"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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segunda-feira, 29 de julho de 2013

Discos pe(r)didos #71









GRANT HART
Intolerance
[SST, 1989]




Podem não ter conhecido o sucesso comercial de alguns contemporâneos, mas os Hüsker Dü serão, eventualmente, a banda do underground americano de oitentas mais determinante para a definição de uma sonoridade que resultaria na "explosão alternativa" protagonizada por gente como os Pixies ou os Nirvana. Nascidos em berço hardcore, cedo foram evoluindo para formatos mais próximos da canção que não renega influências de mestres pop como os Beatles e os Byrds. Os seus discos, editados com uma frequência assinalável, viviam da dinâmica das diferentes sensibilidades dos seus dois vocalistas/compositores: Bob Mould e Grant Hart. Se o primeiro, também guitarrista, chamava a si maior protagonismo com os temas mais abrasivos, este último, que acumulava com as funções de baterista, era responsável pelas composições mais emotivas e próximas dos cânones pop. As tensões entre ambos, em parte dinamitadas pelas diferentes dietas de drogas, eram imensas, e haveriam de conduzir a um ponto de ruptura quando a pressão motivada pela mudança para uma multinacional e o suicídio do manager de sempre ditaram um fim talvez precoce, mas sem mácula. A agravar o cenário, o já de si algo débil estado emocional de Grant Hart foi abalado por um teste de HIV com resultados erradamente positivos.

Ao fim, com alguma acrimónia, seguiram-se as carreiras a solo, com cada um dos dois ex-camaradas a apressar-se com o álbum de estreia, em claro espírito competitivo. Curiosamente, num primeiro instante, levou a melhor Grant Hart, ele que normalmente era secunderizado na formação dos Hüsker Dü. A vitória ao primeiro round deve-se a Intolerance, um disco de forte cunho pessoal, como já era apanágio das suas composições, no qual toca a totalidade dos instrumentos. Embora outras questões mereçam reflexão, a condição de junkie é a principal fonte de inspiração, não com o excesso de dramatismo que reconhecemos noutros, mas com a resignação de quem vê tal condição como uma inevitabilidade. Para o aferir temos os explícitos "All Of My Senses", que abre o disco, e "The Main". São temas radicalmente diferentes, o primeiro com laivos de psicadelismo e com algum protagonismo do órgão, o segundo uma sea shanty entoada a plenos pulmões. Já em "Now That You Know Me", um tema de um romantismo ferido, é notória a afeição pelo trabalho de Bob Dylan, com a presença da harmónica e tudo. As ténues ligações ao passado nos Hüsker Dü sentem-se em "Fanfare In D Minor (Come Come)", mormente pela abrasão de uma guitarra elíptica. Toda a emotividade do começo do disco é superada por "Twenty-Five Forty-One", tema já anteriormente editado em regime acústico mas que não perde nervo quando sujeito a registo eléctrico. Como uma espécie de canção de dor-de-corno gay, podemos dizer que faz uso da história da mudança de casa como uma metáfora da mudança de vida implicada pelo fim dos Hüsker Dü, já que o título faz referência ao número da porta da sala de ensaios da banda. Escrita com alguns anos de antecedência, mas alegadamente rejeitada por Bob Mould, funciona então como um perfeito epitáfio. Sem surpresas, o antigo companheiro de aventuras musicais é o alvo de "You're The Victim", registo balada com significativa amargura. Maior solenidade é verificado em "She Can See The Angels Coming", lamento mortuário que tem um órgão e os pratos da bateria com único suporte instrumental. Apesar de "Intolerance" se caracterizar por ser um conjunto sólido de canções, não deixa de ter momentos em que Grant Hart corre alguns riscos experimentalistas. É algo que verificamos sobretudo em "Roller-Rink" e "Reprise", o par de instrumentais que acusam cedências ao psicadelismo.

Ganha a primeira batalha, pareciam estar lançadas as bases para que, nos anos vindouros, Grant Hart vencesse em protagonismo o seu antigo "chefe-de-fila". A história, contudo, conheceria um volte-face, não só porque Bob Mould se revigorou ao leme dos fulgurantes Sugar, mas sobretudo pelo percurso errático e pouco produtivo de Hart ao longo da década de noventas, essencialmente perturbado pelos velhos hábitos de consumo. A recuperação plena só aconteceria nos anos mais recentes, reflectida no recuperar de alguma visibilidade e da sucessão de edições a um ritmo mais aceitável. Foi até com alguma pompa que, há precisamente uma semana, foi lançado The Argument, disco inspirado em Paradise Lost, a longa obra poética de John Milton, e nas reminiscências da amizade mantida com William S. Burroughs. Álbum de uma complexidade comparável à da obra daqueles autores, é também de um brilhantismo merecedor de todos os encómios que tem suscitado.

All of My Senses by Grant Hart on Grooveshark

Twenty-Five Forty-One by Grant Hart on Grooveshark

She Can See the Angels Coming by Grant Hart on Grooveshark

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Straight from the Hart















Nos idos de 1980, Grant Hart ficou conhecido como uma das metades criativa dos Hüsker Dü, tarefa que, tal como as vozes, dividia com Bob Mould. O relacionamento tempestuoso com este, em parte derivado da adicção à heroína, ditaria uma fim abrupto em 1987, deixando a sensação que algo ficara por contar. De então para cá, e enquanto Mould obteve significativo reconhecimento, tanto a solo como com os Sugar, Hart tem mantido uma carreira intermitente e errática. Nos últimos vinte anos, conhecem-se-lhe dois álbuns de originais, outros tantos EPs, e mais um par de registos longa-duração com os Nova Mob. Nos últimos anos, recuperado da dependência, tem servido como voluntário junto de aviadores veteranos. Ainda assim, arranjou tempo para gravar Hot Wax, álbum que acaba de ser lançado com alguma discrição e que interrompe um jejum longo de dez anos. A produção ficou a cargo do ex-Arcade Fire Howard Bilerman e, entre os colaboradores contam-se músicos ligados aos Godspeed You! Black Emperor. Pela singela amostra disponível no MySpace, somos levados a crer que quem sabe nunca esquece...

quinta-feira, 5 de março de 2009

Singles Bar #31



















GRANT HART
2541 [SST, 1988]

"Jimmy gave us the number
and Gerry gave us a place to stay
and Billy got a hold of a van
and man, we moved in the very next day
to twenty-five forty-one
big windows to let in the sun
twenty-five forty-one
(...)
now everything is over
everything is done
everything's in boxes
at twenty-five forty-one"

Muitas vezes visto como figura secundária quando comparado com o ex-ccompincha Bob Mould, Grant Hart foi cantor/compositor de quase metade das canções dos Hüsker Dü na sua fase mais relevante. Na influente banda de Minneapolis, Hart era sobretudo o principal impulsionador da veia melódica, por oposição ao pendor mais abrasivo das composições de Mould. Curiosamente, após o fim acrimonioso dos Hüsker Dü, o início da aventura a solo de Hart foi até mais fulgurante do que a do seu antigo colega. Pelo menos enquanto o consumo de drogas não se tornou uma actividade quase a tempo inteiro...
O cartão de visita ao mundo pós-huskers deu-se com este single, talvez intencionalmente, a milhas de distância da sonoridade anteriormente praticada. O tema-título baseia-se essencialmente numa melodia simples de guitarra acústica, em crescendo de tensão nos momentos mais dramáticos da voz. Com a totalidade dos instrumentos tocados pelo autor, "2541" revela-se uma canção de um intimidade chocante. Nela se conta a ascensão e queda de um relacionamento que parece ter deixado marcas profundas em, pelo menos, uma das partes. Quando questionado, Grant Hart nunca escondeu haver em "2541" não só uma referência explícita à história dos Hüsker Dü, mas simultaneamente a uma aventura amorosa: por coincidência, o número do título era o da porta da sala de ensaios da banda, e também o do apartamento partilhado com outra pessoa.
Robert Forster, o membro sobrevivo dos Go-Betweens, ele próprio um artesão de grandes canções, haveria de reconhecer as qualidades de "2541" gravando uma versão. O próprio Grant Hart, no ano seguinte ao da edição original, haveria de incluir uma nova versão, com arranjos mais elaborados, no álbum Intolerance (Aviso à navegação: obrigatório!). Como grande canção que é, a segunda gravação de "2541" sobrevive com distinção à operação de cosmética, mas não supera a simplicidade despida da original.