"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Singles Bar #72








SCRITTI POLITTI
The 'Sweetest Girl'
[Rough Trade, 1981]




No caldeirão do post-punk, e embora não sejam das propostas musicalmente mais radicais, os Scritti Politti, são, seguramente, uma das bandas com uma agenda política mais inflexível. Green Gartside, o mentor e líder incontestado, era (e ainda é) um simpatizante dos ideais de esquerda, imiscuídos com alguns conceitos do situacionismo retirados da leitura constante de literatura panfletária com uma avidez que só acontece nas idades mais jovens. A própria banda chegou a viver em espécies em comunas, nas quais muitas vezes eram esquecidas necessidades básicas de sobrevivência como comer ou dormir.

Um dia, e sem abdicar das crenças ideológicas, Gartside fartou-se da miséria e decidiu que queria ser rico e famoso. Apaixonou-se pela soul e por outras expressões da música negra e iniciou a sofisticação de alguma pop britânica de oitentas, "movimento" que conheceria o apogeu em meados da década. A primeira manifestação desta nova atitude foi The 'Sweetest Girl', single cujo tema-título ousava ser uma canção de amor, e daquelas com todos os condimentos de lamechice do género. Mas é também uma autêntica revolução pop, com o ritmo de quase reggae desacelerado e quebrado nas intromissões do piano de Robert Wyatt, o amigo convidado também da ala esquerda. A voz de Green, essa é a matriz para toda a blue-eyed soul que lhe haveria de suceder. Igualmente seguidor deste novo modus operandi, com coros soul femininos incluídos, o lado B "Lions After Slumber" retém ainda alguns resquícios da radicalidade de outrora. Mais anguloso, por oposição a lazeira lasciva do tema principal, tem ainda a particularidade de não ter refrão, reduzindo a letra a seis minutos de statements do género "my qualquer-coisa".


"The 'Sweetest Girl'"


"Lions After Slumber"

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Discos pe(r)didos #33


















SCRITTI POLITTI

White Bread Black Beer
[Rough Trade, 2006]

Imagino que, por esta altura, muitos dos meus confrades se debatam com a árdua tarefa de escolher os melhores discos da década prestes a findar. Como não me vou prestar a tal esforço, proponho algo de diferente com a recuperação de um dos grandes discos esquecidos desta mesma década, daqueles que dificilmente constarão de qualquer lista, precisamente o único álbum editado sob a marca registada Scritti Politti nos últimos dez anos.
Fundados na cidade inglesa de Leeds em 1978, os Scritti Politti consistem hoje em nada mais que o alter ego do seu mentor: o galês Green Gartside. Daqueles primeiros tempos libertários do pós-punk orientados sob um restrito manifesto marxista, que incluía viver numa comuna em condições precárias, resta actualmente apenas a memória. Farto da vida miserável que lhe ia custando a vida, e com a rendição às várias expressões da música negra, Green decidiu-se por almejar o sucesso. Para tal, desenvolveu uma fórmula pop elegante e sensível. Como consequência, durante a década de 1980, tornou-se figura de adoração junto de uma vasta franja de um certo público adulto, letrado e sofisticado. Na década seguinte e até aos dias de hoje, com as escassas edições discográficas e as raríssimas aparições em palco, o nome Scritti Politti é sinónimo de um culto restrito a um diminuto número de melómanos esclarecidos.
Embora resultado de gravações caseiras, nas quais a guitarra, a voz aveludada de Green e uma dose moderada de sons sintetizados constituem os ingredientes quase exclusivos, este White Bread Black Beer continua a exibir afincadamente a marca autoral do nosso white soul boy: uma produção cuidada e opulenta a transpirar charme por todos os poros. Sendo a soul branca de alto teor de sacarina ("The Boom Boom Bap", "Throw", "Road To No Regret") a receita básica, os temas de maior pendor sintético ("After Six", "E Eleventh Nuts", "Mrs. Hughes"), tal como anteriormente aflorado pelos esquecidos Pigeonhed, recuperam o funk futurista e inigualável do Prince da melhor safra. Mas, se o pequeno génio de Minneapolis é todo ele lascívia, imagina-se o nosso bom Green como amante monogâmico e dedicado ao alvo dos seus afectos.
Entregue a temáticas mais triviais na canção pop, não se pense que Green Gartside deixou de lado os ideiais políticos que nortearam a sua juventude. Em White Bread... são diversas as referências "esquerdistas" camufladas pelo clima de mel dominante: o desejo expresso de um estado republicano à mistura com metáforas culinário-amorosas ("Cooking"), o recado aos senhores governantes desta aldeia global sob a forma de declaração de amor ("Petrococadollar"), ou a distribuição mais justa da riqueza comparada à partilha numa relação a dois ("Robin Hood").
Dias de chuva e vento como o de hoje, em que não apetece nada sair de casa, pedem luz suave, boa companhia, e Scritti Politti...


"Throw"


"After Six"

segunda-feira, 18 de junho de 2007

A BÍBLIA DE GREEN

No seguimento do comentário de um estimado camarada bloguista a propósito de um post recente, esclareço que não tenho qualquer animosidade contida em relação aos Arcade Fire. Quem me conhece sabe que fui um entusiasta da banda canadiana desde que Funeral me chegou aos ouvidos, já lá vão dois anos e meio. No entanto, e como ninguém é perfeito, acho que Neon Bible é mesmo muito fraco (eu fiz um esforço para gostar, acreditem). E também acho que só mereceu tamanho destaque por vir de onde vem.

Segundo um post publicado pelo grande Simon Reynolds, Green Gartside, o galês que há quase trinta anos dirige de forma intermitente os desígnios dos Scritti Politti (ainda no ano passado, perante a indiferença geral, editaram o mui recomendável White Bread, Black Beer), traduz de forma perfeita a minha opinião acerca de Neon Bible. Passo a citar:

People who enjoy this album may think I'm cloth-eared and unperceptive, and I accept it's the result of my personal shortcomings, but what I hear in Arcade Fire is an agglomeration of mannerisms, cliches and devices. I find it solidly unattractive, texturally nasty, a bit harmonically and melodically dull, bombastic and melodramatic, and the rhythms are pedestrian. It's monotonous in its textures and in the old-fashioned, nasty, clunky 80s rhythms and eighth-note basslines. It isn't, as people are suggesting, richly rewarding and inventive. The melodies stick too closely to the chord changes. Win Butler's voice uses certain stylistic devices - it goes wobbly and shouty, then whispery - and I guess people like wobbly and shouty going to whispery, they think it signifies real feeling. It's some people's idea of unmediated emotion. I can imagine Jeremy Clarkson liking it; it's for people in cars. It's rather flat and unlovely. The album and the response to it represent a bunch of beliefs about expression and truth that I don't share. The battle against unreconstructed rock music continues.

NOTA: A citação transcrita acima faz parte de uma série de entrevistas levadas a cabo pelo jornalista Paul Lester para o jornal The Guardian. Na peça que podem ler na íntegra aqui, diversas personalidades do mundo da música são convidadas a fazer a sua apreciação de um disco que consideram sobrevalorizado. E digo-lhes que é, no mínimo, hilariante... principalmente quando são abordados discos que temos em boa conta.