"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Good cover versions #43
















WILD NOTHING _ "Cloudbusting" [Captured Tracks, 2010]
[Original: Kate Bush (1985)]



Muita boa gente aí desse lado lembrará com saudade a televisão de oitentas, ainda não rendida à ditadura da publicidade. Durante as inúmeras falhas técnicas, ou no intervalo dos raros jogos de futebol, era comum exibirem-se videoclipes musicais. Como a variedade não abundava, guardo na memória o incontável número de vezes que vi Kate Bush, na pele de um rapazito, empurrando uma geringonça encosta acima. Sei agora que o senhor que a acompanha no referido vídeo é o actor Donald Sutherland. Ele representa o psiquiatra autro-americano Wilhelm Reich, inventor da máquina a que o título de "Cloudbusting" alude, segundo o próprio, um gerador de chuva. A América da caça-às-bruxas, pouco tolerante a tão estranhas experiências, aprisionou Reich, que acabaria por falecer ainda no cárcere. Kate Bush representa o filho Peter, autor da obra A Book Of Dreams, em memória do pai, no qual "Cloudbusting" se inspira. Em traços gerais,  podemos dizer que a canção descreve uma relação especial entre um pai e um filho, bem como o sentimento de uma criança perante a crueldade humana a actuar sobre um ente querido. É um dos temas mais afamados de Bush, e um dos muitos exemplos das suas capacidades vocais. Tanto a exuberância da voz, quanto o ritmo quebrado, remetem para a tradição musical inglesa, capaz de recuar até eras medievais. Como quase sempre em Kate Bush, "Cloudbusting" está carregado de um misticismo tão capaz de gerar paixões assolapadas, como ódios de estimação. Curioso é reparar que esta faceta exótica parece ter estado "fora de moda" durante décadas, mas encontra agora reflexo num sem número de cantoras/compositoras da nova geração.
Proposta significativamente diversa, desde logo pela contenção que roça a tmidez, tem Jack Tatum, o nerdezito seguidor dos princípios DIY que se esconde sob a designação Wild Nothing. Típico produto de gravação caseira, esta releitura de "Cloudbusting" sugere reclusão, sonho, e até ócio, numa cadência próxima da do original mas notoriamente mais lenta. Ao suave torpor e às atmosferas densas, Tatum adiciona uma pitada de mistério que faz a ponte com a canção original.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Em escuta #51









WILD NOTHING _ Gemini [Captured Tracks, 2010]

Nos últimos tempos, nos Estados Unidos, avoluma-se o rol de estetas adeptos das produções caseiras de baixa-fidelidade. Embora novato nessa extensa lista, Jack Tatum conta já com um currículo que inclui diversas solicitações para remisturas do trabalho de outrém. Na obra em nome próprio, assinada como Wild Nothing, envereda por uma sonoridade liberta de artifícios que sugere, inevitavelmente, algum recolhimento. As tapeçarias sonoras, essencialmente geradas a partir de sintetizadores analógicos, tanto evocam as paisagens idílicas dos Cocteau Twins como a pop fracturada dos Felt. Umas vezes banhado num mar de doce melancolia, outras penetrado por tímidos raios de sol, Gemini deixa no ar uma leve brisa de mistério que seduz desde o primeiro instante. [8]


ARCADE FIRE _ The Suburbs [Merge, 2010]

Ao terceiro registo, o combo canadiano mais celebrado dos últimos tempos, salvas as devidas distâncias, retoma os tons sépia do debutante Funeral, em detrimento da pompa balofa que marcou o subsequente Neon Bible. Contudo, nas entrelinhas, The Suburbs ainda deixa escapar alguns anseios de grandeza, seja na discrição dos arranjos de cordas, seja na limpidez da produção que arrasa a veia tosca de outrora. A voz de Win Butler abandonou o ar de gravidade do passado e envereda agora por uma reserva mais de acordo com as suas limitações. A sombra de Springsteen paira a cada recanto e as guitarras ganham terreno, por vezes em despique desenfreado ("Mouth Of May", "Ready To Start"), noutras a sublinhar o rigor formal que roça o classicismo pop (o profusamente catchy "Modern Man"). Interpretado por Régine Chassagne, "Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)" segue, sem pudores, por uma via electrónica retro que, possivelmente, aponta pistas para um futuro próximo. Segundo os membros da banda, a inspiração para este disco provém das experiências de vida nos subúrbios, e daí o ambiente de desencanto que emana. Como obra conceptual que é, The Suburbs não escapa aos piores tiques do "género", na circunstância manifestados na duração que vai para além do razoável. Pela parte que me toca, e para melhor fruição, saltei "Rococo" e "Empty Room", manifestações da irritação épica que me causa profunda repulsa. [7,5]


THE CORAL _ Butterfly House [Deltasonic, 2010]

Com este são já meia dúzia os álbuns da banda que, discretamente, se tem firmado como um dos mais sólidos colectivos nascidos no Reino Unido do novo século. Se a isto somarmos o facto de os seus membros ainda andarem pela casa dos vintes, ganha outras proporções o feito dos The Coral, banda que, desde cedo, manifestou o apego à tradição do psicadelismo pop sessentista comum a outros dignos representantes da Liverpool natal (Echo & The Bunnymen, The La's, Shack). Sem surpresas, Butterfly House segue essa mesma via, pese embora revele uma banda próxima de um estádio de amadurecimento, com toda a carga positiva que o termo possa sugerir. Obreiro desta pequena (r)evolução foi o produtor John Leckie que, aproveitando as transformações no seio da banda (a substituição do guitarrista), extraiu dos The Coral potencialidades que revelam extrema auto-confiança. A voz de James Skelly já não é a do puto meramente dotado, mas sim a do homem-feito com aptidões para um registo próximo do crooning. Das guitarras, geradoras de melodias tão formais quanto inventivas, tanto podem brotar laivos de flamenco a fazer lembrar os Love, como manifestações de virtuosismo próximas da versão contida de uns Stone Roses do segundo disco. Desta conjugação de factores, nasce uma dúzia de canções que, sem excepção, primam pela eficiência só ao alcance das obras intemporais. Para melhor entendimento, pasmem-se com a previsibilidade feita gema pop de "1000 Years", até prova em contrário, uma das canções que marcarão positivamente o corrente ano. [8,5]


TAME IMPALA _ Innerspeaker [Modular, 2010]

Não se pense a Austrália dos nossos dias, e em particular a editora Modular, apenas capaz de gerar sub-produtos de saudosismo oitentista que, ultimamente, tem entretido o gosto direccionado para modinhas fúteis. Quem no-lo afirma são os Tame Impala, quatro putos obcecados com os devaneios guitarrísticos de Hendrix e dos Cream da melhor safra, os mesmos que, há coisa de dois anos, presentearam os mortais com um fulgurante EP homónimo. A hora da aventura em longa-duração é também a de correr riscos, materializados num alargar de horizontes que se expandem até a uma faceta mais contemplativa - e, forçosamente, mais pop - que lembra The Beatles, em particular os do Álbum Branco. Há até algumas semelhanças vocais com o Lennon desses tempos que chegam a ser assustadoras. Não se pense, contudo, os Tame Impala apenas apostados na deriva mental por via da psicadelia sonora: quando investem a fundo no groove, sacodem irremediavelmente o corpo sem dó nem piedade. "Solitude Is Bliss", o tema eleito para single promocional é disso o melhor exemplo. [8,5]