"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel

Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

Mixtape: Especial Mouco / April Skies - Nothing Left To Lose


Foto: Fugazi (Bert Queiroz)

1991 - The Year Punk Broke é já um verdadeiro chavão quando aplicado aos meandros da dita música alternativa norte-americana. Tudo porque, no ano em questão, um disco intitulado Nevermind irrompeu pelo mainstream adentro e trouxe o underground à superfície, algo impensável até então. Se o "fenómeno" é explicado habitualmente por um vago "a música certa no momento certo", atribuindo parte da responsabilidade ao acaso, o que é certo é que, nos anos que antecederam a ascensão dos Nirvana, centenas de bandas diminutas cruzaram os states de costa a costa, tocando em salas igualmente diminutas, para plateias diminutas, e sujeitando-se muitas vezes a condições de vida sub-humanas. Desde período preparatório poucas das bandas lograram beneficiar da abertura de portas propiciada por Nevermind, embora todas, em diferentes gradientes, tenham tido o seu impacto nos anos formativos do jovem Cobain.

Aproveitando a proximidade dos aniversários dos seus administradores, o Mouco e o April Skies juntam esforços, pelo segundo ano consecutivo, para mais uma iniciativa conjunta, na forma de uma compilação temática. Este ano, e à razão de dez escolhas por cabeça, conforme discriminado, traçamos um retrato a quatro mãos desse 80s american underground, semi-invisível mas na génese da última revolução musical digna de nota. Depois de descarregar a prenda, façam o favor de a escutar com o volume no máximo.


01. WIPERS _ "Nothing Left To Lose" (AS)
02. THE REPLACEMENTS _ "I Will Dare" (M)
03. BIG DIPPER _ "She's Fetching" (AS)
04. BUTTHOLE SURFERS _ "Human Cannonball" (AS)
05. MISSION OF BURMA _ "Academy Fight Song" (M)
06. BIG BLACK _ "Kerosene" (M)
07. PUSSY GALORE _ "Pig Sweat" (M)
08. HÜSKER DÜ _ "Could You Be The One?" (AS)
09. MINUTEMEN _ "Viet Nam" (M)
10. THE AFGHAN WHIGS _ "Retarded" (M)
11. SAVAGE REPUBLIC _ "Next To Nothing" (AS)
12. BLACK FLAG _ "My War" (M)
13. BITCH MAGNET _ "Joan Of Arc" (AS)
14. DINOSAUR JR. _ "Freak Scene" (M)
15. MEAT PUPPETS _ "Oh, Me" (AS)
16. BEAT HAPPENING _ "Cast A Shadow" (M)
17. GALAXIE 500 _ "When Will You Come Home" (M)
18. MY DAD IS DEAD _ "Too Far Gone" (AS)
19. FUGAZI _ "Give Me The Cure" (AS)
20. SCRAWL _ "I Feel Your Pain" (AS)

Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

Singles Bar #72








SCRITTI POLITTI
The 'Sweetest Girl'
[Rough Trade, 1981]




No caldeirão do post-punk, e embora não sejam das propostas musicalmente mais radicais, os Scritti Politti, são, seguramente, uma das bandas com uma agenda política mais inflexível. Green Gartside, o mentor e líder incontestado, era (e ainda é) um simpatizante dos ideais de esquerda, imiscuídos com alguns conceitos do situacionismo retirados da leitura constante de literatura panfletária com uma avidez que só acontece nas idades mais jovens. A própria banda chegou a viver em espécies em comunas, nas quais muitas vezes eram esquecidas necessidades básicas de sobrevivência como comer ou dormir.

Um dia, e sem abdicar das crenças ideológicas, Gartside fartou-se da miséria e decidiu que queria ser rico e famoso. Apaixonou-se pela soul e por outras expressões da música negra e iniciou a sofisticação de alguma pop britânica de oitentas, "movimento" que conheceria o apogeu em meados da década. A primeira manifestação desta nova atitude foi The 'Sweetest Girl', single cujo tema-título ousava ser uma canção de amor, e daquelas com todos os condimentos de lamechice do género. Mas é também uma autêntica revolução pop, com o ritmo de quase reggae desacelerado e quebrado nas intromissões do piano de Robert Wyatt, o amigo convidado também da ala esquerda. A voz de Green, essa é a matriz para toda a blue-eyed soul que lhe haveria de suceder. Igualmente seguidor deste novo modus operandi, com coros soul femininos incluídos, o lado B "Lions After Slumber" retém ainda alguns resquícios da radicalidade de outrora. Mais anguloso, por oposição a lazeira lasciva do tema principal, tem ainda a particularidade de não ter refrão, reduzindo a letra a seis minutos de statements do género "my qualquer-coisa".


"The 'Sweetest Girl'"


"Lions After Slumber"

Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

Façam soar as pandeiretas!
















Apesar do curto período de vida, e de nunca terem chegado sequer a gravar um álbum, os Black Tambourine têm o seu nome gravado a ouro no livro da música independente norte-americana. Foram, sem concorrência à altura, uma espécie de fundadores, em território dos states, de uma linguagem indie-pop em linha com as bandas adjacentes à C86 britânica. Amigos do fuzz, seguidores das bandas de miúdas ligadas a Phil Spector, e admiradores da simplicidade inane dos Ramones, tal qual os inspiradores The Pastels ou Shop Assistants, deixaram para a posteridade não mais que cerca de uma dezena de temas. Desde a extinção, em 1991, com alguns membros a transitar para os igualmente recomendáveis Velocity Girl, não pararam de surgir as bandas a reconhecer-lhes o papel tutelar, com especial incidência na última meia dúzia de anos, prolífera na recuperação destas sonoridades indie/twee/lo-fi (olá The Pains of Being Pure at Heart!, olá Vivian Girls, olá Dum Dum Girls!). 

Há coisa de dois anos, por alturas da reedição aumentada da compilação com a sua obra integral, o quarteto reuniu-se fugazmente para gravar um tema nela incluída, na circunstância uma versão de "Dream Baby Dream", dos Suicide. O encontro parece ter reacendido a velha chama, pois a banda acaba de anunciar o regresso para uma série de concertos, para já apenas planeados para a terra natal. Mas as boas notícias não ficam por aqui, pois como forma de financiar as deslocações, visto que já nem todos os membros residem na área de Washington, D.C., a banda prepara-se para editar OneTwoThreeFour, um EP em formato de duplo 7", recheado com quatro versões de originais dos adorados Ramones. Na lista de vozes convidadas incluem-se Rose Melberg e Dee Dee (Dum Dum Girls). Resta cruzar os dedos para que uma alma caridosa se lembre de os incluir no cartaz de certo e determinado festival europeu. Enquanto sonhamos acordados, let's look at the trailer! E depois recuemos uns bons vinte aninhos...

OneTwoThreeFour Radio Spot [Slumberland, 2012]

"For Ex-Lovers Only" [Slumberland, 1992]

Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

O vermelho e o negro














Há pouco mais de um ano, chegaram sem pré-aviso e irromperam ruidosamente, firmando-se desde logo como uma das propostas mais interessantes no quadrante de bandas actuais que fazem do shoegaze matéria de estudo. Na bagagem traziam Sports, um disco denso e de um negrume opressivo que disfarçava alguma tendência para a "baixa-fidelidade" com a clareza de intenções. Falamos, obviamente, dos Weekend, um trio de São Francisco que gerou devoção imediata neste pasquim virtual.

Dado o impacto que aquele disco teve neste que vos escreve, não posso deixar de me penitenciar por apenas agora, com quase meio ano de atraso, saber da existência de Red, um EP de cinco temas preparatório de um segundo álbum que se perfila no horizonte. A impressão que fica de audições repetidas é a de que, sem descaracterizar a personalidade da estreia, os Weekend vão desenvolvendo a sua peculiar linguagem musical. Isto quer dizer que toda a aura negra ficou intacta, não obstante o véu difuso que cobria os temas ter perdido toda a opacidade e permitir agora vislumbrar canções estruturadas de corpo inteiro. Oiça-se, por exemplo, o inaugural "Sweet Sixteen", que inicia com batida marcial e sons fantasmagóricos, mas evolui para um estado de contemplação próximo de uns Deerhunter, se estes fizessem mais uso abusivo dos pedais de efeitos. Ou então o sublime "Hazel", dream-noise-pop da melhor safra que põe os Weekend em condições de competir com muitos dos shoegazers originais. Para esta evolução muito contribuem as opções de gravação, fazendo com que, na mistura final, a voz de Shaun Durkan se imponha acima da barreira sónica. Só podem, portanto, ser altas as expectativas para o segundo álbum, depois desta meia dezena de temas que já me fizeram esquecer a semi-desilusão recente com os compinchas A Place To Bury Strangers.


"Hazel" [Slumberland, 2011]

Discos pe(r)didos #61








PERNICE BROTHERS
The World Won't End
[Ashmont, 2011]




Iniciado nas lides musicais como membro dos Scud Mountain Boys, banda pioneira do chamado alt-country, Joe Pernice, mudou radicalmente de azimutes quando formou os Pernice Brothers. Com esta nova banda, que justifica o nome por também incluir o irmão Bob, igualmente transferido dos SMB, leva já década e meia de dedicação a uma pop de recorte clássico com travo agridoce. Nesta empreitada, e apesar de o reconhecimento não extravasar uns quantos devotos, nos quais me incluo, merece figurar no panteão dos grandes artesãos de canções da América actual.

Depois da estreia auspiciosa com o delicioso Overcome By Happiness (1998), ninguém poderia prever ser Joe Pernice capaz de se superar ao segundo disco. Pelo caminho ficou um par de discos, um em nome próprio, outro como Chappaquiddick Skyline, apenas porque a obsessão pela perfeição do nosso escritor de canções não os considerou ao nível de puder ostentar a chancela Pernice Brothers. Sem desprimor para essas obras laterais, é imperativo afirmar que valeu a pena a espera, pois The World Won't End resulta como um dos mais louváveis compêndios pop, facção happy/sad, que o novo século gerou até à data. 

Envolto numa toada de tristeza enternecedora, The World Won't End não abre mão de uma certa dose de ironia, só possível graças à capacidade de Joe Pernice em conjugar as palavras. A título de exemplo, atente-se em "The Ballad Of Bjorn Borg", que usa a conhecida megalomania do ex-tenista sueco como analogia para o alheamento relativamente ao próximo comum em muitos casais. Ou então na ultra-refinada "Working Girls (Sunlight Shines)", que consegue incutir leveza num tema que fala de uma jovem que considera o suicídio como hipótese. Aqui também há que ter em conta a voz de Pernice, calorosa e afável, tal como o trabalho da banda, irrepreensível na criação das melodias mais luminosas e carregadas de sacarina. No mesmo comprimento de onda nos restantes temas, The World Won't End vai discorrendo os sentimentos mais indesejáveis sem grandes parcimónia. Tais como o remorso ("Our Time Has Passed"), a amargura ("7:30"), a descrença ("She Heightened Everything"), a depressão ("Cronulla Breakdown"), ou novamente o vislumbre do suicídio ("Bryte Side"). Na outra face da moeda, temas como "Let That Show" e "Shaken Baby", enaltecem, respectivamente, valores como a amizade e o amor incondicional.

Muitas vezes percorrido por um sentir soft-rock, por via do uso frequente de refinados arranjos e da elegância formal, The World Won't End firma-se indubitavelmente do lado do bom-gosto pela simplicidade dos processos. Sem qualquer tipo de adereço supérfluo, e com uma espécie de jangle-pop de arestas limadas, os Pernice Brothers privilegiam a eficácia melódica das canções com assinalável contenção, em desfavor das exibições de exagerado virtuosismo.


"Working Girls (Sunlight Shines)"


"7:30"


"Let That Show"

Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012

Sounds like teen spirit
















Se bem se lembram, Roddy Bottum era o exuberante teclista de dreadlocks dos Faith No More. De personagem com tal cadastro não seria expectável que estivesse na génese de uma banda como os Imperial Teen, representantes da expressão indie tout court em solo norte-americano, vai para mais de década e meia. Se na Europa a visibilidade do quarteto é diminuta, nos states natais, a mão cheia de álbuns editados em intervalos irregulares é o garante de um culto sólido e consideravelmente numeroso.

O mais recente lançamento é o novíssimo Feel The Sound, um disco imbuído de uma frescura pop tal que julgávamos impossível em músicos que há muito entraram na "ternura dos quarenta". Relativamente aos antecessores, o novo álbum lima algumas arestas e dá especial protagonismo aos teclados. Uma vez mais, a alternância de vozes boy/girl são a pedra de toque para o poder de sedução no conjunto de canções que fazem da melodia uma prioridade. Não é que o todo seja a oitava maravilha do mundo, mas é coisa para nos manter entretidos durante um par de semanas. E, quem sabe, digna de ser recuperada lá mais para a frente, quando chegar o tempo quente. Portanto, um bálsamo nestes tempos em que os outrora incensados The New Pornographers parecem ter guinado de vez.


"Runaway" [Merge, 2012]

Good cover versions #62
















HAPPY MONDAYS _ "Step On" [Factory, 1990]
[Original: John Kongos, como "He's Gonna Step On You Again" (1971)]

Do grupo dos principais países de expressão inglesa, a África do Sul será aquele que tem menor visibilidade em termos de sucessos musicais à escala global, o que constitui um paradoxo com a riqueza musical do continente africano. A tal facto não será alheio o (demasiado) longo período que o país viveu sob o jugo do apartheid, que redundaria num quase total isolamento do resto do mundo. Contudo, aquele que deverá ser o maior hit da pop sul-africana data precisamente do apogeu desse regime tenebroso. Pertence a John Kongos, um músico (branco) que, em inícios de setentas arrecadou alguma notoriedade nas principais tabelas de vendas, sobretudo graças a "He's Gonna Step On You Again", um tema a meio caminho entre as guitarradas pré-glam típicas da época e a herança musical africana. Esta última característica está bem patente nos loops de fitas pré-gravadas com batidas tribais, um truque de gravação raro à época mas não totalmente inédito.

Há muito afastado dos holofotes, Kongos não esperaria, de todo, ser trazido à ordem do dia em pleno fervor Madchester, muito menos pela mão dos Happy Mondays, a banda paradigmática do hedonismo que assolou aquela cidade britânica na viragem dos oitentas para noventas. Como alunos mal comportados que foram, os Mondays não poderiam deixar de subverter o tema original, logo a começar pelo encurtamento do título. Shaun Ryder, o folião-mor, fez questão de "enriquecer" a letra com aquele calão tão peculiar que só ele próprio - e um ou outro compincha de "fumos" - entende. O resto fica a cargo da máquina rítmica da banda, tão eficaz que se apoderou de "Step On" e fez dela uma canção completamente nova. Inicialmente pensada para integrar uma compilação comemorativa do 40.º aniversário da editora Elektra, a versão foi trocada pela banda, que pressentiu o seu potencial, por uma do tema "Tokoloshe Man" (também original de Kongos). Neste raro momento de lucidez, os Mondays deram, eventualmente, o passo mais acertado na gestão da sua caótica carreira.


Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

Contra a parede
















Quando foram apresentados ao mundo, os A Place To Bury Strangers vinham rotulados de "banda mais ruidosa de Nova Iorque", algo a que o trio, com sucesso, tentou provar no par de álbuns em cadastro. Ao vivo, então, o assalto sónico é de tal magnitude que nos faria querer fugir para um abrigo se por acaso não estivêssemos enredados numa espécie de transe estático. Nos genes têm os incontornáveis Mary Chain, porém com um certo sentir "gótico", e envoltos num manto difuso, evocam tanto os Sisters of Mercy dos primórdios, como os Love and Rockets.

Antes de darem à estampa o terceiro atentado decibélico, os APTBS vão experimentado algumas evoluções sonoras. Um tubo de ensaio é Onwards To The Wall, o novíssimo EP de cinco temas que só parcialmente corresponde aos pergaminhos dos seus autores. Mantendo as premissas dos trabalhos anteriores, a dupla inicial de temas abre as melhores perspectivas, trazendo ainda à liça a propulsão kraut que antes estava mais dissimulada. A porca torce o rabo no tema-título, demasiado próximo do negrume estudado de uns tais She Wants Revenge para fazer soar sinais de alarme. Mais dado às cavalgadas monstruosas sob denso nevoeiro, o par restante de temas é típico APTBS que quase nos faz perdoar tal pecado.

"So Far Away" [Dead Oceans, 2012]

Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012

(Quase) fora da toca
















De Jana Hunter ouvimos pela primeira vez falar como um dos nomes associados ao chamado freak-folk, tendência em voga dos alvores para meados da década passada. Foi, inclusive, uma espécie de protegida de Devendra Banhart, mais ou menos proclamado o guru da coisa. Lembro-me ainda de a ter visto ao vivo, aqui há uns anos, numa noite não mais que suficientemente agradável, dada a simplicidade extrema das canções apresentadas. Porém, foi há frente do colectivo Lower Dens que a moça nos seduziu em definitivo. Tudo por causa desse assombro de disco que dá pelo título de Twin- Hand Movement (2010), chegado tarde aos meus tímpanos, mas sempre a tempo de entrar sem contestação no top five do último triénio. Ao dito, poderia aplicar-se a célebre frase de Pessoa sobre determinado refrigerante se não fosse caso de entranhamento imediato.

Para 2012, e para gáudio de uma imensa minoria devota, o quarteto de Baltimore tem reservado o segundo álbum. Chama-se Nootropics e chega logo no começo de Maio, possivelmente para dar algum tom sombrio à Primavera. O primeiro avanço, chamado "Brains", já aí anda e leva-nos a crer que sim. Uma espécie de sonho atormentado, o novo tema segue as premissas do anterior registo, isto é, combustão lenta, melodias elípticas, e a voz de mistério de Jana a emergir, qual espécie inocente de Nico mas com cordas vocais treinadas. Uma ligeira diferença detectável relativamente às opções do passado recente é uma maior agrura das guitarras, com sublinhado na distorção. Para além de ser um tema que eleva as expectativas, é bom saber que é "descarregável", livre e gratuitamente, aqui. Basta clicar. 


"Brains" [Ribbon, 2012]

Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

R.I.P.


MIKE KELLEY
[1954-2012]

Morreu, presumivelmente ontem, Mike Kelley, artista pluridisciplinar e percussionista da formação original dos Destroy All Monsters (DAM). Ainda oficiosamente, julga-se que tenha cometido suicídio. 

Com os DAM, nascidos na Detroit em chamas depois da passagem dos MC5 e The Stooges e activos entre meados da década de 1970 e da de 1980, Kelley ajudou a trilhar caminho tanto para o punk como para o noise. Contudo, a orientação musical da banda, muito dada a experimentação e à performance, abarcava muitas outras linguagens para se circunscrever  apenas a esses dois "géneros". Em nome próprio, deixou gravado um par de álbuns hoje perdido na obscuridade. A vida pós-DAM foi essencialmente dedicada a uma vasta gama de disciplinas artísticas, das artes gráficas às artes plásticas, passando pela arte performativa, sempre com uma abordagem pouco ortodoxa. Por exemplo, são dele os "bonecos" que ilustram o artwork do álbum Dirty, dos Sonic Youth.

Destroy All Monsters _ "You're Gonna Die" [IDBI, 1978]

Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

Os astros estão do nosso lado













Nestas andanças há perto de uma vintena de anos, os Nada Surf são já um nome que dispensa apresentações aos melómanos imunes ao zeitgeist da estação. Expostos ao grande público pela alta rotação do tema "Popular", não foram banda que me tenha caído desde logo no goto. Talvez por causa de esse ser um tema demasiado colado a um certo conceito college rock tipicamente americano, precisamente numa altura em fugia a sete pés de tudo o que estivesse ligado à praga pós-grunge. Não deixava, contudo, de ser uma canção de excepção, embora eu tenha demorado demasiado tempo a admiti-lo, tanto como o que levei a ficar convencido pelo trio nova-iorquino.

Já convertido, é com agrado que recebo novíssimo The Stars Are Indifferent To Astronomy, o sétimo álbum de estúdio da banda. Não que o novo registo traga grandes novidades, pois não é isso que qualquer seguidor espera dos Nada Surf. Deles espera-se apenas que nos continuem a brindar com grandes canções, fora de qualquer moda ou tendência, e profusamente melódicas. Sendo assim, The Stars Are... cumpre em absoluto as expectativas. As canções, em número de dez, são ricas em refrões grudantes e em melodias facilmente assimiláveis até pelo ouvido mais negligente. Apesar da maturidade dos seus autores, retêm ainda aquele espírito de juventude que devia ser comum a toda a pop digna desse nome, algo que fica bem expresso em alguns dos títulos ("When I Was Young", "Teenage Dreams"). Talvez ligeiramente mais musculado que os seus antecessores mais próximos, contrapõe com uma suave dose de melancolia reflexiva, própria da idade até para estes eternos jovens de espírito. Diga-se, um pouco à semelhança do último registo dos Teenage Fanclub, velhos compinchas deste lado o Atlântico. 

"When I Was Young" [Barsuk, 2012]

Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

First Exposure #41













THE DARCYS

Formação: Jason Couse (voz, gtr); Wes Marskell (tcls); Dave Hurlow (bx); Michael Le Riche (btr)
Origem: Toronto, Ontario [CA]
Género(s): Pop, Indie-Pop, Art-Pop, Ambient-Pop
Influências / Referências: The Dears, Elbow, The Antlers, The Delgados, Talk Talk, Steely Dan*

(*) a banda acaba de editar uma versão integral de AJA, o clássico de 1977 da dupla Steely Dan

http://www.myspace.com/itsthedarcys


[Arts & Crafts, 2012]

Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

Saint Pop
















Embora nos últimos meses nos tenham brindado com reedições em catadupa, dos Saint Etienne não se escuta material inédito há sete anos, desde a altura do álbum Tales From The Turnpike House. Se bem se lembram, esta foi a banda que, há duas décadas, trouxe a dança para a pop, ou vice-versa, consoante o ponto de vista. Apesar de alguns tiques de francesismo, desde cedo que a fábrica de hits dos Saint Etienne não escondia uma obsessão pela cultura popular genuinamente britânica, em particular pelos tempos da swinging London. Com o correr dos anos, a música tornou-se mais atmosférica, contemplativa até, retendo, no entanto, toda a elegância que a figura da vocalista Sarah Cracknell personifica.

Sabemos agora que o fim do silêncio está para breve. Parece que o novo ano promete novo álbum, por sinal um recuo às sonoridades mais dançantes do passado. Parece também que as velhas raposas Bob Stanley e Pete Wiggs puxam da cartilha para nos emergir no mundo mágico de referências pop. O primeiro sinal do regresso ao passado é o avanço "Tonight", no qual Sarah, possuída pelo espírito teenager, expressa toda a excitação que precede a ida a um concerto, com detalhe nos preparativos. Por outro lado, é o próprio Stanley que nos afiança que o disco que aí vem é todo ele uma celebração do poder da pop, e da forma como ela afecta e condiciona as nossas vidas. Dancemos a isso, então!



"Tonight" [Heavenly, 2012]

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

Ao vivo #79
















Male Bonding @ MusicBox, 21/01/2012

Desde a primeira e única vez que os tinha visto, há pouco mais de um ano, algo mudou na vida dos londrinos Male Bonding. Desde logo, ocorreu a edição de um segundo álbum, confirmação de que a banda é um valor seguro das actuais expressões indie. Ao vivo há também mudanças, com a integração de um segundo guitarrista, que alarga a formação a quarteto. Esta mudança justifica-se pela sonoridade desse segundo disco, mais encorpado quando comparado com as malhas esquálidas do debute.

É precisamente - e naturalmente - o mais recente registo que serve de base à ementa da noite. A abrir, "Tame The Sun" apanha o público ainda frio e é também prejudicado pelo baixo volume do microfone de Kevin Hendrick. Debelado este pequeno problema, e com o som, ainda assim, em condições deficientes (um hábito em demasiadas salas da capital), a banda não se deixa perturbar e arranca para uma actuação segura, e sem pausas para descanso, que recolhe a aprovação do público, em número bastante inferior ao desejável. Aos riffs afiados e aos ritmos do punk mais saltitante, agora adornado pela profusão de coros com onomatopeias (o skate-punk encontra o surf-punk?), a assistência sacudindo o corpo em crescente frenesim, chegando, inclusive, a provocar uma pequena escaramuça na zona mais próxima do palco. A empatia parece ser mútua, e a banda surge mais comunicativa do que aquilo que lhes conhecia.

Apesar da predilecção por Endless Now no alinhamento, são ainda os temas do anterior Nothing Hurts a merecer as recepções mais efusivas. No soberbo "Franklin", as vozes do público perdem a timidez e fazem-se ouvir durante o refrão. Já no crepitante "Year's Not Long", a banda foge à norma da fidelidade às versões gravadas e ensaia um delírio instrumental na parte intermédia, deixando à solta o espírito dos primeiros Nirvana. Foi apenas o momento mais alto de um concerto que abre com nota alta a temporada 2012.

Sábado, 21 de Janeiro de 2012

R.I.P.


ETTA JAMES
[1938-2012]

 "You guys know your president? You know the one with the big ears? Wait a minute, he ain't my president. He might be yours; he ain't my president. But I tell you that woman he had singing for him, singing my song - she's going to get her ass whipped."
- Reacção de Etta James, em 2009, a propósito da interpretação de "At Last" por Beyoncé, perante o presidente dos E.U.A.

Já não lhe bastava a vida conturbada, com consumo de drogas incluído, e até que uma boa parte das novas gerações a reconheçam apenas através da publicidade. Até o presidente pop a preteriu em favor daquela que, precisamente, representou no grande ecrã. Porém, resta-nos o consolo de saber que quem não resume a cultura popular à "cultura do imediato" tem plena consciência que aquela que ontem se calou foi uma das grandes vozes da América do último século. Uma Voz que soube, como poucas, adaptar-se a géneros: dos blues à soul, do jazz ao rock'n'roll, passando ainda pelos espirituais negros. Rest in peace, Miss Peaches!

"At Last" [Argo, 1960]

Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

All the people he likes are those that are dead
















Foto: Pete Millson

Lawrence (sem apelidos, sff) é um dos músicos mais idiossincráticos, mas também dos mais contra-corrente, personagens da pop britânica dos últimos trinta anos. Nos idos de oitenta idealizou os Felt, para os quais escreveu algumas das letras mais ricas e complexas de que há memória. Um veículo para a reverência a Tom Verlaine e aos Television, a banda esteve longe de almejar a ambicionado sucesso comercial, apesar do firme culto gerado em seu redor e que ainda perdura. Contudo, conseguiu o principal intento aquando da formação: dez álbuns em dez anos, outros tantos singles. Em inícios da década de 1990, Lawrence encabeçou os Denim, guinada no sentido do glam-rock infectada de uma ironia corrosiva relativamente à madrasta década anterior. Menos prolífico, este projecto deixou gravados dois álbuns, e um terceiro que nunca viu a luz do dia, pura e simplesmente por causa do boicote ao tema de avanço ("Summer Smash"), lançado na mesma semana da morte de Lady Di. Com o fim do milénio chegaram os Go-Kart Mozart, até agora responsáveis por um trio de discos corroídos por impulsos synth-pop e, provavelmente, o mais discreto dos projectos, isto segundo os critérios do reconhecimento lawrencianos.

Em 2012, quando o sucesso de Lawrence é apenas um probabilidade remota para o mais devoto dos fiéis, o seu nome parece estar mais na ordem do dia que nunca. Prestes a chegar ao mercado do DVD está Lawrence Of Belgravia (dupla referência à figura histórica britânica e ao bairro de residência até ao despejo), o documentário da autoria de Paul Kelly, realizador com considerável currículo no universo indie, que passou pela última edição do London Film Festival. O filme, descrito como um "trabalho de amor", acompanha os últimos oito anos do nosso herói, com recuos ao passado de todo um errático percurso. Já à venda está Felt, um livro de fotografias de tiragem limitada a mil exemplares que, obviamente, contempla a mais emblemática banda do currículo de Lawrence. Cada exemplar é numerado e assinado pelo próprio, e o prefácio ficou a cargo de Bob Stanley, influente jornalista musical e fundador dos Saint Etienne.


Felt _ "Penelope Tree" [Cherry Red, 1983]


Denim _ "I'm Against The Eighties" [Boy's Own, 1992]


Go-Kart Mozart _ "Here Is A Song" [West Midlands, 1999]

Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

O jogo das diferenças #3


ELVIS PRESLEY
50,000,000 Elvis Fans Can't Be Wrong: Elvis' Hold Records - Volume 2
[RCA Victor, 1959]



THE FALL
50,000 Fall Fans Can't Be Wrong - 39 Golden Greats
[Sanctuary, 2004]

Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

Reavivar da memória













Recém entrado na casa dos vinte, Dylan Baldi, até há pouco o único membro de pleno direito dos Cloud Nothings, já ensaiou mais reviravoltas estéticas que muitos veteranos em décadas de carreira. No pouco divulgado registo de estreia (Turning On, de 2009), decifravam-se esboços de canções escorreitas sob a "baixa fidelidade" caseira. Já no álbum homónimo do ano passado, notório passo rumo a uma maior limpidez, Baldi enveredava pelo mesmo punk-pop com sabor a Verão que tem entretido muitos jovens músicos na terra do Tio Sam. Disco mais que satisfatório, Cloud Nothings viu-se ofuscado por alguns antecessores a operar no mesmo comprimento de onda.

Com a chegada do novo ano temos novo disco, e com ele nova mudança, que desta feita poderá firmar em definitivo Baldi como um valor seguro nos meandros indie-pop norte-americanos. Chama-se Attack On Memory e chega no próximo dia 23, com selo da Carpark. Quem conhece o anterior trabalho do seu autor ficará surpreendido pelo significativo incremento na densidade e na complexidade das texturas, o que o coloca a par de algumas das propostas mais arrojadas do chamado post-hardcore de outrora. Os saudosistas dos excelsos Unwound reconhecerão aqui pontos de contacto, sobretudo na alternância da calmaria com a tensão, esta expressa na berraria incontida. No comando das gravações esteve Steve Albini, que com este soma mais um ponto no estatuto de "produtor" mais capaz de extrair as qualidades ingénitas de uma banda. Em suma, digamos que Attack On Memory é mais um atestado de que as boas memórias de noventas vieram para ficar, ou apenas o primeiro grande disco de 2012. Decidam depois de ouvir:

Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

Mil imagens #26


Edwyn Collins - Londres, 1997
[Foto: Joe Dilworth]

Let's look at the trailer!












Revelados como uma das esperanças da nova música britânica, os Trailer Trash Tracys chegaram ao meu conhecimento através do brilhante "Candy Girl", um tema cujo início fazia lembrar a versão de "Kangaroo" pelos This Mortal Coil, embora evoluísse para uma sonoridade indie mais canónica. Amadurecidas as ideias, o quarteto londrino acaba de lançar o tão desejado álbum de estreia. Ester, de seu nome, o disco inclui uma dezena de temas, entre eles o citado numa gravação ligeiramente diferente, mas que não desfaz as comparações. Aliás, todo o conjunto navega numa onda semi-orgânica, semi-electrónica, que faz lembrar as sonoridades da pop sonhadora e com pretensões artísticas que fizeram uma parte da história da 4AD. As mesmas referências são extensíveis à capa, da autoria de Kurt Ralske, mentor dos Ultra Vivid Scene, precisamente uma das bandas do melhor período da editora londrina. Num primeiro contacto, Ester poderá causar alguma estranheza, muito por culpa do "desencontro" da suavidade da voz de Susanne Aztoria com a angularidade das texturas digitais. Porém, com a insistência, é dessa sobreposição de elementos contrastantes que resulta muito do encanto misterioso do disco.

"Wish You Were Red" [Double Six, 2012]