"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Trigémeos

















Já começam a faltar as palavras para o elogio a Ty Segall, em definitivo o wunderkind da nova safra garage-pop de cariz lo-fi que tem brotado, essencialmente, da Califórnia, mas também um pouco do resto do território dos states. Além de talentoso e conhecedor do legado rock, e apesar da sua tenra idade, é também um puto altamente produtivo. Só neste ano já nos deu Hair, o disco em colaboração com White Fence com uma abordagem ao psicadelismo num regime quase jam, e Slaughterhouse, álbum gravado com a sua banda de palco no qual mostra devoção pelo história do hardcore e de algum rock mais duro.

Faltava apenas o disco exclusivamente em nome próprio, lacuna colmatada com a edição de Twins, que já roda por aqui há coisa de um mês. Neste que já é o seu sexto álbum, se contarmos apenas os da discografia "linear", Segall prossegue a aproximação a um formato convencional de canção, iniciada no anterior e excelente Goodbye Bread (2011). Para trás ficaram já os esboços de canções envoltos em ruído de outrora. Mas, como é seu hábito, ainda investe em força no fuzz, numa dúzia de temas maioritariamente curtos que percorrem os mil e um géneros pelos quais sente afinidade. Assim, não é de espantar que, a um tema de inspiração glam, com voz em falsetto e tudo, suceda uma descarga de sujidade garage, ou que a um outro de inflexão jangle-pop se siga uma balada lisérgica. Como os amigos são para as ocasiões, é num tema de estirpe praticamente incatalogável que Brigid Dawson, dos aliados Thee Oh Sees, dá uma preciosa ajuda:

 
"The Hill" [Drag City, 2012]

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Do cabeleireiro ao matadouro















Um pouco à semelhança de Nathan Williams (Wavves) ou do malogrado Jay Reatard, Ty Segall é um daqueles putos americanos que combatem o tédio com uma hiperactividade estonteante no que respeita a edições discográficas. Depois de uma catrefada de discos de confecção caseira nos vários formatos, no ano passado, brindou-nos com o álbum Goodbye Bread, um óptimo registo significativamente mais "limpo" que os esboços toscos dos anteriores. Neste, os impulsos garage abriam espaço para alguns laivos glam que denunciavam apreço por Marc Bolan. Também na progressão rumo a um formato de canção mais escorreita, o percurso de Segall é em tudo semelhante ao daqueles dois outros ícones do novo lo-fi.

Já no decurso do corrente ano, Ty Segall uniu-se a White Fence, que é como quem diz Tim Presley, outro puto californiano hiperactivo, para editar Hair. Neste trabalho conjunto, que tem rodado com alguma insistência por estas paragens, a dupla oferece um conjunto de temas em que o garage e o psych dão as mãos num autêntico puzzle que desafia o ouvinte pelas estruturas pouco ortodoxas de cada faixa. Ainda mal refeito do último assalto sónico, saído há escassos dois meses, sei que Ty Segall tem nova investida prevista para a próxima semana. O novo álbum chama-se Slaughterhouse e é creditado à Ty Segall Band, já que, tal como as duas outras duas luminárias referidas, também o nosso jovem intrépido se viu na necessidade de se fazer acompanhar de uma banda completa para fazer face ao número crescente de solicitações para concertos. A amostra infra faz-nos crer que a feitura de canções dignas desse nome é tendência para continuar. Basta que se descortine a pop borbulhante de travo clássico que se oculta por detrás das barreiras de eco e reverberação.

 
Ty Segall & White Fence _ "I Am Not A Game" [Drag City, 2012]

   
Ty Segall Band _ "I Bought My Eyes" [In The Red, 2012]

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Em escuta #60












THE PSYCHIC PARAMOUNT _ II [No Quarter, 2011]

Imerecidamente arredado dos destaques musicais da estação, este quarteto nova-iorquino rompe um silêncio de seis anos com um disco que é um claro passo evolutivo em relação ao debute. II espraia-se pelos meandros da música instrumental, na qual as guitarras se degladiam com as percussões, que tanto remetem para as escalas jazzísticas como para as propulsões kraut, alternando momentos pacíficos com descargas sónicas. Em teoria, poderíamos estar perante mais um projecto do mais estafado post-rock. Sucede que os Psychic Paramount trocam as voltas ao óbvio, dispondo os crescendos de forma casual e em duração variável. A ter de estabelecer paralelismos, prefiro remeter, salvas as distâncias melódicas, para as primeiras manipulações do ruído a golpes de guitarra de um Glenn Branca. [7,5]


TORO Y MOI _ Underneath The Pine [Carpark, 2011]

Projecto pessoal de Chaz Bundick, Toro Y Moi é uma das faces visíveis do chamado hypnagogic. Extremamente activo nos últimos tempos, privilegiou a via electrónica no registo do ano passado (Causeurs Of This). Substancialmente mais orgânico, este terceiro álbum destaca-se pelo bom punhado de temas que se deixam contaminar pelo disco e pelo funk "eléctrico", porém com subtileza e bom-gosto bastantes para não resvalar para o mero revisionismo. Contudo, no meio do borbulhar do frenesim destes ritmos, Bundick não enjeita os momentos de maior recolhimento, agora enriquecidos pela delicadeza de alguns apontamentos de guitarra. Ou até de texturas mais ásperas, como é o caso do frio metálico do intro que abre o disco. No final da fruição, fica no ar a sensação que, unidas as pontas soltas, este será apenas um passo seguro num trajecto em que o melhor poderá ainda estar para vir. [7,5]


WOODS _ Sun And Shade [Woodsist, 2011]

Com um ritmo de edições notável (sete álbuns desde a formação, em 2003), os Woods vão, com pequenas afinações na sua sonoridade, conquistando lugar de destaque na actual produção ianque. Quem conhece o par de discos imediatamente anterior já sabe o que Sun And Shade tem para oferecer: semi-baladas semi-psicadélicas estendidas sob um sol de fim de tarde, uma doce lazeira, e vozes nasaladas reminiscentes tanto de Graham Nash como de Neil Young. Não falta sequer a versão "obscura", desta feita por conta de "Who Do You Think I Am?", original de uns tais The Appletree Theatre. Mas eis que, no compromisso a meio caminho entre a folk e o lo-fi, o par de longos instrumentais irrompe abrindo novos mundos. O primeiro, "Out Of The Eye", deixa-se claramente enredar nas malhas do kraut. Já "Sol Y Sombra", substancialmente mais atonal, deriva progressivamente para a cacofonia velvetiana. Da conciliação da velha sonoridade com os potenciais corpos estranhos nasce, pasme-se, o mais conseguido e arrojado disco dos Woods. [8]


TY SEGALL _ Goodbye Bread [Drag City, 2011]

Outrora municiador de ondas de ruído gratuito, o californiano Ty Segall é mais um nome para juntar à falange dos putos-americanos-com-devoção-pelo-lo-fi-que-gravam-como-o-caraças à qual pertencem Nathan Williams (Wavves) e o malogrado Jay Reatard. Neste primeiro disco com algumas cedências à ortodoxia, porém, destaca-se dos seus pares com uma surpreendente maturidade pop. Construído quase exclusivamente à guitarra, com percussões rarefeitas, Goodbye Bread é um tratado de canções que destilam ennui juvenil. Ainda que gravado em condições precárias, faz disso uma mais valia em favor da pureza musical. Quando evoca, ao de leve, a berraria do passado recente (caso do brilhante "My Head Explodes"), Ty Segall parece ter encontrado a contenção adequada às pretensões de harmonia e catarse. E já que se fala em catarse, seria imperdoável não referir o não menos brilhante "I Am With You", pura declaração de desprezo, tanto pelo mundo dos pequenos como pelo dos graúdos. Talvez, tal como o outro e tantos de nós, Segall just wasn't made for these times... [8]