"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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terça-feira, 7 de agosto de 2012

Missão cumprida














Na América subterrânea de inícios de oitentas, dividida pela fúria hardcore a oeste e as incursões disco/funk a este, os Mission of Burma foram os responsáveis por incutir densidade cerebral ao primitivismo punk. Um pouco, diga-se, à semelhança dos Wire no Reino Unido. Deixaram apenas gravados um álbum e um EP, mas seriam responsáveis pelo lançamento da primeira pedra na edificação de Boston como uma das capitais da música independente dos states. Quando findaram actividades, em 1983, fizeram -no pela frustração das expectativas junto do público, mas sobretudo pela tinnitus do guitarrista Roger Miller, agravada com os concertos que, segundo reza a lenda, se pautavam por um volume de som demolidor.

Aos anos de semi-esquecimento, seguiu-se um período de veneração por parte de muitos dos intérpretes da "revolução alternativa" da década de 1990, o que terá motivado o regresso dos Mission of Burma, faz agora dez anos. De então para cá, contam já com a bonita soma de quatro álbuns. Em qualquer um deles, os problemas auriculares de Miller parecem não intimidar a banda a enveredar por uma certa dureza sonora. Assim é também no novo Unsound, seguramente o mais conseguido dos registos desta segunda vida dos MoB que, contudo, ainda não apresenta mácula. Sem diferir grandemente dos antecessores, parece-nos que neste disco a banda encontrou o balanço perfeito entre um sentir mais melódico e a visceralidade ruidosa. Nessa alternância, as diferentes características dos três vocalistas (Miller, Clint Conloy e Peter Prescott) são aproveitadas em consonância. Para os ouvidos menos treinados, é óbvio que, à superfície, Unsound não soará a mais que um esgrimir de recados e lamentações de homens de meia idade aborrecidos com o mundo. Mas nós já sabemos que com os MoB cada tema esconde mil e um pormenores nos interstícios. Mais agora, que da formação oficial faz parte Bob Weston, o mago de estúdio dos Shellac e de uma míriade de discos alheios, responsável pelas fitas pré-gravadas e os inúmeros sons acidentais que fazem de Unsound uma revelação a cada audição mais atenta.


"Second Television" [Fire, 2012]

terça-feira, 25 de maio de 2010

Ao vivo #53

















Shellac + Mission of Burma @ Galeria Zé dos Bois, 24/05/2010

Poucos dias antes de pisarem os palcos de um dos mais importantes festivais europeus, estrearam-se em Lisboa (hoje é a vez do Porto) dois dos mais dignos representantes da facção mais desalinhada do rock norte-americano. Para tão solene cerimónia, o "aquário" da ZdB engalanou-se, repleto de um público sedento e que há muito tinha esgotado os escassos ingressos.
A abertura desta double bill de sonho coube aos Mission of Burma, de há alguns anos a esta parte regressados ao activo para reclamar o papel tutelar nas várias correntes oblíquas do rock contemporâneo. Como seria de esperar, o alinhamento assentou no trio de álbuns lançados nesta segunda vida, o que se reflecte em temas pautados por um maior pendor tecnicista, exemplarmente representado na austeridade do guitarrista Roger Miller, ora a debitar descargas de energia em bruto, ora a assumir a pose de guitar hero com solos irrepreensíveis. Tal como nos primeiros tempos, a matriz aparentemente convencional é corrompida pelas constantes intromissões de sons tratados, cortesia de um oculto Bob Weston antes da prestação da sua banda "principal". Para o final ficou guardado esse tema que é já um hino ao inconformismo e que dá pelo nome de "That's When I Reach For My Revolver". No refrão, as vozes berraram em uníssono e os braços agitaram-se no ar. Foi bonita de se ver, a rebelião...
Por mais concertos a que se assista (foi o meu segundo) dos Shellac, é improvável não se ficar abismado com a precisão imprimida pelo trio, tanto nas pausas abruptas, como nos arranques ostensivos, o que revela um invulgar sentido de tempo. Se de Steve Albini e Bob Weston, velhas raposas conhecedoras de todos os truques de estúdio, já esperamos algo próximo do perfeito, a grande surpresa acaba por ser o baterista Todd Trainer, qual batida cardíaca dos Shellac movida a golpes de baquetas. Apesar da postura descontraída (Weston foi um mestre de cerimónias e até o circunspecto Albini deixa escapar algumas tiradas de bom-humor; humor seco, mas humor), a banda não prescinde de descargas de rigor anguloso. "Copper", "My Black Ass", ou o insano "Prayer To God", todos eles marcados pelos espasmos metálicos da guitarra, sacodem os corpos. Já o monólogo analítico de "The End Of Radio" aponta aos neurónios, domados pelo ritmo marcial do baixo. Tal como o par de temas (aparentemente) novos, numa depuração já próxima de algumas correntes do jazz não-formatado, que não geram as maiores ovações, mas apontam interessantes pistas para o desenvolvimento da "fórmula Shellac".

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Lights & Music















Aquando da primeira passagem pelo planeta, em inícios da década de 1980, os Mission of Burma (MoB) foram porta-estandartes do espírito reinante no período post-punk em solo norte-americano. Um pouco à semelhança dos Wire e dos Gang of Four do lado de cá do Atlântico, esta banda de Boston imprimiu às premissas rebeldes inerentes ao punk um ambicioso sentido artístico. Cessaram funções, sem glória, em 1983, deixando gravados apenas um EP e um álbum. Contudo, esta escassa obra viria a reverlar-se extremamente influente na facção mais desalinhada do rock made in USA de então para cá. Desde o reaparecimento em 2002, e desde a passada semana, contam já com três discos de longa-duração no currículo. Com a marca do produtor Bob Weston (dos Shellac e agora também o "quarto" MoB) patente na clareza com que cada instrumento é captado, a audição de The Sound The Speed The Light transporta-nos quase fisicamente para o estúdio. Composto por quatro suites de três temas cada - não, os MoB ainda não se renderam ao progressivo -, o disco alterna momentos da típica rispidez directa com outros de maior acalmia. Nesta última vertente, fica evidente um aprumo técnico apreendido em décdas de experiência. Concluindo, diria que The Sound... poderá não exibir a aura de inovação dos primeiros trabalhos dos MoB. No entanto, tem garra suficiente para causar a inveja de muitos neófitos.

http://www.myspace.com/missionofburma

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Singles Bar #21


















MISSION OF BURMA
Academy Fight Song
[Ace of Hearts, 1980]

The halls smell like piss
The rooms are underlit
Still it must be nice
You're such a perfect fit
What's that I hear?
The sound of marching feet
It has a strange allure
It has a strange... allure

Stay just as far from me
As me from you
Make sure that you are sure
Of everything I do
'Cause I'm not not not not not not not not
Your academy
Your academy

Sem o saberem, muitos conhecerão os Mission of Burma (MoB) de "That's When I Reach For My Revolver", canção já reinterpretada por gente como Graham Coxon ou Moby. No entanto, poucos serão os têm a noção do real peso da primeira vida desta banda de Boston (os MoB reagruparam-se em 2002) em posteriores desenvolvimentos da dita música alternativa. Michael Azerrad, no livro Our Band Could Be Your Life, vai ao ponto lhes atribuir o pontapé de saída do indie rock. Exagero? Talvez... Mas convém referir que a lista daqueles que se confessaram seus seguidores compreende nomes como R.E.M., Yo La Tengo, Fugazi, Nirvana, ou Sonic Youth, só para citar alguns. E isto, tendo deixado como legado desta primeira existência nada mais do que um álbum, um EP e dois singles.
Deram-se a conhecer ao mundo precisamente com este Academy Fight Song, um claro manifesto de intenções: post-punk de contornos arty, seco, cerebral e directo, na linha de bandas como os Gang of Four e os Wire. A letra do tema que preenche o lado A, qual canção de protesto "inteligente", aborda a temática da vida militar com muito sarcasmo. No lado B encontramos "Max Ernst" que, com as mesmas ferramentas do tema principal, lamenta a incompreensão de que foi alvo o artista plástico alemão que dá nome à canção, figura de referência dos movimentos dadaísta e surrealista.
Aos potenciais interessados lembro que estas canções, e todo o restante acervo da primeira encarnação dos MoB, estão incluídas no recente pacote de reedições da Matador Records.

quinta-feira, 29 de março de 2007

TACANHEZ ETERNA

"Once I had my heroes
Once I had my dreams
But all of that is changed now
They've turned things inside out
The truth is not so comfortable, no
And mother taught us patience
The virtues of restraint
And father taught us boundaries
Beyond which we must go
To find the secrets promised us, yeah
That's when I reach for my revolver
That's when it all gets blown away
That's when I reach for my revolver
The spirit fights to find its way"

(Mission of Burma in "That's When I Reach For My Revolver", 1981)

Este excerto de um hino esquecido da década de 1980 é a minha dedicatória a todos aqueles que pagaram € 0,60 + IVA para fazerem daquele ser sinistro de Santa Comba Dão o vencedor do concurso da Maria Elisa...