"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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quinta-feira, 4 de julho de 2013

Kill yr. idols

















Pela sua demografia, Bristol já tem longo historial como terreno propício à miscigenação de músicas de diferentes raças. Contudo, só há coisa de 20 anos o mundo se terá dado conta da tendência fusionista dos músicos daquela cidade do sudoeste inglês. A "descoberta" aconteceu pela coincidência do aparecimento simultâneo de alguns projectos daquela proveniência que, apesar das diferenças notórias entre si, foram arrumados numa nova prateleira criada para o efeito: a do trip-hop. A rejeição de tal rótulo, que cedo se haveria de tornar pejorativo, foi unânime. O mais veemente na recusa terá sido um tal de Adrian Thaws, vulgo Tricky, figura omnipresente nas movimentações da "cena" bristoliana desde o fim da adolescência. Analisando a sua obra, particularmente a daquele par de anos em meados de noventas em que foi elevado a uma categoria próxima de génio, somos levados a concluir que, a haver alguma justeza no rótulo atribuído, seria muito mais com os seus discos que com os dos contemporâneos Massive Attack e Portishead. Tal conclusão advém da verificação de que a música dos colossais Maxinquaye (1995) e Pre-Millennium Tension (1996) mais não ser do que uma revisão enevoada do hip-hop da velha escola tão do agrado de Tricky. Não será por acaso que nesses discos encontramos versões de originais dos Public Enemy e de Eric B & Rakim, duas influências assumidas e por si citadas até aos dias de hoje.

Não sabemos se por aversão ao "fenómeno", se por fuga aos holofotes de uma fama súbita e indesejada, o que é certo é que, após o fulgor inicial, Tricky cedo tratou de tornar os seus discos progressivamente mais "difíceis", ainda que bastante aceitáveis depois de pacientemente assimilados. O pior estava para vir com a mudança para os states, coincidente com um período de sanidade próxima da demência, e com as amizades e colaborações com "estrelas" de gosto dúbio. Regressaria à pátria e renasceria artisticamente com Knowle West Boy, um excelente disco embora relativamente negligenciado, com o forte cunho biográfico de sempre, desta feita com as memórias de juventude passada no meio problemático de um bairro social.

É nesta senda de renascimento que já leva três álbuns que surge False Idols, já apontado por muita boa gente como o seu melhor disco desde aquele par dos primórdios. Aqui sou obrigado a discordar e, sem negar qualidades ao novo trabalho, apontar para esse título o já citado registo de 2008. No entanto, tenho de admitir as familiaridades deste trabalho com Maxinquaye, sobretudo na atmosfera de intimismo. Talvez a opção se deva à descoberta de Francesca Belmonte, a nova e única voz à altura da de Martina Topley-Bird para partilhar o confessionário sexual com o tom murmurado de Tricky. Com menor protagonismo, e repetindo a participação do anterior disco, surgem ainda as vozes de alemã Nneka e de Peter Silberman (The Antlers), ela num registo próximo do da jovem Neneh Cherry, ele num irritante falsetto que constitui o momento de menor inspiração de False Idols. Relativamente mais apaziguado, pois a idade amolece até os temperamentos mais rebeldes, o novo álbum fica claramente a perder na comparação com o de estreia, não só pela falta de factor surpresa, mas sobretudo pela radicalidade das nuances, dos breaks súbitos, ou do engenho na escolha dos samples que encontrávamos em Maxinquaye. Uma palavra de louvor para a capacidade de Tricky, velha raposa conhecedora de diferentes músicas, em citar a obra alheia para criar algo próprio. Acontece, por exemplo, com a apropriação da apropriação de "Gloria" de Van Morrison por Patti Smith em "Somebody's Sins", ou a referência ao standard "My Funny Valentine" em Valentine. A auto-citação tem lugar na amostra a seguir, uma espécie de versão abastardada de "Make Me Wanna Die", faixa maior do grandioso Pre-Millennium Tension.

 
"Nothing's Change" [False Idols, 2013]

domingo, 7 de junho de 2009

Duetos #14

O puto traquinas e miss Polly Jean - dois anjos de cara suja. Um sufoco...


Tricky & PJ Harvey "Broken Homes"
[Live @ Later with Jools Holland*]

* Original no álbum Angels With Dirty Faces [Island, 1998]


terça-feira, 8 de julho de 2008

They used to call him tricky kid

Não obstante a desorientação que se seguiu aos quatro primeiros discos (Nearly God incluído), Tricky será sempre o "meu" génio de Bristol, e um dos poucos músicos que consigo ver como tal nas últimas duas décadas.
É pois com agrado que observo o regresso do maverick ao trilho certo com o oitavo álbum de originais, e primeiro para a Domino Records. Ao bom estilo biográfico trickiano, Knowle West Boy é, simultaneamente, um tributo ao bairro onde nasceu e cresceu, e aos sons que constituíram a banda-sonora desses primeiros anos de vida. Isto, trocado em miúdos, significa uma miscelânea esquizóide de rock, música jamaicana, urgência post-punk, hip hop tresmalhado, pianadas maradas a la Tom Waits, homenagens mais ou menos óbvias aos grandes The Specials, e até uma versão de um original de Kylie Minogue! Tudo, é claro, abrilhantado por um selecto rol de vocalistas convidadas.
Aviso desde já os mais entusiasmados que o novo disco não é propriamente um novo Maxinquaye, mas que é muito bom, lá isso é! Para ouvir repetidamente sem contra-indicações e com alguma saudade...

Tricky no MySpace

terça-feira, 8 de abril de 2008

GOOD COVER VERSIONS #6

TRICKY
"Black Steel" (Island, 1995)
[Original: Public Enemy (1988)]

Enfant terrible da cena que emergiu da cidade de Bristol em meados da década passada, Adrian Thaws, vulgo Tricky, nunca se encaixou bem no rótulo trip hop a que estavam também associados os Massive Attack e os Portishead.
Enquanto aqueles iam beber a músicas de outras latitudes, como o dub, a fonte de inspiração de Tricky era o hip hop norte-americano, o qual reescrevia devidamente subvertido.
Para que não restassem dúvidas, logo no primeiro disco incluía esta reinterpretação de um clássico do nome maior do movimento. Já no álbum subsequente, recriava "Lyrics Of Fury" dos esquecidos Eric B & Rakim, os quais também samplava no assombroso "Makes Me Wanna Die".

No original um tema em que Chuck D. manifesta, de forma ultra-raivosa, a recusa em servir as tropas de um país que tão mal trata os negros, ao mesmo tempo que incita ao amotinamento nas prisões, "Black Steel" é transposto na perfeição por Tricky para a realidade do Reino Unido. Ainda que, o veículo para o destilar da raiva seja a voz de Martina Topley-Bird, companheira da altura.
Paradoxalmente, é a faixa de cunho mais rockeiro incluída em Maxinquaye.