"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

I love the smell of napalm in the morning















Apenas será novidade para os mais desatentos ou para os duros de ouvido que o universo da electrónica e territórios adjacentes vive um período de fulgor criativo. Não me refiro à variante dançável da coisa, que após o apogeu de finais de oitentas a inícios de noventas jamais conheceu outro ponto alto. Refiro-me, isso sim, ao nicho de estetas sonoros, nos quais o canadiano Tim Hecker assume um papel de destaque que já não é de hoje. Com uma carreira discográfica iniciada há uma dúzia de anos, tem seguido um percurso no sentido do afastamento da electrónica tout court. Progressivamente, tem-se revelado um obreiro de densas paisagens sonoras, que empregam uma panóplia considerável de instrumentos. O termo ambient surge-lhe inúmeras vezes associado, mas pecará sempre por defeito na definição da sua obra.

É neste ponto que o encontramos no recente Virgins, já o sétimo álbum em nome próprio, para além das diversas colaborações avulsas. Demarcando-se do anterior Ravedeath, 1972 (2011), que se baseava em manipulações de órgão e piano, é um trabalho mais vasto no recurso à matéria prima. Assim, na densidade das texturas, distinguem-se apontamentos de guitarra, piano, sopros, uma variante do cravo (virginal, em inglês, daí o nome do álbum), sons da natureza, e mais um rol de instrumentos de câmara, com um resultado que estabelece paralelos com as escolas drone e minimalista. Sob a manipulação de Tim Hecker, Virgins é um disco no qual mergulhamos de cabeça, levados pelo nosso fascínio pelo lado negro. A matéria prima foi captada na Islândia, juntamente com músicos do colectivo Bedroom Community, ao qual também pertencem, entre outros, Valgeir Sigurdsson, Nico Muhly, ou Ben Frost. Durante a audição, é quase impossível não estabelecer paralelismos com a obra daquele último - o australiano que buscou refúgio na Islândia e inspiração na violência da natureza daquelas paragens -, em particular com By The Throat (2009). Porém, há diferenças notórias entre ambos, já que Frost nos fustiga incessantemente com sugestões grotescas, enquanto Hecker afrouxa progressivamente o negrume, deixando entrever raios de luz a penetrar na terra queimada. No fundo, e sem qualquer recurso às palavras, mas com um forte poder sugestivo, é o equivalente ao fascinante romance The Road, de Cormac McCarthy, que após um desfile de horrores e dramas avassaladores, remata numa nova alvorada de esperança. Oiçam-no bem alto, de preferência com headphones, tal como hoje experimentei logo após o despertar, e depois digam coisas...

 
"Virginal II" [Kranky / Paper Bag, 2013]

domingo, 1 de maio de 2011

Ao vivo #63














Tim Hecker @ Galeria Zé dos Bois, 29/04/2011

No espaço de menos de uma semana, Lisboa recebeu a visita de dois dos criadores das texturas mais densas no actual mundo das electrónicas, de forma que acho que faria algum sentido que tivessem partilhado o mesmo palco, tal como já partilharam experiências. Primeiro foi o australiano Ben Frost, agora o canadiano Tim Hecker, que trazia na bagagem o recente Ravedeath, 1972, trabalho concebido na mesma Islândia que acolhe o primeiro desde há alguns anos.

Ligeiramente menos críptica que a da "alma-gémea", a música de Hecker é envolta numa sinistra aura de mistério que guia o ouvinte para um fascinante mundo de sombras. Na ZdB apresentou-se com a sala mergulhada na escuridão, sem outras formas de iluminação que não fossem a do monitor do laptop e a ténue claridade que atravessa as janelas do "aquário". Ficou assim criado o ambiente propício à apresentação de um set baseado em trechos curtos para os parâmetros do género, mas suficientemente envolventes no seu negrume opressivo. O que se intui, nos instantes de consciência sensorial, é que há na música de Hecker uma procura constante de uma linha melódica que lhe dê uma dimensão mais humana. Mas logo, esses resquícios de luminosidade são afogados na sucessão de drones opressivos, deixando no ar a sugestão de um conflito interior de dois elementos antagónicos que se degladiam num universo à beira do caos. Em termos funcionais, a fórmula propicia um universo no qual coabitam a luz e as trevas. Na passada sexta-feira aplicou o feitiço ao longo de uns breves 40 minutos, e abandonou o palco perante o aplauso unânime do público, libertado do transe aos primeiros segundos de silêncio.