segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

1984: They were watching us

















Há 25 anos, lembro-me vagamente, nas edições de início de ano, eram vários os jornais portugueses que traziam à capa Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, a obra maior de George Orwell. A ideia era estabelecer paralelismos entre o mundo de então e a distopia imaginada pelo romancista britânico enquanto a Europa sarava as feridas da II Guerra. Apesar da vigência da Guerra Fria e do apogeu do reaganismo, em 1984, o mundo era, felizmente, bem menos cinzento do que nas profecias de Orwell. No universo da música popular, por exemplo, a febre criativa detonada pelo furacão punk conhecia um estádio de elevado desenvolvimento, dando origem a novas linguagens pop que deixariam marca nas décadas seguintes. Na altura, um puto a par de pouco mais do que o lixo que povoava os tops de vendas, desconhecia muitas destas movimentações. Porém, movido por uma imensa curiosidade, descobriria gradualmente muitas das obras-primas desse ano. Entre confirmações e estreias auspiciosas, muitas delas tornadas clássicos, vinte exemplares da excelsa colheita de 1984:

- COCTEAU TWINS Treasure [4AD]
- DAVID SYLVIAN Brilliant Trees [Virgin]
- ECHO & THE BUNNYMEN Ocean Rain [Korova]
- FELT The Strange Idols Pattern And Other Short Stories [Cherry Red]
- THE GO-BETWEENS Spring Hill Fair [Beggars Banquet]
- HÜSKER DÜ Zen Arcade [SST]
- JULIAN COPE Fried [Mercury]
- LLOYD COLE & THE COMMOTIONS Rattlesnakes [Polydor]
- MINUTEMEN Double Nickels On The Dime [SST]
- THE PALE FOUNTAINS Pacific Street [Virgin]
- PREFAB SPROUT Swoon [Kitchenware]
- PRINCE & THE REVOLUTION Purple Rain [Warner Bros.]
- R.E.M. Reckoning [I.R.S.]
- THE REPLACEMENTS Let It Be [Twin/Tone]
- ROBYN HITHCOCK I Often Dream Of Trains [Midnight Music]
- THE SMITHS The Smiths [Rough Trade]
- THE SMITHS Hatful Of Hollow [Rough Trade]
- THE SOUND Shock Of Daylight EP [Statik]
- THIS MORTAL COIL It'll End In Tears [4AD]
- U2 The Unforgettable Fire [Island]

A título meramente ilustrativo, deixo-vos a estreia absoluta em televisão de uma banda do Sul dos Estados Unidos, mais propriamente da Geórgia. Na altura, o sucesso planetário era apenas uma miragem. Nas palavras do baixista, o tema em questão era, à data, "demasiado novo para ter um nome":


R.E.M. "So. Central Rain (I'm Sorry)"
[Live @ Late Night with David Letterman, 06/10/1983]

10 comentários:

  1. Há dias um amigo meu desafiou-me para lhe indicar edições de 1992. Após vários exercícios de memória e consulta à minha discografia, receei que não tivesse sido um grande ano a nível musical. Fico à espera de contestação. Abraço!

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  2. Ouvi esse tema há dias. Tal como tu, conheci todos esses discos depois de 1984, o ano do Grande Irmão. Abraço!

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  3. Um excelente ano.
    Curiosamente daquela selecção muitos ainda tenho os vinis (Cocteau, Lloyd, REM) e apenas me falta o dos Prefab e o dos Pale Fountains (só tenho o From Across The Kitchen).

    Abraço

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  4. 84 foi o meu ano do salto no escuro em termos musicais (e não só). Vim estudar para a cidade (10º ano) e comecei a ler o Blitz com regularidade, a ouvir o Som da Frente e a dar-me com toda a especie de punks e gabardinas cinzentas lá da escola que ouviam as coisas mais incriveis. A lista é muito boa, é daquelas "para a posteridade" ou seja, é muito perfeita o que desde logo revela que a foste repescando ao longo dos anos. Um dia destes envio-te uma lista de coisas de 84 (que se calhar não ouvi em 84, só lá para 85/86) feita por quem já andava a ouvir destas coisas em 84 - menos perfeita mas mais real.
    Abraço,

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  5. Então, era este o ano!

    Há, de facto, aqui alguns discos que na altura acarinhei com gosto, como os U2 (marca a sua primeira transição, com a Eno na produção), os The Smiths, Lloyd Cole, David Sylvian, This Mortal Coil, Cocteau Twins, Echo... No entanto, acho que há aqui uma falha indesculpável: "Born in the USA" do Bruce Springsteen. Na altura não ligava muito (era mainstream, e tal...) mas é um dos casos que fui aprendendo a gostar com a idade, e é um dos (senão o) álbuns icónicos do ano e por isso incontornável. Já aquela espécie de "lush" pop dos Prefab Sprout não me dizia nada na altura e agora também não. Outro candidato à lista dos "best of de 1984", é o segundo registo dos Meat Puppets.

    Um abraço

    (um post destes merece sempre discussão...) ;)

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  6. Puto:

    Após uma vista de olhos na minha "colecção", deixo-te alguns exemplares que, na minha opinião, desmontam a tua tese em relação ao ano de 1992:

    - Aphex Twin "Selected ambient works"
    - Babes in Toyland "Fontanelle"
    - Beat Happening "You turn me on" (ainda aguardo o sucessor)
    - Curve "Doppelgänger" (deste gostas, não?)
    - Faith No More "Angel Dust" (provavelmente o melhor deles)
    - House of Love "Babe rainbow"
    - Julian Cope "Jehovahkill"
    - Lush "Spooky"
    - Manic Street Preachers "Generation terrorists" (jovens e rebeldes!)
    - Ministry "Psalm 69"
    - Morrissey "Your arsenal" (talvez o melhor a solo)
    - Pavement "Slanted & Enchanted" (a 1.ª obra-prima)
    - PJ Harvey "Dry" (o 1.º e o meu preferido)
    - R.E.M."Automatic for the people"
    - Sonic Youth "Dirty"
    - Spiritualized "Lazer guided melodies"
    - Sugar "Copper blue" (um dos discos da minha vida)
    - Tori Amos "Little earthquakes"

    Shumway:

    Tanto o dos Sprout como o dos Fountains encontram-se a um preço convidativo na amazon inglesa. Em CD, claro!

    Eduardo:

    Mesmo que não se tivesse editado mais nenhum disco, 1984 já seria um grande ano só pela "santíssima trindade" Hüsker Dü - Minutemen - Replacements.

    Pedro:

    Claro que, à distância, estas listas vão ficando mais refinadas. O meu tiro no escuro foi só por volta de 87/88. E, na altura, gostava de cada coisa...
    Fico a aguardar as tais listas. De certeza que devem ter piada.

    Strange Quark:

    Do Springsteen "aprendi" a gostar, com o tempo. Mas, o "Born" não é, nem de longe nem de perto, dos meus preferidos, embora contenha aquela pérola chamada "I'm on fire". Imaginava-te um apreciador dos Prefab Sprout mas, pelos vistos, enganei-me. O dos Meat Puppets só ficou de fora pela limitação da lista a 20.

    Abraços!

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  7. Ainda em relação a 1992, também apresentei 12 dos discos que indicaste como fortes argumentos para contestar aquilo que o meu amigo afirmou, e ainda acrescentei os seguintes:
    - Balanescu Quartet "Possessed";
    - The Lemonheads "It's A Shame About Ray" (como te esqueceste deste?);
    - Mão Morta "Mutantes s21";
    - Rage Against The Machine "RATM";
    - Ride "Going Blank Agains";
    - The Shamen "Boss Drum";
    - The The "Dusk".
    Acho que com estas duas listas consigo calá-lo. Abraço!

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  8. O primeiro do Springsteen que conheci foi o "Nebraska", e o "Born in the USA" saiu um pouco fora do estilo que conheci, e também não é o meu preferido (elejo o "Born to Run" e o "The River"). No entanto, independentemente desse facto, continuo a achar incontornável.

    Uma achega ao ano de 1992:

    Rage Against the Machine
    Tom Waits - Bone Machine

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  9. Vou ali fustigar-me e já volto... :)
    Como pude esquecer-me dos Lemonheads?! E dos Ride?! Esse dos The The também é muito bom.

    Mais dois que me tinham esacapado:

    - The Disposable Heroes of Hiphprisy "Hypocrisy is the greatest luxury"
    - Come " Eleven:eleven"

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