quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Good cover versions #27









NIRVANA "Love Buzz" [Sub Pop, 1988]
(Original: Shocking Blue, 1969)

Em Haia, na Holanda, surgiram em finais da década de 1960 os Shocking Blue, uma banda alinhada com os sons da pop psicadélica que chegavam de São Francisco, em particular com os Jefferson Airplane, com os quais eram insistentemente comparados. Tinham até uma vocalista - Mariska Veres - cuja beleza exótica rivalizava com a de Grace Slick. Fora da terra natal, alcançaram sucesso considerável com "Venus", o mesmo tema que anos mais tarde daria a fama às Bananarama.
Deles é também o original daquele que viria a ser o primeiro single da então desconhecida banda do underground norte-americano que, poucos anos mais tarde, e para o bem e para o mal, mudaria para sempre a face da indústria musical. Estranho, no mínimo, se atentarmos que a América pós-hardcore era, por norma, avessa à imagética do flower power. Apesar das adaptações na letra para um intérprete masculino, os Nirvana mantêm a estrutura original de "Love Buzz" intacta. Contudo, a pulsão constante do baixo de Krist Novoselic e a voz alienada de Kurt Cobain são o bastante para radicalizar a versão. Já o interlúdio de sitar do original, é aqui suprimido e reduzido a um breve devaneio guitarrístico.
Há pouco tempo, em conversa com um conhecido que julgo musicalmente esclarecido e conhecedor da obra dos Nirvana, descobri que, à semelhança de muitas outras pessoas, ele desconhecia que "Love Buzz" não era um original dos Nirvana. Para que não restem dúvidas, hoje, e a título excepcional, apresentam-se versão e original.


Nirvana


Shocking Blue

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Discos pe(r)didos #31



















THE JESUS AND MARY CHAIN
Automatic [Blanco y Negro, 1989]

À data da sua edição original, Automatic cometeu a proeza pouco louvável de alienar boa parte do público e da crítica favoráveis aos Jesus and Mary Chain, eles que tinham adquirido o estatuto de seminais com Psychocandy (1985) e já tinham visto alguns ânimos refrearem-se com o sucessor Darklands (1987). Analisado com objectividade, este terceiro disco mais não é do que o passo natural a seguir àqueles dois, ou até mesmo a súmula de ambos, com o lado eruptivo do primeiro e o controlo de impulsos do segundo. Para esta reacção algo distanciada, terão contribuído, entre outros, três factores: i) a imersão no ideário e em sonoridades de proveniência norte-americana, elementos aos quais o público europeu dito "alternativo" era então pouco receptivo; ii) o elemento sintético que advém do facto de, à excepção do tema "Gimme Hell", todas as batidas terem origem numa caixa-de-ritmos, com os irmãos Reid a encarregarem-se dos restantes instrumentos, recorrendo, inclusive, a algumas linhas de baixo sintetizadas; iii) a escolha do explosivo e neurótico "Blues From A Gun" - imagine-se o clássico "20th Century Boy", dos T. Rex dilacerado por vagas de distorção - para single promocional , à rebelia da editora que escolhera o poppy "Halfway To Crazy", provavelmente o tema mais leve dos JAMC até à data se não existisse "Drop", também aqui incluído.
Porém, o tempo - esse justiceiro - encarregar-se-ia de enquadrar devidamente Automatic, um disco conciso e unidimensional que, não só esteve na vangurada do pendor dançante assumido pelo rock de finais de oitentas, mercê do recurso às tais batidas sintéticas, como antecipou a "invasão americana" de inícios de noventas. Rico em referências a drogas e a comportamentos transgressores em geral, tão recorrentes no léxico dos JAMC, Automatic deve ser apontado, a par dos seus antecessores, como o terceiro vértice do triângulo que tão bem define esta banda deveras carismática. Do seu alinhamento, facilmente se elege um punhado de temas para figurar na antologia da obra dos manos tumultuosos originais. Oiça-se, por exemplo, o inaugural "Here Comes Alice" que, movido por um groove monstruoso, exala sensualidade vestida de negro. Ou o faiscante "Coast To Coast", que sugere o paralelismo entre a deriva na estrada e as trips derivadas de substâncias ilícitas. Ou então o contundente "UV Ray", pura diversão assistida a químicos. Ou, por fim, o galopante "Head On", declaração de amor incondicional da qual os Pixies se apoderariam para uma avassaladora versão, eventualmente superior ao original.
Por ironia do destino, o tal single difícil é a matriz do "som JAMC" adoptada por inúmeros projectos contemporâneos - sobretudo nos Estados Unidos - que fazem da distorção e da electricidade as matérias-primas de eleição. Já os temas mais leves e, portanto, desenquadrados do restante alinhamento, serviram de prenúncio a Stoned & Dethroned (1994], o semi-falhado disco "acústico" dos JAMC.


"Here Comes Alice"


"Blues From A Gun"


"Head On"

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Amar e morrer em Manhattan
















Formaram-se em Leeds, no norte de Inglaterra, em 2006, e de então para cá renderam um álbum, meia dúzia de singles, uma extensa compilação retrospectiva, e um DVD, todos capazes de interessar aos amantes das melodias pop imersas em fuzz. Em Julho deste ano, amigavelmente e com o dever cumprido, decidiram pôr um ponto final na aventura The Manhattan Love Suicides. Agrupados aos pares, os seus membros seguiram caminhos separados: Caroline McChrystal (voz) e Darren Lockwood (guitarra) nos Aisla Craig, A.J. Miller (baixo) e Rachel Barker (bateria) nos The Medusa Snare. Além disso, os dois primeiros continuam a ocupar-se com a gestão da Squirrel Records, que edita todos os projectos. Em ambos os casos, há já obra gravada. Pelo que nos é dado a escutar, prossegue o tributo aos nomes que marcaram a era dourada do indie pop, desta feita com as referências a diversificarem-se além da Santíssima Trindade Mary Chain - Shop Assistants - The Primitives.

http://www.myspace.com/ailsacraigmusic

http://www.myspace.com/themedusasnare

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Em escuta #45 - Especial EPs







DEERHUNTER Rainwater Cassette Exchange [Kranky / 4AD, 2009]

Nas letras dos Deerhunter, e apesar de uma certa ambiguidade, há uma temática que parece recorrente: a tomada de consciência da mortalidade. Talvez seja por pressentirem que o tempo lhes escasseia que Bradford Cox e seus pares editam discos em catadupa, seja na banda principal, seja com os inúmeros projectos paralelos. O novo lote de cinco temas é o apêndice perfeito a Microcastle, o soberbo álbum do ano passado, ou seja, resquícios de garage, de dream pop, de shoegazing, de melodias beatlescas, de pop de câmara, e do mais que vier à rede, tudo congeminado numa sonoridade que não é de mais ninguém. Simultaneamente estranho e acolhedor, tal como o seu antecessor, Rainwater Cassette Exchange é um disco obrigatório. [8,5]


THE MARY ONETTES Dare [Labrador, 2009]

É certo e sabido que os suecos conhecem, como ninguém, a fórmula para criar canções imediatas e facilmente trauteáveis. Não menos certa é alguma incapacidade dos músicos daquele território escandinavo para criarem algo de original. No caso dos Mary Onettes, é obvia a ancoragem nas sonoridades melodramáticas que fizeram escola em meados da década de 1980. Desta feita, e em particular nos dois primeiros do trio de temas, deixam de lado algum negrume e limitam-se a reproduzir o dramatismo light que os noruegueses a-ha conseguiram fazer chegar às massas. Não faltam sequer os excessos da produção típica da época. Já no derradeiro "God Knows I Have Plans" cometem a proeza de citar milhentas bandas middle-of-the-road do mesmo período, poucas delas de boa memória. [6]


SUPERCHUNK Leaves In The Gutter [Merge, 2009]

Após um hiato considerável, dedicado a projectos paralelos e à gestão da cada vez mais gigantesca Merge Records, os Superchunk regressam para reclamar o ceptro do punk pop conquistado entre a primeira metade e meados da década passada. Aos primeiros arranhares da guitarra, seguidos da voz jovial do compincha Mac McCaughan, no inaugural "Learned To Surf" percebemos que a ausência serviu para refrescar ideias. No três temas seguintes, acentuam-se o picanço das guitarras rasgadinhas e aquela aura juvenil tão característica, com "Screw It Up" a traçar uma ligeira inflexão para territórios do power pop. Para o final, e em jeito de bónus, somos presenteados com uma belíssima versão acústica do primeiro tema que comprova que as melodias mais singelas podem ser as mais eficazes. [8]


THE DRUMS The Drums [bootleg, 2009]

Surf Pop made in NYC?! E porque não?! Com este jovem quarteto é possível invocar o espírito juvenil de um Brian Wilson e enquadrá-lo segundo as premissas da new wave, cortesia do recurso frequente aos teclados retro, outrora descritos como futuristas. Em escassos oito temas melodiosos que arrisco catalogar como intemporais, os The Drums conseguem um dos melhores elogios da adolescência registados em disco - fala-se de amizade, de miúdas, de praia, do escapismo do surf, de mais miúdas e das desilusões por elas causadas e, claro, de dúvida e incerteza. Ao derradeiro e subliminarmente inocente "Instruct Me" somos convidados a presenciar o cruzamento genético do citado Wilson com um tal de Black Francis. Estes miúdos estão fadados para altos vôos! Vai uma aposta? [8,5]


THE CAVALCADE Meet You In The Rain [edição de autor, 2009]

Da pequena e chuvosa cidade de Preston, no noroeste de Inglaterra, chegam-nos estes The Cavalcade, um quarteto apostado em preservar as melhores memórias do tempo em que o indie pop ainda se orgulhava de ser realmente independente. Embora citando descaradamente bandas The Field Mice e Felt, ou até os Smiths dos primórdios, o refinamento compositivo e o sentido melódico permitem-nos apreciar estes quatro temas como algo mais do que um produto derivativo, demarcando claramente os Cavalcade de muitos projectos contemporêneos a enveredar pelas mesmas sonoridades. Há por aqui romantismo melancólico em dose suficiente para seduzir os corações esternamente jovens e puros. [9]

domingo, 1 de Novembro de 2009

O último uivo do Lobo

ANTÓNIO SÉRGIO
1950-2009

"O histórico radialista António Sérgio, o homem que foi a voz do "Lobo", morreu hoje de madrugada, aos 59 anos. A notícia foi confirmada ao PÚBLICO por Luís Montez, dono da rádio para a qual trabalhava actualmente, a Radar FM. Segundo Montez, António Sérgio terá morrido na sequência de um ataque cardíaco." - in Público

Ouvi pela primeira vez este tema no mítico Som da Frente. É simplesmente uma das músicas da minha vida e, segundo sei, também da do António.


Ride
"Dreams Burn Down" [Creation, 1990]

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

R.I.P.


LIAM MAHER
1968-2009

Soube- o ontem mas já data do passado dia 20 de Outubro o desaparecimento, com apenas 41 anos, de Liam Maher. E quem foi Liam Maher? Muitos de vós decerto se lembrarão dele como frontman dos Flowered Up, uma das inúmeras bandas baggy que surgiram no Reino Unido após a aclamação popular dos Stone Roses e dos Happy Mondays. Na imprensa especializada, eram habitualmente descritos como uma versão cockney destes últimos. Após a curta carreira da banda, que cessou funções em 1994, as notícias sobre Maher resumem-se a boatos ligados ao consumo de drogas e a um eventual contrato assinado com a Poptones, a editora fundada por Alan McGee depois da extinção da Creation, o qual, até à data, não rendeu qualquer registo discográfico.
Com o estatuto de banda efémera e de segunda linha, os Flowered Up foram ainda assim capazes de criar um par de singles extremamente convidativos à dança em inícios da década passada. O primeiro dos quais, este:


"It's On" [Heavenly, 1990]

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Saúde para dar e vender















Da estreia homónima dos HEALTH, editada há coisa de dois anos, retenho muito pouco: noise minimalista e abstracto, semi-electrónico e/ou semi-orgânico, na linha de um sem número de colectivos que proliferam no underground norte-americano. Já com o novíssimo Get Color o caso muda substancialmente de figura, ao ponto de este andar a rodar em modo repeat cá por casa.
Ao segundo longa-duração, e sem arriscar a abrasividade de outrora, o quarteto californiano deixa-se de esboços e investe fortemente no formato canção. Não canções lineares, segundo a ortodoxia pop, mas sim canções que recorrem aos processos desconstrutivistas em voga no Reino Unido post-punk. Não tanto pela estética, mas mais pelo modus operandi, é adequado pensar nos Public Image Ltd. quando se escuta Get Color. No entanto, a consciência é assaltada com maior intensidade pelo colossal Loveless, funcionando os HEALTH como uma espécie de negativo dos My Bloody Valentine. Ou seja, uns são pesadelo onde os outros eram sonho, uns são sombras onde os outros eram. O primeiro vídeo promocinal é igualmente merecedor de uns quantos visonamentos:


"Die Slow" [Lovepump United / City Slang, 2009]

sábado, 24 de Outubro de 2009

Strawberry fields forever














Os tempos mudam, as tendências musicais também, mas haverá sempre um lugar na terra onde um vasto contingente de resistentes continuará a ser porta-estandarte da pureza pop livre de artifícios. Esse lugar, como já terão adivinhado os mais perspicazes, é Glasgow na Escócia, cidade de onde nos chegam estes Strawberry Whiplash. Como qualquer colectivo indie em inícios de carreira, estão ainda a limar arestas em discos de pequeno formato. Até ao momento, têm em catálogo dois EPs, o último dos quais é Picture Pefect, acabadinho de editar com selo da Matinée Recordings. Lembram-nos a face mais fuzzy dos Lush dos primórdios, os Primitives pré-"Crash", ou uma lista de bandas ligadas à Sarah Records demasiado extensa para enumerar. Mas, mais do que referir as influências, é justo reconhecer à dupla a capacidade para criar melodias irresistivelmente catchy e intemporais. À semelhança da restante obra da banda, os quatro temas que compõem Picture Perfect podem ser escutados aqui.

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

10 anos é muito tempo #17



















...AND YOU WILL KNOW US BY THE TRAIL OF DEAD
Madonna [Merge, 1999]

Por alturas da edição do segundo disco da banda que, como pretendido, ficou conhecida por Trail of Dead, Everett True afirmou que, com o definhamento dos Sonic Youth e a latência dos Fugazi, alguém tinha que destilar a raiva e ser o municiador da explosão sónica com camadas de guitarras em fusão. Depois de se penetrar na densidade textural de Madonna (dispensam-se as interpretações marotas), não há como negar a razão àquele influente divulgador da "cena" independente. Efectivamente, o combo texano consegue, com frescura e vivacide, captar simultaneamente o experimentalismo "acessível" dos primeiros e a alienação militante dos segundos.
Após um breve trecho de abertura, somos confrontados com a vertigem furiosa de "Mistakes And Regrets". Ainda que metade das palavras berradas por Conrad Kelly sejam imperceptíveis, facilmente adivinhamos sentimentos pouco amistosos para com o destinatário. A velocidade mantém-se no vermelho nos dois temas seguintes, exemplarmente movidos pela bateria marcial. No ritmo quase-valsa do belíssimo "Clair De Lune" é concedida uma trégua ao ouvinte. A partir deste ponto, Madonna entra num estado de semi-ebulição no qual se pressente um crescendo de tensão. Nesta secção intermédia destaca-se "Mark David Chapman", clara alusão aos tais Sonic Youth do período que compreende EVOL e Sister. Nesta tema, a partir da referência ao assassino de John Lennon, os Trail of Dead reflectem sobre a influência da música na vida das pessoas. Já perto do final, o reboliço catártico atinge novo pico com "A Perfect Teenhood". No melhor espírito juvenil, este tema culmina na repetição exaustiva a plenos pulmões de um expressivo "fuck you!" ao qual se segue o caos ruidoso.
Três anos volvidos, os Trail of Dead aprimoraram a fórmula com o superlativo Source Tags & Codes. Daí em diante, o declínio tem sido gradual, em relação de proporcionalidade com as referências prog e a espiritualidades ancestrais.


"Mistakes And Regrets"

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

A fond farwell














Ainda sob o signo do post anterior, e por lembrança do "vizinho" Olavo, gostava de assinalar sexto aniversário da morte de Elliott Smith, o maior e mais atormentado cantautor que a América revelou nas últimas duas décadas. Para assinalar tão triste data poderia ter escolhido o tema que dá título a este post, tal como muito apropriadamente fez aquele camarada. Em alternativa, poderia escolher "Miss Misery", tema que diz muito sobre a curta - de 34 anos - existência de Smith e aquele que lhe valeu o momento de maior exposição mediática: a interpretação na cerimónia dos Óscares de 1998. No entanto, opto pelo primeiro tema que lhe conheci, precisamente aquele que abre o álbum Either/Or, o meu preferido de uma obra ímpar.


"Speed Trials" [Kill Rock Stars, 1997]

R.I.P.


JIM CARROLL
[1949-2009]

O dia 11 de Setembro é já uma data histórica pelos acontecimentos que todos conhecem. O deste ano fica também marcado pelo desaparecimento de Jim Carroll, artista multidisciplinar nova-iorquino com obra em áreas como a escrita, o spoken word, e a música. O seu trabalho mais afamado será, seguramente, The Basketball Diaries, livro de memórias que relata parcialmente a vida deste artista singular, desde a afirmação como jovem prodígio do basquetebol, até à luta contra a dependência das drogas que lograria vencer. Muitos conhecerão a adaptação cinematográfica que contou com Leonardo Di Caprio no papel do autor.
Ainda jovem, Carroll afirmou-se junto da comunidade artística "alternativa" norte-americana, privando e/ou recebendo a aprovação de notáveis como Kerouac, Burroughs, Bukowski, Ginsberg, Warhol, Mapplethorpe, Annie Leibovitz, ou Patti Smith. Com o incentivo desta última, que se lhe referia como "o melhor poeta da sua geração", aventurou-se numa carreira musical que renderia cinco álbuns. Do conjunto, recomenda-se vivamente a estreia de título genérico Catholic Boy, composta por dez temas / crónicas-de-rua de um rock descarnado em clara reverência a outros ilustres cidadãos da Big Apple, tais como Lou Reed, Tom Verlaine, ou Richard Hell. Segue um par de evidências:


"People Who Died"
[Atlantic, 1980]


"It's Too Late"
[Atlantic, 1980]

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Straight from the Hart















Nos idos de 1980, Grant Hart ficou conhecido como uma das metades criativa dos Hüsker Dü, tarefa que, tal como as vozes, dividia com Bob Mould. O relacionamento tempestuoso com este, em parte derivado da adicção à heroína, ditaria uma fim abrupto em 1987, deixando a sensação que algo ficara por contar. De então para cá, e enquanto Mould obteve significativo reconhecimento, tanto a solo como com os Sugar, Hart tem mantido uma carreira intermitente e errática. Nos últimos vinte anos, conhecem-se-lhe dois álbuns de originais, outros tantos EPs, e mais um par de registos longa-duração com os Nova Mob. Nos últimos anos, recuperado da dependência, tem servido como voluntário junto de aviadores veteranos. Ainda assim, arranjou tempo para gravar Hot Wax, álbum que acaba de ser lançado com alguma discrição e que interrompe um jejum longo de dez anos. A produção ficou a cargo do ex-Arcade Fire Howard Bilerman e, entre os colaboradores contam-se músicos ligados aos Godspeed You! Black Emperor. Pela singela amostra disponível no MySpace, somos levados a crer que quem sabe nunca esquece...

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Good cover versions #26









BUTTHOLE SURFERS "American Woman" [Touch and Go, 1986]
[Original: The Guess Who (1970)]

Os canadianos The Guess Who são o caso típico da one hit wonder. Praticantes de um southern rock muito em voga em inícios da década de 1970, tiveram o mérito de serem os primeiros artistas canadianos a atingir o lugar cimeiro do top em terras do Tio Sam. Apesar do sucesso massivo, o facto de serem estrangeiros não os livrou de serem acusados de chauvinismo pelo modo como se dirigiam à "mulher americana". No fundo, os rapazes mais não eram do que solidários com essas mulheres que viam partir os seus mancebos para uma guerra sangrenta e sem sentido no extremo oriente.
Nas mãos dos texanos Butthole Surfers (BH), um dos mais subversivos colectivos da história da música popular, é de esperar que "American Woman" sofra uma transformação radical. Exercício de puro experimentalismo desconstrutivista, a versão dos BH é movida por uma percussão demolidora, marca identitária da banda que, à data, contava com dois bateristas. Nas guinadas desconexas da guitarra e na voz vocodorizada e imperceptível de Gibby Haynes subjaz a demência derivada do consumo continuado de substâncias psicotrópicas. Comparativamente, a bem conhecida versão de um tal de Lenny não passa de puro saudosismo com o intuito de recolher dividendos.
Facto histórico: produzida por Kramer, figura proeminente da música independente norte-americana e membro temporário dos BH, "American Woman" foi o primeiro tema registado no Noise New York, estúdio então recém inaugurado por aquele.

sábado, 17 de Outubro de 2009

Será que a Nadia aprova?















Foto: Holy Lucas

Já aqui fiz várias referências às interessantes actividades levadas a cabo no underground musical britânico, contrastantes com o marasmo que se vive na produção mais mediática. Hoje, para acrescentar ao rol de bandas anteriormente apresentadas, gostava de vos falar do Comanechi, um duo anglo-nipónico com quartel-general em Londres e que, em certa medida, é solução para as saudades dos Yeah Yeah Yeahs dos primórdios. Com efeito, a dupla usa como armas uma atitude punk desempoeirada e uma série de riffs contunentes que os Black Sabbath não desdenhariam. Refira-se ainda que, a menina Akiko Matsuura, normalmente vista em palco com os mui celebrados The Big Pink, tem uma verborreia capaz de ombrear com uma Karen O mais cachopa. Por enquanto, as edições resumem-se a alguns discos de pequeno formato e escassa tiragem que têm merecido o alto patrocínio das lojas Rough Trade. Lá mais para o fim o do ano prestam-se à prova de fogo com Crime Of Love, álbum com selo da Merok Records, propriedade de um dos elementos dos referidos Big Pink.

http://www.myspace.com/comanechi

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

Lights & Music















Aquando da primeira passagem pelo planeta, em inícios da década de 1980, os Mission of Burma (MoB) foram porta-estandartes do espírito reinante no período post-punk em solo norte-americano. Um pouco à semelhança dos Wire e dos Gang of Four do lado de cá do Atlântico, esta banda de Boston imprimiu às premissas rebeldes inerentes ao punk um ambicioso sentido artístico. Cessaram funções, sem glória, em 1983, deixando gravados apenas um EP e um álbum. Contudo, esta escassa obra viria a reverlar-se extremamente influente na facção mais desalinhada do rock made in USA de então para cá. Desde o reaparecimento em 2002, e desde a passada semana, contam já com três discos de longa-duração no currículo. Com a marca do produtor Bob Weston (dos Shellac e agora também o "quarto" MoB) patente na clareza com que cada instrumento é captado, a audição de The Sound The Speed The Light transporta-nos quase fisicamente para o estúdio. Composto por quatro suites de três temas cada - não, os MoB ainda não se renderam ao progressivo -, o disco alterna momentos da típica rispidez directa com outros de maior acalmia. Nesta última vertente, fica evidente um aprumo técnico apreendido em décdas de experiência. Concluindo, diria que The Sound... poderá não exibir a aura de inovação dos primeiros trabalhos dos MoB. No entanto, tem garra suficiente para causar a inveja de muitos neófitos.

http://www.myspace.com/missionofburma

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

Singles Bar #36




















TEENAGE FANCLUB
The Concept [Creation, 1991]

"She wears denim wherever she goes
Says she's gonna get some records by the Status Quo
Oh yeah...Oh yeah...

Still she won't be forced against her will
Says she don't do drugs but she does the pill
Oh yeah...Oh yeah...

I didn't want to hurt you oh yeah...
I didn't want to hurt you oh yeah..."

Bandwagonesque, o álbum que firmou os Teenage Fanclub como uma das mais relevantes bandas da década de 1990, abre precisamente com o tema que pode ser visto como o paradigma da sonoridade deste colectivo escocês: um bem sucedido cruzamento do power pop do primeiro disco dos Big Star com as harmonias vocais beatlescas, devidamente condimentado com uma generosa dose de distorção, ao bom estilo nineties. Facto pouco comum em temas extensos, é que, nos seus mais de seis minutos de duração, "The Concept" tem um invulgar apelo pop, tanto na melodia eficazmente catchy, como nas inanidades juvenis da letra. Composta por dois segmentos distintos, um primeiro mais ortodoxo e cantado, um segundo semi-instrumental pontuado por sons onomatopaicos, "The Concept" não desperdiça sequer um dos seus 367 segundos. Na sua segunda parte, estabelece maiores afinidades com os Nirvana que qualquer um dos combos de Seattle normalmente associados ao grunge.
Agora que a "Polícia do Tubo" vo-lo permite, aproveitem para ver e ouvir "The Concept" na sua versão encurtada todas as vezes que vos apetecer.


segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Se 10 anos é muito tempo, 25 anos é uma eternidade


THE REPLACEMENTS
Let It Be

[Twin/Tone, 1984]

O April Skies não poderia deixar passar em claro o quarto de século desde a edição de Let It Be, obra seminal dos Replacements, banda filha da mesma Minneapolis que pariu os Hüsker Dü, seus contemporâneos e "rivais". Tão icónica quanto a imagem que ilustra a capa, a música contida em Let It Be, como poucas, deixou descendências nos mais variados quadrantes, seja a facção hard-rock/hair-metal da segunda metade de oitentas, seja o contigente grunge que lhe sucedeu, seja ainda uma boa parte da legião altern-rock ianque de noventas.
Nascidos em berço hardcore, os Replacements tinham nos genes características que os distinguiam dos seus pares, tais como um certo enraizamento na tradição musical norte-americana, ou a propensão para o consumo pouco moderado de bebidas alcoólicas, o que, normalmente, resultava em concertos caóticos. Terá sido, inclusive, esta negação das regras que terá sabotado os planos dos Mats - como eram carinhosamente tratados pelos seguidores - de uma eventual escalada no ascensor do estrelato. Em todo o caso, neste quarto álbum de originais (e numa boa parte dos que lhe seguiram) vislumbra-se uma banda menos apostada em tocar rápido e furiosamente, mas mais preocupada em criar canções envolventes, emocionais e ambiciosas, que tanto resultam no isolamento de um quarto como nas maiores arenas rock. Sem abdicar em absoluto com a sua genealogia punk, os Mats oferecem em Let It Be um conjunto de canções que flirtam sem quaisquer preconceitos com o hard-rock e o rock tradicional de raízes blues. Em Paul Westerberg revela-se um dos mais dotados escritores de canções que música popular conheceu desde então, autor de hinos intemporais como os que se apresentam:


"I Will Dare"


"Unsatisfied"


"Sixteen Blue"

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

Duetos #12

Nos dias que correm, já poucos se lembrarão dos Space, um colectivo de Liverpool que conheceu algum sucesso no período de declínio (ou massificação, como preferirem) da britpop. Serão certamente mais os que se lembram dos galeses Catatonia, se não pelas canções, pelo menos pela voz e o figurão da frontwoman Cerys Matthews. Os caminhos das duas bandas cruzaram-se neste que é um dos temas mais memoráveis das suas carreiras:


Space feat. Cerys Matthews "The Ballad Of Tom Jones" [Gut, 1998]

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

Discos pe(r)didos #30




















BEAT HAPPENING
Jamboree [K, 1988]

Quando comparado com a estreia homónima de 1985, um disco pioneiro do lo-fi e do chamado twee pop, o segundo álbum dos Beat Happening (BH) será visto como uma obra registada em alta-fidelidade. Produzido por Steve Fisk e elementos dos Screaming Trees (na altura uma banda a operar num espectro bem diferente daquele em que se tornaram conhecidos), Jamboree assinala o refinamento do conceito musical muito peculiar de Calvin Johnson, uma espécie de Jonathan Richman mais determinado. Operando a partir de Olympia, no noroeste dos Estados Unidos, Calvin era também o mentor da K Records, casa de acolhimento de uma série de projectos musicais de pop geeks apostados em cristalizar os desejos e as ânsias da adolescência. Kurt Cobain, confesso adepto da ingenuidade ao serviço da pop (não só dos BH, mas também de Daniel Johnston, dos Vaselines, dos Pastels, e dos Teenage Fanclub), era devoto ao ponto de tatuar o logotipo da K no braço.
"Bewitched", o tema que abre o disco, é guiado por uma malha circular de guitarra distorcida e desafinada. A batida é repetitiva e a voz errática de Calvin confessa desejos carnais. "In Between", cantado por Heather Lewis, o elemento feminino do trio que compreendia ainda Bret Lunsford, é exemplo acabado do melhor jangle pop. Mais à frente, "Drive Car Girl" segue idênticas premissas. O terceiro tema é "Indian Summer", simplesmente a pérola no repertório dos BH. Relata um piquenique num cemitério, tendo por protagonistas dois jovens amantes que sabem que este é o último encontro. A atmosfera, quase críptica, é criada por uma estranha combinação de referências a comida, sexo, e tragédia. Dean Wareham, que com os Luna gravou uma das muitas versões de que "Indian Summer" foi alvo, refere-se-lhe como 'o "Knocking On Heaven's Door" do indie'. "Hangman", "Crashing Through" e "Midnight A Go-Go" são temas balançados entre o surf rock e o punk pop. O tema-título é esplendor lo-fi, com a voz de Calvin, a discorrer sem pudor sobre as malandrices perpertadas por dois adolescentes fechados dentro de um armário, acompanhada por uma pandeireta tosca. Já "Ask Me", novamente na voz de Heather, é uma canção essencialmente a cappella. A forma falsamente ingénua como ela pergunta "Aren't you gonna ask me what I did today?" é de despertar a líbido de um moribundo. Nos acordes graves de "Cat Walk" recuperam-se memórias do primórdios do rock'n'roll na década de 1950. Para o final, "The This Many Boyfriends Club" é o paradigma da estética BH e verdadeiro teste ao ouvinte devoto. Gravado em registo live, apresenta um Calvin atonal a tecer juras de amor a uma rapariga supostamente pouco popular. Embora completamente desafinada, a voz denota a sinceridade que raramente encontramos em cantores mais dotados. Para além do ruído de fundo resultante das conversas da platéia, o acompanhamento consiste em sons avulsos sacados da seis cordas de uma guitarra - desafinada, obviamente.
Como se depreende do que atrás foi dito, e apesar da abordagem deliberadamente inocente, há toda uma pulsão erótica que emana de Jamboree. Gerard Cosloy, figura incontornável do panorama indie norte-americano que esteve ligado à fundação das editoras Homestead e Matador, vai ao ponto de o classificar nos seguintes termos: "the most sexually charged rock LP since some Bauhaus disc I forgot the name of(...)". E, tudo isto, em apenas 24 minutos... É obra!


"Indian Summer"


"In Between"


"Bewitched"

segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

Ao vivo #40














Fuck Buttons + Ninjas! @ Galeria Zé dos Bois, 01/10/2009

Antes de mais, gostava de saudar a atitude da direcção da ZdB em reduzir o número de bilhetes postos à venda para cada concerto, o que, em espectáculos esgotados como o da passada quinta-feira, não resolve em definitivo o problema do calor excessivo, mas melhora consideravelmente as condições de tão exígua sala.

Dos bristolianos Fuck Buttons sabe-se que são uma bem urdida mescla de electrónica leftfield, drone, noise, kraut, post-rock, psicadelismo, e o que mais vier à rede. Se o disco do ano passado era um exercício de transe induzido pela densidade textural e pela repetição, o novíssimo Tarot Sport é feito de sons mais líquidos e de um claro investimento nos ritmos vagamente dançáveis - cortesia do produtor Andrew Weatherall, supõe-se. Como se esperava, a parte de leão do concerto coube a este último, com os temas a surgirem transmutados em devaneios "pastilhados" reminiscentes de experiências dos excelsos Underworld. Se esta faceta teve o condão de por uma boa parte da plateia a dançar despreocupadamente, também causou alguma irritação na secção adepta das sonoridades mais extremas que, como é sabido, não prima pela abertura de espírito. Para estes - e também para os outros, porque menos preconceituosos - a compensão surgiu sob a forma dos monolíticos "Bright Tomorrow" e "Sweet Love For Planet Earth", em igual medida sugestões de paisagens idílicas e de cenários de devastação.

Antes da dupla britânica, o aquecimento ficou a cargo de Ninjas!, projecto nacional de Bruno Silva. Na curta prestação registam-se semelhanças estéticas com os protagonistas da noite, embora com inferior poder de envolvência. Nas vozes gravadas que surgem pelo meio das texturas densas, palpita uma indesejável aptência para o gótico.