"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

R.I.P.



ROBERT YOUNG
[1964-2014]

A notícia só foi tornada pública nas primeiras horas de hoje mas, aparentemente, já data da passada terça-feira a morte, de causas ainda desconhecidas, de Robert Young, antigo guitarrista dos escoceses Primal Scream, que fundou juntamente com Bobby Gillespie há mais de três décadas. Alcunhado de Throb pelos seus companheiros, Young militou desde a fase embrionária em 1982 até 2006 na banda que, a partir da emulação dos seus ídolos, e com constantes reinvenções, influenciou, como poucas, sucessivas novas gerações no último quarto de século. No total, gravou com os Primal Scream qualquer coisa como oito álbuns.

Na realidade, o papel inicial de Robert Young era o de baixista, condição que exerceu no par de singles iniciais para a Creation Records e no álbum de estreia Sonic Flower Groove (1987), quando os Primal Scream ainda eram uns putos obcecados pelos Byrds, dificilmente diferenciáveis de milhentas bandas do contingente indie britânico de então. Por alturas do segundo longa-duração (Primal Scream, de 1989), transitou para a guitarra, num disco que apresenta uma considerável dureza rock mais do seu agrado, mas que não deixa saudades. A sorte mudaria com o excepcional Screamadelica (1991), ponte entre o útimo fôlego acid-house e a década do renascimento do rock que marcaria o resto dos 1990s. Curiosamente, o ponto de partida do álbum que mudaria a sorte dos Primal Scream foi o tema "Loaded", no fundo uma remistura de "I'm Losing More Than I'll Ever Have", tema do álbum anterior com um papel preponderante de Young. Sentiu-se novamente como peixe na água no desequilibrado Give Out But Don't Give Up (1994), nova inflexão ao rock de inspiração stonesy. No entanto, não torceu o nariz às experimentações levadas a cabo no celebrado Vanishing Point, trabalho em que o electrónica, o dub, e o kraut são matérias exploradas. Tal exploração conheceu novos desenvolvimentos no incendiário XTRMNTR (2000), que foi o último álbum da história da Creation, e no aceitável Evil Heat (2002), ambos com a trabalho de guitarra "tratado" pelo mestre Kevin Shields, então ainda no longo período sabático dos My Bloody Valentine. Young despediu-se das lidescom Riot City Blues (2006), apenas um disco mediano com o travo rock da sua predilecção.

Depois de abandonar a afamada vida boémia da sua banda de sempre, Robert Young afastou-se da música e dedicou-se essencialmente ao papel de pai e marido. Apesar do afastamento, Throb não foi esquecido pelos seus pares, de dentro e de fora dos Primal Scream, que ao longo de todo o dia lhe dispensaram sentidas e bonitas mensagens de homenagem.

Gentle Tuesday by Primal Scream on Grooveshark
[Elevation, 1987] 

I'm Losing More Than I'll Ever Have by Primal Scream on Grooveshark
[Creation, 1989]

Loaded by Primal Scream on Grooveshark
[Creation, 1990]

Kowalski by Primal Scream on Grooveshark
[Creation, 1997]

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Singles Bar #96










WRECKLESS ERIC
Whole Wide World
[Stiff, 1977]



Whole Wide World by Wreckless Eric on Grooveshark

Sede oficiosa da descendência pub-rock, a Stiff Records foi, a bem dizer, um poiso de aves raras no contexto punk/new-wave. Assim, só na classe de '77, o catálogo da editora londrina incluía a diversão dos The Damned, a sobriedade de Nick Lowe, a irreverência de Ian Dury & The Blockeads, e a neurose interventiva de Elvis Costello. No entanto, talvez a maior ave rara de todas fosse Wreckless Eric, nascido Eric Goulden, com o viço da juventude daquele último, mas com outra capacidade para ser interlocutor directo junto dos seus semelhantes. Escritor de canções de manifestação precoce, anunciava-se como a potencial estrela da Stiff, algo que esteve longe de concretizar-se em virtude de a embriaguez das canções e dos palcos ter passado a ser uma constante na "vida real". Eric ficou, portanto longe do estrelato, ofuscando-se até ao ponto de os seus sucessivos discos progressivamente mais escassos não irem além da devoção de um punhado de devotos. 

E a história até podia ter sido bem diferente, como o levava a crer "Whole Wide World", a magistral canção com que se apresentou ao mundo. É um clássico instantâneo de uma época pródiga em tais espécimes, mas, mais que isso, é um clássico de qualquer era, uma canção exemplar com o código rock'n'roll nos genes, mas contaminada pelo germe punk. Alegadamente escrita ainda nos teens de Eric, "Whole Wide World" é um grito de angst juvenil, com uma simplicidade alarmante, mas com as palavras mais adequadas para expressar uma urgência incontrolada. Resumindo a coisa, é a velha história do adolescente descrente na possibilidade de encontrar a miúda certa, mas em simultâneo capaz de percorrer este mundo e outro em busca do amor idealizado. Algum do mérito da eficácia desta canção deverá ser repartido com Nick Lowe, à época produtor quase exclusivo das edições da Stiff, mas também responsável pela guitarra e outros instrumentos, bem como pelo minimalismo de "While Wide World", sublimado na explosão juvenil do refrão. Depois disto, Wreckless Eric praticamente não saiu da casa de partida, quanto mais correr o mundo na perseguição da quimera do sucesso. No entanto, esta espécie de romantismo boémio deixou descendência em muita da música intrinsecamente britânica subsequente. Entre os filhos bastardos conta-se Pete Doherty, nos seus vários projectos, ele que muitas vezes se inspirou tanto na música como na modo de vida de Wreckless Eric.

domingo, 7 de setembro de 2014

The sun ain't gonna shine anymore

















Foto: Clas-Olav Slotte

Há coisa de um quarto de século, quando a Sub Pop Records era sinónimo das manifestações ruidosas do underground americano que ficaram rotuladas de grunge (seja lá o que isso for), estaríamos longe de imaginar que a editora de Seattle abrangeria a amálgama de tendências que é o actual catálogo. A bem dizer, nesses tempos, o cardápio era composto basicamente por prata da casa, pelo que, não se sonhava sequer a expansão a artistas além-fronteiras. Muito menos a jovens artistas negras, da longínqua Finlândia, mas com origens etíopes. A artista em causa chama-se Mirel Wagner, e há uns três anos lançou um disco homónimo surpreendente, um concentrado de negrume impensável para a juventude dos seus vinte e três anos. Apesar de essência acústica e dos parcos recursos, Mirel Wagner era um disco de uma crueza brutal, de um intenso cheiro a morte e a terra queimada.

Se aquele registo teve inicialmente apenas edição local, criou um burburinho suficiente para chamar a atenção das gentes da Sub Pop, responsável pela edição do novo e bastante recomendável When The Cellar Children See The Light Of Day. Pelo título sugestivo já se percebeu que o ambiente do novo álbum é igualmente carregado, sendo também mantida a inspiração de Mirel Wagner nos blues do Delta. Registam-se, contudo, diferenças significativas na produção, agora mais depurada, o que não belisca a simplicidade destas dez canções tenebrosas feitas basicamente de voz e guitarra. Assim, percorremos histórias miseráveis que incluem crianças mortas, atracções ardentes pelo Diabo, amores trágicos e, eventualmente numa evocação das origens da autora, relatos de fome extrema. Obviamente que, por motivos diferentes, há aqui pontos de contacto com a obra de Nina Nastasia, ou até com o passado de Polly Jean Harvey. No entanto, nunca a primeira mergulhou em trevas tão densas, nem a última foi tão contida nos recursos. Digamos antes que as principais referências de When The Cellar Children... extravasam o contexto musical, situando-se próximas das histórias macabras do american gothic que povoam boa parte da obra literária do genial Cormac McCarthy. Porém, se este é um conhecedor próximo do submundo de miséria que relata, Mirel Wagner tem um distanciamento geográfico desta realidade que, certamente, está na base da aura de mistério que ensombra todo o disco. É precisamente nesse ponto que reside boa parte do fascínio mórbido gerado por When The Cellar Children See The Light Of Day.

 
"The Dirt" [Sub Pop, 2014]

sábado, 6 de setembro de 2014

First exposure #69

















Foto: Paul Hughes

EIGHT ROUNDS RAPID

Mais cedo ou mais tarde, a máquina do tempo da retromania tinha de ir parar à Inglaterra rude e hiper-realista envolvente do punk, com ironia cáustica e descendência biológica de Wilko Johnson incluídas.

Formação: David Alexander (voz); Simon Johnson (gtr); Jules Cooper (bx); Lee Watkins (btr)
Origem: Southend-on-Sea, Inglaterra [UK]
Género(s): Pub-Rock, Indie-Rock, Punk-Rock, Rock'n'Roll
Influências / Referências: Dr. Feelgood, Ian Dury & The Blockeads, Art Brut, Alternative Television, Wire, Sleaford Mods, The Fall

 
"Talent" [Cadiz, 2014]

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Um homem-insecto na cidade
















Seguramente ainda desconhecido de uma imensa maioria, o britânico Kevin Martin já deveria dispensar apresentações. Desde que chegou a Londres, há um quarto de século, envolveu-se em projectos, obscuros mas seminais, como GOD, Techno Animal, ou Ice, que abordavam livremente linguagens díspares e marginais como o jazz, o grindcore, o hip-hop, o industrial, ou o ambient. Em todos eles teve como parceiro preferencial Justin Broadrick, também este um reconhecido explorador das potencialidades de um estúdio. O melhor, porém, estaria para vir quando Martin se apresentou como The Bug, projecto pessoal que tem contado com a marca própria de uma infindável lista de convidados. Em matéria de álbuns, a aventura, que se tem debruçado sobre as tensões da sociedade actual, iniciou-se com Pressure (2003) e atingiu o zénite com o superlativo London Zoo (2008), discos que exploravam com eficácia a contundência da pulsão do baixo e a desfocagem dub, numa recontextualização das profecias de uns Public Image Ltd. para a actualidade. Aquele último, reflexo da paranóia da grande cidade com cenário na urbe londrina, mas ajustável a qualquer outra metrópole do mundo moderno, é justamente um clássico imediato da música urbana.

Foram precisos seis anos para que se completasse o tríptico, o que sucede com o novíssimo Angels & Devils. A propósito da atmosfera deste, disse Kevin Martin que, ao contrário da maioria, o avançar da idade não o tem tornado mais sensato, antes mais irado. Eu acrescentaria que está também mais subtil na expressão da ira, neste disco de duas caras, a fazer justiça à dualidade do título. Assim, a afronta fica concentrada na segunda metade do alinhamento, quando toda a tensão contida até aí se liberta com estrondo. Neste segmento abordam-se temáticas como o sexismo, o estupro, o assédio, e as mais variadas formas de violência que já são lugar-comum no nosso quotidiano. O tempo de antena é concedido, entre outros, ao noise-hop atonal dos Death Grips no ofensivo "Fuck A Bitch", com resposta na mesma moeda pela voz de Warrior Queen no ragga disfuncional de "Fuck You". No entanto, apesar da frontalidade de ambos aqueles temas, nenhum é tão perturbador como o saturado e sinistro "Fat Mac", com a ameaça voz de Flowdan (MC ligado aos percursores grime Roll Deep) a atingir níveis elevados de malvadez. Por contraste, a primeira metade de Angels & Devils, não se caracterizando propriamente por uma atmosfera idílica, é pelo menos bastante mais amistosa. Para tal, contribuem tanto os instrumentais meditativos de Kevin "The Bug" Martin, como as diferentes pinceladas de pacificação trazidas pelos convidados: a contemplativa Liz Harris, a.k.a. Grouper; a enigmática Inga Copeland; a espirituosa Miss Reed; e o redentor Gonjasufi no delicioso, embora algo desfocado, "Save Me". 

Com um conceito mais difuso do que o habitual, que tanto pode ser entendido como a atracção dos opostos, como a bipolaridade latente que existe em todos e em cada um em específico, The Bug conseguiu com Angels & Devils o seu trabalho mais ecléctico, mas também o mais facilmente assimilável. Inteligibilidade de conceitos à parte, é mais um álbum soberbo que só valoriza uma discografia ímpar. Agora é esperar que a suposta acessibilidade inspire mais gente a explorar o par de complementos e, quiçá, faça cair alguns preconceitos relativamente ao que de mais estimulante se vai fazendo na música urbana actual.

[Ninja Tune, 2014]

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Alvvays the sun















Foto: Gavin Keen

Desculpem a insistência, mas hoje voltamos a registar a proximidade do esgotamento da fórmula dos recuperadores da sonoridade C86. Para os mais distraídos, refira-se que aqui se fala daquela tendência, com uma meia dúzia de anos, para as jovens bandas indie americanas soarem às congéneres britânicas de há um quarto de século. Neste, como em qualquer "fenómeno" de maiores ou menores dimensões, o declínio verifica-se tanto pela progressiva falta de qualidade das novas apostas, como pela gradual falta de inspiração dos nomes firmados. A título de exemplo refiram-se The Pains of Being at Heart, que nos iludiram apenas com um álbum, ou Dum Dum Girls, cuja ambição da mentora em chegar às massas tem sacrificado os princípios iniciais em prol do imediatismo do óbvio. Lamentavelmente, já cá não andam as Vivian Girls que, por acaso, estiveram na génese da coisa e despediram-se sem mácula.

É neste contexto, próximo da descrença, que têm de ser recebidos de braços abertos os canadianos Alvvays (leia-se "always"), autores de um primeiro álbum homónimo que é das coisas mais estimulantes dentro do género que surgiram nos tempos mais recentes. Quando se escuta Alvvays, o disco com dedo de velhas raposas como Chad VanGaalen (produção) e John Agnello (mistura), é inevitável não estabelecer comparações com gente como Best Coast ou Bleached, quanto mais não seja para assinalar que a banda de Toronto tem de suposta ingenuidade o que àquelas sobra em atrevimento. Estão, portanto, no campo de acção de uns Magnetic Fields de outrora, ou de uns Camera Obscura de sempre, as belíssimas canções saídas da pena da cantora Molly Rankin, ela que é rebento de integrantes do colectivo folk The Rankin Family. Situando as coordenadas num passado mais distante, há nos Alvvays um sentido pop resgatado dos Teenage Fanclub da fase intermédia, ou o travo retro, muitas vezes surfy, dos subvalorizados The Primtives. Porém, mais do que uma amálgama de referências facilmente reconhecíveis, estas são canções em pleno estado de graça pop que valem por si, com o inevitável reverb spectoriano, e as bem equilibradas doses de melancolia tola juvenil e de luminosidade estival. São apenas nove, mas as bastantes para que possam eleger Alvvays a banda sonora do (muito) que ainda resta deste Verão.

 
"Archie, Marry Me" [Polyvinyl, 2014]

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Há 20 anos era assim #14










OASIS
Definitely Maybe
[Creation, 1994]




Sobre os Oasis já tudo terá sido dito e escrito. E do muito que se discorreu, nem tudo foi o mais abonatório. Sobre isso, demos a mão à palmatória, e admitamos que no, apogeu da novela dos tablóides, a banda dos irmãos Gallhager era presa fácil para os detractores. Para complicar as coisas, ali pelo terceiro álbum, era facto consumado de que o momentum se tinha desvanecido às vistas da cegueira da ambição. O que talvez tenha escapado aos emissores da crítica fácil é o par de álbuns que tinham ficado para trás, gerados por uma banda disposta a conquistar o mundo e com as canções certas para o efeito. Para tal, o compositor exclusivo Noel Gallagher não necessitou de qualquer rasgo de génio, ou até de ser particularmente original, apenas da receita do cocktail perfeito de três décadas de pop/rock genuinamente brit

Sobre a edição de Definitely Maybe, o primeiro e mais glorioso desses dois álbuns, passam hoje exactamente vinte anos. Este hiato de tempo parece um ápice quando constatamos o total vazio de bandas desta estirpe desde então, capazes de se estrear com discos que, volvidas duas décadas, preservam toda a sua ferocidade e pujança da primeira audição. Algum do mérito tem de ser atribuído à mistura final, alto-e-bom-som, de Owen Morris, a qual dispensa reedições remasterizadas, apesar de elas andarem por aí, algumas com a contenção que deveria ser decreto-lei para o mercado das reedições. A subida dos Oasis até este patamar foi lenta e a pulso, com a paciência que já não é hábito na fugacidade dos novos tempos. Bem documentados estão os dias de Noel como roadie dos Inspiral Carpets, ou do irmão puto Liam Gallagher a venerar e a interiorizar tiques da atitude dos Stone Roses ou dos Happy Mondays. A história destes rapazes de modos pouco delicados, rebentos da Madchester dispostos a cortar com o cinzentismo associado ao passado da cidade, até tinha tudo para não dar certo. No entanto, o olho/ouvido clínico de Alan McGee acreditou neles e com a aposta conquistou a glória (e o declínio) da fulgurante Factory Records. O intrépido escocês queria algo mais que as críticas francamente favoráveis e as vendas moderadas dos Teenage Fanclub, dos Primal Scream, ou dos Ride, e os Gallagher tinham a ambição desmedida para tal.

Definitely Maybe até nem foi o mais vendido dos discos dos Oasis, mas a sua surpreendente compreensão dos códigos pop/rock enquanto disco de estreia foi determinante para as conquistas posteriores. A primeira demonstração de propósitos está na capa, uma imagem icónica mesmo que as canções que abriga não valessem um chavo. Mas valem muito, todas as onze, qualquer delas um potencial single, como só acontece talvez em uma ou duas mão-cheias de discos nestes sessenta anos de cultura pop. A própria sequência das faixas é ardilosa e, como tal, Definitely Maybe não poderia abrir com melhor manifesto de intenções que "Rock 'N' Roll Star", na voz do reguila e enfadado Liam, com a confiança e a arrogância bastantes para afrontar os dinossauros precoces que chegavam do outro lado do Atlântico. Neste tema inaugural, o sentido pop é uma evidência, mesmo que não se enjeite a distorção e a cacofonia que, à data, ainda eram marca da Creation. 

A dezena de temas que se segue mantém a fasquia em níveis altos, com idênticos processos, e combinando com despudorada sabedoria citações e atitudes do tal cocktail da história pop britânica. Os inevitáveis The Beatles são referência primeira, ainda que nesta fase algo difusa numa paleta que abrange The Who, T-Rex, Sex Pistols, The Jam, The Stone Roses, Teenage Fanclub, e o que mais se possa imaginar do melhor que a Grã-Bretanha produziu em trinta anos. Do equilibrado lote é quase criminoso destacar qualquer dos temas, mas porque representativos das diferentes nuances de Definitely Maybe vê-mo-nos obrigados a referir o psicadelismo revisitado do ocioso "Shakermaker", o non-sense gingão do orelhudo "Supersonic", o balanço do bocejo laddish de "Cigarettes & Alcohol" e, last but not least, a matéria de que se fazem os hinos do soberbo "Live Forever". Este último, de um optimismo latente que sobressai no ennui juvenil do todo, foi alegadamente escrito com John Lennon em mente, mas ganha actualidade com a morte de Kurt Cobain ainda fresca na memória da comunidade pop. Ou talvez seja apenas, sem qualquer tipo de profundidade romântica, porque os Oasis até nem eram dessas merdas, mais uma declaração de intentos da parelha Gallagher e companheiros. Afinal de contas, ainda não nos esquecemos que eram eles que diziam, há uns minutos atrás, "tonight, I'm a rock 'n' roll star"...

Rock 'n' Roll Star by Oasis/Oasis on Grooveshark

Shakermaker by Oasis/Oasis on Grooveshark

Live Forever by Oasis/Oasis on Grooveshark

Supersonic by Oasis/Oasis on Grooveshark

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O jogo das diferenças #31


THE NEW PORNOGRAPHERS
Mass Romantic
[Mint, 2000]

KANYE WEST
My Beautiful Dark Twisted Fantasy
[Roc-A-Fella, 2010]

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Uma casa assombrada















Foto: David Black

Sortes diferentes têm conhecido os revisitadores das sonoridades sunshine-pop de sessentas sob a óptica desfocada indie que, na última meia dúzia de anos, têm sido responsáveis por manter acesa a chama da canção pop. Assim, se os Real Estate são já um nome estabelecido, e os Woods têm, com a insistência, alargado o culto, os san-franciscanos The Fresh & Onlys são ainda um segredo mais ou menos guardado, isto apesar dos cinco álbuns no currículo. Só podemos adjectivar de injustiça este quase anonimato, mormente a partir do terceiro registo, o soberbo Play It Strange (2010) que era abrigo de um belíssimo lote de canções prenhes do espírito west-coast em tons sépia. Já no digno sucessor Long Slow Dance (2012) verifica-se uma inflexão à jangle-pop em voga na segunda metade dos eighties, reveladora de alguma devoção pelos The Smiths.

Com o novo House Of Spirits o espírito de há três décadas permanece, se bem que desta feita os californianos recuperem muita da gravidade usual em bandas de oitenta e poucos, dadas a questões de alguma profundidade. A operação estética, que certamente causa bastante estranheza num primeiro contacto, ainda não é, digo-vos para vos sossegar, a rendição dos The Fresh & Onlys ao aparato "gogó". Concebido durante um retiro no deserto, eventualmente dedicado à expiação dos demónios do mentor Tim Cohen, House Of Spirits ainda retém aquela aridez que é marca da banda. Por conseguinte, no digladiar das vozes projectadas com as guitarradas das regiões fronteiriças de temas como "Animal Of One" assistimos ao improvável encontro dos The Cure com os Eagles. Já no excelente, mas totalmente inesperado, "Bells Of Paonia", o manto feedback de uns My Bloody Valentine cruza-se com a secura desoladora de uns American Music Club. Ainda que a luminosidade não marque propriamente presença em House Of Spirits, há a registar na segunda metade da dezena de temas um desvanecer do dramatismo. Curiosamente, e depois de devidamente absorvida a tensão dos primeiros temas do alinhamento, esta parte, numa vertente aligeirada dos Echo & The Bunnymen, é a menos estimulante do disco. Porém, as diferenças de atmosfera não são assim tão significativas para pôr em causa a coesão de um álbum que, acima de tudo, regista um afastamento considerável da "zona de conforto" dos The Fresh & Onlys.

[Mexican Summer, 2014]

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Trauma revisitado















Nos alvores desta década, Dylan Baldi apresentou-se ao mundo como mais um jovem solitário dado a gravações caseiras de um power-pop com travo punky. Nessas edições já remotas, sob a chancela Cloud Nothings, o sol penetrava com relativa incidência e os princípios lo-fi eram a norma. Foi com alguma surpresa que, no começo de 2012, recebemos os primeiros sons do superlativo Attack On Memory, primeiro registo concebido pelos Cloud Nothings enquanto banda propriamente dita. Gravado por Steve Albini, o álbum era um ataque sónico evocativo dos subterrâneos post-hardcore de bandas como os Wipers ou os Unwound. As canções enegrecidas espelhavam o angst juvenil, e tinham uma complexidade intrínseca que as ligava entre si, o que fazia de Attack On Memory um disco em certa medida conceptual. O rótulo emo recuperava o seu sentido primordial, que não o dos poseurs pretensamente sofredores de uma certa estirpe de boy-bands modernas.

Com o novo Here And Nowhere Else, Baldi e os Cloud Nothings, agora reduzidos a trio, reincidem na expiação dos demónios. Portanto, este álbum é uma aposta na continuidade, mas não necessariamente na repetição. Nem melhor nem pior que o anterior registo, Here And Nowhere Else será antes um trabalho de consolidação de uma sonoridade, mais amadurecido ao nível da escrita das canções. Tal não significa que a dinâmica das mesmas tenha reforçado a sua complexidade; antes pelo contrário, os oito temas que preenchem pouco mais de meia hora de música são petardos punk-pop com acentuação naquele sufixo. É quase certo que Dylan Baldi se tenha guiado pelos ensinamentos de Kurt Cobain, ao ponto de em inúmeras ocasiões as catarses de berraria nos fazerem recuar a memória para os primeiros anos dos noventas. A naturalidade com que aquele ícone criava canções igualmente comprometidas com a eficácia pop e a agitação emocional será porventura inatingível, mas que Baldi tem estudado bem a lição é também inequívoco, tal como Here And Nowhere Else o atesta.

Psychic Trauma by Cloud Nothings on Grooveshark
[Carpark, 2014]

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Mil imagens #51



Manic Street Preachers - Londres, 1990
[Foto: Joe Dilworth]

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Good cover versions #85













RAINY DAY - "I'll Be Your Mirror" [Llama, 1984]
[Original: The Velvet Underground (1967)] 

I'll Be Your Mirror by Rainy Day on Grooveshark

A existir tal título, o de rebelde do movimento californiano Paisley Underground teria de ser atribuído a David Roback, que antes de assentar nos duradouros mas preguiçosos Mazzy Star já tinha passagens breves por duas bandas com algum reconhecimento: primeiro os Rain Parade, depois os Opal. Um pára-pouco, talvez um insatisfeito, não consta, porém, que tenha criado inimigos à sua passagem. Bem pelo contrário, parece que cultivava amigos na "cena", muitos deles reunidos à sua volta nos Rainy Day, o projecto one-off que criou logo após o abandono dos Rain Parade. O propósito era recriar canções da autoria dos músicos que serviam de guia aos princípios do Paisley Underground, essencialmente da segunda metade de sessentas, mas também da década seguinte. Assim, no único álbum (homónimo) gravado, podemos encontrar diferentes vozes a interpretar versões de temas de autores diversos: de Dylan a Hendrix, dos The Who aos Big Star. No alinhamento, não podia faltar um tema original dos Velvet Underground, a banda de culto do movimento, a referência marginal.

A escolha do reportório dos nova-iorquinos recaiu sobre "I'll Be Your Mirror", porventura o menos gélido dos três temas que Nico canta no álbum de estreia, aquele em que Andy Warhol impingiu a diva alemã ao "subterrâneo de veludo". No original uma canção bastante próxima das regras pop, apenas subvertidas pelas imperfeições de Nico, eventualmente umas oitavas à frente da música, é revisitada na versão dos Rainy Day na voz de Susanna Hoffs, a vocalista das Bangles, nesta fase apenas uma pop-star em perspectiva. Os dois registos não poderiam ser mais diferentes: uma Nico glacial encarna o anjo da desgraça; Hoffs, por seu turno, irradia luminosidade ao interpretar uma letra que não é propriamente o paradigma da felicidade. Outra característica da versão dos Rainy Day é a informalidade, ao ponto de se iniciar com a contagem que normalmente antecede a entrada dos instrumentos nas sessões de ensaio, servindo em certa medida de tubo de ensaio a uma certa balada bastante mais produzida das Bangles, já na fase do estrelato. Sem esquecer a beleza infinita de ambas as cantoras, o outro ponto em comum será a simplicidade de original e versão, algo habitual nas composições exclusivamente creditadas a Lou Reed nos primórdios dos Velvets

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

For Emma, forever ago
















Contrariamente ao que normalmente é veiculado, Lee Fields não é uma revelação em idade avançada no universo soul. Hoje com 63 anos de idade, tem cerca de quatro décadas de carreira, mas o que é certo é que, depois da edição de Let's Talk It Over (1979), o soberbo álbum de estreia, e não obstante ter editado com assinalável regularidade, a conjuntura não lhe foi favorável e caiu praticamente no esquecimento. Habituado aos estúdios, tem, por isso, uma voz mais treinada que a de gente como Sharon Jones ou Charles Bradley, dois dos mais badalados novos-velhos que são talento em bruto. Talvez o motivo para que o nome de Fields surja associado ao daqueles advenha do facto de, ao fim de dez anos de silêncio que presumiam a desistência, a Truth & Soul lhe ter relançado a carreira. O momento coincidiu com aquele em que a Daptone Records apostava em Jones e em Bradley como novos valores para o interesse renovado de uma nova geração hip, essencialmente branca, pelas sonoridades retro-soul, eventualmente motivada pela busca de uma ideia de pureza. De então para cá, aquela editora nova-iorquina já foi selo de My World (2009) e de Faithful Man (2012), dois álbuns merecedores de alguns louvores mas que não valeram a Lee Fields ainda uma visibilidade significativa junto do público.

Talvez o caso possa mudar de figura com o novo e excelente Emma Jean, que tem como título o nome da mãe do cantor, falecida há quase vinte anos. Por via daquela inspiração, e quando comparado com a restante obra, é um trabalho significativamente sóbrio, diria até, carregado de uma certa espiritualidade. Como tal, Lee Fields surge contido, apenas vagamente politizado, sem o espalhafato que lhe era característico, e que já lhe valeu no passado a alcunha de Little JB, tanto pelas semelhanças fisionómicas com o mestre James Brown, como pelos tiques vocais. Por conseguinte, Emma Jean está próximo de um conceito de soul sulista, com uma voz madura mas em pleno de forma, capaz da introspecção de um Bobby Womack, mas também da expressividade de um Otis Redding. Igualmente brilhante é o suporte instrumental, a cargo dos The Expressions, banda que já há alguns anos acompanha o cantor. Menos exuberante que outras bandas congéneres, mas aparentemente mais rica em ideias, os Expressions são capazes dos sopros mais incríveis e menos previsíveis, que sublinham com subtileza os picos dramáticos de cada canção. A secção de metais é, no entanto, apenas o destaque de um todo capaz de criar temas que se aguentam sem o complemento vocal, o que levanta a hipótese da edição em disco dos trechos instrumentais, com já aconteceu com o anterior My World. Porém, o resultado eventual ficará sempre aquém do da simbiose "banda + voz", que desta feita logrou um clássico instantâneo da soul, em qualquer época. Sim, Emma Jean é assim de bom!

 
"Just Can't Win" [Truth & Soul, 2014]

sábado, 9 de agosto de 2014

Batcave
















Aproveitamos a viagem até à Nova Zelândia do último post e ficamos por lá mais um pouco. Não é que no distante arquipélago estejam a ocorrer novidades em número comparável ao da vizinha Austrália, mas toda e qualquer reedição das pérolas do baú da Flying Nun Records é sempre digna de nota neste blogue. Aproveitamos a deixa para uma breve referência à edição expandida de Anthology, a compilação de 2002 que resumia a primeira vida dos The Clean, banda que foi pedra-de-toque no chamado Dunedin Sound mesmo sem ter editado qualquer álbum, mas espalhando a sua influência além-fronteiras para bandas como Yo La Tengo ou Pavement. Quando suspenderam actividades abruptamente em 1982 (só as retomariam no começo da década seguinte), o baixista Robert Scott fundou os The Bats, banda de formação mais ou menos estável que tem mantido uma actividade regular nestes mais de trinta anos, algo que não podemos dizer de outros notáveis do catálogo da mítica editora, como The Chills e The Verlaines. O nível qualitativo em alta tem sido também uma constante, e o último álbum Free All The Monsters (2011) é mesmo um dos melhores espécimes da pop amadurecida e outonal do passado recente.

Até ao aprimorar daquele último registo foi um longo caminho, como de resto se pode aferir pelo conjunto de reedições recentemente levadas a cabo pela incansável Captured Tracks. De uma penada, a editora nova-iorquina acaba de lançar em vinil os três primeiros registos em formato grande dos The Bats, a saber: Compilitely Bats (1987), compilação dos três EPs do período formativo que vem acrescentada de faixas avulsas e raridades da mesma era; Daddy's Highway, primeiro álbum do mesmo ano; e The Law Of Things (1990), segundo álbum acrescido do EP Four Songs (1988) e vários outtakes. Se o preço do pacote de cinco rodelas estriadas é praticamente proibitivo, mais em conta, e com os mesmos 53 temas no conteúdo, é o 3 CD boxset The Bats: Volume 1, título que presume futuros desenvolvimentos no programa de reedições. Do todo temos de destacar o disco do meio, inteiramente dedicado ao primeiro álbum, recheado de enormes canções jangle-pop a meio caminho entre o optimismo romântico e o quase desespero, não totalmente diferente daquilo que os vizinhos The Go-Betweens andavam a congeminar na mesma altura. Se aos The Bats ainda não pertence o estatuto de lenda daqueles congéneres australianos, mas porque nunca é tarde, Volume 1 pode muito bem ser um passo nesse sentido. Ora oiçam e acrescentem mais esta paixão à vossa vida!

 
"Block Of Wood" [Flying Nun, 1987]

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Pretty in pink
















Na alvorada de oitentas, precisamente na mesma altura em que, nos confins da América, uns desconhecidos R.E.M. iniciavam a recuperação da canção pop de travo psicadélico de sessentas sob as regras do-it-yourself difundidas pelo punk, na distante Nova Zelândia uma pequena comunidade de jovens bandas levava a cabo idêntico processo. Mas, se os ianques conheceram o estrelato massivo posteriormente, a semi-obscuridade foi o destino daqueles protagonistas do chamado kiwi-rock. A história poderia ter sido diferente para alguns deles, mormente uns tais The Chills, que estiveram a uma nesga da consagração no período de todas as oportunidades de inícios da década de 1990. Porém, o percurso errático de Martin Phillips, mentor, compositor, e único membro permanente, foi determinante na sabotagem de um plano que nem terá chegado a ser traçado, tal a fobia do sucesso. Mesmo apesar dos longos hiatos de ausência, há que reconhecer em Phillips a autoria de bom lote de canções intemporais, a mais brilhante de todas "Pink Frost", seguramente a mais bela canção jamais escrita sobre uma overdose. Simplista na estrutura, é um tema que assenta toda a sua melancolia imaculada numa circular de ritmo motorik e delicadas guitarras etéreas. Como nem só de hits se faz a história pop, "Pink Frost" tem estatuto de clássico na definição de uma linguagem indie canónica, tal como a conhecemos.

Foi por via de tal veneração, e também em jeito de celebração do fim do longo silêncio, que, no ano passado, elegemos a novidade "Molten Gold" como um dos acontecimentos pop. O que na altura não se disse é que aquele lançamento acontecia apenas em formato digital. Para os amantes da coisa física temos boas notícias, já que o mesmo tema acaba de conhecer edição em formato 7". Como se não bastasse, o lado b é uma regravação de "Pink Frost", concebida pela bastante activa reencarnação dos The Chills para assinalar os 30 anos da edição original daquele tema. Antes que venham invocar o sacrilégio e a intocabilidade, esclareça-se desde já que o remake não só honra o original, como é em certa medida uma canção nova. Sem o teor atmosférico e a contaminação kraut da versão de 1984 (mas gravada em 1982), respeita ainda assim a estrutura original. No entanto, é um tema mais expansivo, de guitarras mais dominates e estridentes, que abre boas perspectivas para a sonoridade renovada do prometido futuro álbum que se antevê próximo. Ora oiçam, comparem, e digam de vossa justiça:


[Fire, 2014]

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Fazer por merecer















Posso estar redondamente enganado, mas julgo que já só escapa aos mais distraídos a avultada importância na música da última meia dúzia de anos de uma dupla que se apresentou ao mundo sob a designação Hype Williams. Os seus integrantes eram Dean Blunt e Inga Copeland que, eventualmente para prevenir conflitos com o realizador de vídeos de serviço à burguesia pop actual, a partir de dada altura passou a assinar os seus lançamentos frequentes com o nome (artístico) dos intervenientes. Alterou-se a nomenclatura mas manteve-se a imprevisibilidade, numa obra que num curto espaço de tempo transpôs o reduto da electrónica. Já distante da frieza inicial, The Redeemer, o majestoso álbum do ano passado creditado apenas a Blunt que se assume sem pudores as canções, naquilo que poderá ser uma forma de soul pós-moderna para o século em curso. Consumada a separação da dupla, como viemos a saber mais tarde, Inga respondeu pouco depois com Don't Look Back, That's Not Where You're Going (2013), um curto EP próximo das formas mais avançadas da dance music que serviu para se afirmar como algo mais que a sombra da metade masculina do projecto.

Se dúvidas houvesse quanto à importância da metade feminina de origem estónia no duo desfeito, o recente álbum Because I'm Worth It, assinado simplesmente por copeland - assim mesmo, em minúsculas -, está aí para as dissipar, com todo eclectismo imaginável contido no espaço de menos de meia hora. À versatilidade, o novo trabalho junta uma certa tendência para a estranheza, algo que não será novidade para os conhecedores da obra anterior da rapariga. Digamos que a porta de entrada, com "Faith OG X", por sinal o tema mais longo do alinhamento, é até algo hostil, com cinco minutos à base de uma sequência de estática a que se junta um silvo incisivo aí pela marca dos dois minutos. Ainda numa toada esquizóide, "insult 2 injury" tem no contraste da batida opressiva com os apontamentos cinemáticos a apropriação dos processos hip-hop, enquanto "Serious" é apenas um curto esboço digital de sons quase liquefeitos. Para trazer algum apaziguamento, "Fit 1" e o curto "DILIGENCE" são a quase subversão da balada nocturna, com uma atmosfera densa, mas com uma serenidade considerável, mesmo que o primeiro não rejeite a intromissão das batidas contundentes. No leve "Inga", a voz da homónima é de uma frescura girlish que lhe desconhecíamos. É algo que contrasta com a cadência mecânica de "advice to young girls", com copeland no papel da conselheira anjo/demónio das jovenzinhas do mundo moderno, acompanhada pela síncope da batida rigorosa do convidado/produtor Actress, também este um dos criadores em estado de graça no universo da actual música urbana do Reino Unido. 

Este último tema - segundo no alinhamento - é o ponto alto de um disco intrigante, revelador de diversas facetas após o impacto inicial, e que faz o uso engenhoso do contraste da luz e das sombras. Agora ficamos a aguardar pela "resposta" do velho compincha Dean Blunt, com o sugestivo título de Black Metal, álbum e livro do mesmo nome, provavelmente já em finais do mês que vem. À cautela, estejam preparados para o que der e vier.

[edição de autor, 2014]

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Ao vivo #122

















Evan Parker & Matthew Shipp @ Fundação Calouste Gulbenkian, 02/08/2014

Precisamente no ano em que o programa do Jazz em Agosto da Gulbenkian conhece uma relativa abertura ao facilitismo do apelo às massas, dois nomes sobressaem no cartaz como sinónimo do maior arrojo que normalmente caracteriza um festival único no panorama nacional. São eles o saxofonista (tenor e soprano) inglês Evan Parker e o pianista norte.americano Matthew Shipp, separados na idade por uma geração. O primeiro é uma figura de relevo na história do jazz europeu, já com estatuto de lenda, enquanto o segundo para lá caminha. Figuras de proa na arte da improvisação, são ambos abertos à transposição do género, e para além de diversas colaborações registadas como dupla, já se encontraram em trabalhos do colectivo britânico Spring Heel Jack, este com berço no nicho da música electrónica.

Para os cépticos que catalogam a facção free-jazz como uma mera cacofonia desregrada, os primeiros instantes do concerto de sábado poderiam ser defesa de tal tese. Isto se a preguiça associada a tal convicção toldasse os sentidos ao ponto de não se reconhecer logo aqui a mestria de qualquer dos executantes, ambos com uma destreza que assusta nos tempos curtos desta primeira parte feita de texturas convulsas. Já tal tese é indefensável quando a dupla envereda por uma toada de assinalável harmonia, mas nem por isso menos imprevisível e experimentalista. A atmosfera delicada ganha realce quando Evan Parker assume o sax soprano, este que quando chega o momento do solo é capaz de sons que julgávamos inimagináveis naquele instrumento, ao mesmo tempo que demonstra todo o seu virtuosismo numa simbiose perfeita do fôlego com a agilidade dos dedos. Também Matthew Shipp tem o seu momento de brilho a solo, também num jogo do contraste entre os sons incisivos e o quase silêncio, sempre na linha de tempos curtos que caracterizou a actuação. No final, o curto encore soube a pouco como culminar de uma hora e um quarto que se esgotou num ápice.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

First exposure #68














Foto: Sebastian Nevols

GIRL BAND

O primeiro embate com uma das novas bandas mais excitantes do planeta deu-se num palco do último Primavera Sound, cenário óptimo para aferir da brutalidade do quarteto. À falta das raparigas, são a certeza de que ainda pode haver bastante interesse na exploração do post-punk mais obtuso. Em jeito de resumo, digamos que são o elo de ligação da Inglaterra pós-Pistols com a descendência do underground norte-americano de Our Band Could Be Your Life.

Formação: Dara Kiely (voz); Alan Duggan (gtr); Daniel Fox (bx); Adam Faulkner (btr)
Origem: Dublin [IE]
Género(s): Indie-Rock, Post-Punk, Noise-Rock
Influências / Referências: Public Image Ltd., Liars, Nirvana, The Jesus Lizard, Mclusky, Pavement

http://girlbanddublin.bandcamp.com/

"Lawman" [Any Other City, 2014]

terça-feira, 29 de julho de 2014

Singles Bar #95









THE HOUSE OF LOVE
Destroy The Heart
[Creation, 1988]




Com um nome como The House of Love, retirado de um título da escritora francesa Anaïs Nin, adivinha-se a carga erótica contida nas canções da banda que mais agitou o meio indie de finais de oitentas. Essa era uma característica antagónica ao teor normalmente assexuado dos temas dos The Smiths, dos quais os londrinos chegaram a ser apontados como herdeiros junto de um público letrado e sensível. A apurar o olho clínico que se lhe reconhece, Alan McGee detectou-lhes o potencial, e juntou-os à família Creation Records, então na eminência de se tornar a mais excitante editora independente do Reino Unido. Com este selo lançaram dois temas retumbantes em formato single, ambos prenhes de um romantismo exacerbado: "Shine On", que seria posteriormente regravado numa versão mais pomposa mas inferior, e "Christine", espécie de ponte entre a jangle pop e o shoegaze. Lançaram ainda um álbum homónimo, que inclui o último destes temas, cuja óptima recepção deixou as multinacionais em alerta para a inevitável mudança de divisão.

Como carta de despedida da Creation, "Destroy The Heart" é o justo reconhecimento por quem primeiro acreditou na banda, já que é o mais fulgurante dos muitos temas bestiais que os House of Love registaram nesta primeira fase. Numa urgência condensada em menos de três minutos, o vocalista Guy Chadwick e o guitarrista Terry Bickers justificam as comparações à dupla criativa Morrissey/Marr, o primeiro num hiper-romantismo bigger than life, o último capaz de uma gama de riffs variados e crepitantes. Porém, num registo mais vivaz do que era comum nos de Manchester, e muito por culpa da bateria cavalgante, os House of Love estão perto de inaugurar o estilo celebratório do clássico primeiro álbum dos Stone Roses. Apenas perto porque a matéria de que é feito "Destroy The Heart" é algo grave, um pouco à semelhança do que faziam os Hüsker Dü da fase derradeira, depois da fúria hardcore ter dado lugar à tendência para a pop profusamente emocional e passivo-agressiva. Contrastando com a grandiloquência entremeada pelo fade in inicial e o mais abrupto fade out do final, o vídeo promocional é de um minimalismo alarmante, algo em voga no circuito indie de então, e que os House of Love já haviam experimentado para promover o tema "Christine".


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Who's in control?
















Penso que não é preciso ser-se um visitante assíduo deste pasquim para já se ter percebido que, por cá, já fizemos as pazes com a Austrália. Com efeito, já não é de hoje que andamos a celebrar que, num ápice, a grande ilha tenha sido pasto de um bom número das maiores aberrações musicais do passado recente, e se tenha tornado terra fértil nos mais obtusos - por norma, os mais estimulantes - projectos. O que de lá tem vindo, nos últimos dois/três anos, tem ainda a particularidade de ter a rejeição das convenções como único denominador comum. Portanto, não é fácil estabelecer paralelismos, por exemplo, entre os Total Control e qualquer dos seus contemporâneos australianos. Foi este colectivo que, em 2011, quis (e conseguiu!) transportar a new-wave para o espaço sideral. O disco em questão chamava-se Henge Beat, e era um bom argumento para quem defende que ainda há alguma palavra a dizer em matéria da exploração do caldeirão post-punk.

Ainda melhor argumento para aquela tese é o novo Typical System, disco que nos leva a crer que a banda tenha dissecado ao pormenor do tríptico de álbuns inicial e fundamental dos britânicos Wire. As afinidades estéticas até nem são propriamente evidentes, mas há também nestes novos Total Control uma vontade de subverter as convenções da canção pop que é de assinalar. Em consequência, é um disco extremamente variado, característica que poderá também ser efeito das diferentes sensibilidades envolvidas, já que os elementos da banda ainda se ocupam com projectos paralelos bastante díspares, que vão da electrónica tout court ao hardcore mais ortodoxo, passando pelo rock mais sujo e disfuncional. Não se adivinhando se por por postura arty, se por militância convicta, Typical System tem em si algo de niilista, quer nos processos pouco óbvios, quer nas frases do tipo slogan que quase todas as canções repetem. Um passo à frente do seu antecessor, refreia o frenesim electrónico numa espécie de minimal wave revisitada, devidamente alternada com um bom número de temas mais orgânicos e abrasivos. Nestes, há nos Total Control uma austeridade que os aproxima da tensão dos Iceage. Mas, se os dinamarqueses são uma espécie de poseurs impenetráveis, os de Melbourne são condescendentes com o ritmo, nomeadamente por meio de um pulsar motorik que marca o compasso de quase todos os dez temas. Resumindo a coisa para os cépticos, Typical System é um disco de fontes facilmente identificáveis, mas combinadas com uma argúcia nada óbvia, algo só ao alcance das bandas com sangue na guelra. Como tal, tem a particularidade, de renovar a frescura e revelar novos detalhes a cada audição.

[Iron Lung, 2014]