"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel

terça-feira, 31 de maio de 2011

La mejor costa
















São quatro carinhas larocas, vêm da improvável Costa Rica, e reúnem-se sob a designação Las Robertas. Apesar de tão exótica origem, não alinham pelos ritmos caribenhos. Apontam antes para os sons que lhes chegam do grande continente mais a norte, em especial da brigada de miúdas apostadas em recuperar as sonoridades indie-noise-pop de inspiração sessentista. Obviamente, não evitam comparações com as Vivian Girls, os Best Coast e, sobretudo, com as harmonias embrulhadas em "baixa-fedelidade" das Dum Dum Girls.

Apesar de juntas há pouco mais de dois anos, encorajadas por um concerto das Vivian Girls, já se estrearam em formato longa-duração. O disco chama-se Cry Out Loud, data já do ano passado, e conheceu inicialmente apenas edição local. Com o burburinho crescente em seu redor, foi posteriormente lançado internacionalmente em edição remasterizado. Nele vão puder detectar as referidas afinidades, mas também aquilo que as distingue das congéneres ianques: um maior apego pelo classicismo soul e pelas sonoridades indie de noventas. Pode chegar relativamente tarde a estas paragens, mas vem mesmo a tempo de servir de banda sonora a boa parte da estação estival que se avizinha.

"V For You" [Art Fag, 2010]

R.I.P.


GIL SCOTT-HERON
[1949-2011]

Com algum atraso, derivado do "retiro catalão", o April Skies dá também eco a um dos mais tristes acontecimentos recentes no universo musical: a morte de Gil Scott-Heron, poeta, músico, activista e uma das vozes da consciência de uma América negra nos últimas quatro décadas. Emergido do conturbado contexto sócio-político de setentas, foi uma voz incómoda no establishment de uma sociedade em acelerada degradação consumista. Partindo das bases da contra-cultura norte-americana que o antecedeu, e integrando elementos que vão do jazz aos blues, da soul à poesia beat, com um estilo marcadamente spoken word, Scott-Heron acabaria por se tornar figura tutelar para as gerações hip hop vindouras. Este "feito" era visto pelo próprio com alguma ambivalência, talvez por causa da rejeição da violência muitas vezes associada à género.

Por triste ironia, o desaparecimento ocorre precisamente numa altura em que gozava de renovada visibilidade, fruto do álbum do ano passado que rompeu um longo jejum de edições discográficas. Período esse que coincidiu com uma vida errática, marcada pelas drogas e as várias condenações pela justiça. Para o recordar, recuemos até ao começo, com aquele que será, porventura, o seu tema mais icónico. O mesmo que serviu de mote ao fiel discípulo Chuck De aos seus Public Enemy para uma das maiores revoluções musicais do último quarto de século.


"The Revolution Will Not Be Televised" [Flying Dutchman, 1970]

sábado, 21 de maio de 2011

Singles Bar #63








CABARET VOLTAIRE
Nag Nag Nag
[Rough Trade, 1979]




Activos desde 1973, e portanto pioneiros em várias correntes da música electrónica, os Cabaret Voltaire só ganharam verdadeira consistência, e relativa visibilidade, com as liberdades permitidas pelo safanão punk. Em finais da década que o viu nascer, as edições discográficas sucederam-se com uma regularidade assinalável, o que fez do trio um dos vértices do triângulo, a par de Throbbing Gristle e The Human League, que firmou Sheffield como a capital britânica das sonoridades electrónicas. 

Desse período de intensa actividade perdura Nag Nag Nag, o terceiro dos pequenos formatos que serviram de aquecimento para o álbum de estreia. E perdura não só pela originalidade da proposta, como também pela repercussão na música de anos vindouros. O principal obreiro de tão peculiar sonoridade é Chris Watson (sintetizadores, processamento de fitas), normalmente visto como o mais discreto dos três Cabs, mas que com a sua experiência no ramo da engenharia das telecomunicações proporcionou as ferramentas necessárias à investida assombrosa de "Nag Nag Nag". É ele o responsável pela "customização" da fuzzbox, que faz com que a guitarra de Richard H. Kirk liberte farpas de metal incandescente, conferindo uma rugosidade de fazer inveja a muitas bandas rock. Juntamente com a batida marcial, o quadro opressivo é  ainda composto pela voz de Stephen Mallinder, desumanizada pelos tratamentos laboratoriais de Watson ao ponto de sugerir as maiores monstruosidades.

Até à dissolução em 1994, os Cabs derivaram em diferentes sentidos, sempre norteados pelo apelo sintético. Mas é precisamente neste estado inicial que se assumem como ponte entre passado e futuro, por um lado conscientes do groove das sonoridades garage de sessentas, por outro abrindo a porta à face mais negra da "electrónica", vide música industrial.


quinta-feira, 19 de maio de 2011

Fantasmas e outras assombrações















Foto: Peter English

Vão chegando a conta-gotas os discos do ano passado que não atingiram os canais auditivos na altura devida para a devida menção no balanço final. O último foi Worry, álbum de estreia dos Big Troubles com selo da mais que emergente Olde English Spelling Bee. De uma forma genérica, digamos que a banda de Nova Jérsia se inscreve na várias correntes nu-gaze, muito por culpa da atracção pelos sonhos assaltados pelo ruído que lembram para uns My Bloody Valentine da fase Isn't Anything. Por via das limitações do formato duo, houve necessidade de encher o todo com sons de origem sintética, opção que pode ter resultados diversos: no pior, recupera os teclados planantes de algum synth-pop já algo estafado; no melhor, remete para as batidas rudimentares de uns Big Black. Da audição ressalta também a ética lo-fi, pouco comum nestas latitudes sonoras, mas que em nada belisca o saldo francamente positivo do todo.

Mais entusiasmante ainda é "Phantom", o tema de gravação recente e inserido no projecto Shaking Through, iniciativa sem fins lucrativos que visa proporcionar as condições de um estúdio profissional a bandas indie em início de carreira. Mercê das melhorias técnicas, e do alargamento a quarteto, os Big Troubles libertam todo o seu espírito pop grandiloquente e soam substancialmente mais orgânicos. Chamo a vossa atenção para o "enchimento" por via da wall of sound que, segundo relatos, está em linha com aquilo que a banda vale em palco, algo que poderemos comprovar em breve. Por ora, descubram-se as diferenças entre o antes e o depois:


"Freudian Slips" [Olde English Spelling Bee, 2010]


"Phantom" [Wethervane Music, 2011]

terça-feira, 17 de maio de 2011

A aura de um santo
















Oriundo da metrópole de Filadélfia, Kurt Vile é um dos muitos jovens músicos norte-americanos que sofrem de incontinência criativa. Ao caudal de discos em nome próprio, por vezes também creditada a The Violators, junta ainda o trabalho como integrante dos excelsos The War on Drugs (aviso aos potenciais interessados: novo álbum lá para o pico do Verão), banda que entretanto abandonou para se concentrar no trabalho a solo. Mas, se muitos dos seus pares não conseguem contem a irreverência própria da idade, Vile não tem qualquer pejo em resgatar as tradições da música nativa, quer da técnica do fingerpicking na guitarra, quer dos grandes cantautores ianques, o que o situa num ponto imaginário em que se intersectam as obras de John Fahey, Springsteen e Lou Reed.

Se o anterior Childish Prodigy (2009), responsável por um surto de visibilidade talvez por ser o primeiro com selo da credenciada Matador Records, ainda ostentava um certo modo caseiro de confecção, o novo longa-duração Smoke Ring For My Halo é o disco da maturação definitiva, com toda a carga positiva que este termo pode comportar. É um álbum virado para o interior, um exercício de catarse em linha com o Beck de Sea Change. Porém, se o bardo californiano se centrava unicamente no sentimento de perda, Vile prefere uma reflexão mais abrangente, dissertando sobre as várias encruzilhadas da vida que não apenas o amor. No campo instrumental, também não envereda por uma lógica de serviços mínimos. Bem pelo contrário, juntamente com a banda que o acompanha, constrói estruturas sólidas e complexas, que realçam uma técnica ímpar mas rejeitam qualquer rasgo de virtuosismo bacoco. 

Ou muito me engano, ou já falta pouco para que o nome de Kurt Vile deixe de ser quase exclusivo do universo de geeks incorrigíveis, e salte para a boca do "mundo dos crescidos". Vai uma aposta?

"Jesus Fever" [Matador, 2011]

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Discos pe(r)didos #53








SEAM
Headsparks
[Homestead, 1992]




Formados em Chapel Hill, a partir das cinzas dos Bitch Magnet, os Seam jogam num campeonato à parte no cenário indie norte-americano de inícios de noventas. Não alinham pela tendência grunge que a MTV e a avidez das multinacionais haveriam de transformar no monstro que todos conhecem, nem tão pouco se inscrevem no rol de revivalistas power-pop. Também não enveredam pela toada sad/slowcore, pese embora a sua música carregue uma certa dose de melancolia, mas com a carga melódica suficiente para receber o rótulo pop.

Eventualmente, das bandas emergentes à época, talvez se possam assacar alguns pontos de contacto com os Superchunk, com os quais partilham as descargas da energia, mas não o pendor punkóide. Em Headsparks, o álbum cartão-de-visita, os paralelismos são compreensíveis pelo envolvimento de Mac McCaughan, líder daqueles, nas funções de baterista. Idêntico papel foi também desempenhado fugazmente por John McEntire (Bastro, Tortoise, The Sea and Cake, etc.). Para longa-duração de estreia, Headsparks surpreende pela coesão demonstrada pelos músicos que compõem o quarteto, facto a que não será alheio o passado musical comum a alguns deles. Os quatro primeiros temas, exemplares no bom uso das guitarras distorcidas mas que não enjeitam a melodia, exalam energia juvenil por todos os poros. Do lote, destaca-se "Pins & Needles", feito da mesma dinâmica loud/quiet/loud que fez a fama dos Pixies, mas com a sobriedade suficiente para evitar aproximações mais evidentes. Com um banho de melancolia assinalado por riffs cortantes, "Feather" vem pôr um travão no ritmo desenfreado. A soturnidade ganha outro esplendor no sublime "New Year's", tema anteriormente gravado pelos Codeine, compinchas mais talhados para o retardador slowcore, mas original dos Seam. Não fosse a contenção turva da voz de Sooyoung Park, por oposição ao nasalado expressivo de David Gedge, e "King Rice" e o derradeiro "Granny 9x" poderiam muito bem fazer parte do petardo de angst sobre mar de guitarras consumado pelos Wedding Present de Seamonsters. No meio da obscuridade, os resquícios de luz são por conta de Sarah Shannon, a vocalista dos Velocity Girl convidada e responsável pela dose de sacarina do delicioso "Shame".

Com o resto da carreira com sede em Chicago, os Seam apresentaram a partir daqui inúmeras mexidas na formação, na qual Sooyoung Park foi o único elemento constante. Contudo, até à extinção, em finais da década de 1990, editaram mais um trio de álbuns de excelência comparável à da estreia, o que faz deles um objecto de devoção obrigatória para qualquer cultor do melhor e mais verdadeiro indie-pop/rock.


"Pins & Needles"


"New Year's"


"Shame"

domingo, 15 de maio de 2011

First Exposure #31
















THE MANTLES

Formação: Michael Olivares (voz, gtr); Drew Cramer (gtr); Matt Kallman (bx); Virginia Weatherby (btr)
Origem: San Francisco, Califórnia [US]
Género(s): Indie-Pop, Lo-Fi, Psych-Pop, Jangle-Pop, Paisley Underground
Influências / Referências: The Dream Syndicate, The Chills, Television Personalities, The Byrds, The Art Museums, Radio Birdman

http://www.myspace.com/mantles

sexta-feira, 13 de maio de 2011

10 anos é muito tempo #28








RAFAEL TORAL
Violence Of Discovery And Calm Of Acceptance
[Staubgold / Touch, 2001]




Primeiramente revelado como abusador da distorção, e pelas inúmeras colaborações nos mais arrojados projectos da pop portuguesa, Rafael Toral é hoje um dos músicos portugueses mais reconhecidos extra-muros. Aqui, a palavra reconhecimento não se traduz no número de discos vendidos, obviamente diminuto, mas sim pela afirmação junto dos seus pares. No caso, a comunidade de músicos que combinam as texturas de guitarra com as possibilidades electrónicas, tendência à qual, por comodidade, se convencionou designar glitch.

Em boa medida, essa afirmação deve-se a Violence Of Discovery And Calm Of Acceptance, o álbum lançado aproximadamente na mesma altura que gente como o austríaco Christian Fennesz desenvolvia uma linguagem semelhante. O disco é composto por uma dezena de temas, normalmente curtos para os parâmetros do género. Numa primeira abordagem, todos eles soam a meros esboços, tal a subtileza que Rafael Toral põe na edificação das ambiências. Só com insistência e ouvido atento se consegue desfrutar das tonalidades em progressão que os drones de "guitarra tratada" desenvolvem. Ou dos pormenores ínfimos, mas não dispensáveis, que cada tema encerra. O clima é, no geral, sereno e convidativo à introspecção, o que faz deste disco um contraponto reflexivo à opressão que, por norma, está associada a obras similares.

Segundo declarações avulsas, datadas da altura do seu lançamento, Violence Of Discovery... é uma espécie de regressão à infância, marcada pelas inventivas bandas sonoras das séries de ficção-científica, nomeadamente as de origem britânica. Neste refluxo, Rafael Toral convida também o ouvinte a uma viagem, mais concretamente aos seus mundos interiores, imersos em fantasias e com a aura de mistério que o título sugere. Um título, de resto, obrigatório em qualquer colecção de gente com ouvidos desempoeirados.


"Desirée"


"We Are Getting Closer"

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Olá fresquinho!











Há três anos exactos, este bando formado por gente já com vasto currículo, protagonizou um pequeno fenómeno só possível em tempos de blogosfera. Não descurando a "capacidade de descoberta" de cada um, convenhamos que a chamada música "difícil" só consegue vingar a poder da divulgação massiva. E foi assim, beneficiando de um boca-a-boca virtual em crescendo, que Mirrored, o primeiro longa-duração dos Battles foi motivo de abundante conversa e aprovação nos meios mais improváveis.

Em breve, o colectivo nova-iorquino presta-se ao sempre difícil teste do segundo álbum, neste caso com dificuldade agravada por ser o primeiro na qualidade de trio, depois da partida amistosa de Tyondai Braxton para outras aventuras. O disco chama-se Gloss Drop e tem edição prevista para 6 de Junho próximo. O aperitivo, que conta com a voz convidada do chileno Matias Aguyao, é o tema que se apresenta mais abaixo e que, à hora a que escrevo estas linhas, já teve rodagem nuns bons 3/4 dos blogues e similares deste mundo. Este pasquim, contudo, não poderia deixar de se juntar a essa imensa maioria, pois o vídeo que o promove é super-divertido e tem uma data de miúdas giras! Como poderão constatar, após a estranheza, e até alguma irritação, do minuto inicial, o tema em questão revela-se capaz da eficácia daquele outro que anunciou o álbum anterior.

"Ice Cream" [Warp, 2011]

terça-feira, 10 de maio de 2011

R.I.P.


JOHN WALKER
[1943-2011]

Nascido John Maus, morreu no passado dia 7, vitimado por um cancro no fígado, um dos cantores, mas também guitarrista e compositor, da formação original dos Walker Brothers. A adopção daquele apelido fez parte de uma manobra de marketing, e estendeu-se aos restantes elementos do trio, entre eles o mítico e misterioso Scott Walker (nascido Engel).

Activos durante a década de 1960, os Walker Brothers foram, eventualmente, o único grupo pop norte-americano capaz de rivalizar em popularidade com os congéneres britânicos durante o período de vigência da chamada British Invasion. Talvez por isso, mudaram-se de armas e bagagens para o Reino Unido, manobra que confundiu alguns quanto à sua origem. A separação ocorreu em 1968, alegadamente por divergências entre John e Scott. De então para cá, enquanto o último se tornou um ícone, apesar dos raros contactos com o público e do espaçamento entre discos, o primeiro desenvolveu uma obra discográfica numerosa mas discreta, essencialmente durante a década de 1970. Contudo, na memória colectiva ficará sempre recordado pelos temas de excelência pop do grupo que lhe deu fama. Este é um deles, originalmente gravado por Frank Valli um anos antes, mas popularizado nesta versão que integra uma célebre batida de abertura

The Walker Brothers _ "The Sun Ain't Gonna Shine (Anymore)" [Smash, 1966]

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Good cover versions #53











WORLD OF TWIST _ "She's A Rainbow" [Circa, 1991]
[Original: Rolling Stones (1967)]

Para aqueles que, na velha "guerra" Beatles vs. Stones, tomam partido pelos londrinos, o álbum Their Satanic Majesties Request é um sapo difícil de engolir. É neste que os Rolling Stones mergulham a fundo nos mares do psicadelismo, seguindo a tendência que os "rivais" de Liverpool já vinham desenvolvendo com os resultados que se conhecem. Num disco recheado de uma complexidade até aí inaudita na obra da banda, sobressai "She's A Rainbow", um tema de um brilho intenso, caracterizado pela subtileza dos arranjos e a beleza da melodia, no qual marcam presença marcante o piano e a secção de cordas.

Seguindo o exemplo anterior e bem conhecido dos escoceses Soup Dragons, também os World of Twist adaptaram um original dos Stones ao contexto baggy. Embora nitidamente menos popular, a tentativa desta banda migrada de Sheffield para a então fervilhante Madchester, revela-se bastante mais interessante. Não diferindo sobremaneira da estrutura e da instrumentação do original, destaca-se pelas vocalizações, com a afirmação arrogante típica da época, e pelo groove da batida, catalisador de um convite irresistível ao abandono dançante. Não por acaso, tornou-se o tema mais popular do primeiro e único álbum dos World of Twist, uma banda sui generis numa era própria merecedora de uma reapreciação.

Mil imagens #18


Bobby Gillespie (Primal Scream), 1991
[Foto: Tom Sheehan]

sábado, 7 de maio de 2011

Ao vivo #64
















Abe Vigoda + The Glockenwise @ Galeria Zé dos Bois, 05/05/2011

Do terceiro para o quarto álbum, aqueles que lhes conferiram uma pequenina visibilidade, os angelinos Abe Vigoda operaram uma profunda revolução estética. Se Skeleton (2008) era um emaranhado de uma pop fracturada e desconcertante a que alguém chamou tropical-punk, Crush (2010) aproxima-se perigosamente da mais asséptico revivalismo oitentista.

Confirmando os piores receios, é este último que toma de assalto a parte de leão do concerto da passada quinta-feira. A fazer jus à actual orientação, o vocalista apresenta-se com o visual de um potencial concorrente ao remake dos Human League. Na voz tem a afectação própria de quem acabou de consumir a obra integral do Bowie dos eighties. Do teclado escorre azeite em ritmos que já fizeram galarim na produção pimba nacional. Para não ferir ouvidos pouco dados a desafios, as duas guitarras são mero adorno inofensivo. Com esta receita, fica garantida a festa para uns quantos e o desapontamento para número igual de convivas. Para estes últimos, em jeito de consolação e já perto do final, um parte de temas trouxe ao palco da ZdB a tropelia vertiginosa que os arrastou ao local. Foi apenas um pequeno prémio pela resistência.

A surpresa, se não mesmo a salvação da noite, ficou a cargo da abertura com os barcelenses The Glockenwise. Apesar da curta experiência, o quarteto minhoto mostrou desenvoltura na assimilação de uma linhagem punk/garage de origem britânica, normalmente mais consciente da estrutura de canção do que a congénere norte-americana. Tal como em casos clássicos (The Jam ou The Libertines, por exemplo), a procura do refrão mais catchy e recheado de coros não implica a ausência do picanço permanente da rugosidade das guitarras. A meio da função, resvalam ligeiramente para devaneios instrumentais de índole psych que destoam da identidade do todo. Mas logo reencontram o trilho, e deixam a confirmação de caso especial no actual panorama nacional, mesmo geograficamente distantes das palmadinhas-nas-costas normalmente reservadas às bandas da área da capital.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Em escuta #58











LOW _ C'mon [Sub Pop, 2011]

Nas quase duas décadas de trajecto, os Low vão operando pequenas revoluções na sua música, quase imperceptíveis mas que, acumuladas, distanciam sobremaneira este nono álbum da sonoridade minimalista e arrastada dos primórdios. E, diga-se, talvez à excepção do semi-falhanço do anterior Drums And Guns, sem grandes sobressaltos que impliquem a alienação dos fieis. O novo C'mon vem, porém, repor a boa forma, desde logo evidente nas vozes de Alan Sparhawk e Mimi Parker, pujante a dele, imaculada a dela. Embora se siga a um período de alguma instabilidade emocional do primeiro (e o negrume está bem patente num par de temas que recuam às memórias da infância), o disco é banhado por uma luminosidade quase inédita na obra do trio. Gravado numa igreja, beneficia de um arejamento que reforça o carácter esperançoso e pacífico da maioria das faixas. Como convidado de honra, Nels Cline participa num par de temas, nos quais deixa bem marcado o seu dom único de manejar a steel guitar, na mistura final trazida para o primeiro plano. [8,5]


CRAFT SPELLS _ Idle Labor [Captured Tracks, 2011]

Justin Vallesteros, o responsável pelo projecto Craft Spells, é mais um dos muitos jovens californianos que, a partir do retiro dos seus quartos, vão exprimindo as suas visões musicais a partir das colecções de discos dos pais. No caso em apreço, as afinidades com Wild Nothing vão muito para além da editora comum a ambos. Mas, se aquele envereda mais por via sonhadora e reservada, Idle Labor é percorrido por alguma efusividade juvenil que não consegue esconder uma ligeira melancolia derivada de uma ou outra trica amorosa própria da idade, bem expressa no timbre vocal que a espaços lembra o de Ian Curtis. Isto, porém, é questão de pormenor, pois as guitarras, delicadas mas profusamente melódicas, combinadas com sintetizadores rudimentares, tendem a convidar a uma festa que tresanda a eighties. Nessa era, dada a sua aura de sincera naivité, Idle Labor traria concerteza selo da editora Cherry Red. [7,5]


MOON DUO _ Mazes [Sacred Bones, 2011]

Dupla liderada por Erik "Ripley" Johnson, Moon Duo é uma aventura nos terrenos da psicadelia bem menos linear do que aquela que ele tem desenvolvido ao leme dos Wooden Shjips. Desde logo, é evidente um outro aprumo rítmico que as guitarras, normalmente com riffs densos e repetitivos, não consegue disfarçar. No tema-título, porém, a guitarra é esquálida e estridente, deixando no ar uma secura desértica. A voz não é afogada pelo torrente sónica, surge antes à superfície num tom semi-declamado que deve inspiração a Alan Vega. Nos teclados e na caixa de ritmos (a bateria está ausente), Sanae Yamada é a principal responsável pela pulsão groove. Em perfeita sinfonia com os delírios do mestre, solta pinceladas kraut que conduzem Mazes para uma desfocagem própria do transe narcótico. Sucessor de uma linhagem que vai de Roky Erickson aos Spacemen 3, passando pelas obrigatórias referências germânicas (foi gravado em Berlim), este arrisca-se a ser o disco que este ano melhor satisfará as necessidades dos cultores da deriva mental musicalmente induzida. [8]


ELEVENTH DREAM DAY _ Riot Now! [Thrill Jockey, 2011]

Com perto de trinta anos de actividades, os 11thDD nunca gozaram do reconhecimento de muitos contemporâneos, tais como eles pioneiros na fundação de uma linguagem indie-rock tipicamente norte-americana. Embora rendidos à imerecida sina, estes conspiradores do apinhado covil de Chicago, não esmorecem, e vêem agora romper um silêncio de cinco anos que estabelece que os experimentalismos dos últimos registos ficam reservados para os projectos paralelos. Como tal, no essencial, Riot Now! resgata a crueza rock dos primórdios. Um dotado a operar com as seis cordas, Rick Rizzo descarrega uma enormidade de riffs incisos, ora distorcidos, ora em solos desalinhados do convencional. Na melhor tradição ianque do género, a voz deste é carregada de agrura, num tom pouco amistoso. A excepção é um par de temas que, apesar das subtis injecções de ruído, alinha por uma via mais reflexiva. Em ambos, a combinação com o tom mais delicado da baterista Janet Bean propicia um interessante jogo inesperadamente pop. Confirmando as teses do revisionismo em ciclos de duas décadas, Riot Now! orienta a máquina do tempo para inícios de noventas. E deixem que lhes digam que sabe sempre bem o regresso a "casa"... [7,5]


J MASCIS _ Several Shades Of Why [Sub Pop, 2011]

Tratando-se de um embaixador da guitarra eléctrica enquanto máquina produtora de ruído, pode causar alguma surpresa que a estreia definitiva a solo em álbuns de estúdio de J Mascis seja essencialmente acústica. Pode pois, mas só a quem ignorou o "ensaio" ao vivo do já distante Martin + Me. Por assim dizer, Several Shades Of Why acaba por ser a confirmação daquilo de que já todos tínhamos conhecimento: um profundo reconhecimento pela obra mais intimista e alinhada na dor-de-corno do mestre Neil Young. A voz, próxima e calorosa, exprime sentimento onde antes apenas conhecíamos alienação. Ao primeiro contacto, as dez canções poderão acusar alguma vulgaridade e demasiadas semelhanças entre si, talvez da aparente simplicidade provinda do despojamento instrumental. Só depois, com a insistência, sobressaem as estruturas intrincadas que denunciam o confessional autor como um compositor amadurecido, algo que as torrentes eléctricas dos Dinosaur Jr. apenas revelam aos mais atentos. Entre elas, destaca-se "Not Enough", na qual o "grasnar" de Mascis cria um jogo de contrastes com o falsetto de Ben Bridwell (Band of Horses). A lista de convidados inclui ainda Kevin Drew (Broken Social Scene), Suzanne Thorpe (antiga flautista dos Mercury Rev), Sophie Trudeau (GY!BE e projectos subsequentes), Matt Valentine (MV/EE), e Kurt Vile. [7]

terça-feira, 3 de maio de 2011

Confeitaria fina
















Composto por quatro velhas raposas, todas elas com créditos firmados nas franjas da música popular norte-americana do último quarto de século, e muitas vezes visto como projecto lateral dos seus elementos, o colectivo The Sea and Cake já anda nisto há mais de quinze anos. Nesse período, as edições têm-se sucedido com uma frequência assinalável, no começo com inflexões jazzisticas impregnadas de tropicalismo e elementos da música africana, mais recentemente com sofisticadas aproximações à pop, mas sempre pouco sensíveis às convenções pré-definidas.

Como sempre, sob a batuta de Sam Prekop, o quarteto de Chicago vai lançar, na próxima semana, um mini-álbum (ou máxi-EP, se preferirem) de seis temas intitulado The Moonlight Butterfly. A press release dá-nos conta de canções de estruturas mutantes e imprevisíveis, normalmente percorridas por longas derivas instrumentais e com especial ênfase nos sons sintetizados. Contudo, o tema que serviu de avanço, e que se apresenta mais abaixo, assenta numa base de guitarra e retém a finura pop pela qual se pautavam os registos mais recentes. Para finais do ano corrente, ou inícios do próximo, está prometido o álbum completo, possivelmente para aferir do estádio evolutivo da nova orientação estética agora anunciada.


"Up On The North Shore" [Thrill Jockey, 2011]

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Erika que se lembra das suas vidas anteriores















Foto: Steve Martinez

Não, este pasquim ainda não se rendeu à ditadura da pop borbulhante, como pode fazer supor a imagem da miúda acima. Ela é Erika M Anderson, uma nativa da remota Dakota do Sul entretanto migrada para a metrópole de Los Angeles. Os mais informados sabem que em tempos militou nos Amps for Christ e, mais recentemente, na dupla Gowns. Nestes últimos, deixou gravado um álbum único (Red State, de 2007), autêntico tratado de música exploratória na insólita confluência da folk com o noise.

Em solitário, Erika assina apenas com as iniciais EMA e apresta-se para lançar Past Life Martyred Saints, o álbum debute. O disco sai apenas na próxima semana, mas o April Skies já teve o privilégio de o escutar e pode afiançar-vos que constitui o passo natural tendo em conta passado da autora. Normalmente, os temas partem de uma matriz bluesy, mas vêm qualquer tentativa de ortodoxia ser sabotada pelas injecções de ruído infligidas pelos pedais de distorção. À falta de outra adjectivação, as letras, que se presumem baseadas em experiências pessoais, são de uma crueza raramente escutada em tempos recentes. É a partir da dureza da palavras, e da intensidade com que são proferidas, que EMA revela traumas, expia demónios, e confessa as mais negras perversões. Grosso modo, soa como se do cruzamento dos genes de Lydia Lunch, Cat Power, Carla Bozulich e Patti Smith, tivesse sido gerado um pequeno monstro impiedoso. Alargando o espectro de referências, não será descabido citar também os canadianos Godspeed You! Black Emperor.

Apesar do carácter pouco amistoso, e da estrutura pouco convencional das canções, sou levado a crer que, a breve trecho, Past Life Martyred Saints seja objecto de culto relativamente alargado. Como sempre, o som e as imagens valem mais que mil palavras:

"California" [Souterrain Transmissions, 2011]

domingo, 1 de maio de 2011

Duetos #32









Para o provável término desta rubrica trago-vos o encontro único de dois pesos-pesados. Interpretam uma versão do tema-título de um filme de 1968, originalmente gravado na voz de Timi Yuro, uma das primeiras divas da chamada blue-eyed-soul. Curiosamente, neste remake, o timbre de lady Sioux aproxima-se consideravelmente do da intérprete original.

Morrissey & Siouxsie _ "Interlude" [Parlophone, 1994]

Ao vivo #63














Tim Hecker @ Galeria Zé dos Bois, 29/04/2011

No espaço de menos de uma semana, Lisboa recebeu a visita de dois dos criadores das texturas mais densas no actual mundo das electrónicas, de forma que acho que faria algum sentido que tivessem partilhado o mesmo palco, tal como já partilharam experiências. Primeiro foi o australiano Ben Frost, agora o canadiano Tim Hecker, que trazia na bagagem o recente Ravedeath, 1972, trabalho concebido na mesma Islândia que acolhe o primeiro desde há alguns anos.

Ligeiramente menos críptica que a da "alma-gémea", a música de Hecker é envolta numa sinistra aura de mistério que guia o ouvinte para um fascinante mundo de sombras. Na ZdB apresentou-se com a sala mergulhada na escuridão, sem outras formas de iluminação que não fossem a do monitor do laptop e a ténue claridade que atravessa as janelas do "aquário". Ficou assim criado o ambiente propício à apresentação de um set baseado em trechos curtos para os parâmetros do género, mas suficientemente envolventes no seu negrume opressivo. O que se intui, nos instantes de consciência sensorial, é que há na música de Hecker uma procura constante de uma linha melódica que lhe dê uma dimensão mais humana. Mas logo, esses resquícios de luminosidade são afogados na sucessão de drones opressivos, deixando no ar a sugestão de um conflito interior de dois elementos antagónicos que se degladiam num universo à beira do caos. Em termos funcionais, a fórmula propicia um universo no qual coabitam a luz e as trevas. Na passada sexta-feira aplicou o feitiço ao longo de uns breves 40 minutos, e abandonou o palco perante o aplauso unânime do público, libertado do transe aos primeiros segundos de silêncio.