"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
THE TRIFFIDS "Rent"[Island, 1989] [Original: Pet Shop Boys (1987)]
Como já deve ser sabido, não sou propriamente o maior entusiasta da synthpop "original", e muito menos dos derivados que por aí abundam e nos infernizam os dias (e sobretudo as noites). Contudo, pelo menos até à fase festivo-tropical, sempre nutri alguma simpatia pelos Pet Shop Boys. E tudo porque são dos poucos no género que justificam o sufixo "pop" a seguir ao "synth", e por conseguinte capazes de urdir um ou dois punhados de canções dignas desse nome. Uma delas é precisamente "Rent", um tema com uma melancolia romântica e uma discrição nas doses adequadas, como só os PSB sabiam fazer. Peca apenas, no lado instrumental, por algum excesso dos tiques do género.
A seu favor, "Rent" tem ainda uma das letras mais inspiradas de Neil Tennant, que ganha outra dimensão na versão essencialmente acústica dos australianos The Triffids, que cometem também a proeza de sublinhar o fino recorte da melodia. Diria até que a voz sempre carregada de dramatismo do conturbado (e malogrado) David McComb confere outra credibilidade ao "discurso" do rent boy. Juntamente com uma outra versão de "Into The Groove" (Madonna), este tema foi lado B de uma edição britânica tardia de "Bury Me Deep In Love", provavelmente o tema mais popular dos Triffids. O objectivo desta operação era catapultar a banda para outros patamares a nível internacional o que, escusado será dizer, se revelou esforço vão.
De todos as notáveis bandas reveladas na Austrália de oitentas, os Triffids serão, provavelmente, a mais injustiçada pela memória colectiva. Formados em 1978, na cidade de Perth (a mais isolada metrópole do mundo, na parte ocidental da ilha-continente), desde logo se afirmaram pela verve de David McComb (1962-1999), compositor genial, vocalista e guitarrista, poeta maldito, e eterno romântico viciado em álcool e heroína. Se os primeiros registos serviram para marcar a diferença relativamente ao restante contingente post-punk, pelo reconhecido cunho literário das canções, Born Sandy Devotional foi a confirmação definitiva de uma banda de excepção, a obra-prima anunciada. Segundo reza a lenda, na preparação deste álbum, os Triffids passaram um longo período de isolamento no deserto australiano. Já com as canções escritas, sob a influência daquela atmosfera, rumaram a Londres, onde, sob a supervisão de Gil Norton (que já trabalhara com os Echo & The Bunnymen e viria a ser o produtor quase exclusivo dos Pixies) gravariam os dez temas que compõem Sandy Devotional. Com a edição sucessivamente adiada, o disco chegaria às lojas na Primavera de 1986, para gáudio da generalidade da imprensa especializada. Hoje, passados mais de vinte anos da sua concepção, continua a fazer todo o sentido o fascínio gerado por esta obra assombrada, nostálgica, e até derrotista, mas, simultaneamente bela, celebratória, e grandiosa. A entrada pela porta grande dá-se com "Seabirds", como quase todas as restantes, uma canção de perda, adornada por arranjos de cordas elegantes, em contraponto ao irromper constante da bateria galopante. "Estuary Bed" é sobre as memórias - emocionais e físicas - associadas aos locais onde se viveram momentos marcantes. A presença da pedal steel aflora o lado americano que, mais tarde,tomaria outras proporções na obra dos Triffids. Na sua aparente alegria, "Chicken Killer" esconde o testemunho tenebroso de alguém que precisa de apagar as memórias, nem que tenha de se tornar um homicida. Cantado pela teclista Jill Birt, em tom infantil, "Tarrilup Bridge" é uma nota de suicídio e, paralelamente, uma celebração da vida. "Lonely Stretch" é feito daquela tensão que tem norteado a carreira do compatriota Nick Cave. Já "Wide Open Road" será a melhor descrição de uma vida acossada pelo ciúme. "Life Of Crime", entoada em crooning, descreve o estado de loucura induzido por uma paixão não correspondida. No fundo, "Stolen Property" é o resumo perfeito de Sandy Devotional: uma ode à fidelidade. Em remate esperançado, "Tender Is The Night" é um dueto amoroso de Birt e McComb, uma espécie de hino de reconciliação. Segundo palavras do próprio David McComb proferidas ao Melody Maker aquando da edição do disco, todos os temas têm um destinatário comum: a tal Sandy do título. Nome verdadeiro ou ficcionado, terá sido certamente alguém que lhe deixou marcas profundas.