"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O amanhã não é radioso
















Quando aqui falamos da Escócia, normalmente é para vos trazer notícias de uma das muitas bandas indie-pop que por lá pululam, que fazem das highlands o terreno por excelência da coisa. Renegando as tradições da pátria, os Boards of Canada são autênticos estranhos em terra estranha. Desde há mais de duas décadas, que estes dois irmãos criados em meio rural se especializaram numa electrónica analógica, na qual os sons crípticos, algum misticismo, e regressões à infância convivem pacificamente. Isto sem esquecer uma aura campestre que advirá das origens dos rapazes. Partindo da inspiração em bandas sonoras, os seus discos, normalmente longos, têm vindo a tornar-se referência, contando já com uma vasta descendência que não será preciso nomear. Se nos primeiros anos da existência foram extremamente prolíficos, deles já não tínhamos notícias desde há oito anos, precisamente desde a edição de The Campfire Headphase, provavelmente o mais desapontante dos seus registos.

Cultores de um certo mistério, desapareceram completamente de cena durante o hiato. Foi ainda quase sem darem sinais prévios que lançaram Tomorrow's Harvest, recebido com pompa tanto pela duração da ausência, como pela retoma da melhor forma. Para trás deixaram as sugestões bucólicas, propondo agora um mergulho num universo urbano e apocalíptico, naquele que deverá ser o álbum mais negro do seu catálogo. Às trevas junta-se uma intensidade emocional, mesmo apesar da ausência de palavras, ao mesmo nível da do magistral Geogaddi (2002). Há, obviamente, uma reactualização da sonoridade, isto sem que, desde os primeiros instantes tenhamos a certeza inequívoca de ser um disco com a marca registada Boards of Canada. Tanto na cadência das batidas, como na atmosfera carregada, há sinais que indicam que Tomorrow's Harvest só pode ser um disco surgido na era pós-dubstep, absorvendo e desenvolvendo algo a partir do trabalho de Burial e aparentados. Completa-se assim um ciclo, quando os mestres buscam inspiração nos seguidores, e o mundo ganha mais uma óptima companhia para noites de viagem interior.

 
"Reach For The Dead" [Warp, 2013]

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