"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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segunda-feira, 14 de abril de 2014

Good cover versions #82













SPACEMEN 3 - "When Tomorrow Hits" [Fire, 1991]
[Original: Mudhoney (1989)] 

When Tomorrow Hits by Spacemen 3 on Grooveshark

Apesar das muitas diferenças estéticas, os Spacemen 3 e os Mudhoney tinham em comum o gosto pela facção mais suja do passado rock, particularidade de ambas as bandas que veio trazer alguma transgressão à normalidade da recta final de oitentas. O respeito mútuo, e as afinidades nas referências, em particular The Stooges, levou a que chegassem a programar um lançamento conjunto, concretamente um split single em que cada banda contribuía com uma versão de um original da outra. Assim, caberia aos Mudhoney regravar o já clássico "Revolution", enquanto aos Spacemen 3 competia a revisão de "When Tomorrow Hits". O plano caiu por terra quando os britânicos souberam da intenção dos congéneres norte-americanos de alterar a letra original de "Revolution" com referências a drogas. Ambas as versões foram no enntanto gravadas, contudo, lançadas em registos separados, ao contrário do inicialmente previsto.

No caso de "When Tomorrow Hits", a versão dos Spacemen 3 acabou até por ganhar algum simbolismo na separação acrimoniosa da banda, na altura da sua gravação já muito perto da ruptura. Foi colocada no meio do alinhamento de Recurring, derradeiro álbum lançado já depois do ponto final, e o único no disco com a participação simultânea de Peter Kember e Jason Pierce. O posicionamento estratégico no disco separa os temas compostos e registados por cada uma das duas metades criativas da banda. No essencial, a versão respeita a estrutura do original, porém com o devido tratamento lisérgico dos Spacemen 3. Praticamente alheia à melodia, é um mantra circular com um silvo de distorção permanente que desemboca numa explosão sónica. Relativamente mais curto, o original dos Mudhoney, vagamente baseado na cadência de "I Wanna be Your Dog", é um número de desaceleração atípico da banda de Seattle, um raro momento de contenção no meio das habituais descargas de electricidade. Retém, porém, a crueza e o travo stoner característicos.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Singles Bar #82









SPACEMEN 3
Revolution
[Fire, 1988]




No activo desde 1982, ainda na adolescência dos seus dois principais conspiradores - Pete "Sonic Boom" Kember e Jason "Spaceman" Pierce - os Spacemen 3 estiveram na vanguarda da recuperação das sonoridades mais marginais e transgressoras do rock de sessentas e setentas. Partindo da obsessão da dupla por bandas como Suicide, The Velvet Underground, The Stooges, ou The 13th Floor Elevators, entre tantas outras, desenvolveram uma identidade própria, pondo o psicadelismo de novo na ordem do dia e deixando uma vasta legião de seguidores, hoje mais activa que nunca. As referências narcóticas não se restringiam à música e às letras, eram antes um modo de vida, perfeitamente explícito no quase mote da banda: Taking drugs to make music to take drugs to.

Nesses tempos de inocência e aprendizagem, os Spacemen 3 ainda estavam longe de atingir o zénite criativo, a expressão máxima de uma sonoridade única a partir das referências perfeitamente identificáveis, algo que ocorreu com os álbuns The Perfect Prescription (1987) e Playing With Fire (1989). A vida no fio da navalha, e as tensões daí adjacentes entre os dois compositores, fariam com que o segundo fosse o último álbum dos Spacemen 3 concebido por Kember e Pierce em conjunto. Em 1991, já em desagregação, editaram ainda Recurring, este com os temas da autoria de cada um separado a preencher cada um dos lados do LP. Antes de Playing With Fire, e em jeito de aperitivo, a banda deu a conhecer a mundo o seu tema definitivo, uma fórmula cristalizada num monolito de seis minutos. Com efeito, "Revolution" faz da repetição um trunfo. Acompanhados de uma discreta secção rítmica, Kember e Pierce repetem ad eternum um riff cortante que, por incrível que pareça, se torna mais opressivo e quase paranóico à medida que o tema se desenrola. Estamos perante uma revisitação do espírito mais experimentalista de uns Velvet Underground já libertos da amarra Andy Warhol, devidamente reactualizado para uma geração pós-punk. A letra, e ao contrário do que normalmente acontecia, não é um abstraccionismo derivado dos hábitos narcóticos. É antes um manifesto de intenções, os Spacemen 3 na sua faceta sócio-política e tão virulentos nas palavras quanto nas guitarras.

No lado B do single que apresentou "Revolution", a banda opta por duas versões, um hábito ainda frequente nos projectos subsequentes, tanto de Pete Kember como de Jason Pierce. A primeira é uma reapropriação de "Che", uma das várias "homenagens" aos Suicide que retém a atmosfera planante do original, se bem que com um calor emocional que não está presente na frieza inumana do original. A outra é uma interpretação do tradicional "May The Circle Be Unbroken", com os necessários elementos folksy mas suficientemente lisérgico, à boa maneira dos Spacemen 3.


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Discos pe(r)didos #32



















SPACEMEN 3
The Perfect Prescription
[Glass, 1987]

Com um estatuto seminal em permanente crescendo, os Spacemen 3 (S3) têm um legado relativamente escasso mas de elevado valor. A escolha da obra maestra não é consensual, com a maioria a eleger o virulento Playing With Fire (1989), outros, menos, a preferirem o cerebral Recurring (1991). Com alguma relutância, inclino-me para o antecessor de ambos - The Perfect Prescription. É neste ponto que as personalidades musicais - então sintonizadas - de Sonic Boom (Peter Kember) e J Spaceman (Jason Pierce) atingem o zénite de uma etapa de escavações nas memórias do rock mais desalinhado que haviam iniciado ainda adolescentes. As drogas traçam uma linha condutora ao longo de todo o disco, de uma estrutura semi-conceptual, ou não fosse esta a banda que tinha por mote "taking drugs to make music to make music to take drugs to". Consequentemente, as diferentes atmosferas reflectem as vivências de um junkie, indo de estados eufóricos e de deslumbramento ao buraco negro da ressaca. As vozes surgem em murmúrios, sibilantes, enfraquecidas pelo torpor narcótico. Pierce encarna o crente temerário, enquanto Kember, quase declamatório, tende para um cinismo amargurado. No plano musical, cada um dá algumas pistas sobre o trabalho desenvolvido nos projectos futuros, com os temas protagonizados pelo primeiro a tanger a América negra dos blues e do gospel, e o segundo a chamar a si a via espectral do kraut rock.
As guitarras ultra-amplificadas geralmente associadas aos S3 primam em ...Prescption pela quase total ausência. Assim, e perante a supressão quase absoluta de percussões, a trip intuitiva assistida a químicos é proporcionada por acordes contínuos de guitarras em distorção, órgãos avulsos, ocasionais arranjos de cordas, e raras intromissões de sopros. A excepção é a inaugural "Take Me To The Other Side", descarga eléctrica evocativa de Roky Erickson, uma das figuras assumidas como tutelares pela banda. O mesmo que algumas reedições recuperam na inclusão de uma longa e luminosa versão de "Rollercoaster", dos seus 13th Floor Elevators. Outro dos renegados da causa rock citados (os S3 eram uma banda reverencial às suas fontes inspiradoras, com já deu para perceber) é Mayo Thompson, personagem omnipresente no espectro marginal da música popular dos últimos 40 anos, através de uma versão de "Transparent Radiation" (dos Red Crayola), aqui fundida com o intro de "Ecsatasy Symphony". A dupla de temas siameses, semi-sinfonia para guitarra acústica e secção de cordas de efeito mesmerizante, é inclusive a peça central deste disco que se inicia em efusão delirante ("...Other Side"), relata passeios de amena cavaqueira com o Filho do Criador ("Walkin' With Jesus", "Ode To Street Hassle"), e termina em sobredose tóxica ("Call The Doctor").
Juntamente com Playing With Fire, e volvidos que estão mais de 20 anos desde a edição de ambos, ...Prescription está mais na ordem do dia que nunca, com a sua presença a diluir-se em muitas das mais estimulantes expressões musicais deste início de século: desde o contingente drone, passando pelas diferentes correntes abstraccionistas, até aos novos praticantes do psicadelismo.


"Ecstasy Symphony / Transparent Radiation"


"Take Me To The Other Side"


"Ode To Street Hassle"

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Ao vivo #31



















Sonic Boom/Spectrum @ Museu Nacional de Arte Contemporânea, 26/11/2008


Com um pequeno desvio relativamente à hora inicialmente prevista, Peter Kember, o homem que, ainda adolescente, adoptou o pseudónimo de Sonic Boom como metade criativa dos superlativos Spacemen 3, aproxima-se da mesa onde estão dispostas a ferramentas de "trabalho": teclados diminutos, samplers, e uma série de maquinaria vária da qual desconheço o nome. Contrariando o meu prognóstico inicial, a sala está apinhada. Após as saudações da praxe, e algo timidamente, Kember dirigi-se ao público para anunciar que o primeiro tema é dedicado a Mary Hansen. O tema em questão é um instrumental de progressões em espiral que podia fazer parte do compêndio dos Stereolab, a banda de que a homenageada fez parte até ao súbito falecimento em 2002. As 3/4 peças que se seguem são longos mantras com intromissões de ruído metálico. Quando já estamos irremediavelmente enredados na teia e prestes a subir à troposfera, os lamentos esporádicos provindos da voz - ecoada, como seria de esperar - trazem-nos de volta ao solo. Depois de uma curta pausa para satisfazer as necessidades de nicotina (soube-se depois), Kember pega na guitarra e ataca uma versão descarnada de "Transparent Radiation", numa longa viagem até 1987, ano da edição de The Perfect Prescription, um dos clássicos da banda que lhe deu fama. Na sequência do momento mais "convencional" da noite, novo regresso às máquinas para um final solene ao som de "Then I Just Drifted Away". Novamente tímidos, os agradecimentos e as despedidas surgem abafados pela merecida ovação.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Explosões sónicas no Chiado

Peter Kember, também conhecido por Sonic Boom, foi em tempos uma das metades criativas dos Spacemen 3. Com o final daquela seminal banda, o ex-companheiro Jason Pierce construiu uma carreira de sucesso ao comando dos Spiritualized, conhecidos pelo pendor orquestral dos seus discos. Coube a Kember, na obscuridade, prosseguir a demanda aventureira daquela banda de Rugby nos dois projectos subsequentes: os Experimental Audio Research (ou E.A.R.), veículo de construção de paisagens sonoras com colaboradores como Kevin Shields, Eddie Prévost e Kevin Martin (a.k.a. The Bug); e os Spectrum, cultores de um certo hipnotismo drone na linha dos Spacemen 3.
Estes últimos, de quem não tínhamos notícias há mais de dez anos, anunciam para o final do corrente ano a edição de On The Wings Of Mercury, o quarto álbum de originais. Isto, alguns meses depois de um disco em colaboração com o célebre produtor Jim Dickinson (Big Star, The Replacements).
Ainda este mês, os Spectrum deslocam-se pela primeira vez a Portugal para dois concertos: dia 26 no Museu Nacional de Arte Contemporânea, vulgo Museu do Chiado, em Lisboa; e no dia seguinte no Theatro Circo. O primeiro destes acontecimentos contará, obviamente, com a presença deste que vos escreve.

Spectrum no MySpace

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

For all the fucked up children of the world #1

É quase um lugar-comum dizer-se que alegrias não fazem grandes canções. Sentimentos como a melancolia, a angústia, a raiva, ou a alienação, são, por norma, alimento para os temas que mais marcam quem os ouve. Alguns desses exemplares desfilarão por aqui nos próximos tempos.
A inauguração não poderia ser outra senão esta...

Spacemen 3 "Revolution" (Taang!, 1989)

domingo, 28 de janeiro de 2007

A REVOLUÇÃO

Well look out
Well I’m sick
I’m so sick
Of a lot of people
Tryin’ to tell me
What I can and can’t do
With my life
And I’m tired
I’m so tired
Of a lot of people
In a lot of high places
Don’t want you and me
To enjoy ourselves
Este pequeno pedaço de "poesia" irada vai, em jeito de desabafo, dirigida à imprensa musical publicada neste País. Fala-se sempre das mesmas coisas, criam-se fenómenos patéticos para servir os interesses não sei de quem, vive-se desfasado do momento presente...
A melhor forma de fazer a Revolução é não comprar qualquer publicação. É o que eu faço há já várias semanas. E não me tem feito falta nenhuma!