"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

10 anos é muito tempo #18

 

PRIMAL SCREAM
XTMNTR [Creation, 2000]

Se um certo figurão do meio pop-rock é habitualmente apelidado de camaleão, em virtude da capacidade para se reinventar, não existirá certamente epíteto que se ajuste às constantes transformações estéticas operadas pelos Primal Scream no decurso da sua já longa carreira. Nascidos como indie-poppers devotos dos Byrds e de outros percursores do chamado jangle, ameaçavam ficar a constituir nota de rodapé do género. Mas eis que surge o primeiro rasgo de génio sob a forma de Screamadelica (1991), celebração da cultura hedonista movida a ecstasy e disco determinante na conciliação das linguagens dance e rock. No injustiçado Give Out But Don't Give Up (1994) revisitavam o blues-rock carnal dos Stones da melhor safra.  Quando todos se debatiam com as tensões pré-milénio, os Primal Scream gravavam o incompreendido e desafiante Vanishing Point (1997), expiação dos demónios com o intuito de preservar a sanidade mental. Ultrapassado o fantasma do bug, insuflados de uma fúria raivosa, os Primal Scream decidem manifestar a  revolta e a incompreensão para com um mundo à beira do caos. O alinhamento político à esquerda aflorado em ocasiões anteriores é, em XTMNTR, assumido sem amarras, expresso não só nas palavras, cruas e agressivas, mas também no suporte musical, negro e violento. Quer isto dizer que, quando muitos se rendiam à inexpressividade da denominada "música papel-de-parede", os Primal Scream, avessos a comportamentos em manada, propunham um disco facilmante rotulável como uneasy-listening.
As honras de abertura de XTMNTR cabem ao explícito "Kill All Hippies", tentativa conseguida de injectar atitude à boçalidade big beat, com o intro e o outro a cargo de um voz infantil , o que confere um certo desafio trangressor. Sem  abdicar do elemento "electrónico", "Accelator" chama à linha da frente as guitarras prenhes de sujidade evocativa dos MC5. "Exterminator" e o derradeiro e narcótico "Shoot Speed / Kill Light" incorporam a motorika dos Neu! que conheceria outros desenvolvimentos na obra posterior dos Primal Scream. Aperentemente mais de acordo com as convenções, ambas as versões altamente enérgicas de "Swastika Eyes" partem de uma base house music para formular um incitamento ao motim na pista de dança. Normalmente possuída por uma espécie de letargia narcótica, a voz de Bobby Gillespie reveste-se de visceralidade  em "Pills", exercício próximo da militância hip-hop que não rejeita a verborreia típica com um cuspido e repetido "sick, fuck, fuck...". A fechar a primeira metade do alinhamento, "Blood Money" é um instrumental de apelo cinemático que se aventura por terrenos do free jazz e, novamente, do kraut. A partir daqui, XTMNTR concede alguma trégua aos ouvidos fustigados pela espiral cacofónica, oferecendo inclusive algum reconforto sob a forma de "Keep Your Dreams", transe apaziguador no comprimento de onda do ultra-clássico "Higher Than The Sun"
Erigido a partir de materiais aparentemente incompatíveis, XTRMNTR fica a dever a sua solidez à minúcia do trabalho congregador de Kevin Shields, responsável pelo tratamento das incontáveis camadas de guitarras que unem as pontas soltas e desbastam as farpas. Ao mago por detrás dos My Bloody Valentine é dada carta branca na revisitação de "If They Move Kill 'Em" (originalmente incluído em Vanishing Point), que corresponde com um mantra hipnótico à base de percussões aceleradas.
Aquando da sua edição, XTMNTR era anunciado como o último lançamento com chancela da Creation Records, já condenada à bancarrota depois de anos de gestão catastrófica por parte de Alan McGee, um visionário no que confere à descoberta de talentos, mas um desastre na área dos negócios. A este propósito, diga-se, foi uma despedida em beleza...


"Kill All Hippies"


"Exterminator"


"Shoot Speed / Kill Light"

7 comentários:

Shumway disse...

Nem acredito...

Como não tenho estado por cá, e andava a adiar, acabei mesmo agora de colocar um post sobre este disco.

Verdadeira sintonia :-)


Abraço

M.A. disse...

Quando se tem bom-gosto, ficamos sujeitos a estas felizes coincidências :)

Abraço!

Miss C. disse...

Cheguei tarde aos Primal Scream e cheguei através do Vanishing Point (comprei-o no mesmo dia em que comprei o O.K. Computer, lembras-te? Logo, dois discos sobre os quais posso afirmar que mudaram a minha maneira de ouvir música...)
Foi um verdadeiro abanão na minha cultura musical e na definição dos meus gostos.


A partir daí tornei-me fã incondicional dos moços (uns e outros), se bem que estes nunca fizeram nada que me aborrecesse ao passo que os outros...

Hoje, uando chegar a casa, vou ouvir este disco.

jorgeteixeiraakajorgeteixeira disse...

Boa, boa, o meu disco favorito dos Primals!
Faltou-te só a referência à participação as a very special guest do Bernard Sumner, mas nobody's perfect...

Pedro Carvalho disse...

tenho o disco e ganhei-lhe uma certa aversão - como, aliás, aos Primal Scream. Hoje só ouço o 1º disco, o melhor de todos quanto a mim.
abraço,

strange quark disse...

Quedei-me essencialmente pelo Screamadelica e tenho prestado pouca ou nenhuma atenção ao que se seguiu. Se houver oportunidade irei espreitar este.

O Puto disse...

Este, o "Vanishing Point" e o "Screamadelica" são, para mim, a santíssima trindade da banda escocesa. Tive a felicidade de vê-los a tocar ao vivo com o Kevin Shields.