilação) [1992]
  • TH' FAITH HEALERS _ Lido [1992]
  • PJ HARVEY _ Dry [1992]
  • MOONSHAKE _ Eva Luna [1992]
  • SEEFEEL _ Quique [1993]
  • PRAM _ Sargasso Sea [1995]
  • HEFNER _ The Fidelity Wars [1999]
  • MCLUSKY _ Do Dallas [2002]
  • ELECTRELANE _ The Power Out [2004]
  • SCOUT NIBLETT _ This Fool Can Die Now [2007]

sexta-feira, 11 de março de 2011

Singles Bar #61








THE POSIES
Golden Blunders
[DGC, 1990]




Quem foi que disse que a Seattle de há vinte anos era só camisas de flanela e/ou barbichas de bode? Que era apenas catarse do angst juvenil, infelizmente, mais vezes encenado que genuíno?  Antes mesmo do teen spirit eclodir nos media, na chuvosa cidade do noroeste americano uma banda ousava fazer-se notar com roupas de corres tão garridas quanto as do cabelo de um dos seus vocalistas/guitarristas - Ken Stringfellow, o rapaz que, desconfio, inspirou aquela personagem da Kate Winslet. O nome da banda em questão é The Posies, e seu é o mérito pela recuperação das sonoridades power-pop setentistas em solo norte-americano, um pouco à semelhança do papel dos Teenage Fanclub no Reino Unido.

Porém, se ao longo do percurso os congéneres escoceses partiram dos Big Star para as harmonias dos Beatles e afins, os Posies seguiram o direcção praticamente inverso. Isto ainda antes do soberbo Frosting On The Beater, quando a banda envergava orgulhosamente a sua anglofilia. Para tal, contaram com a produção do credenciado John Leckie, que os conduziu a um assomo de sucesso com o álbum Dear 23, segundo da carreira e primeiro numa multinacional. Tal acolhimento fica sobretudo a dever-se ao razoável airplay de "Golden Blunders", tema mais conhecido desse disco e exemplo paradigmático da "sonoridade The Posies", isto é, encaixe perfeito das duas vozes (Stringfellow e o inseparável Jon Auer) e uma melodia luminosa que tem tanto de canónico como de irrepreensível. Esta proximidade da perfeição pop é muitas vezes confundida com vulgaridade. À letra, que aborda o remorso e o arrependimento pelas oportunidades perdidas, poderá ser apontado algum moralismo estandardizado. É uma observação tão adequada como a de excesso de juvenilidade. Sucede que "Golden Blunders" é leveza pop até ao tutano e não aspira a mais do que isso...



quarta-feira, 9 de março de 2011

It says something to me about my life















Há sinais de ventos de mudança na linha editorial da revista Mojo, pelo menos a ajuizar pelos dois últimos números que, ao invés do destaque às velhas carcaças do costume, trazem à capa (vá lá!) um par de bandas com menos de 30 anos. Se o número de Março (estes coisas em Inglaterra andam com um mês de avanço), os Nirvana foram motivo de extenso artigo, com direito a CD de oferta que apresenta uma selecção de bandas que marcaram o som de Cobain & C.ª, a mais recente edição dá capa a essa instituição indie chamada The Smiths. A propósito da aproximação da passagem de um quarto de século sobre a edição do mega-superlativo The Queen Is Dead, a Mojo oferece-nos, entre outras minudências, um minucioso enquadramento temporal daquele disco e uma análise track-by-track por uma série de devotos mais ou menos famosos. Em complemento, na página on-line, a revista desafia os mais versados em smithologia num cover quiz que, garanto-lhes, tem pouco de fácil. A cereja no topo do bolo, e em consonância com o espírito de insurreição dos The Smiths, é o habitual CD gratuito, desta feita preenchido com alguns dos nomes mais inconformistas do espectro indie britânico. Entre outras, incluem-se faixas de Robert Wyatt, Billy Bragg, Mekons, The Band of Holy Joy, Orange Juice, e McCarthy. E também esta pérola carregada de vitríolo extraída do último trabalho de um dos mais duradouros e ignorados casos de independência made in UK.


Half Man Half Buscuit _ "National Shite Day" [Probe Plus, 2008]

terça-feira, 8 de março de 2011

Mixtape #9 - Lost In The Movies

Foto: Andy Warhol

Hoje, dia de Carnaval, o April Skies veste-se de cinéfilo. A compilação do dia inclui dezoito faixas, todas elas com a particularidade de serem intituladas a partir de nomes ligados à Sétima Arte, a maioria no grande ecrã, alguns atrás das câmaras. Uns estrelas de brilho intenso, outros nomes de projecção mais restrita. Façam o favor de se servir!


01. THE GO-BETWEENS _ "Lee Remick" [1978]
02. YO LA TENGO _ "Tom Courtenay" [1995]
03. SPEARMINT _ "Julie Christie!" [2001]
04. DROP NINETEENS _ "Winona" [1992]
05. THE BODINES _ "William Shatner" [1987]
06. COMET GAIN _ "Jack Nance Hair" [1998]
07. BILLY BRAGG & WILCO _ "Ingrid Bergman" [1998]
08. ADAM GREEN _ "Jessica" [2003]
09. VELOCITY GIRL _ "Audrey's Eyes" [1993]
10. BETTY AND THE WEREWOLVES _ "David Cassidy" [2010]
11. JAPANTHER _ "River Phoenix" [2007]
12. JAY REATARD _ "Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle" (Nirvana cover) [2009]
13. HALF MAN HALF BISCUIT _ "I Hate Nerys Hughes (From The Heart)" [1985]
14. THE EXPLODING BUDGIES _ "Kenneth Anger" [1985]
15. CINERAMA _ "Lollobrigida" [2000]
16. THE WONDERMINTS _ "Tracy Hide (Version)" [1996]
17. MATTHEW SWEET _ "Winona" [1991]
18. THE VELVET UNDERGROUND _ "Candy Says" [1969]

segunda-feira, 7 de março de 2011

Discos pe(r)didos #50








THE BATS
Daddy's Highway
[Flying Nun, 1987]




De terras longínquas da Nova Zelândia, a primeira metade da década de 1980 já tinha revelado três nomes incontornáveis das mais puras sensibilidade e política indie: Tall Dwarfs, The Clean e The Chills. Todas elas foram lançadas com selo da Flying Nun Records e surgiram associadas aquilo a que se decidiu chamar Dunedin Sound, por via da cidade de origem de todas elas. Embora oriundos de outras paragens, mais propriamente de Christchurch, os The Bats viriam a fechar uma hipotética quadratura da pop neozelandesa em registo de baixa-fidelidade.

Até este primeiro álbum, a banda levou cinco anos a testar canções de forte cunho melódico em registos de pequeno formato. Esse período de aprendizagem revelar-se-ia extremamente proveitoso, pois Daddy's Highway destaca-se dos discos de estreia dos seus pares pelo maturidade das composições. Para tal, o quarteto base contou com a preciosa colaboração do violinista Alastair Galbraith, responsável pelo travo folk gingão que encontra similaridades nos australianos The Go-Betweens. A título de exemplo oiçam-se o inaugural  "Treason" e o derradeiro "Daddy's Highway", temas em que os jogos vocais do mentor Robert Scott com os coros da baixista Kaye Woodward reforçam os paralelismos referidos.

Mas Daddy's Highway merece uma apreciação que vá além dessas comparações, pois é exemplo perfeito de uma pop séria e letrada, com a dose de melancolia adequada, que, à época, provinha das antípodas em quantidades generosas. E é também um disco em que o sentido melódico e a busca da canção pop perfeita prevalecem sobre as limitações técnicas dos executantes. Exemplo perfeito é "North By North" que, curiosamente, se inicia com uns acordes em tudo semelhantes aos deste exemplar do rock "azeiteiro", mas evolui para uma profunda reflexão sobre o sentido da vida digna de autores mais vividos que Scott. É justamente o tema mais popular da banda, e já constitui um standard da pop neozelandesa. Em temas como "Tragedy", "Miss These Things", ou "Same Peace Tonight", o ar de gravidade sincera acentua algum negrume que, contudo não ensombra a luminosidade do conjunto. A faceta jangly dos The Bats está também bem vincada, e para o atestar é apontar directamente a "Block Of Wood", tema em que a guitarra parece libertar farpas incandescentes. Curiosamente, ou talvez não, neste tema e embora numa velocidade diferente, o staccato remete-me para este caso sério de popularidade da facção mais arty da pop deste início de século.

Desde esta estreia em grande estilo, as edições dos The Bats têm surgido a uma cadência irregular, com o prolífico Robert Scott ocupado em projectos paralelos e os restantes membros entregues às vidas pessoais. Contudo, mantém-se activos até aos dias de hoje, aqui e ali lançado discos que em nada desmerecem as virtudes do debute.

"North By North"

"Block Of Wood"

sexta-feira, 4 de março de 2011

First Exposure #28














IMPLODES

Formação: Matt Jencik (voz, gtr); Ken Camden (gtr); Emily Elhaj (bx); Justin Rathell (btr)
Origem: Chicago, Illinois [US]
Género(s): Indie-Rock, Noise-Rock, Space-Rock, Psych, Drone
Influências / Referências: Flying Saucer Attack, A Place to Bury Strangers, Swans, Weekend

http://www.myspace.com/chicagoimplodes


"Marker" [Kranky, 2011]

quinta-feira, 3 de março de 2011

Higher and higher
















Foto: Tyson Wirtzfield

Tenho um palpite de que já falta pouco para que se inicie a triagem de bandas na recente avalanche revivalista da fuzz-pop com travo sixties. Neste, como em todos os anteriores "movimentos" pop, o tempo encarrega-se, mais cedo ou mais tarde, de separar o essencial do assessório. Naquele primeiro grupo, o das figuras de proa, estou certo, estará Dee Dee Penny, ideóloga das esbeltas Dum Dum Girls. Não só pelas gemas de valor acrescentado com que preencheu o álbum debute do ano passado, como pelo work in progress que tem revelado desde as primeiras gravações sob aquele epíteto, ainda em solitário.

Seguindo pela via evolutiva, mas não necessariamente descaracterizadora, Dee Dee y sus muchachas acabam de deitar cá para forma um novo EP. Composto por quatro temas, He Gets Me High foi mais uma vez produzido por Richard Gottehrer (autor do clássico "My Boyfriends Back") em colaboração com a própria Dee Dee e Sune Rose Wagner, da dupla The Raveonettes. No inaugural "Wrong Feels Right" que, com alguma saudade, nos faz lembrar os primeiros The Long Blondes, antes do espalhanço ao segundo disco, nota-se logo que houve uma intenção clara de "limpar" o som. Neste tema, são de reter o sentido pop apurado e o indisfarçável sex appeal da intérprete.  O tema-título, que deve ter deixado o maridinho embevecido, é DDG canónico, ou seja, puro girly-pop sessentista com um pitada surfy. "Take Care Of My Baby" segue na mesma linha, embora em registo balada capaz de ombrear com as de moças de outras eras. Para o final, a cereja no topo do bolo por via de uma corajosa versão de certo e determinado tema que roça já os limites do sagrado. Reverente ao original, mas simultaneamente com um forte cunho pessoal, não só é a melhor reinterpretação do dito que me ocorre, como uma das melhores do extenso rol de covers de originais daquele agrupamento. Ora oiçam:


"There Is A Light That Never Goes Out" [Sub Pop, 2011]

quarta-feira, 2 de março de 2011

Last man standing
















Foto: Scott Hartzler

Ocasionalmente, sem que quase se dê por elas, surgem bandas que, apesar de uma passagem fugaz por este mundo, deixam marcas profundas e duradouras naqueles que com elas se cruzam. É o caso dos Lift to Experience, um trio de texanos barbudos que, há coisa de uma década, pariu um surpreendente duplo conceptual que discorria sobre as teorias bíblicas do Apocalipse. Esse excelso disco intitulava-se The Texas-Jerusalem Crossroads e, baseado em algum sarcasmo e em experiências próximas, aventava a hipótese de o Texas ser a Terra Prometida. Mais invulgar, só mesmo a sonoridade dos LtE, ponto de encontro da distorção com as raízes americana que alguns comentários não totalmente falaciosos definiram como "o cruzamento entre Johnny Cash e os My Bloody Valentine".

A banda dissolveu-se pouco depois e, desde então, o cabecilha Josh T. Pearson tem encontrado poiso em diversos pontos do globo, essencialmente no Velho Continente, por onde tem dado alguns concertos para pequenos grupos de afiliados. A continuação daquela obra, da qual foi compositor exclusivo, é prometida há muito, com a mesma devoção com que é aguardada. Rejubilemos então, pois Last Of The Country Gentlemen, a tão aguardada estreia a solo, chega já no próximo dia 14 com o improvável selo da Mute Records. Os temas do alinhamento são apenas sete, mas com durações quase sempre generosas que, segundo algumas previews, sublimam as nuances de um intimismo descarnado que deriva da folk norte-americana mais primitiva. Segundo as mesmas fontes, abordam-se temáticas de homens crescidos como mulheres, bebida, e questões da Fé. Das descargas de electricidade nem sinal, apenas voz, guitarra acústica, e pouco mais. Pela amostra abaixo, ficamos a saber que, pelo menos, foi preservado aquele sentido de humor retorcido que se esconde nas entrelinhas da iminente melancolia.

"Woman, When I've Raised Hell..." (an exclusive rooftop performance)

terça-feira, 1 de março de 2011

Good cover versions #50
















NIRVANA _ "Molly's Lips" [DGC, 1992]
[Original: The Vaselines (1987)]

Já faz parte do anedotário pop a dissolução dos The Vaselines, ocorrida, sem glória, precisamente na mesma semana do lançamento do primeiro álbum. Contudo, não ficariam totalmente esquecidos. Já ícone global junto do mainstream, Kurt Cobain pregou aos sete ventos a sua paixão pela pureza ingénua da música da dupla de Glasgow, bem como da de outros conterrâneos (Teenage Fanclub, The Pastels). A influência de Cobain acabaria por resultar numa reunião fugaz a convite (com quase duas décadas de antecedência do regresso a tempo inteiro), e na reedição, por parte da Sub Pop, da "obra integral" compilada em The Way Of The Vaselines.

Também no "pacote" de adoração aos The Vaselines, os Nirvana gravariam, inclusive, uma versão de estúdio de "Molly's Lips", tema que habitualmente fazia parte do set dos concertos para audiências progressivamente mais numerosas, já depois de instalado o "fenómeno". O resultado deixa a nu as raízes punk do trio, bem patentes no riff cortante e repetitivo, ao mesmo tempo que não esconde um certo apego à simplicidade pop. Em todo caso, difere substancialmente do original, típico twee desengonçado com um travo country, à boa "maneira Vaselines", interpretado pela voz de menina de Frances McKee, cujo nome próprio acabaria por ser o da filha do próprio Cobain. A inspiração para a canção, essa partiu dos lábios expressivamente vermelhos de uma personagem interpretada pela actriz escocesa Molly Weir numa série infantil da BBC.