"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel
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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Singles Bar #88









PERE UBU
30 Seconds Over Tokyo
[Hearthen, 1975]




Reza a lenda, e assim o conta o líder de sempre David Thomas, que a inspiração dos primórdios dos Pere Ubu partia das experiências vividas nas viagens nocturnas entre a Cleveland de origem e a gigantesca Detroit. Nessas idas e vindas, consta, ocorriam normalmente avistamentos de fenómenos estranhos, de UFOs ou apenas de ocorrências não explicáveis pela lógica, consoante as crenças de cada um. Com esta matéria de trabalho, obviamente, a música daí resultante reflectiria uma boa dose de estranheza, combinada com uma subversão dos conceitos pré-estabelecidos que, quase quatro décadas volvidas, a facção arty do rock norte-americano ainda não conseguiu assimilar totalmente toda a irreverência de uma das suas bandas mais inovadoras.

Tudo começou com 30 Seconds Over Tokyo, um single invulgar, tão esquivo aos estereótipos vigentes em meados de setentas que teve de ser lançado em regime de auto-edição. Para além de Thomas, os Pere Ubu desta autêntica pedrada no charco incluíam outros agitadores que futuramente viriam a tornar-se figuras de referência junto das tendências leftfield da música popular, tais como Allen Ravenstine (sintetizador) e Tim Wright (baixo). Ainda hoje, os primeiros segundos de uma das muitas audição do tema principal causam o mesmo impacto de algo pioneiro. A receita não consiste em mais que a combinação de diferentes ingredientes, confeccionados por estudiosos da coisa rock. Assim, partindo de uma base garage-rock, arrastado para um torpor zombie, junta-se um riff circular com algo de sabbathiano e um ritmo que vai beber ao reggae, interrompendo a toada repetitiva em mais do que um intervalo de delírio dissonante. A atmosfera sinistra é corroborada pela lenga-lenga proferida por David Thomas, relato de efeito surrealista, com distorção da voz incluída, de bombardeamentos aéreos. Ligeiramente mais convencional, mas apenas para os parâmetros pereubianos, o tema do lado B - "Heart Of Darkness" - faz-se também do recurso à repetição, mas em igual medida de tensão kraut e do negrume que o título sugere, servindo de matriz para inúmeras manifestações arty que tiveram lugar durante o período pós-punk.

30 Seconds Over Tokyo by Pere Ubu on Grooveshark
 
Heart Of Darkness by Pere Ubu on Grooveshark

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

R.I.P.



TIM WRIGHT
[1952-2013]

Morreu no passado domingo, dia 4 de Agosto, Tim Wright, músico intimamente ligado ao underground norte-americano de finais de setentas e inícios de oitentas. Talvez derivado ao facto de ter vivido as últimas três décadas em quase completa obscuridade, a notícia da sua morte chega com algum atraso.

Em 1975, Wright foi um dos membros fundadores dos Pere Ubu. Nas funções de baixista, gravou ao lado David Thomas & C.ª alguns dos primeiros singles da lendária banda de Cleveland, entre eles os seminais 30 Seconds Over Tokyo e Final Solution. Permaneceu com estes até 1978, data da edição de The Modern Dance, álbum de estreia no qual ainda chegou a participar em alguns temas. Depois de abandonar os Pere Ubu, rumou a Nova Iorque onde se juntou a Arto Lindsay e Ikue Mori nos DNA. Permaneceu até à sua dissolução, em 1982, tendo sido determinante como baixista na sonoridade da banda, já que veio substituir um teclista. No entanto, a sua chegada não se deu a tempo de participar nos temas destes agitadores no-wave na compilação No New York, o talvez sobrevalorizado resumo da "cena" nova-iorquina produzido por Brian Eno. O encontro com o produtor britânico dar-se-ia na condição de convidado para My Life In The Bush Of Ghosts (1981), disco conjunto deste com David Byrne, marco pioneiro na arte do sampling e da fusão com expressões musicais do mundo ocidental com a chamada world music.

Ainda não oficialmente confirmada, a causa da morte de Tim Wright poderá ter sido uma overdose.

30 Seconds Over Tokyo by Pere Ubu on Grooveshark
[Hearthan, 1975] 

New Fast by DNA on Grooveshark
[American Clavé, 1981]

domingo, 20 de janeiro de 2013

A dança moderna


















Talvez só com rival à altura em Mark E. Smith, David Thomas é um dos maiores agitadores da história do rock. Em meados da década de 1970, entre a pedrada no charco dos Velvet Underground e a miríade de ideias propiciadas pela "revolução" punk, em Cleveland, Ohio, fundou os Pere Ubu, banda cujo único propósito era gravar um par de singles e depois extinguir-se. O plano inicial foi alterado, e há 35 anos precisos editaram The Modern Dance, disco de referência na facção mais obtusa do rock que deixou descendência, porém incomparável com os Pere Ubu, ainda hoje únicos no seu reduto. Designaram-nos de avant-garage e de art-rock, mas estes ou quaisquer outros rótulos pecarão sempre por defeito na definição de um projecto verdadeiramente expressionista. Desde aquele disco charneira não houve nem pontos altos nem pontos baixos, apenas um conjunto já considerável de trabalhos à margem das tendências do momento e constantes alterações na formação (ainda assim relativamente menos que nos The Fall, do citado Smith), com David Thomas como único elemento constante.

Lançado há coisa de duas semanas, Lady From Shanghai, que do clássico noir de Orson Welles usa apenas o título, é o décimo sétimo registo de estúdio de uma carreira que desafia quaisquer estereótipos. Anunciado pelo seu principal instigador como um "disco de dança", e apesar da importância do elemento electrónico, sem descurar a instrumentação mais ortodoxa, não será propriamente o disco que esperamos ouvir num serão dançante. É, contudo, relativamente acessível para os padrões dos Pere Ubu. A porta de entrada dá-se com "Thanks" que, disfarçado de temas de boas vindas, aproveita a melodia do clássico disco para atirar um subversivo "You can go to hell, go to hell, my belle". A voz de David Thomas, num tom mais falado que cantado, ora sussurrante, ora possuída por um espírito maligno, ainda é usada como um verdadeiro instrumento, naquele modo tão peculiar que ensinou a um tal de Black Francis uma série de truques. Mais uma espécie de ensaio reflexivo, com muitas ambiguidades impenetráveis, com visões muito próprias o mundo em seu redor, Lady From Shanghai tem muito que possa fazer dele mais do que um disco para admiração do habitual geek, do rocker "académico", ou do crítico estudioso. Se não for pedir-vos muito nestes estranhos tempos (ainda para mais de crise) em que isso já deixou de fazer parte dos hábitos de consumo, se só poderem comprar um disco neste ano, comprem este. De preferência acompanhado de Chinese Whispers, o livro/manual de 100 páginas no qual Thomas explica todo o processo de concepção e gravação de Lady From Shanghai. O álbum de música entendido como manifesto artístico, lá está...


"414 Seconds" [Fire, 2013]