"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
Com o finamento dos The Smiths, coube a bandas como The Wedding Present, The House of Love, ou Kitchens of Distiction preencher o vazio deixado em quem procurava na pop alguma emotividade. A estes últimos ainda coube a tarefa de abrir caminho para os delírios sónicos espectrais da vaga shoegazer. Principalmente com o primeiro par de álbuns - os mais recomendáveis - dos quatro que deixaram gravados entre finais de oitentas e meados de noventas. Por outro lado, a sua música recuperava a grandiosidade romântica de uns Echo & The Bunnymen, bem como as guitarras tremeluzentes de uns Cocteau Twins. Não obstante a banda ter caído num certo esquecimento, a matriz foi reutilizada no primeiro disco (o que interessa) de uns tais Interpol, assim como decerto terá inspirado os escoceses The Twilight Sad.
Desde o fim da banda, o frontman, baixista e letrista, Patrick Fitzgerald tem andado a pregar aos peixes, primeiro como Fruit, depois como Stephen Hero. Pelo menos até à reactivação dos Kitchens of Distinction no ano passado, que, com o trio de sempre, não tardaram em gravar o álbum de regresso. Para os saudosistas, que ainda os há em número considerável, Folly tem a particularidade de manter intacta a sonoridade peculiar da banda. Com um barítono amadurecido, e agora um contador de histórias mais refinado, Fitzgerald canta sobre perda, morte ou alienação com a paixão do passado. A guitarra carregada de efeitos de Julian Swales, que tem ganho a vida a compor para dança, teatro e cinema, ainda divaga entre as torrentes de ruído e a delicadeza cristalina. Quem conhece a obra dos KoD sabe que estes novos temas podem ser sufocantes, por vezes comoventes, mas também extremamente sinceros, já que as letras têm invariavelmente um cunho pessoal. Resumindo, digamos que Folly pode não trazer algo a acrescentar à obra dos seus autores, mas tem para os devotos a gratificação de matar as saudades com a banda ao nível do melhor do seu passado. Para os outros, particularmente os neófitos, talvez este disco venha a tempo de repor a justiça do reconhecimento que os KoD merecem.
KITCHENS OF DISTINCTION Strange Free World [One Little Indian, 1991]
Com o fim dos The Smiths, pairou um certo sentimento de orfandade sobre a facção mais emotiva da comunidade indie. Nada que bandas como The Wedding Present ou The House of Love não tratassem rapidamente de corrigir, pelo menos até que as vagas baggy e shoegaze não se propagaram por todo o Reino Unido. Hoje menos referidos que aqueles, mas na época com idêntico protagonismo, os Kitchens of Distinction (KoD), um trio da grande metrópole londrina, impregnou com uma aura sonhadora o meio, ao ponto de, inclusive, terem servido de inspiração a alguns dos shoegazers que lhes tomariam o lugar.
Depois de um óptimo álbum de estreia (Love Is Hell, de 1989), mas ainda a acusar alguma verdura nas imperfeições que se detectam ao longo de uma audição, os KoD lograram a obra definitiva dos seus intentos com o sucessor. Alegadamente, o disco recebeu o título de Strange Free World (SFW) após uma carta de um fã japonês, que com aquelas palavras definiu a música da banda. A definição é mais que ajustada se tivermos em conta que a música dos KoD habita um lugar único, no qual uma melancolia não derrotista convive com a esperança traduzida num romantismo de cunho poético, algo que tanto fica expresso na ambiguidade das palavras, como na componente instrumental.
Em toda a obra da banda, e mais intensamente em SFW, o principal traço distintivo é a delicadeza das guitarras altamente processadas de Julian Swales, capazes de reproduzir as diferentes intensidades do zumbido de um enxame de milhões de insectos. Basta conferir no par de temas que abre o disco ("Railwayed" e "Quick As Rainbows"), qualquer deles assinalado pelo tinir das cordas como filigrana. O primeiro, tal como mais à frente "Drive That Fast", o single que mereceu relativo airplay, denuncia uma vontade de evasão, algo recorrente na obra dos KoD. A este propósito, talvez valha a pena referir que o vocalista, baixista e letrista Patrick Fitzgerald é um homossexual assumido, que muitas vezes, nas canções de cunho pessoal, expressava uma franca insatisfação pela discriminação a que se via sujeito, particularmente num universo indie à data manifestamente straight e algo sectarista. Ainda assim, em SFW tais temáticas são abordadas com maior subtileza, talvez à excepção de "Gorgeous Love", por sinal o tema mais ligeiro do alinhamento.
Se a toada atmosférica tem a predominância, por vezes os KoD também ensaiam estruturas de canções que fogem à lógica da ortodoxia. É o caso de "Hypnogogic", marcado por uma batida sincopada que chega a conter até algum groove. Ou de "He Holds Her, He Needs Her", com as guitarras de cristal a debaterem-se com as ameaças de tensão, que acabam por levar a melhor no refrão em crescendo. Não sendo o mais imediato dos seus temas, arrisco a elegê-lo o mais brilhante do seu reportório, tanto pela estrutura peculiar, como pela letra, súmula dos altos e baixos de uma relação amorosa com forte carga poética. Idêntico teor lírico encontramos em "Within The Daze Of Passion", este com a mais angustiante vocalização de Fitzgerald. E se já aqui falámos de tensão, convém referir "Polaroids", um tema em que se evocam memórias distantes enquanto a guitarra reproduz a violência do tumulto das ondas a colidir contra as rochas.
Depois de um primeiro álbum em regime de auto-produção, em SFW é parece determinante a intervenção do experiente produtor Hugh Jones, que terá trazido à música dos KoD um desejo de grandeza que já tinha ajudado a concretizar no seu trabalho com os Echo & The Bunnymen. Com estes, SFW tem também em comum uma aura marítima, materializada no derradeiro "Under The Sky, Inside The Sea", tema de proporções épicas com uma longa introdução instrumental, marcada por incursões de sopros jazzísticos, que culmina num tom vitorioso quase hínico. Um encerramento à la Bunnymen, portanto.
A seguir a SFW, haveria ainda mais dois álbuns com a marca KoD, qualquer deles bem aceite pela crítica, mas em termos de exposição mediática ofuscado pelas novas orientações, para outras paragens, do pop/rock de guitarras. Uma década exacta após este disco superlativo, não se sabe se de forma consciente, se por mero acidente, e quando o mundo os parecia ter esquecido de vez, uma banda de nome Interpol usaria a matriz única dos KoD no seu primeiro álbum, com franqueza, o único que realmente interessa.
A imagem ao lado retrata os KITCHENS OF DISTINCTION, uma das mais importantes e influentes (olá Interpol!) bandas indie da transição dos oitentas para os noventas.
O caixa-de-óculos ao centro é Patrick Fitzgerald, vocalista que desistiu de uma carreira na medicina para enveredar pelo fascinante mundo da pop.
Após o fim dos Kitchens, Fitzgerald tem seguido uma interessante carreira a solo longe das luzes da ribalta, primeiro como FRUIT, editando apenas um álbum em 1997 e, de então para cá, sob o alter egostephenhero, já com um punhado de discos no currículo.
O último desses discos é o recente 57 stars of the air almanac (Ragoora), belíssima colecção de canções sem a torrente de guitarras de outrora, mas onde continua bem vincada uma certa queda para o romantismo exacerbado. Recomendável a todos os saudosistas. stephenhero no MySpace
Segundo single na carreira dos Kitchens of Distinction (KOD), Prize é também o meu primeiro contacto com a música deste trio londrino infelizmente tão esquecido nos dias que correm.
Ainda me lembro como se fosse hoje da primeira vez que ouvi este tema num programa de rádio "Sete Mares" que a Sílvia Alves tinha na Antena 1. Na altura era ainda um novato no meio indie e muitas vezes limitava-me a seguir as recomendações de alguns conhecidos mais velhos, as quais consistiam basicamente nas bandas sacro-santas do início dessa década.
Mas este tema caracterizado por uma muralha de guitarras que flirtava ligeiramente com a cena shoegazing então eminente, apanhou-me à primeira audição e passou a constar em quase todas as minhas mix tapes desses tempos. Por cima da torrente, a voz de Patrick Fitzgerald, no seu estilo único, instenso e apaixonado, marcava a diferença.
À semelhança de tantos outros temas posteriores, Prize tinha um cunho extremamente pessoal por parte do vocalista e letrista, pois sendo inspirado pelo artista francês Jean Cocteau, era uma espécie de catarse em relação à "culpa" pelas suas orientações sexuais.
Contemporâneos dos House of Love e dos Wedding Present, e igualmente sucessores dos Smiths, os KOD gozaram, tal como os seus pares, de algum reconhecimeto por parte da comunidade indie, mas a Madchester estava prestes a chegar e a partir daí outro galo cantaria.