"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel

segunda-feira, 30 de junho de 2014

First exposure #67














THE LOVELY WARS

Lembra-se das Pipettes, umas raparigas cheias de estilo obcecadas com a girl-pop de sessentas que, entretanto, têm andado meio desaparecidas? Uma delas tem andado entretida à frente de um combo misto, que é um cocktail ainda mais estiloso. Mesmo quando canta em galês, e nós não entendemos patavina.

Formação: Ani (voz); Alice (gtr); Bill (bx); Ceri (tcls); Daniel (voz)
Origem: Cardiff, País de Gales [UK]
Género: Pop, Retro-Pop, Indie-Pop, New-Wave, Synth-Pop
Influências / Referências: The Long Blondes, The Supremes, The Cardigans, Blondie, Orchestral Manoeuvres in the Dark, The Human League

http://thelovelywars.bandcamp.com/

 
"Brân I Frân" [Ilow, 2014]

domingo, 29 de junho de 2014

R.I.P.


BOBBY WOMACK
[1944-2014]

Com o desaparecimento de Robert Dwayne Womack na passada sexta-feira, dia 27, vivem-se no April Skies alguns dos momentos de maior pesar desde o arranque deste pasquim. O clima é comparável ao que se seguiu às perdas de Alex Chilton e de Amy Winwhouse, ou de James Gandolfini, se extravasarmos o universo musical. Este profundo sentimento de perda é perfeitamente justificável perante o carinho deste que vos escreve pelas sonoridades soul ao ver partir o último dos grandes soul men, eventualmente aquele que teve uma carreira mais consistente, com pontos altos distribuídos por várias épocas. Não concordam? Bem, eu posso argumentar que, efectivamente, os lendários Sam Cooke e Otis Redding foram "as" vozes soul masculinas por excelência mas foram fugazes, ou que Marvin Gaye gravou "o" álbum definitivo mas tem uma discografia desequilibrada. Já Bobby Womack, esse pode nunca ter conquistado o estatuto de lenda dos referidos, mas ficou com o seu nome impresso nas capas de inúmeros discos de alto nível qualitativo, espalhados por diferentes décadas. Outros pontos a favor deste, para além do timbre grave nada desprezável, são os factos ter sido também um compositor prolífero e um dotado guitarrista (canhoto).

Dos 70 anos da vida conturbada de Womack, que incluiu várias recaídas no calvário das drogas, quase seis décadas foram dedicadas à música. Começou, portanto, em tenra idade na companhia dos irmãos na banda de suporte de Sam Cooke. O colectivo foi baptizado The Valentinos pelo próprio Cooke, em substituição do anterior Womack Brothers. Escassos três meses após a morte trágica do mestre em 1964, casou com a viúva deste, acontecimento que lhe causou dissabores vários, como acusações de traição, zangas com alguns mais próximos e um autêntico ostracismo dos seus pares. Como consequência, o arranque da carreira a solo foi discreto. Neste período, para ganhar a vida, Womack dedicou-se também a escrever para outrem e a participar como músico em discos alheios. Wilson Pickett e George Benson interpretaram canções da sua autoria, enquanto Dusty Springfield, Aretha Franklin, Sly Stone, ou até Elvis Presley, contaram com a presença da sua guitarra lânguida. 

O arranque para o sucesso em massa, com o esmorecer do "boicote", deu-se apenas com o início da década de 1970. Este período da carreira fica marcado pelos magistrais álbuns Communication (1971) e Across 110th Street (1972). O primeiro desvia-se do registo soul clássico com concessões ao mais moderno R&B, enquanto o último, banda sonora do filme blaxploitation homónimo, envereda pela tendência "progressiva" da soul em voga à época. Já com o advento disco sound Womack não foi tão conivente como muitos dos seus semelhantes, e em pleno frenesim daquele género hedonista teve o acto de rebeldia de gravar um improvável disco country (BW Goes C&W, de 1976). A opção de carreira questionável valeu-lhe o despedimento da editora United Artists, a que se seguiu uma recaída nas garras da cocaína e um dos períodos mais negros da sua vida, pessoal e artística.

O reaparecimento perante as massas e os louvores da crítica aconteceu na primeira metade da década de 1980, em simultâneo com o aparecimento de novas vozes revitalizadoras da soul, como Anita Baker, Teddy Pendergrass, ou Luther Vandross. São desta era os elegantes trabalhos The Poet (1981) e a sequela The Poet II (1984), este último distinguido como disco do ano pelo então influente New Musical Express. Tal como inúmeros artistas ligados à soul e derivados, também Bobby Womack foi prejudicado pelo desinteresse a que o género foi votado nas mais de duas décadas seguintes. O regresso à ribalta, por assim dizer, aconteceu apenas há um par de anos com a edição de The Bravest Man In The Universe, trabalho produzido e encorajado por Damon Albarn após uma aparição de Womack numa música dos Gorillaz, e uma autêntica modernização, não necessariamente descaracterizadora, da sonoridade soul clássica. 

O lançamento daquele álbum de 2012 chegou envolto na triste possibilidade de ser o último, com a notícia de que Womack padecia de um tumor cancerígeno em estado avançado. Porém, os meses seguintes trariam as notícias animadoras da regressão do cancro. No entanto, complicações várias de um estado de saúde altamente debilitado provocaram-nos, mesmo à entrada do fim-de-semana, o choque da perda deste verdadeiro bravo. Consta que, há data deste dia fatídico, havia já novo álbum concluído, intitulado The Best Is Yet To Come. Na hora da partida, resta-nos o optimismo da profecia do título, pois Bobby Womack deverá a este hora estar em paz, como uma das estrelas mais cintilantes no Paraíso Soul.

How I Miss You Baby by Bobby Womack on Grooveshark
[Minit, 1969]

That's the Way I Feel About 'cha by Bobby Womack on Grooveshark
[United Artists, 1971] 

Across 110th Street by Bobby Womack on Grooveshark
[United Artists, 1972]

Tell Me Why by Bobby Womack on Grooveshark
[Beverly Glen, 1984]

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Sonhos de toupeira














Por esta altura, decerto que já deverão ter ouvido pelo menos falar dos Cardinal. Se não for esse o caso, digo-vos, com toda a franqueza, que não o que andam a fazer neste mundo. A título adicional, gostava ainda de vos dizer que o álbum homónimo que editaram em 1994, apesar de ter passado despercebido a muita boa gente, tornou-se com tempo objecto de um culto fervoroso, um autêntico tratado de qualquer coisa como a pop de câmara/orquestral/barroca (riscar o que não interessa). Esse trabalho, concebido em Boston com alguns colaboradores locais, é fruto do génio do australiano Richard Davies, complementado pelos arranjos luxuosos do americano Eric Matthews. O primeiro encontrava-se ali deslocado por razões sentimentais, depois de ter seguido a sina de muitos artistas conterrâneos e tentar a sorte, sucessivamente em Nova Iorque e Londres, com a sua banda prévia: The Moles.

Deixando a dica de que Cardinal foi (mais uma vez) reeditado recentemente, hoje é destes últimos que me apetece falar-vos, até porque, tentando combater a obscuridade a que foram votados, acabam de ser alvo de uma retrospectiva integral da (escassa) obra numa única edição. De título genérico Flashback And Dream Sequences, o disco duplo tem selo precisamente da britânica Fire Records, neste momento a principal editora responsável pela revitalização do passado e presente da música das antípodas. Num total de 35 temas, inclui os dois álbuns da banda - Untune The Sky (1991) e Instinct (1994) -, bem como todas as canções originalmente espalhadas por uns escassos pequenos formatos. Se os pergaminhos de Richard Davies nos Cardinal, assim como a tradição das bandas clássicas australianas (The Go-Betweens, The Triffids), pode fazer crer que também os The Moles eram dados a um romantismo maior que a própria vida, desenganem-se, pois estes estavam na realidade mais sintonizados com as bandas da vizinha Nova Zelândia da década anterior à da sua existência. Assim, em Flashback And Dream Sequences podem encontrar o mesmo espírito indie-pop imperfeito, salpicado de psicadelismo e kraut, que habitava nos trabalhos seminais de gente como Tall Dwarfs, The Clean, The Chills. Refira-se ainda que estes últimos têm especial impacto ao nível da essência pop das canções. No entanto, apesar da opção pela imperfeição, no último longa-duração, que é na prática já um trabalho a solo de Richard Davies creditado à marca The Moles, já são audíveis alguns ímpetos orquestrais.

Resta acrescentar que, movido pelo súbito reavivar do interesse na banda, Davies decidiu reactivar o projecto The Moles, embora com diferentes acompanhantes. Há até planos para um álbum futuro que, a julgar pelo single de avanço, parece justificar a ressurreição. Sugiro que aproveitem o limitado Flashback And Dream Sequences, e que estejam preparados para receber o novo trabalho com o conhecimento da obra passada desta pequena mas belíssima obscuridade.

Bury Me Happy by The Moles on Grooveshark
[Seaside, 1991]

Eros Lunch (1963) by The Moles on Grooveshark
[Flydaddy, 1994]

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Singles Bar #94









THE REPLACEMENTS
I Will Dare
[Twin/Tone, 1984]




Aos The Replacements é dedicado um dos dois principais capítulos da "cena" de Minnesota-Saint Paul de oitentas, a mesma que está na base da explosão "alternativa" na América da década seguinte. A outra parte, não menos importante desta bonita história, pertence aos conterrâneos e contemporâneos Hüsker Dü. Se os primórdios destes se distinguiam por uma certa ortodoxia fiel aos princípios do hardcore, nos The Replacements pressentia-se uma vontade precoce de escrever canções dignas desse nome, apesar da rapidez quase anárquica, movida a álcool, que caracterizava a rispidez dos primeiros registos. A promessa adiada haveria de se cumprir ao terceiro álbum, o histórico Let It Be, responsável também por firmar Paul Westerberg como um dos eleitos da sua geração na categoria dos escritores de canções pop/rock de três minutos.

Antecipando a edição daquele longa-duração em algumas semanas, o lançamento em single do tema de abertura "I Will Dare", que ficaria para a posteridade como o mais emblemático da banda a que carinhosamente chamavam Mats, confirmava já a vontade anunciada por Westerberg de compor temas mais directos e sinceros. Com uma capa que aproveita uma das fotos da sessão que rendeu ainda a icónica imagem da capa de Let It Be, esta é uma daquelas canções urgentemente pop, com todos os ingredientes dessa arte, mas que não corrompe a veia subversiva da banda. A letra, numa audição distanciada aparentemente imberbe, tem bastante de transgressor ao sugerir a atracção incontrolada por um destinatário feminino bastante mais novo (menor?). O título não deixa dúvidas quanto à opção do narrador Westerberg perante o risco. Por outro lado, movida pelo ritmo gingão do baixo de Tommy Stinson, quase country, "I Will Dare" encerra em si aquele gosto pela imperfeição que era característico na banda. Por exemplo, a guitarra do enfant terrible Bob Stinson está propositadamente desafinada, mal imaginado ele que com esse gesto deliberado iria lançar as sementes jangle que se espalhariam por muitas das bandas que fizeram a ementa college rock das ondas hertzianas da América dos anos seguintes. Já Paul Westerberg, na quebra algures a meio da canção, surpreende ao surgir com umas notas do então pouco usual mandolim. Foi o próprio Peter Buck quem admitiu a influência que essas singelas notas tiveram no seu contributo posterior para muitos dos temas dos R.E.M. ("Losing My Religion", conhecem?).

Por falar em R.E.M., que em meados de oitentas eram ainda uma banda ligeiramente obscura mas na iminência do estrelato, muito se especulou que os Mats os pudessem seguir na estrada do sucesso. Contudo, a atitude pouco profissional que lhe era imagem de marca, na qual o consumo excessivo de álcool era apenas um dos factores de instabilidade, sabotaria quaisquer planos mais optimistas, ficando a banda recordada apenas como um dos mais bonitos e românticos cultos da música popular das últimas quatro décadas. E não é que faltassem canções orelhudas do calibre de "I Will Dare", algumas delas logo em Let It Be, muitas outras repartidas pelos igualmente superlativos Tim (1985) e Pleased To Meet Me (1987), estes já lançados com selo de multinacional expectante quanto ao potencial (gorado) dos The Replacements.

I Will Dare by The Replacements on Grooveshark

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O bom selvagem

















Talvez o nome Jason Quever não seja vendável o suficiente para o artista nascido como tal preferir editar sob a marca Papercuts. Apesar de uma relativa obscuridade, entre 2000 e 2011, foram uma mão cheia os álbuns lançados com aquela designação, qualquer deles a adiar a promessa do autor como um exemplar dessa espécie cada vez mais rara dos artífices pop. Eram óptimos discos, contudo, parecia faltar-lhes uma maior definição, já que Quever e os colaboradores pontuais optavam normalmente por um despojamento, até uma magreza quase rural, que empobrecia canções que pareciam aspirar a algo maior. No entanto, essa opção pela simplicidade, não tem impedido que Quever seja normalmente requisitado para tratar dos arranjos nos trabalhos de outrem. Certamente ainda estarão recordados do belíssimo trabalho levado a cabo no EP surpresa e surpreendente de Dean Wareham no ano passado.

A colaboração com o ex-Galaxie 500 terá sido mesmo um tudo de ensaio para Life Among The Savages, o sexto álbum de Papercuts e aquele que eleva, em definitivo, Jason Quever à primeira divisão dos grandes criadores de canções pop. Sem qualquer ponta de exagero, podemos afirmar que estes onze temas estão ao nível da criação de gente como Joe Pernice, Norman Blake, ou Matthew Sweet, alguns dos - poucos - mestres dessa arte da canção pop que o mundo parece já não querer saber. Num balanço equilibrado entre a luminosidade californiana que lhe serve de habitat e uma suave melancolia, Life Among The Savages é um disquinho que transpira emoção desde a primeira audição. A pureza inocente que lateja em cada esquina, e a predilecção por letras sobre amores esquivos, estabelecem pontes com o universo dos citados Galaxie 500, sugerindo que o convívio com Dean Wareham possa ter tido os seus efeitos. Contudo, Life Among... demarca-se nitidamente daquela banda mítica pela riqueza orquestrada dos temas, que juntam ao naipe de instrumentos tradicionais da pop, um violino aqui, um piano acolá, um violoncelo mais além. Como tal, este é um disco que inscreveremos naquela categoria a que chamam chamber pop, no entanto, com a ressalva de que a sua leveza o afasta de qualquer opulência barroca.

"Life Among The Savages" [Easy Sound Recording Co., 2014]

domingo, 22 de junho de 2014

Mixtape #28: That Summer Feeling



Como diz a cantiga que dá título à "cassete" gratuita de hoje, aquele sentimento do Verão há-de ensombrar o resto das vossas vidas. E, para tal, não é necessário que vos chameis Jonathan Richman. Para prolongar o Verão que ontem começou para além dos próximos três meses do calendário, basta ter o espírito da coisa e banda sonora a condizer. Como é hábito nesta altura do ano, o April Skies dá uma ajuda no segundo factor. São 20 musiquinhas bem catitas, um bom número de novidades, à mistura com bastantes semi-clássicos para teenagers crónicos. Portanto, é tudo canções leves, nada dessas coisas profundas e enfadonhas que os adultos gostam. Então, peço-vos que sigais o link indicado e que façais por ter o Verão das vossas vidas. Mas com juizinho, sim?


01. HOLY WAVE - Surfin' MTA (2014)
02. SURF CITY - No Place To Go (2013)
03. TAP TAP - Queen Of Hearts (2009)
04. THE CHILLS - Wet Blanket (1987)
05. PALE FOUNTAINS - Jean's Not Happening (1985)
06. THE JUNE BRIDES - Every Conversation (1984)
07. THE BRILIANT CORNERS - Your Feet Never Touch The Ground (1988)
08. QUILT - Eye Of The Pearl (2014)
09. THE DRUMS - I Felt Stupid (2009)
10. ORANGE JUICE - Consolation Prize (1982)
11. MAC DEMARCO - Salad Days (2014)
12. SHOCKING BLUE - Love Buzz (1969)
13. THE REPLACEMENTS - Can't Hardly Wait (1987)
14. THE JULIANA HATFIELD THREE - My Sister (1993)
15. THE DARLING BUDS - Hit The Ground (1988)
16. POSSE - Interesting Thing No. 2 (2014)
17. REVOLVING PAINT DREAM - Sun, Sea, Sand (1989)
18. DEAD FAMOUS PEOPLE - Postcard From Paradise (1989)
19. REAL ESTATE - How Might I Live (2014)
20. THE ZOMBIES - Beechwood Park (1968)

sexta-feira, 20 de junho de 2014

R.I.P.


GERRY GOFFIN
[1939-2014]

Com 75 anos de idade, morreu ontem Gerry Goffin, letrista lendário do tempo dos hitmakers da época dourada da pop na rádio maericana, de inícios até por volta de meados de sessentas. Talento precoce, fez parte do colectivo de autores e compositores que ocupou o Brill Building, o edifício de Manhattan que acolheu uma autêntica linha de montagem de hits intemporais e que deu também guarida a gente como Sonny Bono, Phil Spector, Neil Diamond, ou Shadow Morton, e ainda a duplas criativas como Burt Bacharach & Hal David, Ellie Greenwich & Jeff Barry, ou Jerry Leiber & Mike Stoller. O próprio Goffin escreveu essencialmente em parceria, na circunstância com Carole King, aquela que foi a sua esposa entre 1959 e 1968.

Logo após a decisão de abandonar uma carreira académica, o casal desatou a escrever canções em série, com sucessos em cadatupa como "Will You Love Me Tomorrow", "The Loco-Motion", "He Hit Me (It Felt Like A Kiss)", "Pleasent Valley Sunday", ou "(You Make Me Feel Like) A Natural Woman". Estes e muitos outros temas tiveram como clientes directos The Shirelles, The Drifters, The Monkees, Little Eva, The Crystals, Aretha Franklin, ou The Chiffons, e ainda reinterpretações de sucesso a cargo de Donny Osmond, Kylie Minogue, Dusty Springfield, ou Billy Fury.

Mesmo após o divórcio, a dupla criativa manteve-se ainda por mais algum tempo, agora essencialmente centrada na carreira discográfica da própria Carole King, que conheceu o pico do sucesso nos alvores da década de 1970. O próprio Gerry Goffin tentou a sua sorte com um par de discos, embora sem a mesma visibilidade da ex-companheira. Com o decorrer dos anos, e com um estado de saúde mental debilitado pelo uso de drogas químicas, e ainda após algumas parcerias criativas relativamente bem sucedidas, este foi remetido praticamente ao esquecimento. A data de hoje, deste tempo em que parece que se perdeu essa nobre arte da canção pop sem merdas supérfluas, é um óptimo dia para relembrar o nome de Gerry Goffin por via de algumas da pérolas mais perfeitas da sua lavra:

Will You Love Me Tomorrow by The Shirelles on Grooveshark
[Scepter, 1961]

The Locomotion by Little Eva on Grooveshark
[Dimension, 1962]

He Hit Me (And It Felt Like a Kiss) by The Crystals on Grooveshark
[Philles, 1962]

Pleasant Valley Sunday by The Monkees on Grooveshark
[RCA, 1967]

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Ao vivo #121



Primavera Sound 2014 @ Parc del Fòrum - Barcelona, 28-31/05/2014

E com esta já se contam seis presenças no Primavera para o currículo, e à meia dúzia agudiza-se uma amarga sensação, anteriormente latente: aquele que era um festival exemplar para servir os diversos cultos está definitivamente (e irremediavelmente?) descaracterizado. A principal causa a apontar, que para alguns até pode soar a "fundamentalismo indie", é a rendição a cabeças de cartaz de desmesurada dimensão. É inegável que esta opção atrai um público mais vasto mas, logo aí, tem um efeito prejudicial nas condições de "trânsito" no recinto. Por outro lado, o dispêndio financeiro que a contratação desses nomes de monta acarreta, reflecte-se na impossibilidade de contratar um número de bandas e artistas de uma "média dimensão", classe na qual se inserem boa parte dos motivos de culto que outrora faziam do cartaz do festival catalão algo de inexcedível.

Tomemos como primeiro exemplo deste aburguesamento a presença dos Queens of the Stone Age, exemplar de uma espécie de dinossauros precoces que provocam alarme no actual espectro da música popular. O seu concerto é um desfile de clichés do circo rock, apoiado num relativo aparato de som e imagem. Bem espremida a coisa, falta-lhe em genuinidade o que lhe sobra em espalhafato. Pior ainda, os Nine Inch Nails têm no mentor Trent Reznor um espécime invulgar nesta era de todas as reciclagens: alguém que decidiu fazer um revivalismo de si próprio. Para agravar, ao nível técnico, o concerto foi desastroso, com uma voz arruinada e um som baixíssimo e pouco definido. O resultado é um longo bocejo. Quanto aos Arcade Fire, após uma breve observação da coisa, digamos que estes talvez ainda não estejam ainda tão dentro da "primeira divisão" como por aí se apregoa. Ou, pelo menos, a histeria à sua volta já não seja a mesma de outras eras, porque o público até nem é parvo e não engole toda a hipervalorização mediática que os envolve desde o primeiro álbum. Talvez a própria banda esteja consciente disso e, segundo rezam as crónicas, opta por conceder parte de leão no alinhamento a esse disco de estreia. 

Com base nos primeiros vinte minutos do concerto dos Pixies, sou quase levado a concordar com todos aqueles que condenam o regresso à vida de bandas que, curiosamente, "cresceram" durante a ausência. Não diria o mesmo dos Pixies de 2004, ainda plenos de vigor e dispostos a reclamar os louros (e o ouro) que lhes fugiram durante a primeira existência. Actualmente (e certamente sem qualquer relação com o abandono de Kim Deal, deixem-se de tretas!), esta é uma banda em piloto automático, deixando transparecer que está ali em palco apenas por frete. Porém, mudo de opinião acerca deste tipo de regressos quando relembro o magnífico concerto dos Slowdive, o qual excedeu todas as expectativas. Admitindo que duvidava do efeito da sua sonoridade em cima de um palco, é justo reconhecer ao quinteto a capacidade de gerar o mesmo tipo de emoções dos discos, reproduzindo na perfeição aquele misto de sonho enevoado e experimentalismo. Em idêntico patamar estiveram os Godspeed You! Black Emperor, dos quais se temia a perda de impacto num concerto a céu aberto, mas capazes de proporcionar as mesmas paisagens de desolação de sempre, ao longo das duas horas necessárias para o efeito de abandono ser pleno. Ainda em alto nível, refiram-se os Slint, que deixaram explícito que o angst juvenil entre a apatia e a fúria descontrolada do mítico Spiderland ainda é algo de bastante invulgar. Tanto estes como o colectivo canadiano cometeram a proeza de remeter a plateia a um quase total silêncio durante os temas, proporcionado momentos de rara introspecção em concertos em terras de nuestros hermanos. Quanto aos Television, e embora a idade avançada dos seus elementos possa ter um impacto negativo na ideia pré-concebida pelos menos conhecedores do histórico Marquee Moon, cedo desfizeram equívocos sobre a sua eficácia, pondo a nu a proveniência das ideias dos primeiros e celebrados The Strokes. Por fim, na secção da glórias de outrora, é imperioso referir tanto os Loop como Julian Cope. Os primeiros, ainda em plena luz do dia, deixaram inebriada a assistência com uma massa sonora demolidora e em alto volume, numa súmula de diferentes rebeldias da história rock. Um renegado por convicção, Julian Cope precisou apenas de uma guitarra e de uma voz a transpirar vitalidade para encher a imensidão de um auditório, e gerar, inclusive, alguma agitação sempre que revisitava momentos mais marcantes da sua vasta obra.

No mesmo auditório que recebeu o bardo inglês, aterrou o ovni do Primavera, representado pela Sun Ra Arkestra. Fazendo jus à expressão "velhos são os trapos", os antigos músicos acompanhantes da lenda da facção free do jazz (comemora-se presentemente o centenário de Sun Ra) deram um autêntico baile rítmico, que inclui acrobacias inesperadas de quem já entrou na terceira idade e mais do que uma incursão dos sopros pelo meio da assistência. O efeito é o de autêntico delírio. Em matéria de ritmo, mestria é aquilo que define Seun Kuti & Egypt 80, tónico perfeito para embalar pela noite dentro em crescendo de animação sob as vibrações positivas da música africana. Interventivo quanto baste, o filho da lenda Fela Kuti demonstrou que do pai não herdou apenas o talento. Em matéria de "aves-raras", porém, o vencedor foi Charles Bradley, o veterano cantor soul que apenas teve reconhecimento tardio e bastante recente, desde logo porque a minha devoção por estas sonoridades nem sempre é correspondida pela abundância de concertos do género. É notório que uma voz já envelhecida, e que não dispôs do treino "académico" de outros, tem as suas quebras nos momentos mais exigentes, mas estas são fácil e rapidamente esquecidas perante a mais genuína pureza de Bradley, que faz questão de repetir uma gratidão que só pode ser sincera. Quando este necessita de algum repouso, ou até mudar de indumentária, o ritmo não vacila, já que a banda primorosa que o acompanha assegura a animação.

Com a opção de assistir a um maior número de concertos completos, escasseou o tempo para espreitar bandas mais jovens. Mas sempre deu para reforçar a ideia de que os Real Estate nunca são piores que bons, particularmente num cenário propício de fim de tarde, como foi o caso. Ou ainda de que o mundo já tem uns Tame Impala para poder dispensar os Pond, estes com a agravante dos tiques da suposta animação colorida dos actuais e irritantes Flaming Lips. No mesmo palco Pitchfork, finalmente com um som condigno (aleluia!), que os australianos perpetraram uma tortura, os Speedy Ortiz foram o oposto, provando que ainda há espaço para a canção de travo indie, desde que bem urdida. Mesmo ali ao lado, no Vice ocorreu a grande revelação deste festival, na pessoa dos irlandeses Girl Band. Mantendo a esperança de que ainda haja vida no revivalismo post-punk mais obtuso, estes serão com toda a certeza merecedores de um aprofundamento muito além dos escassos minutos de concerto a que assisti. No mesmo palco, lamento que as sobreposições me tenham impedido de prolongar o deleite com os escoceses The Twilight Sad, uma banda que já não me move como outrora, mas que em palco ainda provoca o arrepio emocional que percorria o retumbante primeiro álbum. Quanto aos Temples, não fugindo sobremaneira ao registo gravado, escaparam sem mácula como uma das poucas bandas da presente regurgitação psicadélica com canções dignas desse nome para mostrar. Rematando no mesmo tom com que se iniciou esta resenha, tenho de vos dizer que ainda estou para perceber o porquê de uma coisa chamada Stromae, um belga que aparentemente é vedeta lá na terra e que fez as delícias do vasto contingente francófono. A roçar o gosto duvidoso do eurodance, o miúdo reforça a minha teoria de que, desde o advento electroclash, em matéria de música de dança, se perdeu completamente o crivo da decência.

OS 10+

  1. SLOWDIVE
  2. CHARLES BRADLEY
  3. SLINT
  4. SUN RA ARKESTRA
  5. GODSPEED YOU! BLACK EMPEROR
  6. LOOP
  7. REAL ESTATE
  8. TELEVISION (performing Marquee Moon)
  9. JULIAN COPE
  10. SEUN KUTI & EGYPT 80


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Fui...



...mas depois conto como foi.

sábado, 24 de maio de 2014

Teenage kicks, so hard to beat
















Apesar de "pop" e "juventude" serem conceitos praticamente indissociáveis, não estão fáceis as coisas para quem faz dessa combinação uma forma de vida. Talvez derivado da permanência no activo, e do consequente envelhecimento, de quem habitualmente escreve sobre e divulga música, fica a sensação que a inanidade primordial caiu em desuso, e tudo o que merece atenção tem de ter uma certa profundidade. Há, porém, bolsas de resistência, como vamos detectando na Escócia, quanto mais não seja pela longa tradição das highlands na devoção à causa pop. Foi de lá que, no final de 2012, recebemos os PAWS com o álbum Cokefloat!, um disco com a irreverência própria da tenra idade do trio que recuperava aquela forma de fazer as coisas à maneira dos alvores de noventas, isto é, com igual comprometimento entre o chinfrim e a estrutura de canção pop. Foi um trabalho que passou despercebido à maioria, mas não a uma minoria irredutível que ainda busca algo para além do que lhe tentam impingir.

Um ano e meio volvido, os PAWS estão de volta ao local do crime com Youth Culture Forever, segundo álbum com um título que não deixa dúvidas quanto aos propósitos do trio de Glasgow. Na comparação com o anterior regista-se um relativo abrandamento da sonoridade, em favor de uma maior focagem na ortodoxia das canções (pop, obviamente), ainda que, paradoxalmente, realce o espírito lo-fi que já aflorava em Cokefloat!. No entanto, ainda abundam os temas buliçosos, herdeiros directos da escola punk-pop que tem nos americanos Superchunk figura tutelar. Por contraste com estes petardos de adrenalina, uma mão cheia de temas são contemplativos o bastante, pese embora façam uso e abuso da fórmula quiet-loud-quiet. É nestes, e no ennui que lhes está subjacente, que o título Youth Culture Forever ganha outro significado que não o literal. Ou seja, na moderada amargura da voz de Phillip Taylor, estão expressos os primeiros desgostos de uma juventude em estado terminal, e também a constatação da inevitabilidade da idade adulta. Tema atípico no alinhamento, feito de canções breves e imediatas, é o derradeiro "War Cry", longo de perto dos doze minutos, uma boa parte dos quais ocupados com devaneios guitarrísticos carregados de feedback. Este número de maior complexidade pode indicar pistas para um próximo trabalho, isto se acaso os PAWS não quiserem saborear a juventude que se esvai até ao último instante.

 
"Tongues" [FatCat, 2014]

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Mil imagens #49



The Specials - Southend, 1980
[Foto: Janette Beckman]

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Ao vivo #120
















Laraaji & Sun Araw @ Teatro Maria Matos, 20/05/2014

Nos programas irrepetíveis a que o Maria Matos já nos habituou, são já habituais as colaborações entre gente da actualidade das franjas da música popular. A última dessas propostas teve lugar na última terça-feira, e juntou paisagistas sonoros de duas diferentes geraçções, embora ambos estejam na ordem do dia. O mais velho é Laraaji, músico septagenário de formação académica radicado em Nova Iorque que tem como nome de baptismo Edward Larry Gordon. Figura do ambientalismo a tanger a new age, atravessa uma fase de redescoberta depois de no passado ter impressionado o figurão Brian Eno, com o qual chegou a colaborar com a sua citara adaptada a ferramenta electrónica. Substancialmente mais jovem, Cameron Stallones tem sido ultra-produtivo como Sun Araw, projecto de texturas moldáveis e inclassificáveis, numa nebulosa para a qual convergem o psicadelismo, o kraut, o tropicalismo, e até a pop.

O concerto conjunto consiste em três partes distintas mas ininterruptas, duas delas reservadas a cada um dos nomes do cartaz em separado, e a parte central dedicada à colaboração propriamente dita. Cabe ao texano migrado em Los Angeles a abertura, acompanhado do habitual manipulador electrónico Alex Gray. Na guitarra e nos teclados, Stallones liberta notas, à partida desconexas, que esbarram nas perturbações daquele. Gradualmente, do caos aparente nasce algo, um emaranhado de sugestões sensoriais sublinhadas pelo estilo único da guitarra, esta com uma soberba amplificação que ganha com as boas condições de acústica do Maria Matos. Da estranheza inicial, portanto, a dupla conquistou os sentidos da assistência, e preparou-a para o banho de misticismo prometido por Laraaji. Quando este entra em cena, torna-se o mestre de cerimónias, conduzindo a massa sonora para uma toada planante. Explorando, além da cítara, uma panóplia de percussões (sininhos, espanta-espíritos), permite aos Sun Araw um papel mais discreto, mas determinante na quase subida aos céus: Stallones limita-se a um silvo contínuo, Gray é mais reservado nas interferências. O todo, porém, é inseparável nas suas partes. Já em solitário, talvez a música de Laraaji peque pelo excessivo apelo ao misticismo, e pelo recurso às vocalizações de origem indefinida. É nesta derradeira parte do concerto que se escapa por um triz à actual conotação pejorativa do rótulo new age, embora este seja um momento extremamente didáctico no que concerne às potencialidades de uma citara.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Good cover versions #83
















SHONEN KNIFE - "When You Sleep" [High Fader, 2013]
[Original: My Bloody Valentine (1991)] 

When You Sleep by Shonen Knife on Grooveshark

Se a memória não me atraiçoa, a recepção inicial ao álbum Loveless, segundo dos My Bloody Valentine, não foi propriamente aquele que é reservada clássico instantâneo. Se bem me recordo, foi francamente positiva, mas com alguma moderação. Só com a passagem dos anos o estatuto de culto foi conquistado gradualmente. Não estava lá para o presenciar, mas quase aposto que no Japão a coisa tenha sido diferente, e que a devoção de uns quantos geeks tenha sido imediata. Ou não fosse o país do sol nascente terra propícia a gerar pequenos nichos de culto a toda e qualquer tendência gerada no ocidente, por mais bizarra que ele possa ser, como era o caso do disco mais experimentalista do denominado shoegaze. Foi precisamente lá, nessa terra distante, onde decerto os clones dos MBV surgirão como cogumelos, que no ano passado foi confeccionado um tributo integral a Loveless.

Como todo e qualquer disco do género, o apropriadamente intitulado Yellow Loveless é desequilibrado nos resultados obtidos. Igualmente previsível é que abundem bandas obscuras, e no caso em apreço também os projectos amantes do ruído. No oceano de distorção mais ou menos reverencial, sobressai a proposta que mais destoa da linha condutora, levada a cabo pelas Shonen Knife. Estas eternas adolescentes já andam nisto desde os alvores de oitentas, funcionando como um equivalente oriental e feminino dos Ramones. Se bem se lembram, a ingenuidade latente em cada uma das suas canções faziam as delícias de Kurt Cobain, em parte responsável pelo seu crescendo de exposição no ocidente no começo da década de 1990. A sua versão de "When You Sleep" tem todas as marcas identitárias típicas, com a benesse de conter uma frescura pop que, apesar de retro, fica bem em qualquer época. Uma batida inicial evocativa da de "Be My Baby", das Ronettes, dá o mote para uma verdadeira apropriação do tema, numa versão toda ela imersa no espírito dos girl-groups dos sixties, recheada de coros pa-pa-pa quase infantis. Ao contrário do original, ainda assim aquele com resquícios pop mais evidentes no alinhamento de Loveless, e no qual as vozes surgem submersas na torrente de distorção, a versão das Shonen Knife puxa as vozes juvenis (de espírito) para a frente, resultando tão irradiantes quanto a melodia infecciosa, esta com um cheirinho de "You Can't Hurry Love", das Supremes. 

domingo, 18 de maio de 2014

Esplendor de cores















Desculpem-me a insistência, mas hoje voltamos a denunciar a incapacidade da "música de guitarras" actual em criar algo de verdadeiramente refrescante a partir da herança do passado de seis décadas. Admitindo a inevitabilidade da eterna regressão, o que me desilude é a tendência generalizada para o decalque descarado de tiques e truques, muitas vezes gastos. Ainda não há nada, éramos bombardeados pelo revivalismo garage com cheiro a mofo e por uma imensidão de xonices de inspiração shoegaze. Mais recentemente, os adjectivos psych e kraut passaram a servir de rótulo a qualquer sub-produto vendido aos incautos como a mais radiosa novidade. Neste deserto de ideias brilham com mais intensidade as honrosas excepções, aquelas propostas assumidamente mergulhadas no passado, mas com o olhar fixo no presente e nas possibilidades do futuro. Portanto, hoje mais que nunca, é um trabalho redobrado o de separar o trigo do joio. 

Deste campo tomado pelas ervas daninhas, gostava de extrair os norte-americanos Quilt que, depois do interessante mas algo difuso debute homónimo em 2001, superam as expectativas mais optimistas com o novo Held In Splendor. Toda a retórica introdutória faz sentido porque este trio formado em Boston não disfarça sequer a inspiração nas sonoridades da segunda metade dos sixties, aquelas que têm nos The Byrds e The Mamas & The Papas figuras tutelares, e se estendem à brigada que fazia da Rickenbacker, do Farfisa, e do abuso da reverberação, ferramentas predilectas. Ao contrário da maioria da concorrência, porém, não se confinam ao mimetismo localizado, baralhando a bel-prazer as múltiplas referências dispersas com o propósito atingir aquele limbo em que os conceitos "pop" e "folk" se confundem. O grande trunfo reside, no entanto, no engenho para escrever canções escorreitas e altamente coloridas, não obstante por mais que uma vez arrisquem a mutação de forma dentro do mesmo tema, mas sem perder o sentido de linearidade. Substancialmente menos dado às harmonias vocais conjuntas que o antecessor, este segundo álbum é mais ou menos democrático na repartição das vocalizações separadas de Shane Butler e Anna Fox Rochinski. Produzido por Jarvis Taveniere, dos parentes próximos Woods, Held In Splendor ganha na dicotomia boy/girl uma variedade que não ameaça a coesão do todo. Assim, nos temas "dele" vagueia-se na encruzilhada entre a pop ensolarada da west coast e a sujidade garage, enquanto os temas cantados por ela, normalmente mais luminosos, têm a dose trippy e sexy da Grace Slick dos melhores tempos, evocando em simultâneo o encanto das "divas" psych-folk britânicas. Com discos destes servir de suporte sonoro, o Verão já podia começar amanhã.

 
"Arctic Shark" [Mexican Summer, 2014]

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Xerifes de Nottingham

















Fazendo orelhas moucas ao buzz hiperbólico do "a América isto, o Canadá aquilo" que nos tentam impingir, aqui no April Skies há muito que defendemos que, embora num nível mais subterrâneo, a produção musical britânica dos últimos anos tem sido relativamente mais estimulante que aquela que vem do outro lado do Atlântico. Não podemos falar propriamente de uma era dourada como aquela do post-punk, mas é imperioso reconhecer, pelo menos no largo espectro da chamada música urbana, os benefícios trazidos pelo advento do dubstep e a sua propagação. Basta atentar nas muitas ramificações da electrónica recente, ou até no universo hip-hop, no qual os criadores britânicos parecem apostados em evitar os clichés do país dos progenitores da coisa.

De estética algo difusa para arrumar apenas num género estanque, a dupla Sleaford Mods arrisca-se a ser a próxima coqueluche a chegar de terras de Sua Majestade, pese embora já tenha alguns anitos no activo. Pelo menos desde 2007, têm editado álbuns com alguma regularidade, com títulos como Austerity Dogs (2013) ou Wank (2012), que sugerem sobeja irreverência. Com base no formato dupla e nas fotos promocionais, já alguém lhes chamou "os Pet Shop Boys do bairro social", descrição que tem algum cabimento também pelo cariz working class que nos parece genuíno, naquele estilo rufia que é tipicamente brit. O mestre de cerimónias é o trintão Jason Williamson, um rapper pouco convencional capaz de debitar slogans com a mesma prolificidade de uns Half Man Half Biscuit. A principal particularidade do discurso afiado, porém, é o uso desbragado do vernáculo, num cerrado sotaque de Nottingham. Os alvos da acidez podem variar, e para além do obrigatório comentário sócio-político, qual velho jarreta, Williamson dispara em todas das direcções, inclusive junto do mundo do showbizz e da actual geração dos gadgets. Estas crónicas de costumes corroídas de sarcasmo têm o devido acompanhamento nos samples, simplistas mas certeiros, de Andrew Fearn, algo que faz a ponte com o alegado passado rock, mod, e até rave, da dupla. À falta de qualquer descrição cabal - porque ela não existe - para este produto tão peculiar, vamos resumir os Sleaford Mods como um híbrido tão desempoeirado e fresco como muitos do período post-punk, devidamente recontextualizado para o presente. Depois de toda esta prosa, que vos poderá levar a questionar para que precisa o século XXI do seu Shaun Ryder, sugiro que os oiçam e tirem as vossas conclusões, sob pena de estarem a perder a maior pedrada no charco da monotonia instalada detectada desde há uns bons anos. Caso a falta de actualidade vos cause algum prurido, apanhem a boleia do novo Divide And Exit, adiado mas prestes a estourar nos próximos dias.

 
"Tied Up In Nottz" [Harbinger Sound, 2014]

segunda-feira, 12 de maio de 2014

First exposure #66















LITTLE BIG LEAGUE

Gente com origem em diferentes obscuridades de Filadélfia e também um ex-Titus Andronicus. Da pomposidade punk destes nem um traço; apenas uma indie-pop entre a luz e as sombras, com uma pitada de feminismo reminiscente da alvorada de noventas.

Formação: Michelle Zauner (voz, gtr); Deven Craige (bx); Kevin O'Halloran (gtr); Ian Dykstra (btr)
Origem: Filadélfia, Pensilvânia [US]
Género(s): Indie-Pop, Indie-Rock, Noise-Pop
Influências / Referências: Velocity Girl, Versus, Throwing Muses, Belly, Speedy Ortiz

 
"My Very Own You" [Tiny Engines, 2013]

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Na idade dos porquês

















Foto: Danny Cohen

Talvez tenha tido azar, o aclamado "jovem prodígio" canadiano Mac DeMarco para não me ter caído no goto à primeira. À época, a do lançamento do álbum 2 (2012), começava a esgotar-se a receptividade para aquela zona nebulosa, entre o denominado hypnagogic e as memórias da ingenuidade proto-indie dos primórdios da britânica Cherry Red Records. Aquele registo inscrevia-se precisamente nessa tendência densamente habitada, a dos jovens prolíferos que resumem essa hiperactividade a gravar novas canções em regime caseiro. Isto quando não estão a fumar marijuana. Do que retenho das três - não mais que cinco - audições é que, não sendo um mau disco, faltava-lhe o golpe de asa para se destacar em terreno concorrido.

Se antes tinha sido "vítima" da má fortuna, agora DeMarco goza de uma segunda oportunidade, coisa rara nestes dias em que a quantidade (não confundir com qualidade) da oferta é excessiva para a escassez do tempo disponível. Aconteceu com o novo Salad Days, e foi o suficiente para que o agora emigrado em Brooklyn, provocasse "aquele" clique. Assim intitulado com a expressão inglesa para o período juvenil da inexperiência, o álbum surge na ressaca de uma longa tournée e do crescendo de exposição de alguém que, já se percebeu, não está disposto aos sacrifícios do estrelato. Por consequência, os onze temas de Salad Days são uma reacção, não irada como seria expectável da idade do autor, mas sim enfadada. Mais que isso, e embora ainda concebido em ambiente doméstico, o disco está recheado de canções que já não são meros esboços, conhecedoras de todos os Malkmus, os Richman, e os Lawrence deste mundo, mas acima de tudo reflexo dos progressos de Mac DeMarco como compositor. Na maioria nota-se até o desenvolvimento de uma técnica própria na guitarra, com malhas tendencialmente elípticas, mas eficazmente melódicas. Neste particular, detectam-se afinidades com um Kurt Vile. Porém, se este, obcecado por um concepção de perfeccionismo, satura os espaços, DeMarco é mais simplista e reduz as canções à sua essência. Fica a ganhar a pureza da pop de guitarras, num disco ainda com espaço para a curiosidade "Chamber Of Reflection", tema baseado em sintetizadores primitivos e numa atmosfera entre os cerimoniais dos Beach House e o dramatismo exacerbado de Arthur Russell. Uma possível pista para o futuro? A ver vamos...

Blue Boy by Mac DeMarco on Grooveshark
[Captured Tracks, 2014]

quinta-feira, 8 de maio de 2014

O jogo das diferenças #29


THE 13TH FLOOR ELEVATORS
The Psychedelic Sounds Of The 13th Floor Elevators
[International Artists, 1966]


MATT JOHNSON
Burning Blue Soul
[4AD, 1981]

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Estádio da luz














Ao contrário do que faria supor o ócio com que normalmente se espraia a sua música, os Woods são uma banda de árduos trabalhadores. Basta lembrar que no espaço de cinco anos, até 2012, nos deram outros tantos álbuns, todos eles de considerável nível qualitativo. Também é verdade que nesses discos não operavam grandes revoluções, já que qualquer deles era o espelho de quatro nova-iorquinos encantados com a pop pintalgada de folk e psicadelismo da west coast de sessentas. Normalmente, as canções eram ligeiramente obscurecidas e rústicas, como que no longo trajecto que separa as duas costas dos states a ruralidade do extenso interior as tivesse coberto de pó.

Depois de um hiato de dois anos, longo para os parâmetros woodsianos, estão de regresso aos discos com With Light And With Love, registo que, verdade seja dita, sem descaracterizar a sonoridade típica, traz novidades dignas de nota. É, por sinal, o trabalho em que os Woods se esmeram numa linguagem assumidamente pop, com dez temas do mais luminoso e arejado que já editaram. O elemento folk ainda está dissimulado nas entrelinhas, quanto mais não seja pelo timbre nasalado de Jeremy Earl, e a psicadelia ainda marca presença, se bem que naquela forma delicada que não beliscava a essência pop de uns The Shins do começo. Caso tenham ficado curiosos com a referência à banda que melhor representou a facção indie norte-americana na primeira década deste século, é imperativo que oiçam com "Moving To The Left", o mais refrescante banho de melodia do álbum. De horizontes largos, mas sem se desviar dos propósitos pop, With Light And With Love expande a paleta, imagine-se, a tonalidades soul, como acontece no tema-título - que nos seus nove minutos tem espaço de sobra para outros delírios - e mais declaradamente na amostra abaixo. Agora que perderam a suposta "estranheza" que bloqueava alguns ouvidos, já não me parece que haja motivos para que os Woods não façam parte da banda sonora estival de mais alguém que o punhado de geeks do costume.

[Woodsist, 2014]

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Há 20 anos era assim #13









RODAN
Rusty
[Quarterstick, 1994]




Corria o ano de 1994 quando, a propósito do excelso Hex, dos britânicos Bark Psychosis, o jornalista musical Simon Reynolds fazia pela primeira vez uso da expressão post-rock. A designação não pretendia abarcar uma estética estanque, mas sim definir algo que, usando as ferramentas rock, dificilmente poderia ser catalogado como tal. Reynolds recorria ao "neologismo" detectando uma tendência em vigor à época no Reino Unido, e na qual incluía coisas tão díspares como os Stereolab e os High Llamas. Com o passar dos anos, e à medida que a expressão começou a vulgarizar-se, em particular no continente norte-americano, o conceito post-rock foi subvertido para se restringir quase exclusivamente às divagações maioritariamente instrumentais que tinham nos canadianos Godspeed You! Black Emperor e nos escoceses Mogwai os modelos a seguir. No entanto, lá atrás, e ainda que não em regime instrumental, os Slint tinham definido as regras posteriormente usadas e abusadas com o histórico Spiderland (1991), disco superlativo que denunciava as raízes post-hardcore da coisa e que, só com o passar de muitos anos, saiu do culto restrito para o estatuto de pioneiro.

Distando três anos daquele, mas ainda no período de obscuridade de Spiderland, merece igual estatuto enquanto pedra basilar do post-rock norte-americano Rusty, álbum isolado dos Rodan. Não fosse o hiato temporal a separar a sua gestação, e arriscaria nomeá-los discos gémeos, ambos de bandas oriundas de Louisville, no Kenrucky, e com uma forma muito própria de exprimir o ennui juvenil que era característica do post-hardcore. Registe-se uma maior apatia no caso dos Slint, e uma maior expressividade no caso dos Rodan. Também mais abrasivo, Rusty, assim intitulado por ser essa a alcunha do engenheiro de som Bob Weston (baixista dos Shellac), cai facilmente no rótulo math-rock, porém com demasiados recursos para se deter unicamente nos espasmos provocados pelas acelerações e paragens bruscas. Para o conferir basta escutar "Bible Silver Corner", tema instrumental que abre o disco num diálogo em toada contemplativa das guitarras de Jason Noble e Jeff Mueller, com uma aridez provavelmente derivada das origens sulistas do quarteto. No pólo oposto está o curto "Shiner", petardo de bílis na linha de uns Fugazi, mas com uma propulsão no baixo de Tara Jane O'Neil que confere um inusitado sentir funky. Este jogo de contrastes coabita em "Jungle Jim", que vive da dinâmica da alternância do lamento minimalista da baixista com as descargas ásperas de dissonância. Se neste tema a dualidade daqueles elementos é uma constante apenas repetida, no derradeiro "Tooth Fairy Retribution Manifesto" os Rodan apostam numa variedade de nuances mais vasta e imprevisível, o que nos leva a pensar que há no regime de composição da banda afinidades com algumas formas mais livres do jazz. Porém, ao nível da complexidade, na meia dúzia de temas do alinhamento, nenhum supera "The Everyday World Of Bodies", o mais longo de todos e porventura a peça central de Rusty. Com vocalizações virulentas e guitarras rasgadinhas ao começo, este detém-se em contemplação por diversas vezes, progredindo gradualmente até à explosão final naquilo que tem tanto de fúria violenta como de desespero incontido.

Ainda no mesmo ano da edição de Rusty, os Rodan colocaram um ponto final nas actividades, espalhando-se os seus membros por projectos com algum reconhecimento, também veículos para as diferentes sensibilidades presentes: Noble embarcou nos Rachel's, Mueller nos June of 44; ambos fundaram posteriormente os Shipping News. Por seu lado, antes de iniciar uma carreira a solo já com reportório considerável, Tara Jane O'Neil fundou primeiro os Retsin e depois The Sonora Pine, estes últimos também com o baterista Kevin Coultas no line up. Quanto aos Rodan, e ao seu papel percursor na música dita "alternativa" destas duas décadas, digamos que só foi verdadeiramente reavaliado há dois anos e pelos piores motivos: a morte de Jason Noble. Este evento fatídico terá também motivado a edição de Fifteen Quiet Years no ano passado, compilação que reúne temas dispersos por lançamentos anteriores a Rusty, e que com este constitui o escasso mas valioso legado desta banda que urge (re)descobrir.

Bible Silver Corner by Rodan on Grooveshark

The Everyday World Of Bodies by Rodan on Grooveshark

Jungle Jim by Rodan on Grooveshark