"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Paint it, black
















Penso que já antes o tínhamos afirmado, mas nunca é demais repeti-lo, para que não restem dúvidas: o génio (ainda) pouco reconhecido de Dean Blunt já não se circunscreve ao universo "electrónico", nem mesmo se detém no conceito vasto de "música urbana". A mutabilidade inconformista já se pressentia nos tempos do projecto Hype Williams, dividido com Inga Copeland, caracterizado por uma electrónica leftfield difícil de arrumar em qualquer subespécie. Apesar disso, talvez nada nos tivesse preparado para The Redeemer, o fabuloso álbum de catarse em nome próprio do ano passado, e para sua abordagem avant-soul narcótica que recuperava os últimos resquícios da colaboração com Copeland. Neste, e no complementar Stone Island, concebido numa única noite passada em Moscovo e distribuído gratuitamente on-line, despontava nova companhia feminina.

De sua graça Joanne Robertson, a moça assume papel de grande destaque no novíssimo Black Metal, disco que concretiza a redenção que o antecessor apenas prometia. Antes de partirmos para a dissecação desta nova mutação estilística de Dean Blunt, convém tentar compreender os porquês de tão insólito título. Bem, mesmo que com a difusão de conceitos do artista em causa nada possa ser dado como garantido, uma atenção ao conteúdo de Black Metal poderá justificar a escolha como uma tentativa de Blunt se tentar libertar da compartimentação da sua música baseada em critérios de coloração da pele. O sucesso desta tentativa pode ser aferida na primeira parte do disco, uma meia dúzia de temas num registo indie-art-pop, nos quais a guitarra de Joanne Robertson tem presença tão ou mais considerável que a sua voz, esta cristalina e em contraste com o crooning do "mestre". A escolha de samples de Big Star e The Pastels num par de faixas diz muito das "sensibilidades brancas" presentes. Ambos os temas ("LUSH" e "100", respectivamente) têm ainda a particularidade de derrubar barreiras entre a pilhagem ostensiva e a criação de algo novo, matéria em que Dean Blunt tem dado lições. Com a separação por conta do longo e cinemático "FOREVER", entramos na segunda metade do álbum e aqui talvez tenhamos de justificar o negrume com o incremento da tensão latente, ou não fosse este um trabalho de alguém que já nos habituou a uma certa bipolaridade, estética e lírica. Neste segmento final de Black Metal, substancialmente menos orgânico, a esquizofrenia é um dado adquirido, com a sucessão de temas avulsos que tanto podem tanger o hip-hop como o ambientalismo nocturno, ou até não passarem de devaneios abstractos. Ultrapassado o ligeiro desnorte das primeiras audições, e unidas as pontas, Black Metal revela-se mais um fascinante produto da constante inquietação dos nossos dias, não muito diferente daquela dos tempos de um tal tricky kid há quase duas décadas.

 
"MERSH" [Rough Trade, 2014]

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Sound affections


Foto: Neil "Twink" Tinning

Com relativa justeza, aos Buzzcocks é normalmente atribuído o epíteto de punk Beatles, pela sua capacidade de urdir canções curtas de um imediatismo efectivo. Para comprovar o mérito de tal atribuição, basta passar os ouvidos pela compilação Singles Going Steady, de 1979, seguramente uma das melhores edições do género. Mais pela qualidade que pela quantidade, os norte-irlandeses The Undertones também poderiam ser um sérios candidatos a tal título. No entanto, tanto no caso destes como no dos mancunianos, o paralelismo com os fab four tem de ser estabelecido apenas com a fase formativa, pré-Rubber Soul. Se avançarmos para o "período crescido" dos de Liverpool, muito provavelmente, a comparação com as bandas saídas do turbilhão punk apenas poderá ser com o trio do guitarrista/vocalista e compositor quase exclusivo Paul Weller, do baixista Bruce Foxton, e do baterista Rick Buckler

Bem, antes que se torçam os narizes, esclareço que catalogar os The Jam como punk é resumi-los ao primeiro par de álbuns, da meia dúzia que lançaram noutros tantos anos com selo da multinacional Polydor. Quando implodiram, no apogeu da fama, eram já uma banda radicalmente diferente. Nesta fase, refira-se, a aceitação das massas contrastava com a rejeição dos seguidores dos primórdios, demasiado cegos por um fundamentalismo que não aceitava o crescente interesse do trio, e em especial de Paul Weller, pela música negra. O próprio frontman terá pressentido que a mutação entretanto operada já não encaixava na entidade The Jam, pôs fim à banda e formou The Style Council, estes totalmente livres para flirtar com a soul, com o jazz, ou com a bossanova, numa das mais belas aventuras da facção sofisticada da pop. Não obstante alguma incompreensão à época, tanto com a fase derradeira dos The Jam, quanto com a proposta dos Style Council, o tempo tratou de garantir a Paul Weller o estatuto de pioneiro. E também o reconhecimento como um dos grandes escritores de canções Made in UK, o que se reflecte numa vasta descendência que vai de Morrissey (sim, ele há-de admiti-lo) a Pete Doherty. 

Numa espécie de tributo de reconhecimento ao herói Modfather, que melhor que ninguém soube combinar a consciência social da working class com o espírito pop, e fruto de mais um surto do "sindroma Alta Fidelidade", apresento-vos o meu top ten pessoal dos The Jam. Pelo menos o de hoje, em regime countdown, e resultante de uma short-list de duas dúzias de temas, é assim:

10. "Start" (Sound Affects, 1980)
09. "Beat Surrender" (single, 1982)
08. "Mr. Clean" (All Mod Cons, 1978)
07. "To Be Someone (Didn't We Have A Nice Time)" (All Mod Cons, 1978)
06. "Going Underground" (single, 1980)
05. "Monday" (Sound Affects, 1980)
04. "In The City" (In The City, 1977)
03. "Down In The Tube Station At Midnight" (All Mod Cons, 1978)
02. "Town Called Malice" (The Gift, 1982)

01. "That's Entertainment" (Sound Affects, single, 1981)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Um pequeno mundo em ruínas





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Liz Harris, a quem a timidez leva a gravar como Grouper, é daquelas artistas com uma dinâmica de lançamentos muito própria, que não obedece propriamente aos processos e intervalos criativos estabelecidos pela "indústria". Não se conclua daí que seja moça dada à preguiça. Bem pelo contrário, em dez anos tem já editados outros tantos álbuns, número nada desprezável nos tempos que correm. O que sucede é que o ritmo de edições não é regular, e muitas vezes um novo disco repesca velhos temas deixados em estado embrionário no manacial de criação que o trabalho em recolhimento caseiro proporciona. O último The Man Who Died In His Boat (2013), por exemplo, recuperava canções já com alguns anos de gestação, do tempo do soberbo Dragging A Dead Deer Up A Hill (2008) e, como tal, parente próximo daquele. Ou seja, ambos eram discos de temas densos mas simultaneamente frágeis, compostos por esboços de canções que vagueavam num limbo entre a perdição e a redenção.

Com o novíssimo e altamente recomendável Ruins sucedeu algo de semelhante, já que a concepção dos seus oito temas remonta a 2011, quando Liz Harris se remeteu a um retiro em Aljezur, no sul de Portugal, a fim de cicatrizar feridas de (des)amores antigos. Por conseguinte, este é o seu trabalho mais violentamente emocional, apesar de reduzir ao esqueleto as texturas que, outrora, eram de uma densidade quase impenetrável. Os ruídos incidentais, que antes eram uma medida recorrente, estão agora praticamente remetidos aos temas de abertura e de fecho. Estes são uma espécie de contextualização de lugar, uma vez que pelo meio, no cerne do disco, as delicadas canções ao piano fazem de nós uns voyeurs despudorados, que seguem cada passo da deriva da autora na sua clausura intimista. Com um gradiente de desfocagem menos evidente que os antecessores, Ruins é também o primeiro trabalho de Grouper em que a voz se assume como algo mais que um instrumento. Apesar de exigirem uma atenção especial, o balbuciar daquelas frases ténues denota a necessidade de expelir palavras urgentes. Por isso, este é um daqueles discos que exige que façam um pausa nas tarefas domésticas e se deixam imergir no íntimo em ruínas de Liz Harris. Não queria usar frases feitas, mas garanto-vos que, primeiro, Ruins estranha-se, mas depois entranha-se.

 
"Holding" [Kranky, 2014]

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Desenterrar o passado
















Embora não gozem da mesmo estatuto em território europeu, em casa as Sleater-Kinney são aquilo a que se pode chamar uma instituição, um expoente da fervilhante cena musical do noroeste estado-unidense. Com alguma desconfiança, pode até argumentar-se que as moças de Portland souberam apenas capitalizar o estilhaço riot grrrl que as antecedeu, bem como a atenção posta na vizinha Seattle em inícios de noventas. No entanto, tais alegações serão tremendamente injustas com o percurso ímpar de uma banda que, sem abdicar de um teor altamente politizado (essencialmente feminista), nunca se rendeu à estagnação. Afinal, não são muitas as bandas que se podem gabar de um legado de sete álbuns, sem pontos baixos, e em constante e subtil progressão. Do lote altamente conistente, contudo, é imperativo destacar um par de discos, um da sonoridade mais directa da primeira fase, outro da complexidade adquirida do período avançado. Falamos, obviamente, do terceiro Dig Me Out (1997), e primeiro em que a baterista Janet Weiss se juntou às guitarristas/vocalistas Corin Tucker e Carrie Brownstein para constituir a formação clássica que perduraria até à despedida, e do derradeiro e avassalador The Woods (2005). Perante o brilhantismo deste último, foi com alguma estupefacção que recebemos a notícia da separação em 2006, suavemente anunciada como um "hiato por tempo indeterminado".

Desde então, Corin dedicou-se à família e a uma discreta carreira a solo, enquanto Carrie e Janet se reuniram no super-grupo Wild Flag, projecto breve que rendeu apenas um álbum homónimo, ao qual o tempo ainda concederá o estatuto de clássico. A última fez também parte dos The Jicks, a banda que tem acompanhado o ex-Pavement Stephen Malkmus. Porém, cada aparição de qualquer das três com novo projecto, era sempre motivo para manifestação da nostalgia das Sleater-Kinney. Para que os infiéis possam entender toda a importância atribuída ao trio como um dos mais relevantes colectivos do rock no feminino, a novíssima caixa retrospectiva Start Together é ferramenta indispensável. Digo-vos que inclui a totalidade da obra gravada numa edição limitada a 3000 exemplares em vinil colorido, sendo que também é possível adquirir cada um dos sete álbuns remasterizados individualmente, em CD ou no convencional vinil negro, e sem os habituais brindes dos boxsets. Além de extremamente apetecível, o pacote completo tem um preço quase proibitivo, pelo que, pode ser extremamente útil para atestar amizades pelo Natal. Não obstante, a melhor das prendas é algo não propriamente material: o regresso das Sleater-Kinney ao activo, algo que os mais optimistas já profetizavam com o fim abrupto das Wild Flag e a saída de Janet Weiss dos The Jicks. O boato confirmou-se, e até há já álbum novo no horizonte, com edição prevista para Janeiro do ano próximo e com título genérico No Cities To Love. Há até um primeiro avanço em formato single, incluído como bónus em Start Together. A julgar pelo aperitivo, será um regresso das Sleater-Kinney a crueza "punkóide" dos primórdios. Portanto, um recomeço, completo que foi o anterior ciclo evolutivo.

"Bury Our Friends" [Sub Pop, 2014]

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Encontro de irmãos
















Não fosse o assomo de quase-sucesso dos The Chills, e certamente os The Clean seria a mais "badalada" banda do vasto património pop da distante Nova Zelândia. Por questões cronológicas, contudo, o estatuto pioneiro assenta melhor nos últimos. Para além da amizade e do respeito mútuo, as duas bandas têm ainda em comum os longos períodos de inactividade. No caso dos The Clean, pelo menos, os hiatos são justificáveis pelas actividades musicais paralelas de qualquer dos seus membros: o guitarrista David Kilgour, o baixista Robert Scott, e o baterista Hamish Kilgour. Foi por um feliz acaso (ou talvez não) que, coincidindo com a recente reedição da indispensável compilação Anthology, ambos os irmãos Kilgour lançaram, praticamente em simultâneo, álbuns em nome próprio.

Com uns quinze dias de antecipação, em pleno Verão, David Kilgour revelou End Times Undone, já o seu oitavo trabalho a solo, e mais um na companhia de The Heavy Eights, colectivo de formação variável composto por músicos amigos disponíveis, consoante as ocasiões. Este é um daqueles discos indie da velha escolha, algo em desuso, que certamente fará as delícias dos saudosistas do romantismo rico em melodia dos australianos The Go-Betweens. É também um registo pródigo em descargas eléctricas, que tanto podem remeter para a distorção dos Velvet Underground como para as cavalgadas imponentes de Neil Young, de onde se conclui ser um disco que aspira a uma certa grandeza.

Quanto a Hamish Kilgour, bastante menos activo no percurso extra-curricular, tem resumido a sua obra fora dos The Clean praticamente ao trabalho nos The Mad Scene. Incrivelmente, e volvidas que estão mais de três décadas desde a estreia nas lides, All Of It And Nothing é o seu primeiro álbum em nome individual. Comparado com o trabalho do irmão, é um disco bastante mais discreto, mas também mais complexo e menos imediato. À superfície, os onze temas do alinhamento, dão primazia a um regime de baixa fidelidade de dominância acústica. São canções toscas, na essência, com uma secura própria de algum Lou Reed, mas que por várias vezes derivam para algo de abstracto que não se detém na catalogação estanque dentro de um género específico.

Portanto, End Times Undone e All Of It And Nothing são manifestações de duas diferentes sensibilidades, libertas da coexistência numa entidade comum. No entanto, quando isoladas certas características de ambas, a combinação talvez não esteja assim tão distante da matriz The Clean: desde a pop rugosa e desengonçada dos primórdios, à serenidade outonal dos tempos mais recentes.

 
 David Kilgour & The Heavy Eights - "Some Things You Don't Get Back" [Merge, 2014]



Hamish Kilgour - "Smile" [Ba Da Bing!, 2014]

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

First exposure #70















DEERS

O espírito C86 anda à solta na capital espanhola. Materializou-se em estilhaços de canções, às vezes com títulos em castelhano embora cantadas no inglês possível, que justificavam uma precária de Phil Spector passada no estúdio com as chicas.

Formação: Ana García Perrote (voz, gtr); Carlotta Cosials (voz, gtr); Ade Martín (bx); Amber Grimbergen (btr)
Origem: Madrid [ES]
Género(s): Indie-Pop, Lo-Fi, Garage-Pop
Influências / Referências: Miaow, Shop Assistants, Vivian Girls, The Velvet Underground, The Shangri-Las, The Crystals

http://deers.bandcamp.com/

 
"Castigadas En El Granero" [Lucky Number, 2014]

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Lost in the supermarket















Foto: Noora Lehtovuori

"O fruto clonado é o mais apreciado", é a máxima dos tempos que correm. Com efeito, tem proporções gigantescas a tremenda aceitação que um infindável número de projectos formatados consegue a partir de fórmulas previamente exploradas em linguagens musicais antes "marginais", como o kraut ou o psych. É mesmo impressionante a ingenuidade dos incautos, que caem na batota, como se aquilo que lhes é apresentado, com embrulho acetinado, fosse a mais refinada novidade. Como em todas as tendências, há honrosas excepções que fogem à mediocridade da formatação, no caso em apreço aquelas em que, mais do que decalcar truques, absorve apenas os princípios de um estilo para partir rumo a um infinito de possibilidades. É o caso dos finlandeses Siinai, que a partir de ramificações difusas do kraut, colhem o melhor ensinamento dos rebeldes alemães de setentas: a total liberdade criativa, sem qualquer espécie de preconceitos. Foi sob esta premissa que se estrearam em álbum com Olympic Games (2011), um disco de densos instrumentais que, como o próprio título indica, se inspirava nos jogos com origem na Grécia Antiga.

Igualmente conceptual e instrumental, mas significativamente mais arejado, é o novo e excelente Supermarket, inclusive merecedor de capa ao estilo dos mestres teutónicos. Neste segundo álbum dos Siinai o conceito subjacente é o da actual sociedade de consumo, percorrendo os diferentes momentos de uma ida a uma superfície comercial de grandes dimensões. Porém, até pela total ausência de palavras, não há em Supermarket qualquer juízo de valor condenatório quanto ao acto de comprar, antes pelo contrário, o disco até tem algo de lúdico. Há nos oito temas referências que se pressentem em diferentes momentos, como a pulsão dos Neu!, a deriva espacial dos Tangerine Dream, ou até a propensão épica triunfal de um Vangelis de outras eras. Não obstante a difusão daquelas fontes, os Siinai são donos de uma linguagem muita própria, num disco de inúmeras camadas que exige sucessivas audições para revelar pormenores, como súbitas fanfarras que irrompem das texturas lisérgicas, ou a latência de ritmos afro que surgem do nada. Com estas características, Supermarket poderia muito bem ser a escolha de um programador de "banda sonora de centro comercial" mais ousado, ainda não domado pela ditadura do óbvio. Uma coisa era garantida: o estado transe dos potenciais clientes.

"Shopping Trance" [Splendour, 2014]

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

R.I.P.


STEPHEN SAMUEL GORDON
"THE SPACEAPE"
[?-2014]

Há uma expressão muito batida que diz que as más notícias correm rapidamente, mas que eu desconfio que apenas se aplica a pessoas com estatuto de estrela, mesmo que decadente. Isto porque, não me considerando propriamente um cidadão desinformado, só há algumas horas tive conhecimento da morte de Stephen Samuel Gordon, ocorrida já no passado dia 2, perdida que foi uma longa batalha contra uma forma rara de cancro. Sempre sob o pseudónimo The Spaceape, Gordon era o MC e poeta de serviço na britânica Hyperdub, seguramente a mais relevante editora no espectro da música urbana nos últimos dez anos.

Embora em nome próprio apenas lhe seja creditado o EP de 2012 Xorcism, o nome The Spaceape ganhou notoriedade junto dos mais atentos às novas tendências mais estimulantes com o par de álbuns gravados em parceria com Kode9, alter-ego de Steve Goodman, justamente o fundador da Hyperdub. Além disso, foi requisitado por um número considerável dos actuais estetas sonoros mais badalados, não apenas dentro do circuito do selo londrino, tais como Burial, The Bug, Jerry Dammers, ou Martyn. Salvo informação contrária, a sua voz profunda e as suas ponderações sobre a esquizofrenia do mundo actual foram pela última vez registadas em Killing Season, o novíssimo EP novamente creditado a The Spaceape e ao "patrão" Kode9.

Kode9 & The Spaceape - "The Devil Is A Liar" [Hyperdub, 2014]

domingo, 7 de setembro de 2014

The sun ain't gonna shine anymore

















Foto: Clas-Olav Slotte

Há coisa de um quarto de século, quando a Sub Pop Records era sinónimo das manifestações ruidosas do underground americano que ficaram rotuladas de grunge (seja lá o que isso for), estaríamos longe de imaginar que a editora de Seattle abrangeria a amálgama de tendências que é o actual catálogo. A bem dizer, nesses tempos, o cardápio era composto basicamente por prata da casa, pelo que, não se sonhava sequer a expansão a artistas além-fronteiras. Muito menos a jovens artistas negras, da longínqua Finlândia, mas com origens etíopes. A artista em causa chama-se Mirel Wagner, e há uns três anos lançou um disco homónimo surpreendente, um concentrado de negrume impensável para a juventude dos seus vinte e três anos. Apesar de essência acústica e dos parcos recursos, Mirel Wagner era um disco de uma crueza brutal, de um intenso cheiro a morte e a terra queimada.

Se aquele registo teve inicialmente apenas edição local, criou um burburinho suficiente para chamar a atenção das gentes da Sub Pop, responsável pela edição do novo e bastante recomendável When The Cellar Children See The Light Of Day. Pelo título sugestivo já se percebeu que o ambiente do novo álbum é igualmente carregado, sendo também mantida a inspiração de Mirel Wagner nos blues do Delta. Registam-se, contudo, diferenças significativas na produção, agora mais depurada, o que não belisca a simplicidade destas dez canções tenebrosas feitas basicamente de voz e guitarra. Assim, percorremos histórias miseráveis que incluem crianças mortas, atracções ardentes pelo Diabo, amores trágicos e, eventualmente numa evocação das origens da autora, relatos de fome extrema. Obviamente que, por motivos diferentes, há aqui pontos de contacto com a obra de Nina Nastasia, ou até com o passado de Polly Jean Harvey. No entanto, nunca a primeira mergulhou em trevas tão densas, nem a última foi tão contida nos recursos. Digamos antes que as principais referências de When The Cellar Children... extravasam o contexto musical, situando-se próximas das histórias macabras do american gothic que povoam boa parte da obra literária do genial Cormac McCarthy. Porém, se este é um conhecedor próximo do submundo de miséria que relata, Mirel Wagner tem um distanciamento geográfico desta realidade que, certamente, está na base da aura de mistério que ensombra todo o disco. É precisamente nesse ponto que reside boa parte do fascínio mórbido gerado por When The Cellar Children See The Light Of Day.

 
"The Dirt" [Sub Pop, 2014]

sábado, 6 de setembro de 2014

First exposure #69

















Foto: Paul Hughes

EIGHT ROUNDS RAPID

Mais cedo ou mais tarde, a máquina do tempo da retromania tinha de ir parar à Inglaterra rude e hiper-realista envolvente do punk, com ironia cáustica e descendência biológica de Wilko Johnson incluídas.

Formação: David Alexander (voz); Simon Johnson (gtr); Jules Cooper (bx); Lee Watkins (btr)
Origem: Southend-on-Sea, Inglaterra [UK]
Género(s): Pub-Rock, Indie-Rock, Punk-Rock, Rock'n'Roll
Influências / Referências: Dr. Feelgood, Ian Dury & The Blockeads, Art Brut, Alternative Television, Wire, Sleaford Mods, The Fall

 
"Talent" [Cadiz, 2014]

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Alvvays the sun















Foto: Gavin Keen

Desculpem a insistência, mas hoje voltamos a registar a proximidade do esgotamento da fórmula dos recuperadores da sonoridade C86. Para os mais distraídos, refira-se que aqui se fala daquela tendência, com uma meia dúzia de anos, para as jovens bandas indie americanas soarem às congéneres britânicas de há um quarto de século. Neste, como em qualquer "fenómeno" de maiores ou menores dimensões, o declínio verifica-se tanto pela progressiva falta de qualidade das novas apostas, como pela gradual falta de inspiração dos nomes firmados. A título de exemplo refiram-se The Pains of Being at Heart, que nos iludiram apenas com um álbum, ou Dum Dum Girls, cuja ambição da mentora em chegar às massas tem sacrificado os princípios iniciais em prol do imediatismo do óbvio. Lamentavelmente, já cá não andam as Vivian Girls que, por acaso, estiveram na génese da coisa e despediram-se sem mácula.

É neste contexto, próximo da descrença, que têm de ser recebidos de braços abertos os canadianos Alvvays (leia-se "always"), autores de um primeiro álbum homónimo que é das coisas mais estimulantes dentro do género que surgiram nos tempos mais recentes. Quando se escuta Alvvays, o disco com dedo de velhas raposas como Chad VanGaalen (produção) e John Agnello (mistura), é inevitável não estabelecer comparações com gente como Best Coast ou Bleached, quanto mais não seja para assinalar que a banda de Toronto tem de suposta ingenuidade o que àquelas sobra em atrevimento. Estão, portanto, no campo de acção de uns Magnetic Fields de outrora, ou de uns Camera Obscura de sempre, as belíssimas canções saídas da pena da cantora Molly Rankin, ela que é rebento de integrantes do colectivo folk The Rankin Family. Situando as coordenadas num passado mais distante, há nos Alvvays um sentido pop resgatado dos Teenage Fanclub da fase intermédia, ou o travo retro, muitas vezes surfy, dos subvalorizados The Primtives. Porém, mais do que uma amálgama de referências facilmente reconhecíveis, estas são canções em pleno estado de graça pop que valem por si, com o inevitável reverb spectoriano, e as bem equilibradas doses de melancolia tola juvenil e de luminosidade estival. São apenas nove, mas as bastantes para que possam eleger Alvvays a banda sonora do (muito) que ainda resta deste Verão.

 
"Archie, Marry Me" [Polyvinyl, 2014]

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

For Emma, forever ago
















Contrariamente ao que normalmente é veiculado, Lee Fields não é uma revelação em idade avançada no universo soul. Hoje com 63 anos de idade, tem cerca de quatro décadas de carreira, mas o que é certo é que, depois da edição de Let's Talk It Over (1979), o soberbo álbum de estreia, e não obstante ter editado com assinalável regularidade, a conjuntura não lhe foi favorável e caiu praticamente no esquecimento. Habituado aos estúdios, tem, por isso, uma voz mais treinada que a de gente como Sharon Jones ou Charles Bradley, dois dos mais badalados novos-velhos que são talento em bruto. Talvez o motivo para que o nome de Fields surja associado ao daqueles advenha do facto de, ao fim de dez anos de silêncio que presumiam a desistência, a Truth & Soul lhe ter relançado a carreira. O momento coincidiu com aquele em que a Daptone Records apostava em Jones e em Bradley como novos valores para o interesse renovado de uma nova geração hip, essencialmente branca, pelas sonoridades retro-soul, eventualmente motivada pela busca de uma ideia de pureza. De então para cá, aquela editora nova-iorquina já foi selo de My World (2009) e de Faithful Man (2012), dois álbuns merecedores de alguns louvores mas que não valeram a Lee Fields ainda uma visibilidade significativa junto do público.

Talvez o caso possa mudar de figura com o novo e excelente Emma Jean, que tem como título o nome da mãe do cantor, falecida há quase vinte anos. Por via daquela inspiração, e quando comparado com a restante obra, é um trabalho significativamente sóbrio, diria até, carregado de uma certa espiritualidade. Como tal, Lee Fields surge contido, apenas vagamente politizado, sem o espalhafato que lhe era característico, e que já lhe valeu no passado a alcunha de Little JB, tanto pelas semelhanças fisionómicas com o mestre James Brown, como pelos tiques vocais. Por conseguinte, Emma Jean está próximo de um conceito de soul sulista, com uma voz madura mas em pleno de forma, capaz da introspecção de um Bobby Womack, mas também da expressividade de um Otis Redding. Igualmente brilhante é o suporte instrumental, a cargo dos The Expressions, banda que já há alguns anos acompanha o cantor. Menos exuberante que outras bandas congéneres, mas aparentemente mais rica em ideias, os Expressions são capazes dos sopros mais incríveis e menos previsíveis, que sublinham com subtileza os picos dramáticos de cada canção. A secção de metais é, no entanto, apenas o destaque de um todo capaz de criar temas que se aguentam sem o complemento vocal, o que levanta a hipótese da edição em disco dos trechos instrumentais, com já aconteceu com o anterior My World. Porém, o resultado eventual ficará sempre aquém do da simbiose "banda + voz", que desta feita logrou um clássico instantâneo da soul, em qualquer época. Sim, Emma Jean é assim de bom!

 
"Just Can't Win" [Truth & Soul, 2014]

sábado, 9 de agosto de 2014

Batcave
















Aproveitamos a viagem até à Nova Zelândia do último post e ficamos por lá mais um pouco. Não é que no distante arquipélago estejam a ocorrer novidades em número comparável ao da vizinha Austrália, mas toda e qualquer reedição das pérolas do baú da Flying Nun Records é sempre digna de nota neste blogue. Aproveitamos a deixa para uma breve referência à edição expandida de Anthology, a compilação de 2002 que resumia a primeira vida dos The Clean, banda que foi pedra-de-toque no chamado Dunedin Sound mesmo sem ter editado qualquer álbum, mas espalhando a sua influência além-fronteiras para bandas como Yo La Tengo ou Pavement. Quando suspenderam actividades abruptamente em 1982 (só as retomariam no começo da década seguinte), o baixista Robert Scott fundou os The Bats, banda de formação mais ou menos estável que tem mantido uma actividade regular nestes mais de trinta anos, algo que não podemos dizer de outros notáveis do catálogo da mítica editora, como The Chills e The Verlaines. O nível qualitativo em alta tem sido também uma constante, e o último álbum Free All The Monsters (2011) é mesmo um dos melhores espécimes da pop amadurecida e outonal do passado recente.

Até ao aprimorar daquele último registo foi um longo caminho, como de resto se pode aferir pelo conjunto de reedições recentemente levadas a cabo pela incansável Captured Tracks. De uma penada, a editora nova-iorquina acaba de lançar em vinil os três primeiros registos em formato grande dos The Bats, a saber: Compilitely Bats (1987), compilação dos três EPs do período formativo que vem acrescentada de faixas avulsas e raridades da mesma era; Daddy's Highway, primeiro álbum do mesmo ano; e The Law Of Things (1990), segundo álbum acrescido do EP Four Songs (1988) e vários outtakes. Se o preço do pacote de cinco rodelas estriadas é praticamente proibitivo, mais em conta, e com os mesmos 53 temas no conteúdo, é o 3 CD boxset The Bats: Volume 1, título que presume futuros desenvolvimentos no programa de reedições. Do todo temos de destacar o disco do meio, inteiramente dedicado ao primeiro álbum, recheado de enormes canções jangle-pop a meio caminho entre o optimismo romântico e o quase desespero, não totalmente diferente daquilo que os vizinhos The Go-Betweens andavam a congeminar na mesma altura. Se aos The Bats ainda não pertence o estatuto de lenda daqueles congéneres australianos, mas porque nunca é tarde, Volume 1 pode muito bem ser um passo nesse sentido. Ora oiçam e acrescentem mais esta paixão à vossa vida!

 
"Block Of Wood" [Flying Nun, 1987]

quarta-feira, 30 de julho de 2014

First exposure #68














Foto: Sebastian Nevols

GIRL BAND

O primeiro embate com uma das novas bandas mais excitantes do planeta deu-se num palco do último Primavera Sound, cenário óptimo para aferir da brutalidade do quarteto. À falta das raparigas, são a certeza de que ainda pode haver bastante interesse na exploração do post-punk mais obtuso. Em jeito de resumo, digamos que são o elo de ligação da Inglaterra pós-Pistols com a descendência do underground norte-americano de Our Band Could Be Your Life.

Formação: Dara Kiely (voz); Alan Duggan (gtr); Daniel Fox (bx); Adam Faulkner (btr)
Origem: Dublin [IE]
Género(s): Indie-Rock, Post-Punk, Noise-Rock
Influências / Referências: Public Image Ltd., Liars, Nirvana, The Jesus Lizard, Mclusky, Pavement

http://girlbanddublin.bandcamp.com/

"Lawman" [Any Other City, 2014]

terça-feira, 29 de julho de 2014

Singles Bar #95









THE HOUSE OF LOVE
Destroy The Heart
[Creation, 1988]




Com um nome como The House of Love, retirado de um título da escritora francesa Anaïs Nin, adivinha-se a carga erótica contida nas canções da banda que mais agitou o meio indie de finais de oitentas. Essa era uma característica antagónica ao teor normalmente assexuado dos temas dos The Smiths, dos quais os londrinos chegaram a ser apontados como herdeiros junto de um público letrado e sensível. A apurar o olho clínico que se lhe reconhece, Alan McGee detectou-lhes o potencial, e juntou-os à família Creation Records, então na eminência de se tornar a mais excitante editora independente do Reino Unido. Com este selo lançaram dois temas retumbantes em formato single, ambos prenhes de um romantismo exacerbado: "Shine On", que seria posteriormente regravado numa versão mais pomposa mas inferior, e "Christine", espécie de ponte entre a jangle pop e o shoegaze. Lançaram ainda um álbum homónimo, que inclui o último destes temas, cuja óptima recepção deixou as multinacionais em alerta para a inevitável mudança de divisão.

Como carta de despedida da Creation, "Destroy The Heart" é o justo reconhecimento por quem primeiro acreditou na banda, já que é o mais fulgurante dos muitos temas bestiais que os House of Love registaram nesta primeira fase. Numa urgência condensada em menos de três minutos, o vocalista Guy Chadwick e o guitarrista Terry Bickers justificam as comparações à dupla criativa Morrissey/Marr, o primeiro num hiper-romantismo bigger than life, o último capaz de uma gama de riffs variados e crepitantes. Porém, num registo mais vivaz do que era comum nos de Manchester, e muito por culpa da bateria cavalgante, os House of Love estão perto de inaugurar o estilo celebratório do clássico primeiro álbum dos Stone Roses. Apenas perto porque a matéria de que é feito "Destroy The Heart" é algo grave, um pouco à semelhança do que faziam os Hüsker Dü da fase derradeira, depois da fúria hardcore ter dado lugar à tendência para a pop profusamente emocional e passivo-agressiva. Contrastando com a grandiloquência entremeada pelo fade in inicial e o mais abrupto fade out do final, o vídeo promocional é de um minimalismo alarmante, algo em voga no circuito indie de então, e que os House of Love já haviam experimentado para promover o tema "Christine".


segunda-feira, 21 de julho de 2014

Cuidado com os rapazes!

















Se é verdade que aquela explosão "alternativa" do começo de noventas foi catalizadora de novas formas de rock-FM, tão bafientas como as anteriores, também é justo reconhecer que permitiu alguma visibilidade a bandas de valia que, de outra forma, estariam confinadas à ultra-obscuridade. Neste segmento inserem-se os californianos Geraldine Fibbers, nos quais pontificava a cantora Carla Bozulich, ela que tinha um passado ligado a projectos post-punk na linha provocatória de uma Lydia Lunch. Com esta a nova banda, mais formal enquanto tal, a frontwoman manteve a postura, mas enveredou por uma estética que reconhecia a country como pedra basilar. Com a entrada do guitarrista Nels Cline (actualmente nos Wilco), registou-se uma aproximação aos cânones rock, porém, com uma intensificação da veia experimental. Cantora e guitarrista haveriam de levar a transgressão dos conceitos pré-estabelecidos a um extremo nos breves Scarnella. Ainda e sempre na companhia do fiel seu fiel escudeiro, Carla Bozulich abraçaria de novo a country em The Red Headed Stranger (2003), releitura integral do clássico de Willie Nelson que caiu nas boas graças de alguns sectores mais atentos. No entanto, a obra maestra estaria para chegar ao terceiro álbum, de título genérico Evangelista (2006), e que fez dela a primeira artista não canadiana a editar pela Constellation Records. Com a ajuda de músicos ligados aos colectivos Thee Silver Mt. Zion e Godspeed You! Black Emperor, este era um disco de canções descarnadas e intensas, com o cunho cinemático característico dos convidados. A boa recepção a este trabalho, e a química entre músicos dele resultante, haveria de fazer com que Evangelista passasse a ser nome de banda, até esta data com três álbuns que são a progressão natural do trabalho inicial.

Entretanto, e desconhecendo-se o futuro da banda que lhe tem dado ocupação nos últimos anos, Carla Bozulich regressa aos discos em nome próprio com o novo Boy, anunciado pela própria como o seu álbum pop. Vindo de uma artista transgressora como ela, já se antevê a subjectividade que tal descrição pode conter. Com efeito, e apesar do esforço pela aproximação aos standards da canção, este é mais um trabalho de uma visceralidade alarmante. Ainda que não atentemos no conteúdo das palavras duras, pressente-se no tom hiper-dramático de Bozulich uma espécie de feminismo radical, qual animal ferido e, por consequência, pouco confiante no género oposto. A espaços, pela postura desafiadora e pelas abordagens despudoradas à sexualidade, é impossível não estabelecer afinidades com os universos de Patti Smith ou de Polly Jean Harvey. No entanto, Carla Bozulich é mais reverente que qualquer uma daquelas ao imenso caldeirão do americana. Consequentemente, Boy tanto pode ir beber aos blues e ao gospel como à folk apalachiana, embora sempre com uma tendência para a desconstrução própria de um Tom Waits por via dos inúmeros adereços improváveis. Assim, o ribombar da percussão atípica, o ranger das serras tocadas com arco, as cordas arranhadas, as guitarras desalinhadas e desafinadas, ou os apontamentos de uma electrónica tensa, espreitam sem pré-aviso por cada recanto de Boy. Por esta altura, julgo que já estarão perfeitamente convencidos de que este está longe de ser um disco pop, de qualquer artista. Mas é, seguramente, um dos trabalhos ainda assim mais próximos das convenções da autora e, por isso, porta de entrada recomendável no maravilhoso mundo (negro) de Carla Bozulich.

"Deeper Than The Well" [Constellation, 2014]

segunda-feira, 30 de junho de 2014

First exposure #67














THE LOVELY WARS

Lembra-se das Pipettes, umas raparigas cheias de estilo obcecadas com a girl-pop de sessentas que, entretanto, têm andado meio desaparecidas? Uma delas tem andado entretida à frente de um combo misto, que é um cocktail ainda mais estiloso. Mesmo quando canta em galês, e nós não entendemos patavina.

Formação: Ani (voz); Alice (gtr); Bill (bx); Ceri (tcls); Daniel (voz)
Origem: Cardiff, País de Gales [UK]
Género: Pop, Retro-Pop, Indie-Pop, New-Wave, Synth-Pop
Influências / Referências: The Long Blondes, The Supremes, The Cardigans, Blondie, Orchestral Manoeuvres in the Dark, The Human League

http://thelovelywars.bandcamp.com/

 
"Brân I Frân" [Ilow, 2014]

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O bom selvagem

















Talvez o nome Jason Quever não seja vendável o suficiente para o artista nascido como tal preferir editar sob a marca Papercuts. Apesar de uma relativa obscuridade, entre 2000 e 2011, foram uma mão cheia os álbuns lançados com aquela designação, qualquer deles a adiar a promessa do autor como um exemplar dessa espécie cada vez mais rara dos artífices pop. Eram óptimos discos, contudo, parecia faltar-lhes uma maior definição, já que Quever e os colaboradores pontuais optavam normalmente por um despojamento, até uma magreza quase rural, que empobrecia canções que pareciam aspirar a algo maior. No entanto, essa opção pela simplicidade, não tem impedido que Quever seja normalmente requisitado para tratar dos arranjos nos trabalhos de outrem. Certamente ainda estarão recordados do belíssimo trabalho levado a cabo no EP surpresa e surpreendente de Dean Wareham no ano passado.

A colaboração com o ex-Galaxie 500 terá sido mesmo um tudo de ensaio para Life Among The Savages, o sexto álbum de Papercuts e aquele que eleva, em definitivo, Jason Quever à primeira divisão dos grandes criadores de canções pop. Sem qualquer ponta de exagero, podemos afirmar que estes onze temas estão ao nível da criação de gente como Joe Pernice, Norman Blake, ou Matthew Sweet, alguns dos - poucos - mestres dessa arte da canção pop que o mundo parece já não querer saber. Num balanço equilibrado entre a luminosidade californiana que lhe serve de habitat e uma suave melancolia, Life Among The Savages é um disquinho que transpira emoção desde a primeira audição. A pureza inocente que lateja em cada esquina, e a predilecção por letras sobre amores esquivos, estabelecem pontes com o universo dos citados Galaxie 500, sugerindo que o convívio com Dean Wareham possa ter tido os seus efeitos. Contudo, Life Among... demarca-se nitidamente daquela banda mítica pela riqueza orquestrada dos temas, que juntam ao naipe de instrumentos tradicionais da pop, um violino aqui, um piano acolá, um violoncelo mais além. Como tal, este é um disco que inscreveremos naquela categoria a que chamam chamber pop, no entanto, com a ressalva de que a sua leveza o afasta de qualquer opulência barroca.

"Life Among The Savages" [Easy Sound Recording Co., 2014]

sábado, 24 de maio de 2014

Teenage kicks, so hard to beat
















Apesar de "pop" e "juventude" serem conceitos praticamente indissociáveis, não estão fáceis as coisas para quem faz dessa combinação uma forma de vida. Talvez derivado da permanência no activo, e do consequente envelhecimento, de quem habitualmente escreve sobre e divulga música, fica a sensação que a inanidade primordial caiu em desuso, e tudo o que merece atenção tem de ter uma certa profundidade. Há, porém, bolsas de resistência, como vamos detectando na Escócia, quanto mais não seja pela longa tradição das highlands na devoção à causa pop. Foi de lá que, no final de 2012, recebemos os PAWS com o álbum Cokefloat!, um disco com a irreverência própria da tenra idade do trio que recuperava aquela forma de fazer as coisas à maneira dos alvores de noventas, isto é, com igual comprometimento entre o chinfrim e a estrutura de canção pop. Foi um trabalho que passou despercebido à maioria, mas não a uma minoria irredutível que ainda busca algo para além do que lhe tentam impingir.

Um ano e meio volvido, os PAWS estão de volta ao local do crime com Youth Culture Forever, segundo álbum com um título que não deixa dúvidas quanto aos propósitos do trio de Glasgow. Na comparação com o anterior regista-se um relativo abrandamento da sonoridade, em favor de uma maior focagem na ortodoxia das canções (pop, obviamente), ainda que, paradoxalmente, realce o espírito lo-fi que já aflorava em Cokefloat!. No entanto, ainda abundam os temas buliçosos, herdeiros directos da escola punk-pop que tem nos americanos Superchunk figura tutelar. Por contraste com estes petardos de adrenalina, uma mão cheia de temas são contemplativos o bastante, pese embora façam uso e abuso da fórmula quiet-loud-quiet. É nestes, e no ennui que lhes está subjacente, que o título Youth Culture Forever ganha outro significado que não o literal. Ou seja, na moderada amargura da voz de Phillip Taylor, estão expressos os primeiros desgostos de uma juventude em estado terminal, e também a constatação da inevitabilidade da idade adulta. Tema atípico no alinhamento, feito de canções breves e imediatas, é o derradeiro "War Cry", longo de perto dos doze minutos, uma boa parte dos quais ocupados com devaneios guitarrísticos carregados de feedback. Este número de maior complexidade pode indicar pistas para um próximo trabalho, isto se acaso os PAWS não quiserem saborear a juventude que se esvai até ao último instante.

 
"Tongues" [FatCat, 2014]

domingo, 18 de maio de 2014

Esplendor de cores















Desculpem-me a insistência, mas hoje voltamos a denunciar a incapacidade da "música de guitarras" actual em criar algo de verdadeiramente refrescante a partir da herança do passado de seis décadas. Admitindo a inevitabilidade da eterna regressão, o que me desilude é a tendência generalizada para o decalque descarado de tiques e truques, muitas vezes gastos. Ainda não há nada, éramos bombardeados pelo revivalismo garage com cheiro a mofo e por uma imensidão de xonices de inspiração shoegaze. Mais recentemente, os adjectivos psych e kraut passaram a servir de rótulo a qualquer sub-produto vendido aos incautos como a mais radiosa novidade. Neste deserto de ideias brilham com mais intensidade as honrosas excepções, aquelas propostas assumidamente mergulhadas no passado, mas com o olhar fixo no presente e nas possibilidades do futuro. Portanto, hoje mais que nunca, é um trabalho redobrado o de separar o trigo do joio. 

Deste campo tomado pelas ervas daninhas, gostava de extrair os norte-americanos Quilt que, depois do interessante mas algo difuso debute homónimo em 2001, superam as expectativas mais optimistas com o novo Held In Splendor. Toda a retórica introdutória faz sentido porque este trio formado em Boston não disfarça sequer a inspiração nas sonoridades da segunda metade dos sixties, aquelas que têm nos The Byrds e The Mamas & The Papas figuras tutelares, e se estendem à brigada que fazia da Rickenbacker, do Farfisa, e do abuso da reverberação, ferramentas predilectas. Ao contrário da maioria da concorrência, porém, não se confinam ao mimetismo localizado, baralhando a bel-prazer as múltiplas referências dispersas com o propósito atingir aquele limbo em que os conceitos "pop" e "folk" se confundem. O grande trunfo reside, no entanto, no engenho para escrever canções escorreitas e altamente coloridas, não obstante por mais que uma vez arrisquem a mutação de forma dentro do mesmo tema, mas sem perder o sentido de linearidade. Substancialmente menos dado às harmonias vocais conjuntas que o antecessor, este segundo álbum é mais ou menos democrático na repartição das vocalizações separadas de Shane Butler e Anna Fox Rochinski. Produzido por Jarvis Taveniere, dos parentes próximos Woods, Held In Splendor ganha na dicotomia boy/girl uma variedade que não ameaça a coesão do todo. Assim, nos temas "dele" vagueia-se na encruzilhada entre a pop ensolarada da west coast e a sujidade garage, enquanto os temas cantados por ela, normalmente mais luminosos, têm a dose trippy e sexy da Grace Slick dos melhores tempos, evocando em simultâneo o encanto das "divas" psych-folk britânicas. Com discos destes servir de suporte sonoro, o Verão já podia começar amanhã.

 
"Arctic Shark" [Mexican Summer, 2014]