"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel

quarta-feira, 30 de julho de 2014

First exposure #68














Foto: Sebastian Nevols

GIRL BAND

O primeiro embate com uma das novas bandas mais excitantes do planeta deu-se num palco do último Primavera Sound, cenário óptimo para aferir da brutalidade do quarteto. À falta das raparigas, são a certeza de que ainda pode haver bastante interesse na exploração do post-punk mais obtuso. Em jeito de resumo, digamos que são o elo de ligação da Inglaterra pós-Pistols com a descendência do underground norte-americano de Our Band Could Be Your Life.

Formação: Dara Kiely (voz); Alan Duggan (gtr); Daniel Fox (bx); Adam Faulkner (btr)
Origem: Dublin [IE]
Género(s): Indie-Rock, Post-Punk, Noise-Rock
Influências / Referências: Public Image Ltd., Liars, Nirvana, The Jesus Lizard, Mclusky, Pavement

http://girlbanddublin.bandcamp.com/

"Lawman" [Any Other City, 2014]

terça-feira, 29 de julho de 2014

Singles Bar #95









THE HOUSE OF LOVE
Destroy The Heart
[Creation, 1988]




Com um nome como The House of Love, retirado de um título da escritora francesa Anaïs Nin, adivinha-se a carga erótica contida nas canções da banda que mais agitou o meio indie de finais de oitentas. Essa era uma característica antagónica ao teor normalmente assexuado dos temas dos The Smiths, dos quais os londrinos chegaram a ser apontados como herdeiros junto de um público letrado e sensível. A apurar o olho clínico que se lhe reconhece, Alan McGee detectou-lhes o potencial, e juntou-os à família Creation Records, então na eminência de se tornar a mais excitante editora independente do Reino Unido. Com este selo lançaram dois temas retumbantes em formato single, ambos prenhes de um romantismo exacerbado: "Shine On", que seria posteriormente regravado numa versão mais pomposa mas inferior, e "Christine", espécie de ponte entre a jangle pop e o shoegaze. Lançaram ainda um álbum homónimo, que inclui o último destes temas, cuja óptima recepção deixou as multinacionais em alerta para a inevitável mudança de divisão.

Como carta de despedida da Creation, "Destroy The Heart" é o justo reconhecimento por quem primeiro acreditou na banda, já que é o mais fulgurante dos muitos temas bestiais que os House of Love registaram nesta primeira fase. Numa urgência condensada em menos de três minutos, o vocalista Guy Chadwick e o guitarrista Terry Bickers justificam as comparações à dupla criativa Morrissey/Marr, o primeiro num hiper-romantismo bigger than life, o último capaz de uma gama de riffs variados e crepitantes. Porém, num registo mais vivaz do que era comum nos de Manchester, e muito por culpa da bateria cavalgante, os House of Love estão perto de inaugurar o estilo celebratório do clássico primeiro álbum dos Stone Roses. Apenas perto porque a matéria de que é feito "Destroy The Heart" é algo grave, um pouco à semelhança do que faziam os Hüsker Dü da fase derradeira, depois da fúria hardcore ter dado lugar à tendência para a pop profusamente emocional e passivo-agressiva. Contrastando com a grandiloquência entremeada pelo fade in inicial e o mais abrupto fade out do final, o vídeo promocional é de um minimalismo alarmante, algo em voga no circuito indie de então, e que os House of Love já haviam experimentado para promover o tema "Christine".


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Who's in control?
















Penso que não é preciso ser-se um visitante assíduo deste pasquim para já se ter percebido que, por cá, já fizemos as pazes com a Austrália. Com efeito, já não é de hoje que andamos a celebrar que, num ápice, a grande ilha tenha sido pasto de um bom número das maiores aberrações musicais do passado recente, e se tenha tornado terra fértil nos mais obtusos - por norma, os mais estimulantes - projectos. O que de lá tem vindo, nos últimos dois/três anos, tem ainda a particularidade de ter a rejeição das convenções como único denominador comum. Portanto, não é fácil estabelecer paralelismos, por exemplo, entre os Total Control e qualquer dos seus contemporâneos australianos. Foi este colectivo que, em 2011, quis (e conseguiu!) transportar a new-wave para o espaço sideral. O disco em questão chamava-se Henge Beat, e era um bom argumento para quem defende que ainda há alguma palavra a dizer em matéria da exploração do caldeirão post-punk.

Ainda melhor argumento para aquela tese é o novo Typical System, disco que nos leva a crer que a banda tenha dissecado ao pormenor do tríptico de álbuns inicial e fundamental dos britânicos Wire. As afinidades estéticas até nem são propriamente evidentes, mas há também nestes novos Total Control uma vontade de subverter as convenções da canção pop que é de assinalar. Em consequência, é um disco extremamente variado, característica que poderá também ser efeito das diferentes sensibilidades envolvidas, já que os elementos da banda ainda se ocupam com projectos paralelos bastante díspares, que vão da electrónica tout court ao hardcore mais ortodoxo, passando pelo rock mais sujo e disfuncional. Não se adivinhando se por por postura arty, se por militância convicta, Typical System tem em si algo de niilista, quer nos processos pouco óbvios, quer nas frases do tipo slogan que quase todas as canções repetem. Um passo à frente do seu antecessor, refreia o frenesim electrónico numa espécie de minimal wave revisitada, devidamente alternada com um bom número de temas mais orgânicos e abrasivos. Nestes, há nos Total Control uma austeridade que os aproxima da tensão dos Iceage. Mas, se os dinamarqueses são uma espécie de poseurs impenetráveis, os de Melbourne são condescendentes com o ritmo, nomeadamente por meio de um pulsar motorik que marca o compasso de quase todos os dez temas. Resumindo a coisa para os cépticos, Typical System é um disco de fontes facilmente identificáveis, mas combinadas com uma argúcia nada óbvia, algo só ao alcance das bandas com sangue na guelra. Como tal, tem a particularidade, de renovar a frescura e revelar novos detalhes a cada audição.

[Iron Lung, 2014]


segunda-feira, 21 de julho de 2014

Cuidado com os rapazes!

















Se é verdade que aquela explosão "alternativa" do começo de noventas foi catalizadora de novas formas de rock-FM, tão bafientas como as anteriores, também é justo reconhecer que permitiu alguma visibilidade a bandas de valia que, de outra forma, estariam confinadas à ultra-obscuridade. Neste segmento inserem-se os californianos Geraldine Fibbers, nos quais pontificava a cantora Carla Bozulich, ela que tinha um passado ligado a projectos post-punk na linha provocatória de uma Lydia Lunch. Com esta a nova banda, mais formal enquanto tal, a frontwoman manteve a postura, mas enveredou por uma estética que reconhecia a country como pedra basilar. Com a entrada do guitarrista Nels Cline (actualmente nos Wilco), registou-se uma aproximação aos cânones rock, porém, com uma intensificação da veia experimental. Cantora e guitarrista haveriam de levar a transgressão dos conceitos pré-estabelecidos a um extremo nos breves Scarnella. Ainda e sempre na companhia do fiel seu fiel escudeiro, Carla Bozulich abraçaria de novo a country em The Red Headed Stranger (2003), releitura integral do clássico de Willie Nelson que caiu nas boas graças de alguns sectores mais atentos. No entanto, a obra maestra estaria para chegar ao terceiro álbum, de título genérico Evangelista (2006), e que fez dela a primeira artista não canadiana a editar pela Constellation Records. Com a ajuda de músicos ligados aos colectivos Thee Silver Mt. Zion e Godspeed You! Black Emperor, este era um disco de canções descarnadas e intensas, com o cunho cinemático característico dos convidados. A boa recepção a este trabalho, e a química entre músicos dele resultante, haveria de fazer com que Evangelista passasse a ser nome de banda, até esta data com três álbuns que são a progressão natural do trabalho inicial.

Entretanto, e desconhecendo-se o futuro da banda que lhe tem dado ocupação nos últimos anos, Carla Bozulich regressa aos discos em nome próprio com o novo Boy, anunciado pela própria como o seu álbum pop. Vindo de uma artista transgressora como ela, já se antevê a subjectividade que tal descrição pode conter. Com efeito, e apesar do esforço pela aproximação aos standards da canção, este é mais um trabalho de uma visceralidade alarmante. Ainda que não atentemos no conteúdo das palavras duras, pressente-se no tom hiper-dramático de Bozulich uma espécie de feminismo radical, qual animal ferido e, por consequência, pouco confiante no género oposto. A espaços, pela postura desafiadora e pelas abordagens despudoradas à sexualidade, é impossível não estabelecer afinidades com os universos de Patti Smith ou de Polly Jean Harvey. No entanto, Carla Bozulich é mais reverente que qualquer uma daquelas ao imenso caldeirão do americana. Consequentemente, Boy tanto pode ir beber aos blues e ao gospel como à folk apalachiana, embora sempre com uma tendência para a desconstrução própria de um Tom Waits por via dos inúmeros adereços improváveis. Assim, o ribombar da percussão atípica, o ranger das serras tocadas com arco, as cordas arranhadas, as guitarras desalinhadas e desafinadas, ou os apontamentos de uma electrónica tensa, espreitam sem pré-aviso por cada recanto de Boy. Por esta altura, julgo que já estarão perfeitamente convencidos de que este está longe de ser um disco pop, de qualquer artista. Mas é, seguramente, um dos trabalhos ainda assim mais próximos das convenções da autora e, por isso, porta de entrada recomendável no maravilhoso mundo (negro) de Carla Bozulich.

"Deeper Than The Well" [Constellation, 2014]

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Discos pe(r)didos #78









JOSEF K
The Only Fun In Town
[Postcard, 1981]




Se a breve história da lendária Postcard Records fosse esquematizada num triângulo, este teria de ser obrigatoriamente um triângulo invertido. Nos vértices do topo estariam os Orange Juice e os Aztec Camera, enquanto aos Josef K caberia o vértice inferior. Não querendo com esta figuração menorizar os últimos, o que é certo é que lhes faltava alguma da ousadia pop dos outros para os distinguir na manada post-punk. Por outro lado, não ostentavam a ambição pelo sucesso dos seus pares, algo que não sintonizava com os sonhos grandiosos do "patrão" Alan Horn para o Sound of Young Scotland. As diferenças de filosofia dos Josef K com aquelas bandas talvez não se fiquem a dever às origens geográficas (eram os intrusos de Edimburgo no seio da nata pop de Glasgow), mas antes a questões de postura deliberada (estudada?) e a diferentes fontes de referência.

Talvez por não serem uma máquina de singles - o formato pop por excelência -  tão evidente, o que é certo é que foi aos Josef K que calhou a sorte do único álbum lançado na existência primordial da Postcard. E até se deve acrescentar que The Only Fun In Town não foi propriamente um disco de parto fácil, já que a sua edição aconteceu a dois tempos: primeiro numa pequena tiragem, de título genérico Sorry For Laughing, com uma mistura demasiado "limpa" para as pretensões da banda; depois a versão definitiva, gravada ao vivo em estúdio num par de dias. Daqui retiramos a conclusão de que eram os Josef K gente inamovível nos seus princípios, uma pequena vaidade a que muitos personagens post-punk gostavam de se dar, apesar dos orçamentos disponíveis serem limitadíssimos. Ouvidos de enfiada, e à parte as diferenças de alinhamento, os dois registos não demonstram divergências significativas ao nível da estridência, mas para a posteridade ficou oficializada a versão concebida segundo as vontades da banda.

Curiosamente, "Sorry For Laughing", que havia sido o título escolhido para o disco rejeitado, é também o título do tema mais representativo dos Josef K, e aquele que encerra a escassa meia hora de duração de The Only Fun In Town. Nos seus pouco mais de três minutos de frenesim presta-se vassalagem à herança dos Velvet Underground, porém com a guitarra desalinhada de Malcolm Ross num galope que contrasta com o torpor narcótico daqueles. Esclareça-se desde já: por princípio, os Josef K eram gente avessa os aditivos da decadência do circo rock. As suas fontes de alienação eram outras, sobretudo baseadas em autores modernistas, como Camus, Dostoieveski e, claro está, Kafka, ou não fosse o nome da banda emprestado pelo protagonista d'O Processo. Por conseguinte, com uma dose razoável de pretensiosismo, os Josef K eram gente de uma austeridade pouco comum no meio pop-rock, algo apenas concebível no período temporal da sua existência. Como nem só de referências literárias se constrói uma reputação, também tinham heróis musicais, que para além dos citados Velvets, materializavam-se sobretudo nos Television, outro símbolo da subversão da linguagem rock com origem em Nova Iorque. A titulo de exemplo oiçam-se "Revelation", "The Angle", ou "Heart Of Song", com a secura da voz de Paul Haig numa colocação em tudo semelhante à do dandy Tom Verlaine. Já na guitarra, Malcolm Ross é incapaz do mesmo rigor técnico do "mestre", mas não o podemos acusar de não o tentar, com constantes invectivas de arestas rugosas.

Eventualmente pelo idêntico apreço pelos livros, é comum estabelecerem-se pontos de contacto entre os Josef K e os Joy Division. No entanto, os escoceses eram jovens apenas austeros, como que isolados do mundo numa bolha de presunção, enquanto os de Manchester (ou pelo menos o seu vocalista) eram gente positivamente perseguida por uma densa nuvem negra. Porém, há que reconhecer afinidades, quanto mais não seja no baixo profundo dos frenéticos "Fun 'N' Frenzy" e "Crazy To Exist", que apesar disso não ostentam qualquer indício de frieza, antes uma estranha propensão funky ao sabor daqueles tempos, assim numa nebulosa entre os Orange Juice, os Gang of Four, e os Talking Heads. O que ligava as duas bandas era, sobretudo, um respeito mútuo, e a quase valsa lúgubre do fabuloso "It's Kinda Funny" até foi escrita por Paul Haig em jeito de exéquia pela morte de Ian Curtis.

Tendo implodido logo em 1982, os Josef K não lograram mais do que um culto considerável nos países do Benelux, comum a outras bandas da época. Portanto, ficaram longe das aproximações aos tops de vendas dos comparsas da Postcard. Contudo, se tanto os Orange Juice como os Aztec Camera se podem gabar de dar início a uma nova era pop que vigorou em oitentas, o legado dos Josef K também é reconhecido no restrito mundo indie canónico, nomeadamente em muitas bandas nascidas e geradas pela emblemática C86, e tanto em termos estéticos como na filosofia un-rock que lhes era característica.

Sorry for Laughing by Josef K on Grooveshark

It's Kinda Funny by Josef K on Grooveshark

Crazy to Exist by Josef K on Grooveshark

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Here, there and everywhere















Pressinto não ser o único que há algum tempo deixou de seguir a facção dos "cantautores" (ou singer-songwiters, como se diz em americano), não tanto pelo fastio com a quantidade, mas mais pela falta de quem sobressaia da normalidade. Sou até capaz de localizar o momento do desinteresse no tempo, ali pela altura em que Ryan Adams perdeu o freio, ou quando Cat Power se rendeu ao estrelato e a xaropada, isto para agradar às meninas e aos meninos. Podem trazer-me o nome do consensual Bill Callahan à baila, que eu ripostarei que o trabalho de relevo desse está muito mais lá atrás, ainda não encaixado na categoria. Ou então invocar Will Oldham, que eu direi que esse extravasa a catalogação.

Vivemos nas nossas convicções e na nossa descrença, até que somos tentados pela dúvida quando tomamos contacto com a música de Sharon Van Etten, nem que para isso ela tenha de gravar três álbuns. A revelação, quase uma epifania, aconteceu precisamente ao terceiro, o excepcional Tramp (2012), seguramente um dos mais alarmantes discos da dor-de-corno de que há memória no passado recente, pela forma como a autora expõe as entranhas. É um trabalho ainda tenuemente enraizado na folk que, salvas as devidas distâncias estéticas, nos momentos de maior secura, faz-nos lembrar uma Polly Jean Harvey que há muito perdemos.

Ao quarto registo, o novo Are We There, Sharon ainda navega nas mesmas águas, o que significa que a matéria-prima das onze canções ainda é o complexo universo dos afectos, com acento tónico nas agruras dos mesmos. Até aí, nada de surpreendente. O que talvez não prevíssemos é que seria capaz de igualar o nível qualitativo do antecessor ou, talvez, até de o superar. Pode até ser do efeito da novidade, mas por enquanto sou da opinião que a superação acontece neste novo álbum. Por estranho que possa parecer, este disco é mais simples que Tramp, mas simultaneamente mais variado. A simplicidade advém da restrição dos adereços, que reduz cada tema ao básico essencial; a variedade deve-se à proliferação das canções ao piano, que agora reparte com a guitarra a maior fatia do suporte instrumental. O protagonismo, porém, é da voz de Sharon, com enorme contenção, mas com uma visceralidade nas palavras que chega para ter a força do grito mais lancinante. Are We There é também um disco que, sem se desligar das origens da autora, deixa enfraquecer os laços com a folk. E assim vai Sharon Van Etten, agora e sempre a debater-se com os demónios interiores, mas segura de que já conquistou espaço próprio e uma personalidade no contexto da música actual. Parece-me que isso é algo que ainda não podemos afirmar acerca de uma Angel Olsen, só para citar outra "cantautora" actual caída nas boas graças, à qual ainda falta decidir-se pela tentação à hiper-produção "modernaça", ou pela canção mais descarnada de cunho intimista.

Your Love is Killing Me by Sharon Van Etten on Grooveshark
[Jagjaguwar, 2014]

terça-feira, 15 de julho de 2014

O jogo das diferenças #30


SONIC YOUTH
Goo
[DGC, 1990]

THE TWILIGHT SAD
Killed My Parents And Hit The Road
[FatCat, 2008]

segunda-feira, 14 de julho de 2014

R.I.P.


TOMMY RAMONE
[1949-2014]

Com a morte de Thomas Erdelyi, imortalizado como Tommy Ramone, na passada sexta-feira, deixou o mundo dos vivos o último resistente da formação original dos Ramones. Portanto, fazia parte do gang dos quatro responsáveis pelo seminal álbum homónimo de estreia de 1976, na origem das sementes punk que se disseminariam logo a seguir no Reino Unido, e também percursor da ingenuidade que estaria na base da vaga twee pop que eclodiria no mesmo território na segunda metade de oitentas. A fórmula, caracterizada pela simplicidade dos "três acordes", mais não era do que a aceleração de canções baseadas no espírito pop dos Beach Boys e dos girl groups de sessentas ligados a Phil Spector.

Judeu de ascendência húngara, Erdelyi tinha já alguma experiência de estúdio como engenheiro de som quando se juntou aos restantes Ramones: Joey, Johnny e Dee Dee. Curiosamente, o seu papel original na banda foi o de manager, que acumulou com o de baterista quando se percebeu da inaptidão de Joey Ramone, que transitaria para vocalista, para a rapidez dos tempos das canções. Simultaneamente, foi co-produtor dos três primeiros álbuns da banda, precisamente aqueles em que fez parte da sua formação. Abandonou o seu lugar no quarteto em 1978, cedendo o lugar a Marky Ramone. Como manager, convenceu Phil Spector a produzir End Of The Century (1980), escolha óbvia atendendo à devoção dos Ramones pelas pérolas pop criadas por aquele. Ele próprio regressou à cadeira da produção para Too Tough To Die (1984), eventualmente o último trabalho indispensável da banda. Sensivelmente pela mesma altura, produziu Tim (1985), disco superlativo dos The Replacements, então coqueluches do circuito das college radios norte-americanas. O afastamento definitivo dos Ramones não foi totalmente pacífico, e coincidiu com o começo do declínio, até à caricatura hard rock em que se transformaram algures na década de 1990. Por acaso, tem sido Marky, o substituto de Tommy, que em nome próprio, mas com o legado da banda que lhe deu fama, quem tem vindo a perpetuar a longa agonia dos Ramones ao serviço do circo rock'n'roll, ao qual eram primordialmente figuras estranhas. 

No momento do luto por Tommy Ramone, constato que, por ironia do destino, foram apenas necessários treze escassos anos para que o cancro (e a heroína, no caso de Dee Dee), dizimasse a totalidade dos membros originais da banda que melhor personificou a eterna adolescência. Now, I wanna sniff some glue.

Blitzkrieg Bop by Ramones on Grooveshark
[Sire,1976]

I Wanna Be Your Boyfriend by Ramones on Grooveshark
[Sire, 1976]

Rockaway Beach by Ramones on Grooveshark
[Sire, 1977]

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Good cover versions #84















PAUL QUINN & EDWYN COLLINS - "Pale Blue Eyes" [Swamplands, 1984]
[Original: The Velvet Underground (1969)]

Perdoem-me a heresia, mas, sem qualquer desprimor para os dois primeiros trabalhos dos The Velvet Undeground, ultimamente ando mais inclinado para atribuir ao terceiro - e homónimo - álbum o estatuto de obra magna da banda. É certa e sabida a herança ao nível da influência do "disco da banana" (1967), embora tenhamos que reconhecer que em certa medida é um exercício de estilo da decadência encenado por Andy Warhol, o qual ainda impingiu à banda a presença gélida de Nico, com a inerente aura fatal. Também é verdade que White Light/White Heat (1968) é o apogeu da experimentação dos Velvets, por via da formação académica de John Cale, embora seja um disco que, pelas suas características, exija predisposição para a audição.

Já o terceiro The Velvet Undeground, e primeiro após a partida do erudito galês, é o disco em que Lou Reed se liberta de quaisquer as amarras, assume o comando absoluto, e revela-se como mestre escritor de canções. Ao todo são dez as canções, ternas, melancólicas, românticas, e reduzidas à essência, e entre elas sobressai "Pale Blue Eyes". Quase o paradigma da pura canção de amor, este tema é desprovido de qualquer adiposidade, reduzindo-se à linha de guitarra delicada, à pandeireta apenas para marcar compasso, e à voz de Reed num estado de encantamento que lhe era desconhecido. O simplismo da produção, quase como se o tema tivesse sido gravado dentro de um armário, é uma mais-valia ao nível do intimismo e da proximidade com o ouvinte.

Entre os muitos herdeiros - e talvez dos primeiros reconhecidos como tal - dos Velvets destaca-se Edwyn Collins, que ao leme dos Orange Juice cometeu a proeza de conjugar o minimalismo dos nova-iorquinos com os ritmos funk e soul. Seu já velho comparsa dos tempos de escola em Glasgow, colaborador pontual nos coros dos Orange Juice, e vocalista dos promissores mas efémeros Bourgie Bourgie, Paul Quinn tem a voz indicada para extrair de "Pale Blue Eyes" a essência da beleza em forma de canção pop. A versão que ambos fazem é reverente, é certo, mas ao mesmo tempo muito personalizada, aspirando à grandiosidade por oposição à discrição do original. Collins remete-se à guitarra, que fiel ponto por ponto exala uma surpreendente luminosidade que estava totalmente ausente da quase letargia da génese. O resto, que aqui se traduz pelo papel principal, é a voz de Quinn, cantor dado ao dramatismo acentuado, que realça o romantismo da canção, não sem injectar também algo de iminentemente trágico.



terça-feira, 8 de julho de 2014

Mil imagens #50



Paul Weller (The Jam) - Japão, 1979
[Foto: Pennie Smith]

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Animal à solta
















Embora o termo indie ainda seja usado e abusado nos tempos que correm, raramente o vemos associado ao verdadeiro conceito de independência surgido na Grã-Bretanha post-punk de finais de setentas. Talvez o grande cisma tenha ocorrido em plena explosão "alternativa" da primeira metade da década de 1990, quando um bom número de produtos subitamente vendáveis não resistiram à tentação das ofertas da indústria. Como consequência, a independência genuína foi remetida a um nicho underground, do qual raramente eclodem projectos com franca visibilidade, sem que para isso tenham de sacrificar os princípios. O caso recente mais notório é o dos nova-iorquinos Parquet Courts, que tiveram a ousadia de lançar o seu primeiro álbum (American Specialities, de 2011) apenas em registo cassete de tiragem bastante limitada. Já nos formatos convencionais, Light Up Gold (2012) tinha a particularidade, tal como o antecessor, de ser auto-editado. Fruto do passa-palavra, este segundo álbum, com artwork fiel aos princípios do-it-yourself, mereceu aprovação dos Parquet Courts para uma distribuição mais alargada por parte da What's Your Rupture? apenas porque também editora embarca em idênticos processos aos da banda, nomeadamente com o lançamento frequente de 7" de tiragem limitadíssima.

Relativamente ao disco que fez dos Parquet Courts uma das bandas mais excitantes da actualidade, muitos, com algum cepticismo, o reduziram a um descendente directo dos Pavement. É um facto que o tom de Andrew Savage em muito se assemelha à ironia quase dandy de um Stephen Malkmus, mas menosprezar aquele ennui - característico e algo em desuso - próprio da era post-hardcore revela alguma preguiça nas análises. As comparações talvez refreiem com o novo Sunbathing Animal, apenas com ecos tímidos daqueles patronos indie, e a querer apontar à emulação de alguns históricos da cidade que acolheu os Parquet Courts, vindos do Texas. Assim, um bom número dos treze temas é ensombrado pelo fantasma dos Television, incluindo longos devaneios instrumentais de rigor assinalável e tiradas curtas e secas ao melhor estilo da displicência de um Tom Veralaine. Menos presente, mas também facilmente detectável é o minimalismo atonal de uns Velvet Underground. Não se fixando exclusivamente em Nova Iorque, os Parquet Courts dão um salto à Londres arty dos Wire, mais por via da secura que domina o disco, do que propriamente pela via estética. Antes de se julgar Sunbathing Animal como apenas mais um somatório de boas referências, convém referir que o cunho pessoal da banda está ainda bem patente na mesma deriva post-harcore que caracterizava o antecessor. Talvez mais cerebral que enérgico, este novo álbum tem ainda um bom número de petardos da adrenalina que fizeram dos Parquet Courts uma das maiores revelações em cima de um palco a que assisti nos últimos anos.

Dear Ramona by Parquet Courts on Grooveshark
[What's Your Rupture?, 2014]

segunda-feira, 30 de junho de 2014

First exposure #67














THE LOVELY WARS

Lembra-se das Pipettes, umas raparigas cheias de estilo obcecadas com a girl-pop de sessentas que, entretanto, têm andado meio desaparecidas? Uma delas tem andado entretida à frente de um combo misto, que é um cocktail ainda mais estiloso. Mesmo quando canta em galês, e nós não entendemos patavina.

Formação: Ani (voz); Alice (gtr); Bill (bx); Ceri (tcls); Daniel (voz)
Origem: Cardiff, País de Gales [UK]
Género: Pop, Retro-Pop, Indie-Pop, New-Wave, Synth-Pop
Influências / Referências: The Long Blondes, The Supremes, The Cardigans, Blondie, Orchestral Manoeuvres in the Dark, The Human League

http://thelovelywars.bandcamp.com/

 
"Brân I Frân" [Ilow, 2014]

domingo, 29 de junho de 2014

R.I.P.


BOBBY WOMACK
[1944-2014]

Com o desaparecimento de Robert Dwayne Womack na passada sexta-feira, dia 27, vivem-se no April Skies alguns dos momentos de maior pesar desde o arranque deste pasquim. O clima é comparável ao que se seguiu às perdas de Alex Chilton e de Amy Winwhouse, ou de James Gandolfini, se extravasarmos o universo musical. Este profundo sentimento de perda é perfeitamente justificável perante o carinho deste que vos escreve pelas sonoridades soul ao ver partir o último dos grandes soul men, eventualmente aquele que teve uma carreira mais consistente, com pontos altos distribuídos por várias épocas. Não concordam? Bem, eu posso argumentar que, efectivamente, os lendários Sam Cooke e Otis Redding foram "as" vozes soul masculinas por excelência mas foram fugazes, ou que Marvin Gaye gravou "o" álbum definitivo mas tem uma discografia desequilibrada. Já Bobby Womack, esse pode nunca ter conquistado o estatuto de lenda dos referidos, mas ficou com o seu nome impresso nas capas de inúmeros discos de alto nível qualitativo, espalhados por diferentes décadas. Outros pontos a favor deste, para além do timbre grave nada desprezável, são os factos ter sido também um compositor prolífero e um dotado guitarrista (canhoto).

Dos 70 anos da vida conturbada de Womack, que incluiu várias recaídas no calvário das drogas, quase seis décadas foram dedicadas à música. Começou, portanto, em tenra idade na companhia dos irmãos na banda de suporte de Sam Cooke. O colectivo foi baptizado The Valentinos pelo próprio Cooke, em substituição do anterior Womack Brothers. Escassos três meses após a morte trágica do mestre em 1964, casou com a viúva deste, acontecimento que lhe causou dissabores vários, como acusações de traição, zangas com alguns mais próximos e um autêntico ostracismo dos seus pares. Como consequência, o arranque da carreira a solo foi discreto. Neste período, para ganhar a vida, Womack dedicou-se também a escrever para outrem e a participar como músico em discos alheios. Wilson Pickett e George Benson interpretaram canções da sua autoria, enquanto Dusty Springfield, Aretha Franklin, Sly Stone, ou até Elvis Presley, contaram com a presença da sua guitarra lânguida. 

O arranque para o sucesso em massa, com o esmorecer do "boicote", deu-se apenas com o início da década de 1970. Este período da carreira fica marcado pelos magistrais álbuns Communication (1971) e Across 110th Street (1972). O primeiro desvia-se do registo soul clássico com concessões ao mais moderno R&B, enquanto o último, banda sonora do filme blaxploitation homónimo, envereda pela tendência "progressiva" da soul em voga à época. Já com o advento disco sound Womack não foi tão conivente como muitos dos seus semelhantes, e em pleno frenesim daquele género hedonista teve o acto de rebeldia de gravar um improvável disco country (BW Goes C&W, de 1976). A opção de carreira questionável valeu-lhe o despedimento da editora United Artists, a que se seguiu uma recaída nas garras da cocaína e um dos períodos mais negros da sua vida, pessoal e artística.

O reaparecimento perante as massas e os louvores da crítica aconteceu na primeira metade da década de 1980, em simultâneo com o aparecimento de novas vozes revitalizadoras da soul, como Anita Baker, Teddy Pendergrass, ou Luther Vandross. São desta era os elegantes trabalhos The Poet (1981) e a sequela The Poet II (1984), este último distinguido como disco do ano pelo então influente New Musical Express. Tal como inúmeros artistas ligados à soul e derivados, também Bobby Womack foi prejudicado pelo desinteresse a que o género foi votado nas mais de duas décadas seguintes. O regresso à ribalta, por assim dizer, aconteceu apenas há um par de anos com a edição de The Bravest Man In The Universe, trabalho produzido e encorajado por Damon Albarn após uma aparição de Womack numa música dos Gorillaz, e uma autêntica modernização, não necessariamente descaracterizadora, da sonoridade soul clássica. 

O lançamento daquele álbum de 2012 chegou envolto na triste possibilidade de ser o último, com a notícia de que Womack padecia de um tumor cancerígeno em estado avançado. Porém, os meses seguintes trariam as notícias animadoras da regressão do cancro. No entanto, complicações várias de um estado de saúde altamente debilitado provocaram-nos, mesmo à entrada do fim-de-semana, o choque da perda deste verdadeiro bravo. Consta que, há data deste dia fatídico, havia já novo álbum concluído, intitulado The Best Is Yet To Come. Na hora da partida, resta-nos o optimismo da profecia do título, pois Bobby Womack deverá a este hora estar em paz, como uma das estrelas mais cintilantes no Paraíso Soul.

How I Miss You Baby by Bobby Womack on Grooveshark
[Minit, 1969]

That's the Way I Feel About 'cha by Bobby Womack on Grooveshark
[United Artists, 1971] 

Across 110th Street by Bobby Womack on Grooveshark
[United Artists, 1972]

Tell Me Why by Bobby Womack on Grooveshark
[Beverly Glen, 1984]

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Sonhos de toupeira














Por esta altura, decerto que já deverão ter ouvido pelo menos falar dos Cardinal. Se não for esse o caso, digo-vos, com toda a franqueza, que não o que andam a fazer neste mundo. A título adicional, gostava ainda de vos dizer que o álbum homónimo que editaram em 1994, apesar de ter passado despercebido a muita boa gente, tornou-se com tempo objecto de um culto fervoroso, um autêntico tratado de qualquer coisa como a pop de câmara/orquestral/barroca (riscar o que não interessa). Esse trabalho, concebido em Boston com alguns colaboradores locais, é fruto do génio do australiano Richard Davies, complementado pelos arranjos luxuosos do americano Eric Matthews. O primeiro encontrava-se ali deslocado por razões sentimentais, depois de ter seguido a sina de muitos artistas conterrâneos e tentar a sorte, sucessivamente em Nova Iorque e Londres, com a sua banda prévia: The Moles.

Deixando a dica de que Cardinal foi (mais uma vez) reeditado recentemente, hoje é destes últimos que me apetece falar-vos, até porque, tentando combater a obscuridade a que foram votados, acabam de ser alvo de uma retrospectiva integral da (escassa) obra numa única edição. De título genérico Flashback And Dream Sequences, o disco duplo tem selo precisamente da britânica Fire Records, neste momento a principal editora responsável pela revitalização do passado e presente da música das antípodas. Num total de 35 temas, inclui os dois álbuns da banda - Untune The Sky (1991) e Instinct (1994) -, bem como todas as canções originalmente espalhadas por uns escassos pequenos formatos. Se os pergaminhos de Richard Davies nos Cardinal, assim como a tradição das bandas clássicas australianas (The Go-Betweens, The Triffids), pode fazer crer que também os The Moles eram dados a um romantismo maior que a própria vida, desenganem-se, pois estes estavam na realidade mais sintonizados com as bandas da vizinha Nova Zelândia da década anterior à da sua existência. Assim, em Flashback And Dream Sequences podem encontrar o mesmo espírito indie-pop imperfeito, salpicado de psicadelismo e kraut, que habitava nos trabalhos seminais de gente como Tall Dwarfs, The Clean, The Chills. Refira-se ainda que estes últimos têm especial impacto ao nível da essência pop das canções. No entanto, apesar da opção pela imperfeição, no último longa-duração, que é na prática já um trabalho a solo de Richard Davies creditado à marca The Moles, já são audíveis alguns ímpetos orquestrais.

Resta acrescentar que, movido pelo súbito reavivar do interesse na banda, Davies decidiu reactivar o projecto The Moles, embora com diferentes acompanhantes. Há até planos para um álbum futuro que, a julgar pelo single de avanço, parece justificar a ressurreição. Sugiro que aproveitem o limitado Flashback And Dream Sequences, e que estejam preparados para receber o novo trabalho com o conhecimento da obra passada desta pequena mas belíssima obscuridade.

Bury Me Happy by The Moles on Grooveshark
[Seaside, 1991]

Eros Lunch (1963) by The Moles on Grooveshark
[Flydaddy, 1994]

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Singles Bar #94









THE REPLACEMENTS
I Will Dare
[Twin/Tone, 1984]




Aos The Replacements é dedicado um dos dois principais capítulos da "cena" de Minnesota-Saint Paul de oitentas, a mesma que está na base da explosão "alternativa" na América da década seguinte. A outra parte, não menos importante desta bonita história, pertence aos conterrâneos e contemporâneos Hüsker Dü. Se os primórdios destes se distinguiam por uma certa ortodoxia fiel aos princípios do hardcore, nos The Replacements pressentia-se uma vontade precoce de escrever canções dignas desse nome, apesar da rapidez quase anárquica, movida a álcool, que caracterizava a rispidez dos primeiros registos. A promessa adiada haveria de se cumprir ao terceiro álbum, o histórico Let It Be, responsável também por firmar Paul Westerberg como um dos eleitos da sua geração na categoria dos escritores de canções pop/rock de três minutos.

Antecipando a edição daquele longa-duração em algumas semanas, o lançamento em single do tema de abertura "I Will Dare", que ficaria para a posteridade como o mais emblemático da banda a que carinhosamente chamavam Mats, confirmava já a vontade anunciada por Westerberg de compor temas mais directos e sinceros. Com uma capa que aproveita uma das fotos da sessão que rendeu ainda a icónica imagem da capa de Let It Be, esta é uma daquelas canções urgentemente pop, com todos os ingredientes dessa arte, mas que não corrompe a veia subversiva da banda. A letra, numa audição distanciada aparentemente imberbe, tem bastante de transgressor ao sugerir a atracção incontrolada por um destinatário feminino bastante mais novo (menor?). O título não deixa dúvidas quanto à opção do narrador Westerberg perante o risco. Por outro lado, movida pelo ritmo gingão do baixo de Tommy Stinson, quase country, "I Will Dare" encerra em si aquele gosto pela imperfeição que era característico na banda. Por exemplo, a guitarra do enfant terrible Bob Stinson está propositadamente desafinada, mal imaginado ele que com esse gesto deliberado iria lançar as sementes jangle que se espalhariam por muitas das bandas que fizeram a ementa college rock das ondas hertzianas da América dos anos seguintes. Já Paul Westerberg, na quebra algures a meio da canção, surpreende ao surgir com umas notas do então pouco usual mandolim. Foi o próprio Peter Buck quem admitiu a influência que essas singelas notas tiveram no seu contributo posterior para muitos dos temas dos R.E.M. ("Losing My Religion", conhecem?).

Por falar em R.E.M., que em meados de oitentas eram ainda uma banda ligeiramente obscura mas na iminência do estrelato, muito se especulou que os Mats os pudessem seguir na estrada do sucesso. Contudo, a atitude pouco profissional que lhe era imagem de marca, na qual o consumo excessivo de álcool era apenas um dos factores de instabilidade, sabotaria quaisquer planos mais optimistas, ficando a banda recordada apenas como um dos mais bonitos e românticos cultos da música popular das últimas quatro décadas. E não é que faltassem canções orelhudas do calibre de "I Will Dare", algumas delas logo em Let It Be, muitas outras repartidas pelos igualmente superlativos Tim (1985) e Pleased To Meet Me (1987), estes já lançados com selo de multinacional expectante quanto ao potencial (gorado) dos The Replacements.

I Will Dare by The Replacements on Grooveshark

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O bom selvagem

















Talvez o nome Jason Quever não seja vendável o suficiente para o artista nascido como tal preferir editar sob a marca Papercuts. Apesar de uma relativa obscuridade, entre 2000 e 2011, foram uma mão cheia os álbuns lançados com aquela designação, qualquer deles a adiar a promessa do autor como um exemplar dessa espécie cada vez mais rara dos artífices pop. Eram óptimos discos, contudo, parecia faltar-lhes uma maior definição, já que Quever e os colaboradores pontuais optavam normalmente por um despojamento, até uma magreza quase rural, que empobrecia canções que pareciam aspirar a algo maior. No entanto, essa opção pela simplicidade, não tem impedido que Quever seja normalmente requisitado para tratar dos arranjos nos trabalhos de outrem. Certamente ainda estarão recordados do belíssimo trabalho levado a cabo no EP surpresa e surpreendente de Dean Wareham no ano passado.

A colaboração com o ex-Galaxie 500 terá sido mesmo um tudo de ensaio para Life Among The Savages, o sexto álbum de Papercuts e aquele que eleva, em definitivo, Jason Quever à primeira divisão dos grandes criadores de canções pop. Sem qualquer ponta de exagero, podemos afirmar que estes onze temas estão ao nível da criação de gente como Joe Pernice, Norman Blake, ou Matthew Sweet, alguns dos - poucos - mestres dessa arte da canção pop que o mundo parece já não querer saber. Num balanço equilibrado entre a luminosidade californiana que lhe serve de habitat e uma suave melancolia, Life Among The Savages é um disquinho que transpira emoção desde a primeira audição. A pureza inocente que lateja em cada esquina, e a predilecção por letras sobre amores esquivos, estabelecem pontes com o universo dos citados Galaxie 500, sugerindo que o convívio com Dean Wareham possa ter tido os seus efeitos. Contudo, Life Among... demarca-se nitidamente daquela banda mítica pela riqueza orquestrada dos temas, que juntam ao naipe de instrumentos tradicionais da pop, um violino aqui, um piano acolá, um violoncelo mais além. Como tal, este é um disco que inscreveremos naquela categoria a que chamam chamber pop, no entanto, com a ressalva de que a sua leveza o afasta de qualquer opulência barroca.

"Life Among The Savages" [Easy Sound Recording Co., 2014]

domingo, 22 de junho de 2014

Mixtape #28: That Summer Feeling



Como diz a cantiga que dá título à "cassete" gratuita de hoje, aquele sentimento do Verão há-de ensombrar o resto das vossas vidas. E, para tal, não é necessário que vos chameis Jonathan Richman. Para prolongar o Verão que ontem começou para além dos próximos três meses do calendário, basta ter o espírito da coisa e banda sonora a condizer. Como é hábito nesta altura do ano, o April Skies dá uma ajuda no segundo factor. São 20 musiquinhas bem catitas, um bom número de novidades, à mistura com bastantes semi-clássicos para teenagers crónicos. Portanto, é tudo canções leves, nada dessas coisas profundas e enfadonhas que os adultos gostam. Então, peço-vos que sigais o link indicado e que façais por ter o Verão das vossas vidas. Mas com juizinho, sim?


01. HOLY WAVE - Surfin' MTA (2014)
02. SURF CITY - No Place To Go (2013)
03. TAP TAP - Queen Of Hearts (2009)
04. THE CHILLS - Wet Blanket (1987)
05. PALE FOUNTAINS - Jean's Not Happening (1985)
06. THE JUNE BRIDES - Every Conversation (1984)
07. THE BRILIANT CORNERS - Your Feet Never Touch The Ground (1988)
08. QUILT - Eye Of The Pearl (2014)
09. THE DRUMS - I Felt Stupid (2009)
10. ORANGE JUICE - Consolation Prize (1982)
11. MAC DEMARCO - Salad Days (2014)
12. SHOCKING BLUE - Love Buzz (1969)
13. THE REPLACEMENTS - Can't Hardly Wait (1987)
14. THE JULIANA HATFIELD THREE - My Sister (1993)
15. THE DARLING BUDS - Hit The Ground (1988)
16. POSSE - Interesting Thing No. 2 (2014)
17. REVOLVING PAINT DREAM - Sun, Sea, Sand (1989)
18. DEAD FAMOUS PEOPLE - Postcard From Paradise (1989)
19. REAL ESTATE - How Might I Live (2014)
20. THE ZOMBIES - Beechwood Park (1968)

sexta-feira, 20 de junho de 2014

R.I.P.


GERRY GOFFIN
[1939-2014]

Com 75 anos de idade, morreu ontem Gerry Goffin, letrista lendário do tempo dos hitmakers da época dourada da pop na rádio maericana, de inícios até por volta de meados de sessentas. Talento precoce, fez parte do colectivo de autores e compositores que ocupou o Brill Building, o edifício de Manhattan que acolheu uma autêntica linha de montagem de hits intemporais e que deu também guarida a gente como Sonny Bono, Phil Spector, Neil Diamond, ou Shadow Morton, e ainda a duplas criativas como Burt Bacharach & Hal David, Ellie Greenwich & Jeff Barry, ou Jerry Leiber & Mike Stoller. O próprio Goffin escreveu essencialmente em parceria, na circunstância com Carole King, aquela que foi a sua esposa entre 1959 e 1968.

Logo após a decisão de abandonar uma carreira académica, o casal desatou a escrever canções em série, com sucessos em cadatupa como "Will You Love Me Tomorrow", "The Loco-Motion", "He Hit Me (It Felt Like A Kiss)", "Pleasent Valley Sunday", ou "(You Make Me Feel Like) A Natural Woman". Estes e muitos outros temas tiveram como clientes directos The Shirelles, The Drifters, The Monkees, Little Eva, The Crystals, Aretha Franklin, ou The Chiffons, e ainda reinterpretações de sucesso a cargo de Donny Osmond, Kylie Minogue, Dusty Springfield, ou Billy Fury.

Mesmo após o divórcio, a dupla criativa manteve-se ainda por mais algum tempo, agora essencialmente centrada na carreira discográfica da própria Carole King, que conheceu o pico do sucesso nos alvores da década de 1970. O próprio Gerry Goffin tentou a sua sorte com um par de discos, embora sem a mesma visibilidade da ex-companheira. Com o decorrer dos anos, e com um estado de saúde mental debilitado pelo uso de drogas químicas, e ainda após algumas parcerias criativas relativamente bem sucedidas, este foi remetido praticamente ao esquecimento. A data de hoje, deste tempo em que parece que se perdeu essa nobre arte da canção pop sem merdas supérfluas, é um óptimo dia para relembrar o nome de Gerry Goffin por via de algumas da pérolas mais perfeitas da sua lavra:

Will You Love Me Tomorrow by The Shirelles on Grooveshark
[Scepter, 1961]

The Locomotion by Little Eva on Grooveshark
[Dimension, 1962]

He Hit Me (And It Felt Like a Kiss) by The Crystals on Grooveshark
[Philles, 1962]

Pleasant Valley Sunday by The Monkees on Grooveshark
[RCA, 1967]

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Ao vivo #121



Primavera Sound 2014 @ Parc del Fòrum - Barcelona, 28-31/05/2014

E com esta já se contam seis presenças no Primavera para o currículo, e à meia dúzia agudiza-se uma amarga sensação, anteriormente latente: aquele que era um festival exemplar para servir os diversos cultos está definitivamente (e irremediavelmente?) descaracterizado. A principal causa a apontar, que para alguns até pode soar a "fundamentalismo indie", é a rendição a cabeças de cartaz de desmesurada dimensão. É inegável que esta opção atrai um público mais vasto mas, logo aí, tem um efeito prejudicial nas condições de "trânsito" no recinto. Por outro lado, o dispêndio financeiro que a contratação desses nomes de monta acarreta, reflecte-se na impossibilidade de contratar um número de bandas e artistas de uma "média dimensão", classe na qual se inserem boa parte dos motivos de culto que outrora faziam do cartaz do festival catalão algo de inexcedível.

Tomemos como primeiro exemplo deste aburguesamento a presença dos Queens of the Stone Age, exemplar de uma espécie de dinossauros precoces que provocam alarme no actual espectro da música popular. O seu concerto é um desfile de clichés do circo rock, apoiado num relativo aparato de som e imagem. Bem espremida a coisa, falta-lhe em genuinidade o que lhe sobra em espalhafato. Pior ainda, os Nine Inch Nails têm no mentor Trent Reznor um espécime invulgar nesta era de todas as reciclagens: alguém que decidiu fazer um revivalismo de si próprio. Para agravar, ao nível técnico, o concerto foi desastroso, com uma voz arruinada e um som baixíssimo e pouco definido. O resultado é um longo bocejo. Quanto aos Arcade Fire, após uma breve observação da coisa, digamos que estes talvez ainda não estejam ainda tão dentro da "primeira divisão" como por aí se apregoa. Ou, pelo menos, a histeria à sua volta já não seja a mesma de outras eras, porque o público até nem é parvo e não engole toda a hipervalorização mediática que os envolve desde o primeiro álbum. Talvez a própria banda esteja consciente disso e, segundo rezam as crónicas, opta por conceder parte de leão no alinhamento a esse disco de estreia. 

Com base nos primeiros vinte minutos do concerto dos Pixies, sou quase levado a concordar com todos aqueles que condenam o regresso à vida de bandas que, curiosamente, "cresceram" durante a ausência. Não diria o mesmo dos Pixies de 2004, ainda plenos de vigor e dispostos a reclamar os louros (e o ouro) que lhes fugiram durante a primeira existência. Actualmente (e certamente sem qualquer relação com o abandono de Kim Deal, deixem-se de tretas!), esta é uma banda em piloto automático, deixando transparecer que está ali em palco apenas por frete. Porém, mudo de opinião acerca deste tipo de regressos quando relembro o magnífico concerto dos Slowdive, o qual excedeu todas as expectativas. Admitindo que duvidava do efeito da sua sonoridade em cima de um palco, é justo reconhecer ao quinteto a capacidade de gerar o mesmo tipo de emoções dos discos, reproduzindo na perfeição aquele misto de sonho enevoado e experimentalismo. Em idêntico patamar estiveram os Godspeed You! Black Emperor, dos quais se temia a perda de impacto num concerto a céu aberto, mas capazes de proporcionar as mesmas paisagens de desolação de sempre, ao longo das duas horas necessárias para o efeito de abandono ser pleno. Ainda em alto nível, refiram-se os Slint, que deixaram explícito que o angst juvenil entre a apatia e a fúria descontrolada do mítico Spiderland ainda é algo de bastante invulgar. Tanto estes como o colectivo canadiano cometeram a proeza de remeter a plateia a um quase total silêncio durante os temas, proporcionado momentos de rara introspecção em concertos em terras de nuestros hermanos. Quanto aos Television, e embora a idade avançada dos seus elementos possa ter um impacto negativo na ideia pré-concebida pelos menos conhecedores do histórico Marquee Moon, cedo desfizeram equívocos sobre a sua eficácia, pondo a nu a proveniência das ideias dos primeiros e celebrados The Strokes. Por fim, na secção da glórias de outrora, é imperioso referir tanto os Loop como Julian Cope. Os primeiros, ainda em plena luz do dia, deixaram inebriada a assistência com uma massa sonora demolidora e em alto volume, numa súmula de diferentes rebeldias da história rock. Um renegado por convicção, Julian Cope precisou apenas de uma guitarra e de uma voz a transpirar vitalidade para encher a imensidão de um auditório, e gerar, inclusive, alguma agitação sempre que revisitava momentos mais marcantes da sua vasta obra.

No mesmo auditório que recebeu o bardo inglês, aterrou o ovni do Primavera, representado pela Sun Ra Arkestra. Fazendo jus à expressão "velhos são os trapos", os antigos músicos acompanhantes da lenda da facção free do jazz (comemora-se presentemente o centenário de Sun Ra) deram um autêntico baile rítmico, que inclui acrobacias inesperadas de quem já entrou na terceira idade e mais do que uma incursão dos sopros pelo meio da assistência. O efeito é o de autêntico delírio. Em matéria de ritmo, mestria é aquilo que define Seun Kuti & Egypt 80, tónico perfeito para embalar pela noite dentro em crescendo de animação sob as vibrações positivas da música africana. Interventivo quanto baste, o filho da lenda Fela Kuti demonstrou que do pai não herdou apenas o talento. Em matéria de "aves-raras", porém, o vencedor foi Charles Bradley, o veterano cantor soul que apenas teve reconhecimento tardio e bastante recente, desde logo porque a minha devoção por estas sonoridades nem sempre é correspondida pela abundância de concertos do género. É notório que uma voz já envelhecida, e que não dispôs do treino "académico" de outros, tem as suas quebras nos momentos mais exigentes, mas estas são fácil e rapidamente esquecidas perante a mais genuína pureza de Bradley, que faz questão de repetir uma gratidão que só pode ser sincera. Quando este necessita de algum repouso, ou até mudar de indumentária, o ritmo não vacila, já que a banda primorosa que o acompanha assegura a animação.

Com a opção de assistir a um maior número de concertos completos, escasseou o tempo para espreitar bandas mais jovens. Mas sempre deu para reforçar a ideia de que os Real Estate nunca são piores que bons, particularmente num cenário propício de fim de tarde, como foi o caso. Ou ainda de que o mundo já tem uns Tame Impala para poder dispensar os Pond, estes com a agravante dos tiques da suposta animação colorida dos actuais e irritantes Flaming Lips. No mesmo palco Pitchfork, finalmente com um som condigno (aleluia!), que os australianos perpetraram uma tortura, os Speedy Ortiz foram o oposto, provando que ainda há espaço para a canção de travo indie, desde que bem urdida. Mesmo ali ao lado, no Vice ocorreu a grande revelação deste festival, na pessoa dos irlandeses Girl Band. Mantendo a esperança de que ainda haja vida no revivalismo post-punk mais obtuso, estes serão com toda a certeza merecedores de um aprofundamento muito além dos escassos minutos de concerto a que assisti. No mesmo palco, lamento que as sobreposições me tenham impedido de prolongar o deleite com os escoceses The Twilight Sad, uma banda que já não me move como outrora, mas que em palco ainda provoca o arrepio emocional que percorria o retumbante primeiro álbum. Quanto aos Temples, não fugindo sobremaneira ao registo gravado, escaparam sem mácula como uma das poucas bandas da presente regurgitação psicadélica com canções dignas desse nome para mostrar. Rematando no mesmo tom com que se iniciou esta resenha, tenho de vos dizer que ainda estou para perceber o porquê de uma coisa chamada Stromae, um belga que aparentemente é vedeta lá na terra e que fez as delícias do vasto contingente francófono. A roçar o gosto duvidoso do eurodance, o miúdo reforça a minha teoria de que, desde o advento electroclash, em matéria de música de dança, se perdeu completamente o crivo da decência.

OS 10+

  1. SLOWDIVE
  2. CHARLES BRADLEY
  3. SLINT
  4. SUN RA ARKESTRA
  5. GODSPEED YOU! BLACK EMPEROR
  6. LOOP
  7. REAL ESTATE
  8. TELEVISION (performing Marquee Moon)
  9. JULIAN COPE
  10. SEUN KUTI & EGYPT 80


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Fui...



...mas depois conto como foi.