"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel

terça-feira, 26 de julho de 2011

10 anos é muito tempo #31








SUPER FURRY ANIMALS
Rings Around The World
[Epic, 2001]




Dizem os "analistas" que os Super Furry Animals foram a última grande banda recrutada para o catálogo da Creation Records e eu tendo a concordar. Quando partiram para o quinto álbum (o segundo fora da alçada da editora de Alan McGee) já estes irredutíveis galeses tinham no currículo loucuras como manobras promocionais com verdadeiros tanques de guerra a debitar música techno, hits sob a forma de canções que repetiam a F word um número incontável de vezes, e discos integralmente cantados na impenetrável língua materna. Colectivo de freaks nada tolos, os SFA são profundos conhecedores dos vários espectros da música popular, que combinam de forma engenhosa e sem preconceitos. Tanto recorrem à sunshine pop dos Beach Boys como à sumptuosidade soul instituída de setentas, aos desvarios psicadélicos como ao imediatismo do easy-listening.

Concebido como mais uma amálgama de diferentes linguagens, Rings Around The World é, porventura, o mais convencional dos discos dos SFA. Contudo, os conhecedores sabem que, no léxico da banda, o termo "convencional" tem um significado mais difuso do que para os restantes mortais. A título de exemplo desta invulgar proposta, remeto de imediato para "Receptacle For The Respectable", um tema que começa no mais puro registo ensolarado, com palminhas, pa-pa-pas e harmonias vocais incluídas, e termina num devaneio com vocalizações guturais mais consentâneas com o género death metal. É um dos pontos altos de Rings... - na realidade, não há por aqui pontos baixos -, tal como o é "Run! Christian, Run!", este contaminado por uma preguiça birdsyana que se arrasta por mais de sete minutos. No capítulo das referências óbvias, "(Drawing) Rings Around The World" tem paralelismos com um conhecido tema de uns tais Status Quo que vão muito para além do título. Também "No Sympathy", que ataca com o mais terno "you deserve to die" alguma vez pronunciado, deixa escapar ecos de uma aberração intitulada "Bohemian Rhapsody", felizmente por breves instantes. Num e noutro caso, estamos em querer estas são apenas manifestações do humor inteligente, mas profundamente satírico e retorcido, que caracterizam tanto a abordagem da banda como as letras de Gruff Rhys. Tal como em "Presidential Suite", espécie de balada para grandes salões que menciona os hábitos nada politicamente correctos das vidas pessoais dos líderes das duas grandes super-potências: Bill Clinton e os affairs com secretárias, Boris Yeltsin e os problemas com a bebida. Ou em "Juxtaposed With U", tema perfeitamente enquadrável em bailes de cruzeiros marítimos, apesar da utilização abusiva do vocoder, que atira com um genial "you've got to tolerate all those people that you hate / I'm not in love with you but I won't hold that against you". Igualmente dado ao salão de festas, com bola de espelhos e tudo, "Shoot Doris Day" é o apogeu da veia orquestral que aflora timidamente noutros temas.

Em certa medida, Rings Around The World deve ser catalogado como um disco conceptual. Como antídoto ao período louco do fim de milénio que o antecedeu, celebra valores nobres como a tolerância, a amizade e a compreensão, porém sem a militância e os clichés de hippies mal-cheirosos. Antes com muito optimismo (oiça-se "It's Not The End Of The World?") e sem se querer levar demasiado a sério. Tão pouco que, convoca antigos membros de bandas da dimensão de The Beatles e The Velvet Underground, e resume a participação de ambos à maior discrição...

Outra particularidade associada ao quinto álbum dos SFA é o facto de ter sido o primeiro álbum lançado simultaneamente em DVD, com vídeos criados por diferentes realizadores para cada canção. Alguns deles têm como protagonistas os "bonecos" criados pelo amigo e compatriota Pete Fowler, autor de (mais) um fabuloso trabalho no artwork de Rings Around The World. Deixo-vos três deles:

"Receptacle For The Respectable"

"Presidential Suite"

"It's Not The End Of The World?"

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