"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel

sábado, 31 de dezembro de 2011

Classe de 2011


Nas lides musicais pop/rock, fim de ano é sinónimo de balanço. No April Skies gostamos de deixar a coisa mesmo para o fim, não vão os últimos dias do ano revelar-nos algum tesouro perdido que nos tenha escapado ao radar nos dias restantes. Este ano, em particular, a eleição dos melhores discos exigiu uma maior ponderação, tal a qualidade das propostas a concurso, o que faz de 2011, seguramente, o melhor dos anos musicais dos últimos sete ou oito. Pormenor curioso é que, salvo uma ou outra honrosa excepção, desta feita os "consagrados" nem tiveram contributo de monta para o que de melhor se fez durante os últimos doze meses. Em 2011 a parte de leão na elite da produção pop/rock coube, essencialmente, a neófitos e a promessas que se confirmaram, o que faz esperar um futuro radioso para 2012 e seguintes. É também isso que espero e desejo para todo o vasto auditório deste pasquim: pessoal, no novo ano, apesar das agruras que nos impõem,  sejam felizes e oiçam muita e boa música! Até lá!

30 ÁLBUNS














  1. REAL ESTATE _ Days
  2. YUCK _ Yuck
  3. CRYSTAL STILTS _ In Love With Oblivion
  4. KURT VILE _ Smoke Ring For My Halo
  5. VERONICA FALLS _ Veronica Falls
  6. DIRTY BEACHES _ Badlands
  7. EMA _ Past Life Martyred Saints
  8. WILD FLAG _ Wild Flag
  9. LOW _ C'mon
  10. GANG GANG DANCE _ Eye Contact
  11. THE FEELIES _ Here Before
  12. CREEPOID _ Horse Heaven
  13. TIM HECKER _ Ravedeath, 1972
  14. MALE BONDING _ Endless Now
  15. WU LYF _ Go Tell Fire To The Mountain
  16. CRAFT SPELLS _ Idle Labor
  17. SMITH WESTERNS _ Dye It Blonde
  18. MINKS _ By The Hedge
  19. GIRLS NAMES _ Dead To Me
  20. THE WAR ON DRUGS _ Slave Ambient
  21. TORO Y MOI _ Underneath The Pine
  22. TY SEGALL _ Goodbye Bread
  23. STEPHEN MALKMUS & THE JICKS _ Mirror Traffic
  24. DUM DUM GIRLS _ Only In Dreams
  25. WOODS _ Sun & Shade
  26. MOON DUO _ Mazes
  27. JOSH T. PEARSON _ Last Of The Country Gentlemen
  28. CHARLES BRADLEY _ No Time For Dreaming
  29. ONEOHTRIX POINT NEVER _ Replica
  30. PETE & THE PIRATES _ One Thousand Pictures


10 EPs














  1. DUM DUM GIRLS _ He Gets Me High
  2. CRYSTAL STILTS _ Radiant Door
  3. THE FRESH & ONLYS _ Secret Walls
  4. BRAIN IDEA _ Cosmos Factory
  5. KURT VILE _ So Outta Reach
  6. BEACH FOSSILS _ What A Pleasure
  7. WAVVES _ Life Sux
  8. THE SOFT MOON _ Total Decay
  9. ETERNAL SUMMERS _ Prisoner
  10. THE VANDELLES _ Summer Fling


10 REEDIÇÕES / COMPILAÇÕES














  1. RIDE _ Nowhere
  2. SEBADOH _ Bakesale
  3. R.E.M. _ Lifes Rich Pageant
  4. THE BEACH BOYS _ The SMiLE Sessions
  5. DISCO INFERNO _ The 5 EPs
  6. SUPREME DICKS _ Breathing And Not Breathing
  7. ARCHERS OF LOAF _ Icky Mettle
  8. BITCH MAGNET _ Bitch Magnet
  9. THROBBING GRISTLE _ 20 Jazz Funk Greats
  10. THE SERVANTS _ Youth Club Disco


15 CONCERTOS











  1. DEAN WAREHAM plays Galaxie 500 @ Primavera Sound - Barcelona, 28 Mai.
  2. REAL ESTATE @ Galeria Zé dos Bois - Lisboa, 03 Dez.
  3. BONNIE 'PRINCE' BILLY @ Teatro Maria Matos - Lisboa, 24 Out.
  4. DEAN WAREHAM plays Galaxie 500 @ Casa da Música - Porto, 19 Nov.
  5. GLENN BRANCA ENSEMBLE @ Primavera Sound - Barcelona, 26 Mai.
  6. MERCURY REV @ Primavera Sound - Barcelona, 29 Mai.
  7. BARDO POND @ Galeria Zé dos Bois - Lisboa, 29 Out.
  8. DIRTY BEACHES @ Galeria Zé dos Bois - Lisboa, 21 Jul.
  9. DEERHUNTER @ Primavera Sound - Barcelona, 27 Mai.
  10. SWANS @ Aula Magna - Lisboa, 09 Abr.
  11. LOW @ Primavera Sound - Barcelona, 27 Mai.
  12. PUBLIC IMAGE LTD. @ Primavera Sound - Barcelona, 26 Mai.
  13. TIM HECKER @ Galeria Zé dos Bois - Lisboa, 29 Abr.
  14. PERE UBU @ Primavera Sound - Barcelona, 27 Mai.
  15. SIX ORGANS OF ADMITTANCE @ Teatro Maria Matos - Lisboa, 10 Set.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Discos pe(r)didos #60








THE PALE FOUNTAINS
Pacific Street
[Virgin, 1984]




Podem nunca ter gozado do reconhecimento público de um Ian McCulloch ou de um Julian Cope, mas o que é certo é que o tempo e obra têm feito dos irmãos Michael e John Head duas das figuras de referência da "cena" de Liverpool da última trintena de anos. Actualmente a militar nos semi-obscuros mas meritórios Shack, os dois irmãos iniciaram o percurso musical nos alvores de oitentas, então como fundadores dos The Pale Fountains, banda de vida breve com um fascínio pelos Love e, previsivelmente, pelos Beatles que, em certa medida, poderá ser vista como o elo perdido entre os arremedos psicadélicos dos Echo & The Bunnymen e a sofistificação pop dos Prefab Sprout.

Para a posteridade ficou um par de discos, o primeiro dos quais Pacific Street, obra prenhe de urgência juvenil e exímia na assimilação das referências para a confecção de uma pop sem pruridos em se assumir como tal. O positivismo que o percorre poderá ter sido determinante para o relativo insucesso, ou não fossem aqueles tempos de gravidade e dramatismo encarnados pelos Smiths ou pelos próprios Bunnymen. Esse factor, que faz de Pacific Street um disco alheado do seu tempo, acaba por resultar, volvido mais de um quarto de século, como a pedra de toque para o estatuto de culto que a voragem do tempo lhe conferiu. 

À margem dos ícones incontornáveis e já citados, os Pale Fountains olham para as manifestações pop recentes, operadas ali perto, a norte, na Escócia, por gente como os Orange Juice ou os Aztec Camera. Os primeiros estão bem presentes no frenesim de sopros e no balanço funky que percorrem, respectivamente, temas como "Unless" ou "Natural", os segundos no carácter delicodoce, no sentido melódico, e nos tiques de flamenco de "Beyond Friday's Field", "Reach", e "Something On My Mind". Este último é, inclusive, um dos temas imediatamente mais cativantes de todo o disco, apenas superado por "You'll Start A War", tratado pop em pouco mais de três minutos e meio impregnados de um romantismo que já não se usa. Como jovens letrados e ambiciosos, aos Pale Fountains perdoa-se algum pretensiosismo próprio da idade, na circunstância manifestado no díptico "Faithfull Pillow", dois curtos instrumentais que em nada beliscam o cariz intensamente pop do todo.

No ano seguinte ao de Pacific Street, os Pale Fountains deram à estampa ...From Across The Kitchen Table, disco seguidor das premissas do antecessor mas caracterizado por uma maior efusividade. Ao virar da esquina estava a dissolução e a formação dos Shack, mais uma banda para a qual a indiferença do público é compensada pelo reconhecimento crítico e pelo facto, mais ou menos consumado, de, juntamente com os conterrâneos The La's, terem estado na origem daquilo que convencionou chamar-se britpop. Os anos a pregar aos peixes dos irmãos Head tiveram também a merecida recompensa nas muitas vezes que acompanharam em palco o guru Arthur Lee, tal como eles alguém a quem nunca terá sido dado o devido crédito.


"Something On My Mind"


"You'll Start A War"


"Natural"

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Factory record















No ano passado, o regresso aos palcos da formação "clássica" dos Guided by Voices (a de meados da década de 1990) foi acolhida por estas bandas em estado de euforia. Embora as primeiras datas apenas previssem a cobertura do território dos states, havia um desejo secreto de que um dia se estendessem a um Primavera Sound, algo que ocorrerá em Maio/Junho próximos, em mais uma edição do festival de Barcelona na qual conto marcar presença.

Agora, em estado de histeria, fico também a saber que há novo disco previsto para meados do próximo mês de Janeiro. Chama-se Let's Go Eat The Factory e, caso Robert Pollard e companhia não nos presenteiem até lá com mais meia dúzia de registos, deverá constituir o prato principal da passagem pelo evento catalão. Gravado em regime de itinerância, o novo disco é anunciado por quem já teve a sorte de o ouvir como "típico GbV para indefectíveis", desde logo pelo generoso número de 21 faixas. É também descrito como crescido na vertente da composição, caseiro na parte da gravação, divertido e ambíguo nas temáticas abordadas. Portanto, características nada estranhas aos mais familiarizados com o universo GbV, os mesmos que, ainda segundo as mesmas fontes, reencontrarão uma banda contaminada pelo espírito de camaradagem, como se a separação temporária nunca tivesse ocorrido. O par de temas já antecipados faz-nos crer em tudo o que nos contam:


"The Unsinkable Fats Domino" [Fire, 2012]


"Doughnut For A Snowman" [Fire, 2012]

Do âmago do estômago
















Talvez derivado de uma mais tardia entrada em cena, desde cedo que os escoceses We Were Promised Jetpacks se viram alvo de comparações com os conterrâneos Frightened Rabbit e The Twilight Sad, também camaradas de editora. Questões conjunturais à parte, o que é verdade é que o álbum de estreia (These Four Walls, de 2009) tinha demasiados pontos de contacto com qualquer daquelas bandas para que se pudessem justificar somente pela vasta herança comum da riqueza musical da terra-natal.

Não obstante o tema "Through The Dirt And Gravel" soar a uma espécie de Frightened Rabbit com tiques nervosos, e de as propensões épicas próprias dos Twilight Sad assomarem a cada esquina, o novo In The Pit Of The Stomach é um verdadeiro golpe de asa, a emancipação do quarteto de Edimburgo relativamente aos seus pares. Arriscaria até afirmar que é a superação da obra mais recente e desinspirada daqueles. Desde o inaugural "Circles And Squares", percorrido por uma urgência que já não detectávamos desde os primeiros (e mais estimulantes) actos de revivalismo post-punk de alvores da década passada, que pressentimos uma banda com personalidade renovada. No seu todo, In The Pit... é um trabalho coeso e complexo nas suas muitas espirais em crescendo, emotivo e visceral como poucos em tempos recentes. Passará, decerto, desapercebido à maioria do rebanho consumidor de música, mas marcará, com toda a certeza, aqueles que lhes dedicarem mais que um par de audições.

"Human Error" [Fat Cat, 2011]

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Mixtape #15 - If You Believe In Xmas Trees


[Foto: Gottscho-Schleisner,Inc. (1944)]

Antes da pequena pausa que a época exige, o April Skies tratou de providenciar a vossa banda sonora para este Natal. A prenda que vos quero deixar no sapatinho consiste num conjunto de 15 faixas, obviamente alusivas à quadra e que podem muito bem constituir uma alternativa aos habituais Pogues ou Mariah C****. Reclamem o presente no link imediatamente a seguir ao alinhamento e tenham umas Festas Felizes.

01. CARDINAL _ "If You Believe In Christmas Trees"
02. COMET GAIN _ "Asleep On The Snow"
03. CRYSTAL STILTS _ "Practically Immaculate"
04. MOJAVE 3 _ "Breaking The Ice"
05. BEST COAST & WAVVES _ "Got Something For You"
06. ASOBI SEKSU _ "Merry Christmas (I Don't Wanna Fight Tonight)"
07. SHONEN KNIFE _ "Space Christmas"
08. THE JESUS AND MARY CHAIN _ "Birthday"
09. THE LONG BLONDES _ "Christmas Is Cancelled"
10. THE MAGNETIC FIELDS _ "Everything Is One Big Christmas Tree"
11. ATLAS SOUND _ "Artificial Snow (Notown Version)"
12. LOW _ "Santa's Coming Over"
13. TELSTAR PONIES _ "I Still Believe In Christmas Trees"
14. THE WALKMEN _ "No Christmas While I'm Talking"
15. VELOCITY GIRL _ "Merry X-Mas, I Love You"

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Hinos da alegria

















O ano ainda não terminou, ainda se ultimam os balanços, e o já se criam expectativas para os lançamentos musicais do ano que vem. O primeiro a merecer nota de destaque será certamente Hymns, o segundo álbum da dupla Cardinal, com edição prevista para o fim da primeira semana de 2012. 

Para quem o nome pouco ou nada diz, relembro que os Cardinal são um dos segredos mais bem guardados da década de 1990. Constituídos pelo australiano Richard Davies e pelo norte-americano Eric Matthews, ambos vocalistas e multi-instrumentistas, deixaram para a posteridade apenas um único álbum homónimo, datado de 1994. Pese embora a indiferença a que foi votado aquando da sua edição, Cardinal tornou-se com o tempo um objecto de culto daquela pop sofisticada, letrada, e rica em arranjos, que habitualmente designamos "pop de câmara", em clara dissonância com o pendor rock normalmente associado à cidade de Boston, quartel-general da dupla. De então para cá, ambos os músicos se dedicaram a carreiras a solo, em qualquer dos casos na mesma obscuridade que o projecto conjunto. Do novo disco sabe-se que vai ter uma dezena de temas e que conta com a participação de vários convidados, entre eles a ex-Lush Miki Berenyii. Do mesmo, foi já divulgado um tema, indício de que Hymns poderá muito bem honrar o gosto refinado do seu antecessor. Ora oiçam:


"Love Like Rain" [Fire, 2011]

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Sons da paralaxe
















Ao leme dos excelsos Deerhunter, Bradford Cox é uma das mais carismáticas e prolíficas figuras do cenário pop actual. Essa tendência para a hiper-actividade é extensível ao projecto pessoal Atlas Sound, um eventual tubo de ensaio para experiências a desenvolver na banda "principal". A solo, Cox reforça o intimismo caseiro, subvertendo muitas vezes os temas por via da manipulação até se assemelharem a meros esboços de canções. Já nos Deerhunter, não obstante alguma rebeldia aos cânones pop que faz deles uma banda singular, o formato estandardizado de canção é minimamente respeitado.

O maior pendor experimentalista dos Atlas Sound era uma verdade insofismável até à edição do recente Parallax, seguramente o mais convencional dos três discos do projecto e também o mais conseguido. Embora as perturbações electrónicas ainda tenham presença visível, o novo disco ganha em organicidade por via do protagonismo dado às guitarras e do papel secundário atribuído às pianadas discretas. Daí resulta um conjunto de canções frágeis mas ricas em detalhes, quase miniaturas da maior ostentação que conhecemos dos Deerhunter. Todas elas vêm ainda percorridas pelo habitual recolhimento melancólico, ou não estivéssemos perante um dos músicos que, na actualidade, expõe as entranhas do íntimo com maior acutilância.


"Mona Lisa" [4AD, 2011]


"Te Amo" [4AD, 2011]

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O jogo das diferenças #2


ORNETTE COLEMAN
Ornette!
[Atlantic, 1961]



CLINIC
Internal Wrangler
[Domino, 2000]

Ao vivo #78














Kid Congo & The Pink Monkey Birds @ Armazém do Chá, 16/12/2011

Quando a já de si excitante visita à Invicta tem como bónus concertos deste calibre (pela módica quantia de € 3,00) justificam-se expressões como "a cereja no topo do bolo" ou, mais de acordo com os hábitos de certos clubes tripeiros, "ouro sobre azul". 

Kid Congo Powers, essa velha raposa do rock'n'roll que já serviu nos lendários The Gun Club e The Cramps, ou ainda na pandilha The Bad Seeds, é homem imune a modas e tendências, tendo como único propósito rockar como se não houvesse amanhã. Nesse devir, tem nos Pink Monkey Birds a companhia perfeita, pois esta é banda que consegue extrair todo o groove da sujidade garage destilada em palco. Com um som primoroso, e ao longo de aproximadamente hora e meia, desfila um conjunto de temas enérgicos, gingões, e contaminados pelo vírus do rock mais transgressivo. Como brinde, o irrequieto mestre de cerimónias ainda presenteia a plateia com uma série de piadas sobre hippies dignas de uma antologia (ex: "What's red and orange and fits good on a hippy? Fire!"). E como se não bastassem as oferendas, Kid Congo puxa ao saudosismo com um par de temas do reportório da sua banda mais emblemática ("For The Love Of Ivy" e "Sex Beat", dos Gun Club), obviamente recebidos pelo incansável público com entusiamo redobrado. 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Mil imagens #25


Bill Callahan (Smog) - 12 Bar Club, Londres, 1996
[Foto: Steve Gullick]

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Monstros por companhia
















Com quase trinta anos de carreira, e sem qualquer alteração no line-up desde a fundação, os The Bats são uma lenda viva da pop neozelandesa e, sem exageros, da indie-pop mundial. Com vagar, e sem qualquer tipo de cedência a qualquer espécie de tendências, estas quase três décadas renderam não mais que sete álbuns. O último é o recente Free All The Monsters, que assinala o regresso às edições pela emblemática Flying Nun, agora liberta das garras das multinacionais e reactivada pela mão do benfeitor Neil Finn.

Quem conhece o trabalho da banda não espera do novo disco a revolução que vai abalar as estruturas pop/rock, pois nunca foi esse o propósito dos The Bats. Espera-se de Free All The Monsters, apenas e só, o enriquecimento de um já rico cancioneiro com mais uma dúzia de gemas, e posso-vos assegurar que essas expectativas não sairão defraudadas. Os novos temas são, como sempre, canções sem tempo, desbotadas mas profusamente melódicas, com a inevitável harmonia das vozes de Robert Scott e Kaye Woodward, e agora com um reforço no pendor atmosférico. Têm a dose certa de melancolia e, na melhor tradição indie-pop canónica, muitas regressões aos tempos imaculados da juventude. Por exemplo, o tema-título recua até à infância e às suas fantasias. O ternurento vídeo, quase de contornos ETianos, assenta-lhe como uma luva:

"Free All The Monsters" [Flying Nun, 2011]

Singles Bar #70








THE JAM
Down In The Tube Station At Midnight
[Polydor, 1978]






Desde tenra idade que Paul Weller se revelou um escritor de canções de talento ímpar. Muito antes da irregular carreira a solo, ou até dos "estilosos" Style Council, já mostrava nos The Jam dotes de escrita que destoavam do primitivismo do punk que os viu nascer. 

Não desmerecendo todas as excelentes canções que ficaram para trás, "Down In The Tube Station At Midnight" é o primeiro tema a merecer entrada directa para a galeria dos clássicos, escrita quando tinha Weller não mais que 20 anos. É também um grito de revolta com o estado de coisas de uma Inglaterra que vê florescer movimentos de extrema-direita e um exemplar perfeito do storytelling sob a forma de canção. Com uma minúcia que realça o dramatismo da história, "Down In..."  conta-nos o infortúnio de um jovem (presumivelmente asiático) que, no regresso a casa para o encontro romântico com a esposa, se vê violentamente agredido e assaltado por um grupo de skinheads numa estação de metro. O alarme sob de tom quando, já perto do final, a vítima tombada vislumbra os dizeres de um grafitti ("Jesus saves") no mesmo momento em que lhe ocorre que os agressores se dirigem agora para a sua casa. Arrepiante e revoltante, no mínimo. Musicalmente, e subtraindo os ooh-oohs dos coros, "Down In..." está já distante das raízes punk de Weller e seus pares. O ritmo é maioritariamente lento e cadenciado, com o engenho da secção rítmica sublinhar a tensão dos tristes acontecimentos. Apenas nos refrões finais, como que expressando o inconformismo, a aceleração do ritmo é acompanhada pela leve fúria punky na voz.

Um dos singles menos óbvios a extrair do álbum All Mod Cons, a primeira obra-prima dos The Jam, devido à sensibilidade da temática, "Down In..." acabaria por resultar numa escolha bem sucedida. Inclusive, inaugurou um reinado da banda nas tabelas de vendas do Reino Unido que durou até à dissolução, em 1982.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Cristal radiante













Quando se estrearam em formato longa duração com Alight Of Night (2008), os nova-iorquinos Crystal Stilts tinham para oferecer uma proposta que os diferenciava do restante pelotão norte-americano de revivalistas indie, maioritariamente alinhado com o jangle-pop emanado pela já célebre C86. Esse era um disco mergulhado nas trevas, registado de forma rugosa para soar opressivo, que esteticamente se situava na confluência imaginária dos Velvet Underground com os Joy Division e com as produções de Phil Spector nos idos de sessentas. Já deste ano, o brilhante In Love With Oblivion é um registo substancialmente mais arejado, ainda que com uma boa dose de obscuridade. Com uma gravação mais próxima da alta-fidelidade, deixa libertar os impulsos "garageiros" da banda.

Num meio termo entre os dois álbuns, o novíssimo EP Radiant Door serve essencialmente para nos demonstrar que, por esta altura, os Crystal Stilts são já uma banda que soube assimilar as suas referências para criar uma linguagem muito própria. Por um lado, recupera os ambientes mais sombrios da estreia, por outro alinha pela toada garage e pelo dose de reverberação dos tempos mais recentes. Óptimo exemplo desta última faceta é a assombrosa versão de "Still As The Night" (original do malogrado Lee Hazlewood), a explorar com sucesso as características de crooner da voz de Brad Hargett. Já na outra versão incluída nos cinco temas do EP ("Low Profile", original dos Blue Orchids, psych-post-punkers dissidentes dos The Fall), o protagonismo dos teclados, combinados com as guitarras minimalistas, evidencia aquilo que já antes latejava na música dos Crystal Stilts, que é a influência do indie-pop pioneiro de bandas neozelandesas como The Clean ou The Chills.


"Still As The Night" [Sacred Bones, 2011]


"Low Profile" [Sacred Bones, 2011]

domingo, 11 de dezembro de 2011

Good cover versions #60











THE LEMONHEADS _ "Into Your Arms" [Atlantic, 1993]
[Original: Love Positions (1990)]



Raramente acontece, mas por vezes dá-se o caso de uma versão se tornar mais popular que o seu original. Aconteceu, por exemplo, com "Into Your Arms", não apenas um hit massivo dos Lemonheads, como provavelmente a sua canção mais popular. O mesmo não se pode dizer do original dos australianos Love Positions, dupla de carreira breve que integrou Robyn St. Clare (autora deste tema) e Nic Dalton, admirada por Evan Dando ao ponto de o segundo ser baixista nos Lemonheads na sua fase de maior sucesso, precisamente a que coincidiu com a gravação desta versão.

Dóceis e ternurentas em igual medida, as duas interpretações de "Into Your Arms" não poderiam estar mais distantes em termos estéticos. A dos Lemonheads é a típica canção soalheira, gravada em "alta-fidelidade" e propícia a servir de banda sonora a serões à volta da fogueira. Já a dos Love Positions é uma gravação tosca, para não dizer amadora. Na voz quase infantil de Robyn, transpira a ingenuidade que desde logo associamos ao twee-pop mais oblíquo, tal como praticado por gente como The Vaselines. E já que falamos nesta dupla escocesa, parece-me oportuno estabelecer o paralelismo do gesto de Evan Dando ao pegar em "Into Your Arms" com o de Kurt Cobain quando os Nirvana gravaram "Molly's Lips", ou seja, aproveitar o mediatismo para divulgar as suas paixões musicais mais obscuras e poppy.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

First Exposure #39














WITCH GARDENS

Formação: Casey Catherwood (gtr, voz); Beth Corry (bx, voz); Sara Beabout (btr, voz); Karolyn Kukoski (auto-harpa, voz)
Origem: Seattle, Washington [US]
Género(s): Indie-Pop, Lo-Fi, Fuzz-Pop, Twee-Pop
Influências / Referências: The Vaselines, Beat Happening, Marine Girls, Vivian Girls, Frankie Rose, Times New Viking

http://www.myspace.com/witchgardens


"Rain Delay" [Highfives and Handshakes, 2011]

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Medicinas alternativas












Embora de génese britânica e com maior impacto em terras de Sua Majestade, a vaga shoegaze também deixou marcas do outro lado do Atlântico. Com algum atraso e menos originalidade, é certo, mas são muitos os casos de bandas norte-americanas de noventas alinhadas com o "movimento", bem antes do revivalismo a que assistimos de há uns anos a esta parte. Um dos casos mais visíveis é o dos Medicine, banda californiana onde pontificavam Brad Laner e Shannon Lee, eles que habitualmente aternavam vozes ao melhor estilo boy/girl dos "padrinhos" My Bloody Valentine. Tiveram a honra de assinar pela American Recordings, a editora do peso-pesado Rick Rubin, e mereceram distribuição europeia pela Creation Records, a casa-mãe oficiosa do shoegaze. Estiveram activos até 1995 e regressaram em 2003, agora apenas para perpetuar as conquistas do passado.

Concentremo-nos então na fase da vida dos Medicine que realmente importa, a dos primórdios. É precisamente esse período que merecerá a atenção da iniciativa The Shoegaze Archives da Captured Tracks, mais concretamente com a recuperação dos dois primeiros álbuns: Shot Forth Self Living (1992) e The Buried Life (1993). O par de discos, com reedição apontada para a próxima Primavera, é paradigmático das sonoridades shoegaze tipicamente americanas, substancialmente mais melódicas que as britânicas e com as vozes a sobressaírem com mais evidência das cascatas de distorção. Portanto, não venham aqui à procura das torrentes sónicas dos Ride ou das atmosferas carregadas dos Slowdive. Esperem antes encontrar uma versão distorcida da frescura dos Lush. Antes, porém, a mesma editora prepara um rebuçadinho para os melómanos ávidos de objectos raros, na forma de 7" de tiragem limitada que reúne "Time Baby II" e "Miss Drugstore", provavelmente os dois temas mais memoráveis de toda a obra dos Medicine. Convido-vos a escutar o primeiro, na sua versão original, mais simples e eficaz do que aquela que apareceria na banda sonora do filme The Crow, arruinada pela opulência da produção.


"Time Baby II" [Creation, 1993]

Discos pe(r)didos #59








PAUL QUINN & THE INDEPENDENT GROUP
Will I Ever Be Inside Of You
[Postcard, 1994]




Com uma carreira demasiado irregular para merecer esse nome, Paul Quinn é um dos segredos mais bem guardados da riquíssima pop escocesa. Na mesma medida em que é também uma das suas figuras mais singulares, dono de um barítono capaz de exponenciar a dolência de cada canção a níveis exasperantes. Em meados de oitentas encabeçou os Bourgie Bourgie, projecto de vida curta que militava entre os resquícios post-punk/new-wave e pop a sofisticada que então eclodia. Foi também backing singer dos Orange Juice, liderados pelo amigo Edwyn Collins, um dos seus maiores entusiastas. Talvez por sua causa, na tentativa de resgatar um imenso talento ao esquecimento, Alan Horne reactivou a mítica Postcard Records e em seu torno reuniu o The Independent Group, combo que reunia o próprio Horne e mais uma série de músicos com currículo na "aristocracia pop" escocesa (Aztec Camera, Orange Juice, The Commotions).

O primeiro fruto deste Paul Quinn renascido foi The Phantoms And The Archetypes (1992), disco ainda à procura de definição de azimutes mas já com alguma vontade de grandiosidade. Algo de maior viria a acontecer dois anos depois, com a edição de Will I Ever Be Inside Of You, disco assombroso propício a ambientes nocturnos que poderia ter saído da imaginação de um Scott Walker, caso este não sofresse há muito de uma alergia aguda à pop. Logo a abrir, o longo tema-título elucida o ouvinte do trilho a seguir. Alarmante confissão de amor não correspondido capaz de causar inveja a um tal de Morrissey,  "Will I Ever Be Inside Of You" cruza Bowie, Billy Mackenzie, e o citado Walker, mas deixa bem explícita a expressividade e a verve únicas de Quinn. Sustentado pelas texturas dos teclados e pelos solos inebriantes de guitarra, abre ainda espaço para o lamento de uma voz feminina próxima do lírico.

Após a apoteose da abertura, Will I Ever Be... mantém a aura de melancolia dolente e de desencanto ao longo dos restantes oito temas, metade deles ainda acima dos seis minutos de duração. Em ritmo downtempo, "Lover, That's You All Over" é uma crua e sentida confissão de um amor perdido. Reforçando a ambiência nocturna, e insuflado de teclados densos, "A Passing Thought" é solidão desesperada traduzida em canção. Mais solto, e substancialmente mais próximo da desenvoltura pop com inflexões jazzísticas, "Stupid Thing" aponta o dedo ao "outro", com o cantor a no papel de acusador, algo familiar ao tal de Morrissey. De duração muito abaixo da média, "Misty Blue" é a balada nostálgica perfeita para fim de noite dedicada à introspecção. Seria o encerramento adequado deste portentoso disco, caso esse papel não coubesse a "At The End Of The Night", lamento sofrido mas que abre uma fresta para a esperança depois da expiação de uma imensa dor.


"Will I Ever Be Inside Of You"


"A Passing Thought"


"Stupid Thing"

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A vida secreta dos leões marinhos













Já não é novidade para ninguém interessado pelo "meio" o papel fulcral da Slumberland Records no actual panorama indie. Primeiramente dedicada essencialmente às derivações fuzz-pop, a editora de Washington, D.C. tem vindo progressivamente a alargar a paleta, cobrindo agora praticamente todas as variações do "género". O último coelho retirado da cartola são os caifornianos Sea Lions, colectivo cuja origem remonta a 2007, na altura pouco mais que um projecto pessoal do mentor Adrian Pillado, músico com igual devoção por Syd Barrett como por Calvin Johnson.

Se nos primeiros tempos os Sea Lions alinhavam por um aparentado psych, com a estabilização como banda de corpo inteiro veio a cedência ao universo mais próximo da pop. Os temas avulsos que foram surgindo serviram para refinar uma fórmula, e agora o recém lançado álbum-debute Everything You Always Wanted To Know About Sea Lions But Were Afraid To Ask é o culminar desse work in progress. Imerso em guitarras jangly, e fiel às filosofias lo-fi, o disco agradará sobremaneira aos apreciadores dos pioneiros indie em pleno período pós-punk, tais como Television Personalities e Subway Sect. Esperam-vos, portanto, canções curtas (quinze em menos de meia hora) e desengonçadas de uma pop que, embora fracturada, não perde o norte melódico. É o caso desta:

"My Girl" [Slumberland, 2011]

Ao vivo #77















Real Estate @ Galeria Zé dos Bois, 03/12/2011

Sob a aura do magnífico Days, os jersianos Real Estate aterraram pela segunda vez em terras lusas. A julgar pela devoção inabalável da turba que lotou por completo a ZdB na noite de sábado, a acontecer uma terceira, poderá muito bem ser noutros palcos de maiores dimensões. Neste particular não vos posso esconder a satisfação que sinto pelo crescente reconhecimento da banda, uma das que "apoiei" desde a primeira hora e que não pára de me surpreender a cada novo registo.

Também ao vivo (e já vou em quatro concertos para contar aos netos!) os Real Estate são algo de especial, deixando de lado os artifícios supérfluos e os maneirismos estudados, e apostando tudo na pureza da música. E que música! Canções na dose certa de melancolia e doçura juvenil, de melodia e grão lo-fi. Com alguma má-vontade podemos sempre dizer que lembram The Feelies, Yo La Tengo, ou até The Smiths e Galaxie 500, mas reduzir as canções imensas dos dois álbuns de estúdio que preencheram o espectáculo a tais comparações será sempre injusto para com a receita única de banho de sol que os Real Estate lhes infligem, daí resultado uma pop desbotada de traça intemporal. Às referências que a banda cita sem pudor, antes sincera humildade, podemos agora também juntar os Felt, devidamente homenageados numa inspirada versão de "Sunlight Bathed The Golden Glow", interpretada já perto do final e da merecida ovação. 

Em jeito de conclusão, e porque me escasseiam as palavras para descrever a hora e meia de encantamento, posso dizer-vos que sábado à noite foram muitos os momentos em que me senti transportado para algures na América de sessentas, quando bandas como The Beach Boys ou The Byrds davam os primeiros passos, longe de imaginar que estavam prestes a escrever algumas das mais belas páginas da pop. Sem ponta de exagero, e a multidão que não arredou pé por um instante é minha testemunha, na actualidade, os Real Estate vão assumindo papel idêntico, lenta, lentamente, e sem precisarem de ver o seu nome associado a tendências e movimentos artificialmente criados.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

R.I.P.


KEN RUSSELL
[1927-2011]

Morreu no passado domingo, aos 84 anos de idade, o cineasta britânico Ken Russell. Com uma carreira iniciada na televisão na longínqua década de 1950, foi um experimentalista que não dispensava a controvérsia nos seus filmes, normalmente obcecados com a sexualidade e os ataques corrosivos à Igreja. Da sua filmografia destaca-se Women In Love (1969), obra premiada que se baseou no romance homónimo de D. H. Lawrence. 

Amante da música, Russell dedicou obras biográficas, num registo bastante livre, a compositores eruditos como Mahler, Debussy, Richard Strauss, Wagner, ou Liszt, todas elas com especial ênfase na tónica das fantasias sexuais. Já os seguidores de músicas de cariz mais popular, recorda-lo-ão como realizador de Tommy, a ópera-rock que marcou a ascenção megalómana dos The Who, adaptada pelo próprio juntamente com Pete Townshend a partir do álbum de 1969 com o mesmo título.

Trailer de Tommy [Columbia Pictures, 1975]

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Ao vivo #76














Clubbing Optimus @ Casa da Música - Porto, 19/11/2011

Antes demais, queria manifestar o meu desagrado pela escolha da Sala Suggia para os principais acontecimentos daquele que terá sido o Clubbing mais aliciante a que a Casa da Música pôde assistir. Somado ao desconforto de assistir aos concertos sentado, mesmo perante as sonoridades "delicadas" que vinham do palco, não apreciei a postura do staff, mais treinado para as "picuíces" associadas a actos de outro nível de erudição.

A abrir a noite, Lætitia Sadier não se mostrou tão eficaz como o tinha sido há mais de um ano e meio, quando se apresentou no "aquário" da ZdB. Bem pelo contrário, estas canções marcadas pela fragilidade acústica, tingidas ora de tropicalismo, ora de chanson, não resultam nas dimensões da sala, sendo muitas vezes motivo de bocejos na assistência. A própria acusou a tensão logo ao fim do primeiro tema, agradecendo ainda antes dos aplausos para, logo de seguida, manifestar um pouco simpático desagrado pelo ruído de algumas conversas. O "incidente" terá deixado marcas no resto da actuação, já que a desejada empatia entre artista e público não chegou a gerar-se. Diria mesmo que, da parte dela, ficou a impressão de que estava ali apenas para fazer um frete.

Contrariamente ao esperado, Lee Ranaldo não enveredou pelo experimentalismo improvisado que caracteriza boa parte do seu trabalho extra Sonic Youth. Vem, isso sim, igualmente apostado em seguir a toada acústica da antecessora. Ao longo do curto concerto muda constantemente de guitarra, envergando inclusive uma de fabricação portuguesa que qualquer um gostaria de ter em casa para lhe poder apreciar a beleza. Pouco dotado vocalmente, Ranaldo opta pelo seu habitual tom semi-declamado, desta feita discorrendo invectivas de cariz sócio-político, as quais faz questão de sublinhar nos declarações proferidas entre temas. Se esta foi uma amostra do álbum que aí vem, apraz-me registar a entrada de Ranaldo no clube da meia-idade da serenidade acústica ao qual já pertencem os velhos companheiros Thurston Moore e J Mascis.

Após um intervalo inesperadamente curto quando comparado com o anterior, Dean Wareham chegou disposto a honrar o legado dos geniais Galaxie 500, algo que, com o passar do tempo, parece vir a ganhar uma aura quase mítica. Recuperando o formato daquela banda, apresenta-se à frente de um trio, no qual pontifica a companheira Britta Phillips, senhora que não passa despercebida a qualquer humano, qualquer que seja o seu género. Os desprevenidos com a "partida" pregada pela organização já não puderam assistir ao espectral "Snowstorm", talvez interpretado ainda em registo de aquecimento. Daqui, e encontrada a equalização adequada, arrancou-se para um desfilar de verdadeiros hinos para geeks militantes do indie-pop/rock."When Will You Come Home", "Sorry", "Blue Thunder", o seminal e inocente "Tugboat", e as versões de "Ceremony" (Joy Division/New Order) e "Don't Let Our Youth Go To Waste" (Jonathan Richman) foram alguns dos pontos altos, mas nenhum ao nível do original de Yoko Ono "Listen The Snow Is Falling", interpretado por Britta com uma candura que contrasta com a frieza da versão imortalizada em disco na voz de Naomi Yang. Pelo alinhamento, é fácil perceber que, quando o trio abandonou o palco, a reacção da plateia, saciada, tenha sido efusiva. Regressaram pouco depois para a consagração absoluta com o delicioso "Fourth Of July" seguido de mais uma ovação ruidosa. De mais uma noite de estado de graça, tenho a dizer-vos que, quando à genialidade da música, da mais marcante no percurso deste que vos escreve, se soma a companhia de alguns dos melhores seres que habitam este planeta, só me ocorre um adjectivo: perfeito!

Ao vivo #75

















The Microphones @ O Meu Mercedes - Porto, 18/11/2011

Com uma noite de avanço relativamente à apresentação na Casa de Música como Mout Eerie, a mais recente encarnação, Phil Elverum compareceu na lendária casa tripeira na qualidade de The Microphones, o alter-ego que lhe granjeou um culto sólido nas hostes do lo-fi mais dadas à psicadelia. Munido de guitarra eléctrica, entrou em palco acompanhado de um teclista e de um percussionista, formação extremamente escassa para os ouvidos menos treinados para sonoridades diminuídas do elemento rítmico de um baixo.

Embora a ocasião tenha servido essencialmente para a confraternização com o grupo de bons amigos da Cidade Invicta, a insuficiente atenção dedicada ao concerto permitiu aferir da quão tocantes podem ser as canções de Elverum, cruas, negras e de uma autenticidade desarmante. Aos sons esquálidos dos instrumentos sobrepõe-se a voz, não especialmente moldável mas com uma sinceridade só ao alcance dos cantores/compositores que fazem da música um acto de pureza. Contrastando com a gravidade das temáticas abordadas, por vezes a roçar o asfixiante, Elverum mostra-se de uma simpatia a toda a prova, dirigindo-se amiúde ao público com sinceras palavras de agradecimeto por tão intensa devoção.

Antes e depois do prato principal da noite, o palco foi reservado às sonoridades electrónicas com dois projectos dos quais não retive o nome. O primeiro move-se nos meandros do dark-ambient a puxar ao abstraccionista, o segundo é uma aproximação algo decorativa ao drum'n'bass. Embora ambos não consigam escapar à adjectivação de genérico, reconhece-se no primeiro acto algumas boas ideias a merecer desenvolvimento.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Magia branca














Aos poucos, vai ficando na ordem do dia a recuperação das sonoridades de noventas - aquela década tão mal tratada mas que, sobretudo, na sua primeira metade, produziu música em quantidade e qualidade suficientes para marcar irremediavelmente a vida deste que vos escreve. Para não estender o rol de exemplos, e falar apenas de dois casos paradigmáticos, posso referir-vos os nomes dos Japandroids e dos Yuck, bandas já com forte afirmação no espectro indie-rock actual. Dessa tendência revisionista do mesmo período da história rock, descobri recentemente os Witches, banda com origens em Athens, na Geórgia, a mesma terra que produziu lendas como R.E.M. e The B-52's.

Embora só contem com um elemento do belo sexo -  a vocalista/guitarrista Cara Beth Satalino - os Witches apresentam-se como dignos sucessores do rock "feminino" de inícios de noventas. Pelo menos é essa a sensação que emana da escuta de Forever, o primeiro álbum lançado ainda no decorrer do primeiro semestre deste ano, que se pode descrever como um possível cruzamento de Throwing Muses e Sleater-Kinney com The Breeders a espreitar à esquina. Ou seja, ponto de confluência de uma sensibilidade pop com uma atitude punky, a primeira manifestada no pendor melódico da dezena de temas, a última nalguma rugosidade das guitarras e no ligeiro incómodo que se sente na voz de Cara, a estrela da companhia com um timbre maleável que sabe dosear a melancolia, a ternura, e a raiva em quantidades adequadas. E não é que o disquinho (34 minutos apenas), ultrapassado o impacto inicial das semelhanças entre temas,  se revela danado de bom!... Tão bom que, depois da "descoberta" há coisa de um mês, a ele regressei na última semana e ainda não o consegui largar, com a agravante de a duração do dito se propiciar às 3/4 audições diárias...


"Creature Of Nature" [Bakery Outlet, 2011]

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Mixtape #14 - (Under)covers


[Foto: Man Ray, 1928]

A temática das versões e reinterpretações assume especial papel neste pasquim, ao ponto de a elas haver um rubrica regular especificamente dedicada. Nesta lógica de importância, para a compilação de hoje proponho-vos um conjunto de dezoito temas interpretados por outrém, que não os intérpretes originais. O único critério de escolha foi o facto de todos os originais serem relativamente conhecidos. Algumas mais fiéis ao original, outras verdadeiramente radicais, algumas expectáveis, outras completamente inesperadas. Caso o alinhamento vos desperte a curiosidade, façam o favor de dispor no link indicado.



01. BLACK TAMBOURINE _ "Dream Baby Dream" (Suicide)
02. CODEINE VELVET CLUB _ "I Am The Resurrection" (The Stone Roses)
03. THE POLYPHONIC SPREE _ "Love My Way" (The Psychedelic Furs)
04. THE WONDERMINTS _ "Arnold Layne" (Pink Floyd)
05. BEACHWOOD SPARKS _ "By Your Side" (Sade)
06. WIDOWSPEAK _ "Wicked Game" (Chris Isaak)
07. JOHN AUER _ "Beautiful Stranger" (Madonna)
08. THE TRIFFIDS _ "Rent" (Pet Shop Boys)
09. PAUL QUINN & EDWYN COLLINS _ "Pale Blue Eyes" (The Velvet Underground)
10. SAINT ETIENNE _ "Only Love Can Break Your Heart" (Neil Young)
11. LES DEMONIAQUES _ "Teenage Lust" (The Jesus and Mary Chain)
12. TASHAKI MIYAKI _ "All I Have To Do Is Dream (The Everly Brothers)
13. TH' FAITH HEALERS _ "S.O.S" (ABBA)
14. FLYING SAUCER ATTACK _ "The Drowners" (Suede)
15. LUNA _ "Bonnie And Clyde" (Serge Gainsbourg & Brigitte Bardot)
16. THE WEDDING PRESENT _ "Falling" (Julee Cruise)
17. SLOWDIVE _ "Some Velvet Morning" (Lee Hazlewood & Nancy Sinatra)
18. JAPANCAKES _ "Only Shallow" (My Bloody Valentine)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

First Exposure #38













MILK MUSIC

Formação: Alex Coxen (voz, gtr); Charles Warrinf (gtr); Dave Harris (bx); Joe Rutter (btr)
Origem: Olympia, Washington [US]
Género(s): Indie-Rock, Noise-Rock, Post-Hardcore, Stoner-Rock
Influências / Referências: The Replacements, Dinosaur Jr, Hüsker Dü, Volcano Suns, Nirvana, Mudhoney, Japandroids

"Fertile Ground" [edição de autor, 2010]

Ao vivo #74
















Pink Mountaintops + Asimov @ Galeria Zé dos Bois, 12/11/2011

Pelo trabalho desenvolvido de há uns anos a esta parte, tanto nos Black Mountain como nos Pink Mountaintops, Stephen McBean tem já lugar cativo no cenário da música canadiana da última década. Se nos primeiros recupera alguns delírios stoner-rock, no projecto pessoal e paralelo olha igualmente para o passado, concretamente para a facção mais transgressora da história rock que vai dos Velvet Underground aos Spacemen 3, dos Pink Floyd aos Suicide. À excepção destes últimos (ainda assim com "sentir europeu"), todas as referências são inglesas, contudo, McBean faz questão de "americanizar" o todo por meio do seu timbre nasalado.

Para o concerto do passado sábado, no qual se apresentou à guitarra, acompanhado apenas de um teclista, o menu consiste na revisitação dos três álbuns do reportório, com os temas devidamente contextualizados para este formato de banda reduzida. Na transfiguração a que se assiste em palco, o companheiro das teclas desempenha especial papel ao sustentar a estrutura de cada tema, deixando para o protagonista a tarefa de impregnar a sala da ZdB com pequenos trechos de cariz narcótico. O som é preparado a rigor com bastante eco, essencial para a criação de uma atmosfera de delírio. Inicialmente num volume demasiado baixo, só com decorrer do espectáculo se encontra a equalização óptima para a envolvência pretendida. Em regime relaxado, talvez até com alguma carência de dinamismo, McBean confirma algo do qual já se desconfiava: como poucos músicos contemporâneos sabe conjugar as diferentes linhas com que se cose a história pop/rock das últimas cinco décadas, sem que o resultado final soe a algo de pessoal e não meramente derivativo. 

Os primeiros sons da noite ficaram a cargo dos portugueses Asimov, dupla nascida das cinzas de uns tais Brainwashed by Amalia (sérios candidatos ao título de pior nome de banda de sempre da música moderna nacional). Depois de se apresentarem com nome de escritor de ficção-científica, os primeiros acordes deixam claro que se poderiam ter apresentado como Wolfmother que ninguém daria pela diferença. Como já terão percebido, estamos perante mais um projecto rendido a essa estranha tendência para o rock mais primitivo e "azeiteiro" de setentas. Reacção às tentações punky e arty de outros? Quer-me parecer que sim. A meio do segundo tema, ruma-se ao exterior numa entrega aos prazeres tabagistas que amenizam a tortura que soa em fundo.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Mil imagens #24


Broadcast - Londres, 1996
[Foto: Joe Dilworth]

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Quinta edição














Ainda os Buzzcocks davam os primeiros passos e já Howard Devoto, membro fundador, abandonava o barco, num gesto que poderá ser visto como genuinamente imbuído do espírito punk. Logo em seguida fundava os Magazine, uma entidade distinta que aspirava a níveis mais intelectualizados da expressão rock. Por mérito próprio, e juntamente com bandas como PiL, Gang of Four, ou Wire, estiveram na primeira linha do chamado post-punk britânico, ainda numa altura que o sucesso comercial não estava vedado à obliquidade musical. Até à extinção, em 1981, os Magazine tiveram intensa actividade, deixando para a posteridade quatro álbuns, três deles autênticos clássicos da época.

Embarcando na onda de reuniões que parece não deixar ninguém indiferente, os Magazine regressaram ao activo em 2009, inicialmente com o propósito único de tocar ao vivo, iniciativa que, segundo consta, teve forte adesão popular e aceitação crítica. A formação envolvida era a mais aproximada do line-up "clássico", com o guitarrista John McGeoch, desaparecido em 2004, a ser substituído por Noko, companheiro de Devoto nos posteriores Luxuria. De então para cá, também o baixista Barry Adamson, provavelmente ocupado com a trabalho em nome próprio, foi substituído por um tal de Jon White. Portanto, aquele já não participou nas gravações do novíssimo e "inesperado" No Thyself, o quinto álbum, editado precisamente trinta anos depois do último.

A falange familiarizada com a sonoridade típica dos Magazine não estranhará o novo disco, uma vez mais assente nas texturas irrepreensíveis e quase liquifeitas dos sintetizadores de Dave Formula. A principal diferença com os bons velhos tempos reside nas partes de guitarra, com Noko a enveredar por riffs com um balanço assumidamente funky, por oposição à angularidade muito peculiar do seu lendário antecessor. Também os maneirismos vocais de Devoto, entre o declamado e o cantado, entre o arrogante e o cáustico, são mais ostensivos que nunca. São os mesmos tiques que causaram forte impacto noutros vocalistas ingleses que fazem da crónica de costumes modo de vida, tais como Lawrence e Jarvis Cocker. À falta de novidades de maior para os versados na matéria, posso assegurar aos neófitos que No Thyself tem ainda obtusidade suficiente para dar e vender às novas gerações art-rock. Façam o favor de conferir na amostra infra, na qual não se discerne ao certo se as referências a dois dos mais idolatrados mártires rock é vénia ou ironia. É a ambiguidade devotiana em todo o seu esplendor...


"Hello Mister Curtis (With Apologies)" [Wire-Sound, 2011]

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ao vivo #73
















Max Richter @ Teatro Maria Matos, 05/11/2011

Nome geralmente associado a esse rótulo vago que é a neo-clássica, Max Richter é daqueles que não enjeita a oportunidade de imiscuir a electrónica com a ortodoxia normalmente associada às correntes musicais em que se movimenta. É também useiro e vezeiro no mercado das bandas sonoras, factor que, por si só, terá determinado a afluência de público em número suficiente para lotar o anfiteatro do Maria Matos. O músico e compositor, nascido na Alemanha mas de nacionalidade britânica, apresenta-se em palco munido de piano e laptop, este gerador de interferências electrónicas. A acompanhá-lo, um quinteto de cordas: dois violinos, uma viola de arco, e dois violoncelos. 

A primeira parte do concerto (ou o concerto propriamente dito) é reservada à execução de Infra (2010), último trabalho da chamada discografia não-concessionada. Como o próprio título indica, esta é uma obra de elementos minúsculos, quer na duração dos diferentes "andamentos", quer nos pormenores que se revelam sob o manto da melancolia. Precisamente pela curta duração dos trechos, a envolvência não é equiparável à da experiência da audição em disco, pois em palco deixam a sensação de não fluir o suficiente para enlear o espectador. Só perto do final, com o crescendo da tensão, se dá o clique que faz o público estremecer na pacatez entretanto instalada, e apenas abalada pelas imagens projectadas, inspiradas pela própria capa do disco e que remetem para a temática da solidão nas sociedades modernas. Se o propósito era o de "adormecer" o público para, por fim, lhe injectar ondas de choque, podemos dizer que Richter cumpriu os seus intentos. 

Seguindo um longo intervalo, a segunda parte do concerto é quase uma espécie de greatest hits. É nesta fase que são apresentados alguns trechos compostos propositadamente para filmes, tais como os celebrados Shutter Island (logo a abrir) e Valse Avec Bachir. Ao rigor formal da primeira parte, este "segundo acto" prima pela variedade, tanto de tonalidades, como de ambientes sensoriais, sacrificando, obviamente, alguma coesão. Para finalizar em ponto de rebuçado, o magistral "The Trees", do já distante The Blue Notebooks (2004), seria a escolha perfeita. Seria, porque toda a magia foi atraiçoada pelas medíocres condições sonoras, uma constante ao longo de todo o espectáculo e agravadas perto do encerramento. Porém, para a maioria do público, esta foi apenas uma questão de pormenor que não impediu a ovação final.

Ao vivo #72











The Antlers @ Lux Frágil, 03/11/2011

Cruzei-me pela primeira vez com os nova-iorquinos The Antlers à coisa de ano e meio. Na altura, traziam na bagagem o críptico Hospice, disco pelo qual nutria tal entusiasmo que o encontro se revelou uma desilusão, não só pela deficiente transposição para palco imputável à banda, como também pelas sofríveis condições sonoras do concerto. Para o acto da passada quinta-feira, uma espécie de prova dos nove pela minha parte, traziam o recente Burst Apart, registo apenas mediano que, embora alinhando pela melancolia, dissipa muito do negrume do antecessor.

Antes de mais delongas, gostaria de pronunciar que os Antlers falharam no teste, mesmo em condições técnicas satisfatórias para os parâmetros Luxianos. Uma vez mais, a música parece ganhar uma nova identidade, um clima bem diverso do propiciado pelos discos. Nestes, as omnipresentes electrónicas são a cola que liga, com alguma discrição, a estrutura de cada canção. Já em palco, embora menos presentes, soam mais ostensivas, rudes, quase intrusivas. À falta do envolvimento e do recato que caracteriza a obra gravada, o líder Peter Silberman exibe toda a sua gama de tiques vocais, por vezes a aproximar-se demasiado dos territórios de Bon Iver. O truque, repetido ad nauseum, a roçar o exibicioismo, parece não esmorecer a histeria da fileira emo situada mesmo à minha frente.

Em abono do trio (alargado a quarteto quando em palco), podemos até dizer que foi um concerto competente e esforçado na simpatia nervosa (com franqueza, há um certo tipo de humor americano que eu não atinjo...). No entanto, a sensação com que saio da cerca de hora e meia de função, é que a performance carece de dinamismo, como se as canções fossem despejadas, umas a seguir as outras, sem que se vislumbre a naturalidade que faz de um concerto um acto uno. Perdoem-me os entusiastas (e houve muitos a manifestar-se com convicção), mas com The Antlers há duas sem três...

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O jogo das diferenças #1


BIG BLACK
Songs About Fucking
[Touch and Go, 1987]



KID606
Songs About Fucking Steve Albini
[Important, 2010]

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A decadência em tons de negro














Um pouco à semelhança de muitos confrades da actual "cena" californiana, Luis Vasquez sofre de hiper-actividade. À parte o envolvimento nos mui recomendáveis e psicadélicos Lumerians, fez nome como The Soft Moon, projecto assumidamente solitário que só em palco se alarga a trio. Foi sob esta designação que, recta final do ano transacto, deu à estampa um excelente álbum homónimo, plenamente imerso nas facções mais minimalistas e soturnas do post-punk. Com algumas afinidades com a nação gótica, The Soft Moon mereceu comparações com Joy Division, Bauhaus, ou The Sisters of Mercy. Porém, embora estejam lá, as referências não traduzem por si só a singularidade da proposta de Vasquez.

Desenvolvimento natural daquela obra, o novo Total Decay rende-se a um certo abstraccionismo que anula os resquícios de canção que ainda afloravam no antecessor. Igualmente envolto num espesso negrume que deixa transparcer o isolamento do acto criativo, este EP de quatro temas sabe esquivar-se à previsibilidade das "novas" sonoridades coldwave, supostamente na ordem do dia. Uma vez mais original na abordagem, tem um certo travo  "industrial", lembrando em "Repetition" a frieza mecânica dos Cabaret Voltaire, e em "Alive" as desconstruções de uns já distantes Nine Inch Nails, ainda do tempo em que estes tinham alguma relevância. Em ritmo lento de marcha fúnebre, o tema-título é, apesar da maior presença do elemento humano, uma porta de entrada num mundo gélido e obscurecido. De mais difícil digestão no imediato que o álbum de estreia, Total Decay consegue, contudo, repetir os ambientes envolventes daquele. 

"Total Decay" [Captured Tracks, 2011]