"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel

terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

Turn back

 

Há coisa de dois anos, com o baixista Mickey Quinn a recuperar das graves mazelas de um insólito acidente (uma queda de uma janela de quarto de hotel em estado sonâmbulo), e com disco novo nas mãos, o vocalista/guitarrista Gaz Coombes e o baterista Danny Goofey decidiram saltar para os palcos travestidos de The Diamond Hoo Ha Men. Do repertório, rezavam as crónicas, faziam parte originais dos próprios Supergrass e um número considerável de versões de temas de outrém. A experiência foi de tal forma gratificante que a dupla decidiu prolongá-la, desta feita intitulando-se The HotRats e dedicando-se em exclusivo a tocar versões. Entretanto, a brincadeira assumiu contornos de seriedade e chegou agora aos discos com Turn Ons, uma dúzia de temas pertencentes à galeria dos clássicos registados em estúdio pelo consagrado Nigel Godrich. O conceito é em tudo idêntico ao de Pin Ups, disco de Bowie em 1973. Para além do alinhamento abaixo indicado, as sessões de gravação renderam ainda versões de "Drive My Car" (The Beatles), "West End Girls" (Pet Shop Boys) e "Mirror In The Bathroom" (The Beat).

  1. "I Can't Stand It" [Lou Reed / The Velvet Underground]
  2. "Big Sky" [The Kinks]
  3. "The Crystal Ship" [The Doors]
  4. "(You Gotta Fight) For Your Right (To Party!) [The Beastie Boys]
  5. "Damaged Goods" [Gang of Four]
  6. "Love Is The Drug" [Roxy Music]
  7. "Bike" [Pink Floyd]
  8. "Pump It Up" [Elvis Costello]
  9. "The Lovecats" [The Cure]
  10. "Queen Bitch" [David Bowie]
  11. "E.M.I." [Sex Pistols]
  12. "Up The Junction" [Squeeze]

"Damaged Goods" [G&D, 2010]

segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

Coisas pelas quais vale pouco viver

 
Mais de quatro anos depois da edição original do mui promissor Hearts And Unicorns, Annie Hardy, a Lolita que dá vida aos Giant Drag, regressa aos discos já na próxima semana. O novo registo, que interrompe um período de latência desde a partida do baterista Micah Calabrese, consiste num EP de quatro temas intitulado Swan Song. Este título, somado a mostras de algum desânimo por parte da vocalista/guitarrista, levam-me a especular sobre um hipotético fim do projecto. E diga-se, em abono da verdade, que, se a linha a seguir for a do hard rock "azeiteiro" da amostra abaixo, mais vale que a minha profecia se cumpra. Valha-nos o vídeo, ao nível daquilo a que os Giant Drag nos habituaram.


"Stuff To Live For" [Smash Hit, 2010]

domingo, 7 de Fevereiro de 2010

Mil imagens #1

Jason Pierce (Spiritualized) - Monte Etna, 2001
[Foto: Steve Gullick]

Singles Bar #41

 

ULTRA VIVID SCENE
Mercy Seat [4AD, 1989]

When I'm in the Mercy Seat I smile
And lay my weapons down
All I ask is for release
No matter what the cost

Menos celebrados que os Pixies ou os/as Throwing Muses, os Ultra Vivid Scene (UVS) são o terceiro vértice do triângulo que constitui a abertura das portas da 4AD às bandas norte-americanas, acontecimento determinate na mudança de azimutes por parte da editora londrina. Quando se fala em em UVS fala-se em Kurt Ralske, músico obcecado com a obra dos Velvet Underground e, durante a maior parte do tempo, único responsável pelo projecto. Se numa fase posterior a composição de Ralske se pautou por uma maior contenção, o primeiro álbum - homónimo - increve-se no grupo dos exploradores dos pedais de distorção que estiveram na génese do movimento shoegazing, clube que integra, entre outros, os Mary Chain, os Spacemen 3, os Loop, e os incontornáveis My Bloody Valentine. Efectivamenete, uma boa porção daquele registo de estreia, e em particular este "Mercy Seat", é percorrida por doses massivas de ruído combinado com melancolia lisérgica. Na letra, destaca-se o recurso a imagens e conceitos da fé cristã, algo tão recorrente na escrita de Ralske como a veia poética que roça o pretensiosismo. 
Vai um docinho para o primeiro a identificar o nerdezito caixa-de-óculos do vídeo promocional...

sábado, 6 de Fevereiro de 2010

First Exposure #5

















THE LANGLEY SISTERS

Formação: Gita, Rosie e Edie Langley (voz e multi-instrum.)
Origem: Londres, Inglaterra (UK)
Género(s): Pop retro, girl-groups, folk, vocal
Influências / Referências: Au Revoir Simone, Dr. John, The Shangri-Las, The Shirelles, Tom Waits


quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

10 anos é muito tempo #18

 

PRIMAL SCREAM
XTMNTR [Creation, 2000]

Se um certo figurão do meio pop-rock é habitualmente apelidado de camaleão, em virtude da capacidade para se reinventar, não existirá certamente epíteto que se ajuste às constantes transformações estéticas operadas pelos Primal Scream no decurso da sua já longa carreira. Nascidos como indie-poppers devotos dos Byrds e de outros percursores do chamado jangle, ameaçavam ficar a constituir nota de rodapé do género. Mas eis que surge o primeiro rasgo de génio sob a forma de Screamadelica (1991), celebração da cultura hedonista movida a ecstasy e disco determinante na conciliação das linguagens dance e rock. No injustiçado Give Out But Don't Give Up (1994) revisitavam o blues-rock carnal dos Stones da melhor safra.  Quando todos se debatiam com as tensões pré-milénio, os Primal Scream gravavam o incompreendido e desafiante Vanishing Point (1997), expiação dos demónios com o intuito de preservar a sanidade mental. Ultrapassado o fantasma do bug, insuflados de uma fúria raivosa, os Primal Scream decidem manifestar a  revolta e a incompreensão para com um mundo à beira do caos. O alinhamento político à esquerda aflorado em ocasiões anteriores é, em XTMNTR, assumido sem amarras, expresso não só nas palavras, cruas e agressivas, mas também no suporte musical, negro e violento. Quer isto dizer que, quando muitos se rendiam à inexpressividade da denominada "música papel-de-parede", os Primal Scream, avessos a comportamentos em manada, propunham um disco facilmante rotulável como uneasy-listening.
As honras de abertura de XTMNTR cabem ao explícito "Kill All Hippies", tentativa conseguida de injectar atitude à boçalidade big beat, com o intro e o outro a cargo de um voz infantil , o que confere um certo desafio trangressor. Sem  abdicar do elemento "electrónico", "Accelator" chama à linha da frente as guitarras prenhes de sujidade evocativa dos MC5. "Exterminator" e o derradeiro e narcótico "Shoot Speed / Kill Light" incorporam a motorika dos Neu! que conheceria outros desenvolvimentos na obra posterior dos Primal Scream. Aperentemente mais de acordo com as convenções, ambas as versões altamente enérgicas de "Swastika Eyes" partem de uma base house music para formular um incitamento ao motim na pista de dança. Normalmente possuída por uma espécie de letargia narcótica, a voz de Bobby Gillespie reveste-se de visceralidade  em "Pills", exercício próximo da militância hip-hop que não rejeita a verborreia típica com um cuspido e repetido "sick, fuck, fuck...". A fechar a primeira metade do alinhamento, "Blood Money" é um instrumental de apelo cinemático que se aventura por terrenos do free jazz e, novamente, do kraut. A partir daqui, XTMNTR concede alguma trégua aos ouvidos fustigados pela espiral cacofónica, oferecendo inclusive algum reconforto sob a forma de "Keep Your Dreams", transe apaziguador no comprimento de onda do ultra-clássico "Higher Than The Sun"
Erigido a partir de materiais aparentemente incompatíveis, XTRMNTR fica a dever a sua solidez à minúcia do trabalho congregador de Kevin Shields, responsável pelo tratamento das incontáveis camadas de guitarras que unem as pontas soltas e desbastam as farpas. Ao mago por detrás dos My Bloody Valentine é dada carta branca na revisitação de "If They Move Kill 'Em" (originalmente incluído em Vanishing Point), que corresponde com um mantra hipnótico à base de percussões aceleradas.
Aquando da sua edição, XTMNTR era anunciado como o último lançamento com chancela da Creation Records, já condenada à bancarrota depois de anos de gestão catastrófica por parte de Alan McGee, um visionário no que confere à descoberta de talentos, mas um desastre na área dos negócios. A este propósito, diga-se, foi uma despedida em beleza...


"Kill All Hippies"


"Exterminator"


"Shoot Speed / Kill Light"

terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

Good cover versions #32

 

HÜSKER DÜ "Eight Miles High" [SST, 1984]
[Original: The Byrds (1966)]

Aquando da sua edição original, devido a alegadas referências ao uso de drogas, "Eight Miles High" causou acesa discussão junto das alas mais conservadoras da sociedade norte-americana, ao ponto de chegar ser banida das rádios. Apesar do boicote, a polémica jogaria a favor dos Byrds, que viram um dos seus temas mais profundamente imersos no psicadelismo, com influências da música indiana e do jazz experimental, fazer uma improvável carreira nos tops de vendas. Na altura, a banda foi pronta a refutar tais acusações. Porém, anos mais tarde, tanto Gene Clark como David Crosby, confessaram que a letra fora baseada nas experiências com substâncias ilícitas vividas pelos próprios membros da banda.
Quase vinte anos mais tarde, os Hüsker Dü revisitam "Eight Miles High", e de novo o tema foi gerador de controvérsia. Desta feita, a ortodoxia hardcore dos seguidores mais fervorosos do trio de Minneapolis não aceitou de bom grado que os ídolos reinterpretassem hits de figuras associadas ao movimento hippie. O que os pobres coitados não sabiam, é que, pouco tempo volvido, os huskers estavam a confessar a sua paixão não só pela música dos Byrds, mas também de Dylan e dos Beatles, e até a gravar (sacrilégio!) discos duplos semi-conceptuais.Vistas bem as coisas, "Eight Miles High" até mantém bem vincadas as marcas registadas da sonoridade até aí praticada pelos Hüsker Dü, bem evidentes na velocidade alucinante das guitarras distorcidas e nas vocalizações alienadas de Bob Mould. Contudo, esta simples reinterpretação teve o condão de fazer ruir convenções sem qualquer sentido. E, mais importante, ganhou vida autónoma do original, feito conseguido por um número diminuto de versões.

segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

Forte Knox

 

Em finais da década de 1970, durante menos de dois anos, Chris Knox foi integrante dos Toy Love, dignos representantes do punk-rock em território neo-zelandês. Porém, o lugar nas enciclopédias pop seria assegurado pela próxima aventura musical: os Tall Dwarfs, estetas lo-fi com um estatuto de pioneiros no chamado kiwi-rock, associado de forma indelável à excelsa Flying Nun Records. Os conhecedores da  sua obra - tanto a solo como em grupo -, reconhecem-lhe a capacidade para criar canções (em quantidade e qualidade) de forte cunho pop, apesar das precárias condições de gravação. Esta intensa actividade criativa conheceria uma pausa em meados do ano passado, altura em que Knox sofreu um AVC. Para auxiliar na dispendiosa e difícil recuperação, um grupo de acólitos respondeu prontamente, gravando as 36 versões que se encontram reunidas em Stroke: Songs For Chris Knox, tributo em formato duplo incialmente disponível apenas na Nova Zelândia, mas a partir de 23 de Fevereiro com distribuição global via Merge Records. Além da presença em massa da elite indie-pop neozelandesa (The Chills, The Clean, The Verlaines, The Bats), Stroke conta ainda com a participação de um nada desprezível lote de devotos de outras norte-americanos. Entre eles, Yo La Tengo, Lambchop, AC Newman, Lou Barlow, Bonnie 'Prince' Billy, Bill Callahan, The Mountain Goats, Jeff Magnum, ou o malogrado Jay Reatard. 
Com a pré-encomenda do formato físico, a Merge oferece aos seus clientes a possiblidade de descarrregar de imediato a totalidade da obra em formato digital. Do que é que estão à espera?!


Tall Dwarfs "Nothing's Going To Happen" [Flying Nun, 1981]

quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

Em escuta #47









HOPE SANDOVAL & THE WARM INVENTIONS _ Through The Devil Softly [Netwerk, 2009]

Após o encerramento das actividades dos incensados Mazzy Star, a carreira de Hope Sandoval entrou em estado semi-latente, com aparições esporádicas em trabalhos alheios e raros discos em nome próprio. Este segundo álbum com os Warm Inventions (basicamente Colm O'Ciósig, baterista dos My Bloody Valentine) que aqui se aventura por outros instrumentos e também pela composição) interrompe um jejum de oito anos, mas vem assinalado pelas marcas identitárias que fizeram a fama desta menina-sereia, a um tempo capaz de encantar, a outro de assombrar. A toada é lenta, triste e desencantada. A música, revestida de elementos folksy de cores esbatidas, põe uma atenção especial a cada detalhe. Num primeiro contacto, Through The Devil... arrasta o ouvinte para um estado de letargia, para a posteriori revelar pérolas como o hiper-tenso, quase velvetiano, "For The Rest Of Your Life", ou o grandiloquente e dramático "Trouble". Para o fim, "Satellite" reserva a maior surpresa sob a forma de canção de embalar granulosa de efeito exasperante. [8]


ROWLAND S. HOWARD _ Pop Crimes [Liberation, 2009]

A vida de R. S. Howard, interrompida no passado dia 30 de Dezembro, foi mais um daqueles casos típicos do músico sobejamente talentoso que sabota qualquer hipótese de maior reconhecimento público. A conduta desregrada e os anos de depressão em muito contribuiram para que a carreira de um dos mais inovadores guitarristas da era pós-punk (nos Birthday Party, ao lado de Nick Cave) não tenha rendido mais que dois álbuns em nome próprio. Pop Crimes foi o último e, sabe-se agora, é uma espécie de epitáfio de um homem que pressente que o tempo lhe escasseia. Abre com "(I Now) A Girl Called Johnny", dueto de travo clássico com Jonnine Standish dos britânicos HTRK (leia-se Hate Rock) carregado da ambiguidade que remete para as parcerias de Lee Hazlewood e Nancy Sinatra. A versão hiper groovey de "Life's What You Make It" (Talk Talk), exemplarmente readaptada, é escolha que reforça o carácter resumo-de-uma-vida do disco. De resto, Pop Crimes oferece mais meia dúzia de temas, às vezes semi-baladas, às vezes semi-declamados, mas sempre prenhes de nostalgia, remorso e tensão. A voz seca, vagamente nasalada, confere a crueza própria dos poetas-músicos malditos. [7,5]


MOUNT EERIE _ Wind's Poem [P.W. Elverum & Sun Ltd.]

Mount Eerie é, de há uns anos a esta parte, o alter ego de Phil Elverum, personagem extremamente prolífica que os seguidores das musicalidades lo-fi reverenciam desde os tempos em que respondia pela nomenclatura The Microphones. No período que antecipou o lançamento de Wind's Poem especulou-se que este seria a incursão de Elverum pelos meandros do black metal. Efectivamente, uma boa parte dos temas do alinhamento caracterizam-se pela profusão de drones demolidores e arrastados. Porém, a passagem pelo filtro do retardador, a aparência doméstica da coisa, e a fragilidade da voz ,frustam qualquer prespectiva de aproximação à pretensa imponência do "género maldito". As faixas restantes são lamentos débeis ,carregados de profundo intimismo, com as electrónicas paisagísticas a espreitar aqui e ali. No conjunto, Wind's Poem é um longo mantra catalizador de cenários de devastação. Da terra queimada, Elverum ergue-se com o lirismo e espiritualidade que o título sugerem. [8,5]


TIMES NEW VIKING _ Born Again Revisited [Matador, 2009]

Depois da relativa aclamação de Rip It Off (2008), os Times New Viking poderiam ter optado por uma metamorfose estética por considerarem que a fórmula se havia esgotado. Não o fizeram, e isso significa que Born Again... repete a dose de guitarras rudes e órgãos desalinhados, debaixo dos quais se tentam erguer melodias inapelavelmente pop. Na chinfrineira sente-se o apego às regras ditadas pelos pioneiros do garage, nos esboços de canções o afecto pelas girl-groups de uma era próxima. No todo, estão implícitos os princípios básicos do lo-fi. Daqui se conclui que os TNV não são deste tempo. E também, que este tempo poderá não ser o deles se a breve trecho não adicionarem outros condimentos à receita. [7]

segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

Algo vai bem no Reino da Noruega



Se a vizinha Suécia é palco de um interessante revivalismo twee-pop, a Noruega, para além da infâmia black metal, é responsável por gerar várias bandas recuperadoras da sonoridades saturadas do shoegazing. É o caso destes I Was A King, veículo musical de Frode Strømstad inscrito na facção mais arejada do género. Mas nem só de shoegazing se faz a receita musical destes "ex-monarcas", pois o seu longa duração de estreia homónimo, lançado na terra natal há um ano e agora também com distribuição internacional, recorre também aos riffs monstruosos e dissonantes típicos dos Dinosaur Jr. e, mais amiúde, à luminosidade power-pop dos Big Star, tal como filtrada pelos Teenage Fanclub. Estes últimos são alvo de tributo triplo no tema que se apresenta mais abaixo: na sonoridade quase decalcada, na referência a um dos seus membros, e no recurso à "gralha  ortográfica"  reminiscente de "Neil Jung", tema já clássico da banda escocesa. Da lista de convidados de I Was A King fazem parte notáveis como Emil Nikolaisen (dos conterrâneos Serena-Maneesh, também co-produtor), Gary Olson (The Ladybug Transistor), Daniel Smith (Danielson), e Sufjan Stevens. Este último participa em nada menos que cinco temas e surpreende os incrédulos ao deixar de lado a sua faceta "xoninhas" bem conhecida, travestindo-se de rocker genuíno.


"Norman Bleik"
[Hype City, 2009]

domingo, 24 de Janeiro de 2010

Os dias do fim


Não se pode dizer que tenham sido particularmente produtivos os primeiros anos do novo século dos Eels, ou, melhor dizendo, de Mark Oliver Everett. Ultrapassados os dias do ócio, aquele que é também conhecido pelo singelo E parece agora atravessar um período em ritmo de hiper-actividade, difícil de acompanhar até pelo seguidor mais dedicado. Nesta lógica prolífica, pouco mais de meio ano volvido desde a edição do óptimo Hombre Lombo, surge End Times. Se a dúzia de canções que compunham aquele tinham por temática o desejo, o novíssimo disco debruça-se sobre o divórcio (do próprio E), o envelhecimento e a tomada de consciência da mortalidade.
Entra-se em End Times e, ainda não ultrapassado o primeiro terço dos temas, somos confrontados com baladas negras de voz cava ao estilo de Mark Lanegan, rock'n'roll primevo, baladas ébrias dignas de um Tom Waits vintage, e lamentos distorcidos que parecem saídos da linha de montagem de Mark Linkous. No que resta do disco, estas e outras referências diluem-se em várias canções frágeis de alto teor confessional e  até em raros momentos de catarse noise rock. Escusado será dizer que o cunho pessoal destas composições poderá causar no ouvinte, se não algum desconforto, uma curiosidade voyeur. Da aparente manta-de -retalhos estilística que é End Times resulta, inesperadamente, um trabalho deveras coeso, eventualmente a segunda obra-prima no currículo dos Eels depois do igualmente circunspecto Electro-Shock Blues (1998). O mood actual de Mr. E pode ser testemunhado (na íntegra) aqui.


"In My Younger Days" [Vagrant, 2009/2010]

sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010

First Exposure #4

















Foto: Jagabamba

FIRST AID KIT

Formação: Johanna Söderberg (voz, gtr); Klara Söderberg (voz, tcl)
Origem: Enskede, Estocolmo (SE)
Género(s): Indie-folk, freak-folk
Influências / Referências: Joanna Newsom, Fleet Foxes, Judee Sill, Azure Ray

http://www.myspace.com/thisisfirstaidkit

quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

Discos pe(r)didos #34


BLACK TAMBOURINE
Complete Recordings
[Slumberland, 1999]

Em finais da década de 1980, o universo indie norte-americano estava praticamente confinado às expressões descendentes da rebelião hardcore que haveriam de evoluir para a explosão "alternativa" de inícios da década seguinte. As excepções mais conhecidas eram os Galaxie 500 com a sua pop sonhadora em tons sépia, e o contigente twee-pop divulgado por Calvin Johnson através da K Records (com os seus Beat Happening incluídos). Banda bem menos conhecida - até porque de carreira extremamente breve - a contrariar este estado de coisas foram os Black Tambourine, o que não deixa de ser tão mais surpreendente quando temos em conta que este quarteto era originário de Washington, D.C., um dos bastiões hardcore. No curto espaço de tempo que estiveram activos (entre 1989 e 1991), reza a história que os Black Tambourine deram apenas quatro concertos. No mesmo período, deixaram registada uma escassa dezena de temas, sete deles incluídos nos dois singles editados, e os restantes espalhados por compilações. É precisamente este curto acervo que constitui o alinhamento de Complete Recordings, oportunamente lançado pela Slumberland Records, mesmo a tempo de anteceder o súbito revivalismo indie de travo british que tem assolado o território dos Estados Unidos. Movimento no qual, diga-se, esta editora tem tido um papel preponderante ao lançar bandas como Crystal Stilts e The Pains of Being Pure at Heart, só para citar algumas.
Efectivamente, toda a filiação musical dos Black Tambourine provêm de solo britânico, com especial enfoque no fuzz/dream pop do seminal Psychocandy e da mítica cassete NME C86 que lhe sucedeu. Por esta altura já se terá percebido que os Black Tambourine idolatravam bandas como The Jesus and Mary Chain e Shop Assistants, mas também, mais moderadamente, 14 Iced Bears e The Pastels. Por conseguinte, Complete Recordings está pejado de melodias pop cintilantes afogadas em generosas doses de ruído. Isso se percebe logo no inaugural "For Ex-Lovers Only", anunciado por uma muralha de feedback à qual se juntam uma bateria cavalgante a ecoar na wall of sound e a voz angelical de Pam Berry. Paradigma da sonoridade do quarteto é, eventualmente, "Black Car", uma semi-balada imersa em reverberação na qual a vocalista parece soar como alguém que sonha acordada. A óbvia referência aos heróis, concretamente aos Pastels na pessoa de Annabel "Aggi" Wright, fica a cargo de "Throw Aggi Of The Bridge", tema da melhor bublegum-pop e que constitui o momento mais electrizante de todo o alinhamento.
Derivado da falta de experiência da banda, como é óbvio, nem todos os temas constituem gemas pop do mesmo quilate dos citados. Alguns, inclusive, soam como boas ideias ainda em tosco que poderiam ter vindo a indicar pistas para um futuro que não ocorreu. É o caso de "We Can't Be Friends", exemplo da jovialidade pop que metade dos quatro Black Tambourine viria a desenvolver nos deliciosos Velocity Girl, banda igualmente lançada pela Slumberland que viria a obter algum reconhecimento com os dois primeiros do trio de álbuns lançados pela Sub Pop.


"Black Car"


"Throw Aggi Of The Bridge"

segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

Sound + Vision




Iggy Pop Bloody & Middle Finger Raised
[Los Angeles, 1974]

A imagem acima, retirada dos arquivos de Michael Ochs, faz parte da colecção Sonic Editions, iniciativa com a chancela das Rough Trade Shops. Ao todo, são vinte imagens icónicas da ala mais desalinhada do circo rock 'n'roll numa edição limitada a 250 exemplares. O preço de cada uma, com moldura incluída, cifra-se nas £ 89,00, qualquer coisa como € 99,00. Para estimular o espírito consumista, ou simplesmente a cobiça, dirijam-se aqui.

Objectos do desejo














Há coisa de trinta anos, Davey Henderson era o líder dos Fire Engines, colectivo post-punk de Edimburgo de carreira breve mas com forte impacto na angularidade de bandas como os Franz Ferdinand. De inícios da década de 1990 a 2004, deu voz a The Nectarine No. 9, banda que pouco dirá a muitos, mas uma verdadeira instituição para os mais versados em pop escocesa, grupo no qual, orgulhosamente, me incluo. Findo este projecto duradouro, Henderson grava agora a solo sob a designação The Sexual Objects, projecto que já rendeu uns quantos singles a fazer lembrar a contudência e o desalinho da banda que primeiro lhe deu fama. Para este ano, diz-se, há álbum na calha. A produção, pasme-se, ficará a cargo da dupla de compatriotas Boards of Canada.

http://www.myspace.com/thesexualobjectsmusic

sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010

O Evangelho manda punir



Com a esposa Mimi Parker entregue à guarda dos rebentos, nos períodos sabáticos dos Low, Alan Sparhawk aproveita para se divertir. Ainda há um mês, estes que a terra há-de comer o avistaram a horas, em locais, e em companhias pouco de acordo com a conduta de um elemento da comunidade mórmon. No que concerne a tarefas relativamente menos ociosas, Sparhawk dedica algum do seu tempo livre à criação musical nos Retribution Gospel Choir, projecto que partilha com o baixista Steve Garrington (também dos Low) e o baterista Eric Pollard. No debute homónimo de há dois anos, o trio propunha uma sonoridade rugosa com o volume no vermelho, por vezes a tanger as paisagens áridas do stoner rock, antagónica do recato slowcore que caracteriza os Low, dos quais preservavam a intensidade dramática. Pela amostra já disponível, o segundo tomo - singelamente intitulado 2 - agendado para finais deste mês via Sub Pop Records,  promete seguir o trilho do antecessor:


"Hide It Away"
[Sub Pop, 2010]

quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010

R.I.P.



JAY REATARD
[1980-2010]

Jimmy Lee Lindsey Jr., conhecido no meio musical por Jay Reatard, faleceu hoje, durante o sono. Apesar dos seus tenros 29 anos, tinha já uma extensa obra discográfica, quer a solo, quer nas inúmeras bandas arraçadas de punk rock de curta duração que integrou. Era, inclusive, um das apostas mais prolíficas e mais estimulantes da história recente da Matador Records. Uma das maiores proezas do seu currículo terá sido integrar o lote daqueles que já dividiram split singles com os Sonic Youth, uma prática habitual de os "mestres" mostrarem reconhecimento pelos talentos emergentes. Até ao momento, desconhecem-se as causas da sua morte. Honrá-lo é recordá-lo:


"It Ain't Gonna Save Me" [Matador, 2009]

terça-feira, 12 de Janeiro de 2010

Not that Scissor Sisters















Em 2001, com o primeiro longa duração, foram pioneiros na recuperação das linguagens post-punk que ainda ditam regras neste início de século, algo que levou críticos acéfalos a querer "vendê-los" como parte da então emergente praga electroclash. Para desfazer equívocos, o incompreendido e negro They Were Wrong, So We Drowned (2004) operam uma transformação radical, roçando as fronteiras do industrial e do puro devaneio experimental. Depois, a avidez da mudança levaria-os a exercício em volta da percussão que é Drum's Not Dead (2006), e até a flirts com a estrutura da canção pop, facção fuzz, no disco homónimo de 2007.
Em inícios de Março, os Liars regressam com Sisterworld, e fazem-se já apostas sobre o actual estádio evolutivo da banda. A ponta do véu é levantada por "Scissor" (mais abaixo), tema que nos remete para a caça às bruxas do mal amado segundo registo, com Angus Andrew, qual Nick Cave de outras eras, a assumir a sua faceta mais cavernosa antes da entrada em cena das guitarras fustigadoras. A pergunta é: será que é desta que os Liars assentam numa estética já explorada? Eu não estaria muito seguro de uma resposta afirmativa, mas...


"Scissor"
[Mute, 2010]

segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

Contra-corrente

















Como blogue actual que se preza, o April Skies não poderia deixar passar em claro o "acontecimento" do dia, ou quiçá do ano, em metade da blogosfera: o lançamento do novo disco dos Vampire Weekend, o segundo depois da estreia homónima que combinava as "africanices" de Paul Simon e dos Talking Heads com a atitude totó (mas sem o estilo) dos Orange Juice. Admito até que Vampire Weekend contivesse algumas ideias interessantes, mas nada que justificasse a elevação da banda nova-iorquina aos píncaros da inovação.
Quanto ao novo Contra, depois de várias escutas atentas, este que vos escreve divide-o em duas partes distintas:
- Uma primeira parte na qual os betinhos, munidos dos seus teclados Bontempi, invocam a memória do inenarrável Zé Figueiras da fase tirolesa. Estes primeiros temas são banda sonora indicada para bater palminhas e ensaiar algumas coreografias patetas;
- Na segunda metade, aposta-se em canções essencialmente mais contidas na excentricidade. Detectam-se algumas aproximações às linguagens dançantes desenvolvidas no último dos Franz Ferdinand, com resultados igualmente desapontantes. Aqui e ali, há também uma ou outra incursão pela grandiosidade de uns Last Shadow Puppets, mas faltam a Ezra Koenig 9/10 do talento de Alex Turner na nobre arte de escrever canções.
Convém ainda referir que, dispersas pelo disco, as linguagens musicais provenientes das Caraíbas ocupam algum do espaço que no registo prévio pertencia em exclusivo às tendências afro. Prevê-se pois que, em breve, muitos dos scenesters da nossa praça ocupem uma boa parte do seu tempo a vasculhar velhos discos de música tradicional da República Dominicana e do Haiti...

domingo, 10 de Janeiro de 2010

Good cover versions #31


GIANT DRAG "Wicked Game" [Kickball, 2005]
[Original: Chris Isaak (1989)]








Quando iniciou a carreira, em meados da década de 1980, Chris Isaak afirmou-se como um herdeiro directo da faceta mais baladeira de Elvis. David Lynch, um apaixonado dos clássicos rock de teor açucarado, não ficou indiferente à voz aveludada de Isaak, e incluiu canções deste na banda sonora do genial Blue Velvet. Porém, a carreira deste músico californiano só chegaria a patamares mais elevados quando o mesmo realizador fez de "Wicked Game" (em versão instrumental) o tema principal do filme Wild At Heart, o seu trabalho mais convencional e mais bem sucedido comercialmente. Verdade seja dita, as linhas voluptuosas da guitarra de "Wicked Game" casam na perfeição com as imagens carregadas de erotismo que Nicholas Cage e Laura Dern protagonizam.
Também californianos, os Giant Drag propõem uma abordagem deveras distinta a este tema, a milhas de distância do classicismo do original, numa versão recuperadora das guitarras explosivas de muito do indie rock norte-americano da década de 1990. Aproveitando o teor libidinoso de "Wicked Game", Annie Hardy, a menina malandra que dá voz aos Giant Drag, com aquela voz falsamente ingénua, é significativamente mais explícita do que Isaak. Para ter uma ideia mais precisa da perversão desta menina, recomenda-se o visionamento e/ou audição de algumas das muitas gravações de "Wicked Game"  em concerto existentes na net, todas elas merecedoras de uma introdução inspirada por parte desta nossa Lolita.