"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

E foi assim 2009...


Mais um ano atinge o seu término e com ele chegam os inevitáveis balanços. Uma triste constatação é verificar que em 2009 o nível qualitativo continua nivelado por baixo, agudizando até uma tendência que tem origem algures em meados da década que também agora termina. Porém, com dedicação e busca incessante, sempre se encontram alguns exemplares musicais que justificam a nossa aprovação. Tais como os que a seguir se apresentam. Resta esperar que 2010 fique assinalado por uma viragem neste estado de coisas. Até lá!...

30 ÁLBUNS














  1. GIRLS Album
  2. JAPANDROIDS Post-Nothing
  3. THE ANTLERS Hospice
  4. TAP TAP On My Away
  5. A PLACE TO BURY STRANGERS Exploding Head
  6. THE HORRORS Primary Colours
  7. YO LA TENGO Popular Songs
  8. HEALTH Get Color
  9. THE PHANTOM BAND Checkmate Savage
  10. THE PAINS OF BEING PURE AT HEART The Pains Of Being Pure At Heart
  11. CYMBALS EAT GUITARS Why There Are Mountains
  12. DINOSAUR JR. Farm
  13. THE xx xx
  14. WOMEN Women
  15. BUILT TO SPILL There Is No Enemy
  16. WAVVES Wavvves
  17. GRIZZLY BEAR Veckatimest
  18. MANIC STREET PREACHERS Journal For Plague Lovers
  19. KURT VILE Childish Prodigy
  20. PREFAB SPROUT Let's Change The World With Music
  21. SUPER FURRY ANIMALS Dark Days / Light Years
  22. WHITE DENIM Fits
  23. VIC CHESNUTT At The Cut
  24. REAL ESTATE Real Estate
  25. ART BRUT Art Brut vs. Satan
  26. POLVO In Prism
  27. THE TWILIGHT SAD Forget The Night Ahead
  28. WOODS Songs Of Shame
  29. LIECHTENSTEIN Survival Strategies In A Modern World
  30. VIVAN GIRLS Everything Goes Wrong


40 CANÇÕES (por ordem alfabética)

  • A PLACE TO BURY STRANGERS "I Lived My Life To Stand In The Shadow Of Your Heart"
  • ANIMAL COLLECTIVE "My Girls"
  • THE ANTLERS "Sylvia"
  • ART BRUT "The Replacements"
  • ARTEFACTS FOR SPACE TRAVEL "Cul De Sac"
  • ATLAS SOUND feat. LAETITIA SADIER "Quick Canal"
  • CAMERA OBSCURA "French Navy"
  • THE CAVALCADE "Meet You In The Rain"
  • THE CLEAN "Are You Really On Drugs"
  • CROCODILES "I Wanna Kill"
  • CRYSTAL ANTLERS "Andrew"
  • CRYSTAL STILTS "Love Is A Wave"
  • CYMBALS EAT GUITARS "And The Hazy Sea"
  • DANGER MOUSE & SPARKLEHORSE feat. VIC CHESNUTT "Grain Augury"
  • DINOSAUR JR. "Pieces"
  • THE DRUMS "Instruct Me"
  • GIRLS "Summertime"
  • GOD HELP THE GIRL "Come Sunday Night"
  • GOLDEN SILVERS "True Romance (True No. 9 Blues)
  • GRIZZLY BEAR "Two Weeks"
  • HEALTH "Die Slow"
  • THE HORRORS "Sea Within The Sea"
  • JAPANDROIDS "I Quit Girls"
  • JAPANDROIDS "Young Hearts Spark Fire"
  • LET'S WRESTLE "We Are The Men You'll Grow To Love Soon"
  • LIECHTENSTEIN "Roses In The Park"
  • LILY ALEN feat. MICK JONES "Straight To Hell"
  • MANIC STREET PREACHERS "Jackie Collins Existential Question Time"
  • NO AGE "You're A Target"
  • THE PAINS OF BEING PURE AT HEART "Young Adult Friction"
  • THE PASTELS / TENNISCOATS "Tokyo-Glasgow"
  • THE PHANTOM BAND "The Howling"
  • POLVO "Beggars Bowl"
  • SUPERCHUNK "Learned To Surf"
  • TAP TAP "Queen Of Hearts"
  • VIVIAN GIRLS "Moped Girls"
  • WAVVES "So Bored"
  • WOMEN "Black Rice"
  • THE xx "VCR"
  • YO LA TENGO "When It's Dark"


10 EPs














  1. NO AGE Losing Feeling
  2. THE CAVALCADE Meet You In The Rain
  3. DEERHUNTER Rainwater Cassette Exchange
  4. THE PAINS OF BEING PURE AT HEART Higher Than The Stars
  5. SUPERCHUNK Leaves In The Gutter
  6. ARTEFACTS FOR SPACE TRAVEL Power Of The Brain
  7. SPECTRUM War Sucks
  8. THE DRUMS The Drums
  9. LITTLE GIRLS Tambourine
  10. DUM DUM GIRLS Dum Dum Girls


10 REEDIÇÕES / COMPILAÇÕES













  1. THE BEATLES Abbey Road
  2. THE BEATLES The Beatles (White Album)
  3. CHRIS BELL I Am The Cosmos
  4. THE FEELIES Crazy Rhythms
  5. THE MONKS Black Monk Time
  6. LOOP A Gilded Eternity
  7. ANOTHER SUNNY DAY London Weekend
  8. SWERVEDRIVER Mezcal Head
  9. BECK One Foot In The Grave
  10. VÁRIOS ARTISTAS Rough Trade Shops - Indiepop 09


15 CONCERTOS










  1. MY BLOODY VALENTINE @ Primavera Sound - Barcelona (28 Mai.)
  2. A PLACE TO BURY STRANGERS @ Primavera Club - Madrid (10 Dez.)
  3. THE FALL @ Casa da Música - Porto (17 Jan.)
  4. THE VASELINES @ Primavera Sound - Barcelona (28 Mai.)
  5. HEALTH @ Primavera Club - Madrid (12 Dez.)
  6. JARVIS COCKER @ Festival Paredes de Coura (01 Ago.)
  7. SUPERGRASS @ Festival Paredes de Coura (30 Jul.)
  8. WILCO @ Coliseu dos Recreios - Lisboa (31 Mai.)
  9. JARVIS COCKER @ Primavera Sound - Barcelona (29 Mai.)
  10. NEIL YOUNG @ Primavera Sound - Barcelona (30 Mai.)
  11. SPIRITUALIZED @ Primavera Sound - Barcelona (29 Mai.)
  12. THE HORRORS @ Festival Paredes de Coura (30 Jul.)
  13. GALLON DRUNK @ Gasoiil - Lisboa (21 Mar.)
  14. FUCK BUTTONS @ Galeria Zé dos Bois (01 Out.)
  15. CRYSTAL STILTS @ Primavera Sound - Barcelona (29 Mai.)

Ufff...

R.I.P.

ROWLAND S. HOWARD
[1959-2009]

Morreu hoje, vítima de cancro do fígado, Rowland S. Howard, guitarrista australiano de créditos firmados que deixou a sua técnica peculiar espalhada pela obra de bandas como Boys Next Door e os subsequentes The Birthday Party (ambas com Nick Cave), e ainda Crime & The City Solution e These Immortal Souls. No currículo contava ainda com uma série de trabalhos em colaboração com outros "malditos" de alto calibre, tais como Nikki Sudden, Jeffrey Lee Pierce, ou Lydia Lunch. Ainda recentemente a revista Uncut, a pretexto da edição de Pop Crimes - apenas o segundo longa-duração a solo - lhe dedicara a rubrica Unsung Heroes. Nesse disco podem encontrar uma insteressante versão de "Life's What You Make Of It", dos Talk Talk, tão a propósito da vida desregrada que Howard viveu...

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Discos pe(r)didos #33


















SCRITTI POLITTI

White Bread Black Beer
[Rough Trade, 2006]

Imagino que, por esta altura, muitos dos meus confrades se debatam com a árdua tarefa de escolher os melhores discos da década prestes a findar. Como não me vou prestar a tal esforço, proponho algo de diferente com a recuperação de um dos grandes discos esquecidos desta mesma década, daqueles que dificilmente constarão de qualquer lista, precisamente o único álbum editado sob a marca registada Scritti Politti nos últimos dez anos.
Fundados na cidade inglesa de Leeds em 1978, os Scritti Politti consistem hoje em nada mais que o alter ego do seu mentor: o galês Green Gartside. Daqueles primeiros tempos libertários do pós-punk orientados sob um restrito manifesto marxista, que incluía viver numa comuna em condições precárias, resta actualmente apenas a memória. Farto da vida miserável que lhe ia custando a vida, e com a rendição às várias expressões da música negra, Green decidiu-se por almejar o sucesso. Para tal, desenvolveu uma fórmula pop elegante e sensível. Como consequência, durante a década de 1980, tornou-se figura de adoração junto de uma vasta franja de um certo público adulto, letrado e sofisticado. Na década seguinte e até aos dias de hoje, com as escassas edições discográficas e as raríssimas aparições em palco, o nome Scritti Politti é sinónimo de um culto restrito a um diminuto número de melómanos esclarecidos.
Embora resultado de gravações caseiras, nas quais a guitarra, a voz aveludada de Green e uma dose moderada de sons sintetizados constituem os ingredientes quase exclusivos, este White Bread Black Beer continua a exibir afincadamente a marca autoral do nosso white soul boy: uma produção cuidada e opulenta a transpirar charme por todos os poros. Sendo a soul branca de alto teor de sacarina ("The Boom Boom Bap", "Throw", "Road To No Regret") a receita básica, os temas de maior pendor sintético ("After Six", "E Eleventh Nuts", "Mrs. Hughes"), tal como anteriormente aflorado pelos esquecidos Pigeonhed, recuperam o funk futurista e inigualável do Prince da melhor safra. Mas, se o pequeno génio de Minneapolis é todo ele lascívia, imagina-se o nosso bom Green como amante monogâmico e dedicado ao alvo dos seus afectos.
Entregue a temáticas mais triviais na canção pop, não se pense que Green Gartside deixou de lado os ideiais políticos que nortearam a sua juventude. Em White Bread... são diversas as referências "esquerdistas" camufladas pelo clima de mel dominante: o desejo expresso de um estado republicano à mistura com metáforas culinário-amorosas ("Cooking"), o recado aos senhores governantes desta aldeia global sob a forma de declaração de amor ("Petrococadollar"), ou a distribuição mais justa da riqueza comparada à partilha numa relação a dois ("Robin Hood").
Dias de chuva e vento como o de hoje, em que não apetece nada sair de casa, pedem luz suave, boa companhia, e Scritti Politti...


"Throw"


"After Six"

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

R.I.P.

VIC CHESNUTT
[1964-2009]

Por motivos de pausa natalícia, um gajo ausenta-se por uns dias e, no regresso a este admirável mundo virtual, é logo confrontado com uma triste notícia: Vic Chesnutt deixou este mundo no passado dia de Natal, depois de um período em coma induzido por uma sobredose de antiespasmódicos. A tese do suicídio carece ainda de confirmação.
Atirado para uma carreira-de-rodas depois de um acidente de viação com apenas 18 anos, Chesnutt deixou expressa toda a sua amargura na relativamente extensa obra que deixou gravada, objecto de de um culto junto da comunidade musical num espectro que se estende para além das fronteiras do indie-folk/slowcore, género a que normalmente era associado. Ainda recentemente havia editado o intenso At The Cut (do qual se extrai a faixa mais abaixo), disco em que contou com colaborações de elementos dos Godspeed You! Black Emperor e dos Fugazi.
Embora tratando-se de alguém que não exprimia particular regozijo por estar vivo (ou talvez por isso), tenho de confessar que este desaparecimento não deixa de me causar alguma comoção.


"Chain"
[Constellation, 2009]

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Do they knew that was xmas?


Com os votos de um Feliz Natal a toda navegação, deixo-vos com um dos temas musicados mais insólitos dos muitos dedicados a esta quadra. A responsabilidade é de uma dupla de improváveis:




Wiliam S. Burroughs & Kurt Cobain
"The 'Priest' They Called Him"

[Tim/Kerr, 1993]

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Ao vivo #44















Wavves + Teengirl Fantasy @ Galeria Zé dos Bois, 19/12/2009

Nathan Williams, o jovem que se esconde no moniker Wavves, é um puto reguila empenhado em sê-lo. Depois do episódio caricato que impediu a sua vinda em Maio passado, chega com sete meses de atraso ao contacto do público tuga apostado em sabotar a festa. Por conseguinte, terá gasto mais do escasso tempo do concerto a espicaçar a turba, com algumas tiradas delirantes, do que propriamente a descarregar o seu surf rock esventrado pela distorção. Para compor um quadro por vezes surreal, faz-se acompanhar de um baixista alucinado que aproveita cada interlúdio para invocar o chifrudo das mais variadas formas. Para sorte dos mais intolerantes, o baterista apenas se aproxima por uma vez do microfone com o intuito de dar o seu contributo para o deboche total. É óbvio que esta postura irrita alguns. Que o diga um infeliz tagarela que se sentiria mais à vontade numa demonstração de tecnicismo a la Dream Theater. Descansa rapaz, que eles hão-de cá vir...
Porém, no tempo que resta, é impossível não sentir uma tremenda empatia pelo miúdo que destila sabiamente os mandamentos da cartilha lo-fi, sem que isso signifique desrespeitar as regras da canção pop. Para o final de tão caótica prestação estava gurdada a cereja no topo do bolo, com o quase-hit "So Bored" a ser abruptamente interrompido com a invasão do palco pela facção mais juvenil da plateia. E foi assim que, por uma noite, o espírito punk vagueou livremente pela ZdB...

Mais disciplinados, os dois elementos dos Teengirl Fantasy deram mais uma evidência de que o revivalismo da década de 1990 é latente, desta feita com a recuperação das sonoridades inteligentemente dançantes de Orbital e similares, mas que por vezes lembra o que seriam os Fuck Buttons privados do elemento noise. Deixam no ar a sensação de ter algumas boas idéias e igual número de arestas por limar.

domingo, 20 de dezembro de 2009

O diário da dor




















MANIC STREET PREACHERS

Journal For Plague Lovers
[Columbia, 2009]

Suponho que, se alguma vez o foram, os habituais visitantes deste blogue não sejam, por estes dias, adeptos dedicados dos Manic Street Preachers (MSP). Eu confesso que nutri por estes irredutíveis galeses um profundo sentimento de afecto que durou quatro álbuns. De então para cá, a descrença cresceu a cada novo lançamento, ao ponto de não dar grande importância à notícia da entrada da banda em estúdio para a gravação do nono álbum sob a batuta do Midas Steve Albini. Na altura especulou-se sobre a possiblidade de este novo disco regressar às sonoridades de The Holy Bible (1994), tanto mais que a banda se propunha musicar algumas letras deixadas pelo desaparecido Richey James Edwards, principal responsável pelo clima opressivo daquela obra-prima. À saída de Journal For Plague Lovers, nova evidência a remeter para aquele disco, com o art work a ser entregue à sempre perturbadora Jenny Saville, artista plástica que tinha desempenhado igual papel em The Holy Bible. E eu, imovível...
Só muito recentemente me decidi pegar em Journal..., e desde logo constato que, não estando perante uma nova Bíblia Sagrada, este é o trabalho mais conseguido dos MSP logo a seguir àquele clássico. Menos hermético e impenetrável, Journal... é mais directo e frontal, inclusive, piscando o olho à exuberância dos dois primeiros álbuns da banda. na recuperação da aspereza das guitarras. Por entre descargas de crueza rock e baladas sentidas, estes treze temas deixam uma vez mais evidente o talento inato de Edwards para condensar em palavras sentimentos como a dor, o desalento, o inconformismo, e a exclusão. Palavras essas, que na voz expressiva de James Dean Bradfield encontram o veículo perfeito. No sucesso desta empreitada, convém não menosprezar o papel de Steve Albini que, ao registar gravações em fita analógica, realça a força das batidas de Sean Moore, um dos principais factores da coesão do disco. Do lote de temas que facilmente entrarão para o grupo restrito dos obrigatórios nos sempre intensos concertos dos Manics, deixo-vos um exemplar no qual a F word foi suprimida para não ferir susceptibilidades (?!). Oh mummy, what's a Sex Pistol?, perguntam eles...


"Jackie Collins Existential Question Time"

Ao vivo #43















Fotos: mrpunch; Juan The Fly Factory


San Miguel Primavera Club '09 @ Madrid, 09-13/12/2009

Em eventos deste tipo, em que a oferta é muita, há sempre o risco das sobreposições. Desta vez, e a muito custo, calhou a Kurt Vile e aos Woods serem preteridos. Para consolo, uma boa parte da restante oferta musical, acrescida da sobredose de arte que Madrid tem para oferecer a quem a visita, deu para suprir a falta. Em traços largos, o relato da aventura madrilena:

The Ladybug Transistor Pese embora ter uma carreira com mais de dez anos, e de ter estado ligado ao colectivo Elephant 6, desconhecia em absoluto este combo norte-americano. Do que vi e ouvi, ficou uma sensação de agrado moderado em relação à pop melancólica para dias de chuva com reminiscências de Felt e The Clientele. Fica também na memória o esforço do vocalista em reproduzir aquele sotaque cockney tão apropriado à ocasião.

Little Joy E se, por hipótese, no lugar dos Television, os Beach Boys tivessem constituído a dieta musical da adolescência dos Strokes? O resultado poderiam ser estes Little Joy, praticantes de uma pop soalheira, positiva, pacata, e relativamente agradável. Acresce que o vocalista Rodrigo Amarante tem um timbre rouco em tudo semelhante ao de Julian Casablancas. Quanto a Frabrizio Moretti, assume com discrição o papel de guitarrista, aparentemente a aproveitar da melhor forma o longo interregno da sua banda principal.

Devendra Banhart & The Grogs Em tempos um prodígio freak folk, Devendra mantém-se um freak. Porém, a faceta folk foi substituída pela propensão para o rock setenteiro, citando os Stones no começo, e os menos recomendáveis Deep Purple mais para o final. Nos discursos desconcertantes, consegue, de uma só vez, ser aborrecido, mariquinhas, e imperceptível. Depois do final, a penosa experiência foi compensada pelas criteriosas escolhas do DJ de serviço, com "My Favourite Dress" dos Wedding Present a ser recebida num misto de euforia e estupefacção.

Cymbals Eat Guitars Mais jovens do que os imaginava, estes quatro rapazes foram capazes de criar momentos de forte tensão emocional na exiguidade da sala Nasti, ao ponto de provocar arrepios, como foi o caso. Inicialmente surpreendido pelo esbanjamento do maior trunfo com o fabuloso "And The Hazy Sea" logo na abertura, cedo compreendi que as exigências vocais deste tema o tornariam impraticável numa fase mais avançada, com a voz do vocalista nitidamente a pedir descanso. A entrega do moço é tal que, ao fim de cinco minutos, o suor escorre em abundância. Intenso e impressionante são termos que só pecam por defeito.

A Place to Bury Strangers Ao começo, envoltos numa densa nuvem de fumo que apenas permite discernir três silhuetas no palco, parecem não fazer jus à fama que os precede - the loudest band in NY. Atempadamente corrigidos os problemas de adaptação à acústica da sala Caracol, somos irremediavelmente engolidos no turbilhão de distorção e negrume. Os temas mais fortes dos dois discos com que contam no currículo sucedem-se, irrepreensíveis e perante a inexplicável apatia do público madrileno. Para o final, já dissipado o nevoeiro, é possível vislumbrar estes três cavaleiros do Apocalipse a executar um extenso número de deriva sónica capaz de tocar o lado mais obscuro de cada um de nós.

Cass McCombs Esqueçam a intensidade melancólica e a riqueza dos arranjos que conhecem dos discos. Em palco, Cass McCombs desfila um lote de temas indistintos dentro do pop-rock americanizado mais banal. Nem a assumida bebedeira da véspera lhe serve de desculpa.

Sr. Chinarro Com tão boas bandas no panorama indie espanhol, torna-se incompreensível a escolha desta espécie de David Fonseca - desmazelado e menos convencido - andaluz para o cartaz do PC'09. Entediante é dizer pouco...

The Black Heart Procesion Do pouco que vi, nada detectei do elemento latino que percorre a obra deste colectivo californiano que poderia fazer transportar-se numa carrinha funerária. Assim, as canções, debitadas com postura austera, realçam o seu romantismo negro, quase críptico.

Neon Indian Mais um rapazola - de melena encaracolada, para que conste - e sua banda a tentar reciclar o lixo synthpop que encontraram na colecção de discos dos pais. Se as canções podem satisfazer os saudosistas deste circo, já os interlúdios pretensamente experimentais não passam de mero exercício de vaidade sem qualquer nexo.

Beach House Apesar do esforço da dupla nuclear dos Beach House em proporcionar as atmosferas idílicas dos discos, as tentativas esbarram na voz arruinada de Victoria Legrand. Ficou-lhe bem pedir desculpa e agradecer por este ser o último concerto da tournée.

The Pastels Com o aproximar da hora do concerto, e em crescendo de ansiedade, apostava-se numa espécie de best of. Em vez disso, os Pastels optaram por um alinhamento centrado no lado mais bucólico e cinemático da sua obra recente, em perfeita sintonia com as belas imagens nostálgicas projectadas. A inclusão de uma trompetista e de um flautista ajudam na criação de uma atmosfera refinada. A única concessão ao passado longínquo foi o final apoteótico com "Baby Honey". Embora não tenha sido o concerto mais desejado, não há palavras para descrever o que é estar, pela primeira vez, a escassa meia dúzia de metros do guru Stephen McRobbie a.k.a. Pastel. Ainda para mais coadjuvado, no baixo, por Gerard Love, dos adorados Teenage Fanclub...

HEALTH Inexplicavelmente, a vertigem e imponência noise casam na perfeição com a suavidade da voz, provocando delírios de dança neurótica. E é tudo quanto tenho a dizer, pois com os HEALTH trata-se essencilamente de sentir.

School of Seven Bells Duas meninas, irmãs gémeas e com carinha de bonecas, um menino com corte de cabelo a régua e esquadro. Querem, ao mesmo tempo, ser os My Bloody Valentine, os Cocteau Twins, e as Miranda Sex Garden. Porém, não passam de um pastiche arraçado de new age para entreter saudosistas equivocados. Com imagens pretensamente psicadélicas sacadas ao ideário oriental incluídas.

TOP 5
  1. A PLACE TO BURY STRANGERS
  2. HEALTH
  3. THE PASTELS
  4. CYMBALS EAT GUITARS
  5. LITTLE JOY

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Duetos #18


A sort of.

Punk-blues meets hip-hop.
Com paródia Aerosmith vs. Run DMC incluída...


The Jon Spencer Blues Explosion feat. Beck "Flavor" [Matador, 1994]

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Some things hurt much more than cars and girls

















Os Prefab Sprout, o mesmo que por estes dias é dizer Paddy McAloon, têm novo álbum. Mais precisamente o oitavo, que vem interromper um longo período - de oito anos - de silêncio. Ou melhor, os Prefab Sprout têm um álbum semi-novo, pois Let's Change The World With Music resulta da regravação de alguns dos temas do álbum inicialmente previsto para 1993 e rejeitado pelos executivos da Sony Music, que o consideraram demasiado longo e complexo. Seria então o sucessor de Jordan: The Comeback (1990), um disco que, como alguns estarão recordados, ultrapassava a hora de duração. Ironicamente, este novo disco marca o regresso de Paddy e do irmão Martin ao rooster da editora que antes de ser comprada por magnatas japoneses se chamava CBS.
Mas, deixando de lado os faits divers da indústria musical e passando ao que realmente interessa, posso dizer-vos que, apesar do rosto nitidamente envelhecido, o bom do Paddy mantém aquela voz eternamente jovem que um dia deslumbrou qualquer ser humano com um mínimo de sensibilidade. A pretexto de uma declaração de amor à música, tão mais premente nestes tempos em que a mesma é vista como mero acessório de moda, o nosso artista continua a dissertar, com o engenho que é só dele, sobre as pequenas minudências do dia-a-dia que tornam as nossas vidas mais preenchidas. Tudo, é claro, envolvido em arranjos luxuriantes mas nunca excessivos. Façam um favor a vocês mesmos e mudem o vosso mundo com a música de Paddy McAloon!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

First Exposure #2













Foto: Kristin Eklund

SAD DAY FOR PUPPETS

Formação: Anna Eklund (voz), Martin Källholm (gtr), Marcus Sandgren (gtr), Alex Svenson (bx), Micael Back (btr)
Origem: Blackeberg [SE]
Género(s): Indie Pop, Noise Pop, Twee Pop
Influências / Referências: Bettie Serveert, The Darling Buds, Shop Assistants, The Manhattan Love Suicides, The Pains of Being Pure at Heart

http://www.myspace.com/saddayforpuppets

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Good cover versions #30











LUNA "Sweet Child O' Mine" [Jericho, 1999]
[Original: Guns N' Roses (1987)]

Enquanto líder dos Galaxie 500, Dean Wareham demonstrou por diversas vezes o talento para reinterpretar muitos dos seus heróis. Com o fim envolto em acrimónia daquela banda, tão emblemática quanto negligenciada, e já à frente dos Luna - e mais recentemente em parceria com a esposa Britta Phillips -, Dean prosseguiu, com alguma regularidade, essa tendência para recriar canções alheias. Se a maior parte das escolhas são mais ou menos previsíveis, totalmente inesperada é esta versão de um hino do rock macho, ainda hoje provocador de demonstrações de air guitar quando passada em locais com altos índices de testosterona. Nas mãos de Dean e dos restantes Luna, a guitarra opulenta de Slash do original é reduzida à discrição de uma linha extremamente melódica. Já a voz histeriónica de Axl Rose, é substituída, com ganhos, por uma irresistível melancolia. Caso não tivesse alguma consideração pela perigosidade que os Guns N' Roses incutiram à azeiteirice hair metal, diria estarmos perante um daqueles casos em que o lixo virou luxo.

A arte de compilar


















Rough Trade Shops: Indiepop 09

[CO-OP, 2009]

Os habitués deste blogue já estarão decerto habituados ao bom-gosto empregue pelo staff das lojas Rough Trade nos alinhamentos das suas compilações, muitas delas autênticos documentos pedagógicos. Porventura, muitos terão em casa Indiepop 01, compilação dupla editada no ano de 2005 que, além de reunir o melhor daquilo que ficou de fora da mítica cassete C86 (do New Musical Express), fazia a ponte entre os pioneiros da "filosofia" indie de inícios de oitentas e os recuperadores de inícios deste novo século. Agora que o então emergente revivalismo começa a ganhar contornos de fenómeno, as boas gentes da Rough Trade propõem uma compilação de 25 temas que, em boa medida, traça um retrato do estado actual da nação indie, facção ortodoxa. Para além dos inevitáveis "consagrados" (Girls, Los Campesinos!, The Pains of Being Pure at Heart, Vivian Girls, Love is All, Tullycraft, etc.), Indiepop 09 indica ainda uma série de neófitos a manter debaixo de olho: Sad Day for Puppets, Dum Dum Girls, Veronica Falls, ou The School, só para citar alguns. Segue uma amostra:


The Manhattan Love Suicides "Clusterfuck" [Squirrel, 2008]

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Me voy a Madrid!


Mini-férias na capital espanhola com:














A Place To Bury Strangers . Beach House . The Black Heart Procession . Cass McCombs . Cymbals Eat Guitars . David Holmes . Devendra Banhart . HEALTH . Jeffrey Lewis & The Junkyard . Kid Congo & The Pink Monkey Birds . Kurt Vile & The Violators . Marissa Nadler . The Pastels . Port O'Brien . School Of Seven Bells . Scout Niblett . The Soundtrack Of Our Lives . Sr. Chinarro . Ted Leo & The Pharmacists . Woods . e mais uns quantos!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Em terra firme















Githead é uma espécie de super-grupo composto por veteranos da facção mais arty do espectro pop-rock: Colin Newman dos incontornáveis Wire; o ambientalista electrónico Robin Rimbaud, mais conhecido por Scanner; e ainda Malka Spiegel e Max Franken, ambos ex-integrantes da lenda post-punk israelita Minimal Compact.
Nos três discos que levam editados em conjunto reflectem-se, obviamente, as diferentes sensibilidades de cada um dos seus membros. Por exemplo, o recentíssimo Landing (Swim) é percorrido pelo wall of noise que agradará aos devotos dos My Bloody Valentine, mas também pela pop subversiva dos Wire do tempo de 154 (1979). Numa primeira abordagem, Landing poderá deixar no ouvinte uma sensação de falta de coerência, mas nada que se revele inultrapassável em posteriores escutas.

http://www.myspace.com/githead

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Singles Bar #39


BLUR
For Tomorrow
[Food, 1993]












He's a twentieth century boy
With his hands on the rails
Trying not to be sick again
And holding on for tomorrow
London ice cracks on a seamless line
He's hanging on for dear life
So we hold each other tightly
And hold on for tomorrow

Quando apareceram, há quase vinte anos, os Blur eram uma banda hesitante entre abraçar o vaga shoegazer da ordem, ou apanhar o comboio baggy já em trajectória descendente. Já no segundo álbum, o menosprezado Modern Life Is Rubish, eliminaram qualquer traço de insegurança, assumindo uma bem marcada identidade que conheceria novos desenvolvimentos no fulgurante Parklife (1994). Ainda longe dos holofotes da fama, é este o primeiro manifesto de Damon Albarn como o Ray Davies para o fim de século, com uma visão saudosista de uma Inglaterra que, a ter existido, desapareceu para sempre. A servir de prenúncio a esse disco de viragem, "For Tomorrow" é a primeira tirada de reflexão sobre a sociedade britânica que conhecemos aos Blur. Sob a capa da melodia irresistivelmente orelhuda e do refrão pejado de la la las esconde-se o sarcasmo contundente que caracteriza muitos dos súbditos de Isabel II. Contrariando o tom de desencanto da canção, o vídeo promocional mostra-nos o de mais idílico resta ainda na gigantesca metrópole londrina.

domingo, 6 de dezembro de 2009

R.I.P.

JACK ROSE
[1971-2009]

Morreu ontem em Filadélfia, vítima de ataque cardíaco, o guitarrista Jack Rose, um dos mais destacados discípulos do mestre John Fahey na abordagem experimental à música tradicional norte-americana. Músico com um sentido raro de beleza e um tecnicista com predilecção pela guitarra acústica, Rose deixou gravada uma extensa obra, quer a solo, quer em colaborações pontuais, que percorre os mais diversos géneros, mas com especial enfoque nas raízes dos blues e do ragtime. Era também um dos membros fundadores dos Pelt, banda de formação mutante que assume um papel seminal no espectro drone de cariz mais ambiental. Durante a sua curta mas prolífica carreira, teve várias passagens pelo nosso país, a última das quais há coisa de um ano.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

El romance es aburrido!










Ano de 2006 - Sete jovens estudantes da Universidade de Cardiff, País de Gales, juntam-se numa banda com o objectivo claro de se divertirem. Todos cantam, todos tocam qualquer instrumento. Às habituais ferramentas associadas às linguagens pop/rock, adicionam instrumentos menos convencionais como o violino ou o glockenspiel. Daí resulta uma sonoridade inclassificável, algures na zona de intercepção do art-punk verborreico dos Art Brut, do disparate consciente dos Pavemet, da exuberância cínica dos Broken Social Scene, e de uma miríade de projectos obtusos que agora não me ocorrem. A fervilhar de ideias, editam discos - em diferentes formatos - em catadupa. Chega 2009 e Los Campesinos! decidem dar uma trégua. Mas curta, pois o novo ano traz consigo o novo álbum Romance Is Boring (1 de Fevereiro, apontem). O primeiro avanço justifica o uso do ponto de exclamação no nome da banda:


"There Are Listed Buildings" [Wichita, 2009]

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Good cover versions #29













BEACHWOOD SPARKS "By Your Side" [Sub Pop, 2001]
[Original: Sade (2000)]

Em inícios da década que agora finda, os Beachwood Sparks foram, juntamente com os Shins, pontas de lança na recuperação da melancolia psicadélica em cenário pop. Se estes últimos, que buscam inspiração em referências anglófonas, são hoje uma das bandas mais acarinhadas do espectro indie norte-americano, os Sparks não sobreviveram o tempo suficiente para colher o merecido reconhecimento da sua pop luminosa, tingida de country, directamente descendente dos Byrds e dos Buffalo Springfield. Deixaram gravados apenas dois álbuns, o último dos quais o delicioso Once We Were Trees, merecedor de uma óptima resenha por parte de um respeitável camarada. Já este disco fazia parte da minha dieta musical há algum tempo quando, eureka!, reconheci finalmente este tema que me soava familiar desde a primeira escuta. Longe da elegância algures entre a soul e o soft-jazz que é imagem de marca da abençoada cantora anglo-nigeriana do original, o colectivo californiano propõe um lamento crepuscular guiado pelo choro da lap steel. Num e noutro tema idêntico potencial mesmerizante...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

First Exposure #1


Espaço dedicado às bandas emergentes, apostas do April Skies preferencialmente sem contrato discográfico rubricado.





















Foto: Pavla Kopecna


VERONICA FALLS

Formação: Patrick (voz, gtr), Roxanne (voz), James (bx), Marion (btr)
Origem: Londres [UK]
Género(s): Indie Pop, Jangle Pop, Lo-Fi, Twee Pop
Influências / Referências: The Clean, Comet Gain, The Chills, Felt, Black Tambourine

http://www.myspace.com/veronicafallshard

Velhos conceitos

















LITTLE GIRLS
Concepts [Paper Bag, 2009]

Receptivo ao eventual contraditório, arrisco proclamar os Jesus and Mary Chain a banda mais influente do último quarto de século. Da vaga nu-gaze, aos novos estetas lo-fi sediados nos Estados Unidos, são já incontáveis as bandas que nos últimos anos assumem como sua a herança deixada pela errática banda escocesa. Estes Little Girls são mais um nome para acrescentar ao rol. Longe de ser uma cópia a papel químico, este quarteto canadiano de Toronto, tal como os irmãos Reid muitos anos antes, subverte as velhinhas sonoridades surf rock a golpes de sujidade e feedback. As vozes amordaçadas e as batidas maquinais criam uma atmosfera pesada, quase claustrofóbica. É esta a ementa daquele que é o álbum de estreia, a confirmar os excelentes apontamentos deixados pelo par de EPs antes editados.


"Youth Tunes"

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Em escuta #46







WHITE DENIM Fits [Full Time Hobby, 2009]

Figura de proa do actual revivalismo garage, este trio texano regista na segunda proposta um claro passo evolutivo, aventurando-se muito para além das guitarras estridentes e da sujidade intrínseca. Ao estilo dos velhos discos em suporte de vinilo, Fits divide-se em duas partes distintas: uma primeira mais enérgica e directa, com os riffs de pontas afiadas e as vozes ululantes a dar o mote; e um lado B mais contido, a convidar à viagem sensorial, aqui a ali polvilhada por ritmos funk e melodias sob o Sol da costa Oeste. Lá no alto, Arthur Lee estará a erguer o polegar em sinal de aprovação. [8,5]


A SUNNY DAY IN GLASGOW Ashes Grammar [Mis Ojos, 2009]

Ao segundo álbum, este numeroso colectivo de Filadélfia, alinhado nas novas correntes shoegazing, mergulha de cabeça em Loveless, o marco histórico dos My Bloody Valentine. Ashes Grammar propõe um lote de mais de duas dezenas de temas de durações variáveis entre os escassos segundos e os 5/6 minutos. A intenção será criar um todo, uma espécie de sinfonia aquática feita de camadas de overdubs e vozes angelicais. Em mais de uma hora de disco, há momentos inspirados pela mola propulsora da percussão e a aridez das guitarras ("Shy", "The Wihte Witch"). Outros há que rasam a fronteira do onirismo bacoco. [6,5]


TAP TAP On My Way [Stolen, 2009]

Paralelamente aos Pete & The Pirates, Tom Sanders edita sob o moniker Tap Tap, projecto caracterizado pela aura tresloucada herdada de finais dos sixties comum àquela banda, embora aqui em registo menos esfuziante. On My Way revela uma capacidade inata do autor para canções de uma pop happy-sad imaculada, prenhes de inocência e romantismo juvenis, vagamente nerdish, e em formato semi-acústico. A percorrer estas onze semi-baladas gingonas há aquele "sentir" marítimo que associaríamos às bandas de Liverpool (The Coral, The La's) se não soubéssemos que o rapaz é de Reading. [8,5]


SILK FLOWERS Silk Flowers [Post Present Medium, 2009]

Antes das investidas operáticas dirigidas por Jim Steinman, o som dos Sisters of Mercy era uma missa negra pautada por batidas que gelavam os ossos. É precisamente esta faceta da persona Andrew Eldritch que este trio de Brooklyn invoca no seu disco de estreia, no qual a electrónica mais básica e primeva serve de matéria-prima. Aqui e ali pressente-se que o espírito de Ian Curtis tenha sido também convocado para este ritual macabro. Densamente negro e intencionalmente imperfeito, a par da sensação de estranheza, Silk Flowers deixa a ideia de haver ainda algumas arestas por limar. [7]


ART BRUT Art Brut vs. Satan [Cooking Vinyl, 2009]

Depois de uma tentativa semi-falhada de uma maior subtileza, os Art Brut recuperam o humor corrosivo tipicamente british, com Eddie Argos a assumir-se como um Mark E. Smith mais sóbrio, mas igualmente contudente. Vale bem a pena uma leitura atenta das letras, com tiradas cáusticas, muitas vezes auto-críticas, sobre a sociedade actual e o vasto universo pop-rock. Neste particular, destaca-se a paródia hilarinate ao purismo lo-fi de "Slap Dash For No Cash". Na música, frenética, os The Fall marcam mais uma vez presença nas guitarras frenéticas e na propulsão contaginate da bateria. A brincar, a brincar, os Art Brut estão cada vez mais sós no lote de sobeviventes do contingente neo-postpunk. [8]


THE CLIENTELE Bonfires On The Heath [Merge, 2009]

Há em "I Wonder Who We Are", o tema que abre o novo disco dos Clientele elementos de géneros que me causam imediata rejeição, quando integrados em canção pop: bossa nova, soft jazz, e flamenco. Mais à frente, os mesmos géneros são aflorados em doses distintas, juntamente com os sopros mariachi, em um ou outro tema. O resto é a elegância feita melancolia pop a que Alasdair McLean já nos habituou - e que o mundo teima em ignorar - a espraiar-se . A confirmarem-se os rumores de uma possível dissolução da banda, uma despedida condigna pedia disco mais equilibrado. [7]

domingo, 29 de novembro de 2009

Ruffalo on the Lakes









No actual establishment da Sétima Arte, Mark Ruffalo será seguramente um dos actores com percurso mais coerente. Eu "descobri-o" na pequena curiosidade que é You Can Count On Me, vi-o brilhar secundariamente no delirante e comovente Eternal Sunshine Of The Spotless Mind, e fiquei definitavente rendido quando o vi espalhar talento no colossal Zodiac. Em breve, espero "ouvi-lo" em Where The Wild Things Are, o mais recente delírio de Spike Jonze. No meio de tantas solicitações como actor, Ruffalo arranjou ainda tempo para se estrear como realizador em Sympathy For Delicious, filme com estreia marcada nos states para Janeiro próximo e que relata o drama de um DJ a quem um acidente deixa paralisado. Para além do próprio realizador, o elenco conta ainda com Orlando Bloom, Juliette Lewis e Laura Linney.
Como celebração da causa rock, o filme conta com música de bom-gosto a cargo dos Besnard Lakes, banda cuja melancolia cinemática terá provocado em Ruffalo um momento epifânico durante o torpor de uma gripe. Do colectivo canadiano espera-se também novo álbum para os primeiros meses do próximo ano. Por cá, ainda ressoa frequentemente o último opus de Jace Lasek e Olga Goreas:


The Besnard Lakes "For Agent 13" [Jagjaguwar, 2007]

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Discos pe(r)didos #32



















SPACEMEN 3
The Perfect Prescription
[Glass, 1987]

Com um estatuto seminal em permanente crescendo, os Spacemen 3 (S3) têm um legado relativamente escasso mas de elevado valor. A escolha da obra maestra não é consensual, com a maioria a eleger o virulento Playing With Fire (1989), outros, menos, a preferirem o cerebral Recurring (1991). Com alguma relutância, inclino-me para o antecessor de ambos - The Perfect Prescription. É neste ponto que as personalidades musicais - então sintonizadas - de Sonic Boom (Peter Kember) e J Spaceman (Jason Pierce) atingem o zénite de uma etapa de escavações nas memórias do rock mais desalinhado que haviam iniciado ainda adolescentes. As drogas traçam uma linha condutora ao longo de todo o disco, de uma estrutura semi-conceptual, ou não fosse esta a banda que tinha por mote "taking drugs to make music to make music to take drugs to". Consequentemente, as diferentes atmosferas reflectem as vivências de um junkie, indo de estados eufóricos e de deslumbramento ao buraco negro da ressaca. As vozes surgem em murmúrios, sibilantes, enfraquecidas pelo torpor narcótico. Pierce encarna o crente temerário, enquanto Kember, quase declamatório, tende para um cinismo amargurado. No plano musical, cada um dá algumas pistas sobre o trabalho desenvolvido nos projectos futuros, com os temas protagonizados pelo primeiro a tanger a América negra dos blues e do gospel, e o segundo a chamar a si a via espectral do kraut rock.
As guitarras ultra-amplificadas geralmente associadas aos S3 primam em ...Prescption pela quase total ausência. Assim, e perante a supressão quase absoluta de percussões, a trip intuitiva assistida a químicos é proporcionada por acordes contínuos de guitarras em distorção, órgãos avulsos, ocasionais arranjos de cordas, e raras intromissões de sopros. A excepção é a inaugural "Take Me To The Other Side", descarga eléctrica evocativa de Roky Erickson, uma das figuras assumidas como tutelares pela banda. O mesmo que algumas reedições recuperam na inclusão de uma longa e luminosa versão de "Rollercoaster", dos seus 13th Floor Elevators. Outro dos renegados da causa rock citados (os S3 eram uma banda reverencial às suas fontes inspiradoras, com já deu para perceber) é Mayo Thompson, personagem omnipresente no espectro marginal da música popular dos últimos 40 anos, através de uma versão de "Transparent Radiation" (dos Red Crayola), aqui fundida com o intro de "Ecsatasy Symphony". A dupla de temas siameses, semi-sinfonia para guitarra acústica e secção de cordas de efeito mesmerizante, é inclusive a peça central deste disco que se inicia em efusão delirante ("...Other Side"), relata passeios de amena cavaqueira com o Filho do Criador ("Walkin' With Jesus", "Ode To Street Hassle"), e termina em sobredose tóxica ("Call The Doctor").
Juntamente com Playing With Fire, e volvidos que estão mais de 20 anos desde a edição de ambos, ...Prescription está mais na ordem do dia que nunca, com a sua presença a diluir-se em muitas das mais estimulantes expressões musicais deste início de século: desde o contingente drone, passando pelas diferentes correntes abstraccionistas, até aos novos praticantes do psicadelismo.


"Ecstasy Symphony / Transparent Radiation"


"Take Me To The Other Side"


"Ode To Street Hassle"

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Vaga fria vs. Vaca fria















Algumas apostas recentes da Matador Records já me faziam temer pelo rumo a seguir por aquela que foi, nos últimos quinze anos, a mais relevante das editoras independentes. Quem não consumiu avidamente as compilações do selo nova-iorquino que incluíam bandas tão entusiasmantes como Pavement, Yo La Tengo, Guided by Voices, The New Pornographers, Helium, Come, ou Bailter Space? O último sinal de derrocada é dado agora, com a rendição da Matador à recente tendência para a recuperação dos sons sintetizados que há quase trinta anos eram considerados futuristas, mais concretamente à facção humanóide da coisa. Fala-vos da recente edição de Love Comes Close, álbum de um colectivo intitulado Cold Cave, que vem rotulado de experimentalista mas que se limita à prática de sonoridades electrónicas primitivas. As vozes são duas: a dele grave e com ar de caso, a dela com a aparente lascívia que garante um lugar cativo nas pistas de dança dadas a modas passageiras.
Fonte privilegiada garanta-me que uma das próximas contratações da Matador dá pelo nome de Euryth..., perdão, Editors...

http://www.myspace.com/coldcave

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Singles Bar #38



















ANOTHER SUNNY DAY
You Sould All Be Murdered
[Sarah, 1989]

"One day, when the world is set to rights
I'm going to murder all the people I don't like
The people who have left me down without reserve
The people who are cruel to those that don't deserve
The people who talk too much
The people who don't care
The people whose lives are going nowhere"

Em 1987, o fim súbito dos Smiths foi motivo de algumas convulsões junto dos jovens tímidos, letrados e sensíveis que tinham encontrado nas palavras de Morrissey expressão para a sua desilusão perante um mundo cruel e injusto. Neste clima de luto carregado, multiplicaram-se os projectos gerados pela devoção ao quarteto de Manchester, alguns com bastante graça, outros nem por isso. No primeira categoria temos que incluir os londrinos Another Sunny Day (ASD), mais do que uma banda, o veículo de expressão musical para Harvey Williams, figura que após a curta carreira deste projecto esteve ligado a várias outras bandas simbólicas do chamado twee pop (The Field, Mice, Trembling Blue Stars, Blueboy).
O legado dos ASD resume-se a pouco mais do que um punhado de singles, todos eles editados pela Sarah Records - casa intimamente ligada ao "género" twee - e posteriormente reunidos na compilação London Weekend (1992), recentemente reeditada pela louvável Cherry Red para gáudio deste que vos escreve. Do lote de temas de uma leveza triste e hiper-romântica registados por Williams, destaca-se "You Should All Be Murdered", no qual o pacifismo aparente da voz esconde o desejo de extermínio de todos aqueles que fazem do mundo um lugar cinzento. Se o tom vitriólico disfarçado de doçura, qual lobo na pele do cordeiro, é o mesmo que habitualmente associamos a Morrissey, então o que dizer do fade in inicial reminiscente de um tema intitulado "Some Girls Are Bigger Than Others", ou dos floreados da guitarra característicos de um indivíduo que ficou conhecido como Johnny Marr? A propósito de "... Murdered", alguma má-vontade poderá sugerir termos como "cópia", ou até o mais gravoso "plágio". Porém, perante melodia tão insidiosamente cativante, as reservas das pessoas de bom-gosto revelam-se rotundamente ineficazes.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Gorilas na névoa















Foto: Benjamin Hoste

Imaginem uns Arcade Fire mais submissos à folk, ou uns Fleet Foxes com algum groove, ou ainda uns Ra Ra Riot menos exuberantes. Imaginem também a harmonia dos Beach Boys corrompida pela percussão nervosa dos Talking Heads. No ponto nebuloso onde estas sonoridades avulsas se intersectam poderiam estar os Local Natives, uma banda com mais personalidade do que a mixórdia de referências possa fazer prever.
Rezam as crónicas que este quinteto californiano recebeu rasgados elogios aquando da sua passagem pela edição deste ano do South by Southwest. Mas, pelos vistos, não os suficientes para conseguir um contrato discográfico em território pátrio. Já na Europa - leia-se Reino Unido -, Gorilla Manor, o álbum debute, tem edição assegurada pela ressuscitada Infectious Records. Averte-se que a audição deste disco de uma pop não excessivamente barroca pode proporcionar algum calor nesta estação fria.

http://www.myspace.com/localnatives