"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O jogo das diferenças #23


HAPPY MONDAYS
Pills 'n' Thrills And Bellyaches
[Factory, 1990]

CURSIVE
Happy Hollow
[Saddle Creek, 2006]

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

To Venus and back

















Antes de os Pixies chegarem à 4AD, para choque dos puristas da editora londrina com a "invasão americana", já lá tinham chegado os Throwing Muses. Na verdade, até foram estes que levaram os outros a reboque, embora a história rapidamente tenha sobreposto os seguidores aos percursores. Diferenças estéticas à parte, as duas bandas que permaneceram amigas foram autênticas pedradas no charco no cenário de finais de oitentas, cada uma com a sua visão pop/rock distorcida e sem comparação na concorrência à época. No caso dos Muses, eram quase chocantes aquelas canções assombrosas e assombradas saídas da mente conturbada de Kristin Hersh, levando-nos a questionar como era possível alguém tão jovem expor os seus traumas de forma tão evidente e crua. Para contrabalançar, a meia-irmã Tanya Donelly contribuía com temas de maior ligeireza pop. Depois da saída desta, insatisfeita com a escassez de canções suas nos discos, a banda entrou num regime de alguma irregularidade temporal das edições, embora qualquer delas ainda merecedora de elogios.

Desde o último trabalho - homónimo - dos Throwing Muses já se conta uma dezena de anos. Neste período, Kristin Hersh aproveitou para se dedicar à carreira a solo, à escrita, e também a projectos paralelos. Com alguma surpresa, o longo silêncio foi interrompido pelo novíssimo Purgatory/Paradise, mais do que um disco, um livro com as letras das músicas, fotos da autoria da banda, e histórias e ensaios saídos da pena de Hersh. A acompanhá-la nesta aventura permanece a fiel secção rítmica, composta por David Narcizo (baterista fundador há mais de trinta anos) e Bernard Georges (baixista há mais de vinte). Na rodela que acompanha o livro encontramos um total de 32 temas, que ocupam mais de uma hora, muitos deles curtos esboços, quase trechos de ligação, outros tantos canções "completas" de puro Muses vintage. Em muitos deles há uma dureza rock que parece recuperada do já longínquo Red Heaven (1992), ou talvez reflexo da experiência punky com os 50 Foot Wave, que envolvem Hersh e Georges. Mas ainda abundam os temas feitos de camadas de luz e sombras, canções pop concebidas sob uma óptica distorcida. Nestes, a autora ainda nos perturba com a suas confissões mais pessoais, que envolvem a vivência com a doença (bipolar) e impulsos suicidas nas entrelinhas. No global, francamente positivo, a grande estrela é a voz amadurecida de Kristin Hersh, ainda com aquele misto de fragilidade e insolência, mas com uma segurança adquirida com o tempo.

 
"Sunray Venus" [Throwing Music, 2013]

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Pequenas transformações
















Olhando para a imagem da pandilha acima, de barbudos e guedelhudos, palpitamos com escassa margem de risco que venham de paragens como a Califórnia. Eles são os White Manna, uma banda que, por razões que a própria razão desconhece, ainda não teve aqui o devido destaque. E eles bem o mereciam com o álbum de estreia homónimo do ano passado, um disco de longas trips ácidas, propícias ao turvar dos sentidos. Pela descrição suponho que já tenham adivinhado que esta é gente que vai beber directamente ao psicadelismo pesadão de inícios de setentas, tendência revivalista bastante concorrida no presente, mas na qual os White Manna se destacam da maioria.

Com o novo Dune Worship, disco que parte de idênticos princípios, o quinteto da cidadezita de Arcata reincide no convite à deriva sensorial. No entanto, logo numa primeira audição, este trabalho permite verificar alguns progressos, bem patentes numa toada mais lenta, diria mesmo mais arrastada. Há um reforço da tendência spacey, com a abundância de ecos, vozes projectadas, e a profusão de sons refractados. Com estas características, este segundo álbum é um mergulho mais profundo nas entranhas da psique, um caleidoscópio que projecta mil cores. Ao ouvi-lo, é impossível não não pensar nos incontornáveis Hawkwind, influência assumida com humildade pelos White Manna, ou até nos espancamentos sónicos dos saudosos Loop. Posto isto, penso que será desnecessário dizer que Dune Worship não traz qualquer novidade ao mundo, apenas e só meia dúzia de temas - longos - feitos com igual medida de reverência e sapiência que irão fazer as delícias de qualquer psychead incondicional.

"Transformation" [Holy Mountain, 2013]

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Ao vivo #113















Pixies @ Coliseu dos Recreios, 09/11/2013

Tenho uma regra auto-imposta de evitar os concertos de chamada grande dimensão. Não, não é uma mania indie, apenas e só constatação resultante da experiência de que a presença das multidões raramente está em sintonia com os espectáculos mais vibrantes e intensos. A acrescer, é certo e sabido que os locais onde normalmente têm lugar (Coliseu ou aquela-coisa-arena) não têm propriamente as melhores condições de acústica para concertos rock. No passado sábado, e com um golpe de sorte de última hora à mistura, abri uma excepção para os Pixies, não só por tudo aquilo que eles representam no meu "crescimento musical", mas também porque nunca me desapontaram nos anteriores encontros, todos já após o regresso ao serviço da indústria da nostalgia.

Às 22 horas em ponto teve início o concerto, e desde o primeiro momento se confirmaram os piores temores relativamente às condições do Coliseu, com um som que, para além de demasiado baixo, tinha algo de unidimensional. Para agravar as primeiras impressões, a parte inicial foi dedicada essencialmente às músicas novas, que não soando propriamente más quando ouvidas isoladamente, sendo mais contemplativas, ficam a perder quando colocadas lado a lado com os inúmeros "clássicos" puramente lúdicos do catálogo dos Pixies. Este sabor agridoce prologou-se durante cerca de meia hora, mas dissipou-se, mesmo sem quaisquer melhorias técnicas, quando começaram a surgir de rajada os ditos "clássicos", um a seguir ao outro e não raras vezes acompanhados em uníssono pelo público. Nesta fase é difícil permanecer quieto sem incomodar a vizinhança, acto de rebeldia desencorajado pela atitude da maioria da assistência - na generalidade na casa dos trinta e muitos ou quarenta e poucos -, mais dada às irritantes palminhas sincopadas do que ao confronto físico. O crescendo de euforia tem o seu pico já perto do final do alinhamento principal, quando os Pixies, ao seu melhor estilo, descarregam uma boa meia dúzia de temas sem qualquer paragem, arruinando as reservas de energia e o fôlego de qualquer um, mas provocando uma agradável sensação de êxtase. Se havia reservas de algum cepticismo relativamente à substituição de Kim Deal pela nova recruta Kim Shattuck, a postura desta, irrequieta e enérgica como a outra nunca foi, conquistou a assistência. Sobre Joey Santiago apetece dizer que os seus riffs incisos não perderam ainda o seu efeito delirante. Quanto a Black Francis, em excelente forma vocal, a maturidade não lhe retirou a tendência para derivar para pequenos acessos de loucura, que ganham expressão nos muitos e súbitos assomos de berraria.

Quanto à parte do alinhamento mais do agrado do público, sobretudo centrado nos dois primeiros e fulgurantes álbuns, convém referir que Bossanova (1990) foi totalmente esquecido. Quanto a Trompe Le Monde (1991), outrora mal amado, mas reavaliado em alta com o passar dos anos, foi condignamente representado. Curiosamente, dos temas deste último desiludiu o incendiário "Planet Of Sound", talvez porque entalado naquele começo mortiço, e por isso menos devastador que o habitual. No entanto, volvida mais de hora e meia, aquele começo periclitante parecia já uma memória distante, depois do desfile de temas de excelência que se seguiu. Resumindo, no global este foi um concerto de nota alta, ambora mais desequilibrado que quaisquer dos outros dos Pixies a que anteriormente assisti.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Surf's up!














Já na recta final do ano passado, surpreenderam com um disquinho de temas curtos, quase telegráficos, que embora recuperando algumas boas sonoridades já com uma vintena de anos, tinha uma frescura pouco usual nos tempos que correm. Falo-vos dos Swearin', quarteto de nova-iorquinos deslocados em Filadélfia, que, com o seu álbum de estreia homónimo, nos presenteou com aquela pop de guitarras irrequietas e impregnada de espírito punky, capaz de fazer as delícias de qualquer teen spirit eterno.

Pouco mais de doze meses volvidos, voltam à carga com o igualmente recomendável Surfing Strange, um trabalho que, numa primeira abordagem soando a mais do mesmo, se revela um passo evolutivo seguro. Ainda partindo das boas memórias do indie-rock norte-americano da primeira metade de noventas, é um disco que se caracteriza pelo recrudescer da sonoridade dos Swearin', algo que os primeiros segundos, em regime acústico, não fazem adivinhar. Intocável pela maior dureza fica o apelo pop dos onze novos temas, feitos de melodias infecciosas e as sempre eficazes alternâncias feminino/masculino das vozes de Allison Crutchfield e Kyle Gilbride. Desta dinâmica resultam diferentes sensações, num clima de relativa maior seriedade que no antecessor: ela transpira lascívia, disfarçada por uma falsa ingenuidade, tal como nos melhores momentos de The Breeders ou dos saudosos Belly; ele é mais corrosivo, até algo entediado, por vezes fazendo uso do cinismo próprio de um Stephen Malkmus dos primeiros Pavement. Portanto, se buscam a última novidade que irá mudar irremediavelmente o mundo pop, não a procurem em Surfing Strange. Aqui apenas vão encontrar um conjunto de temas capazes de vos provocar um recuo no tempo de vinte anos, com o reviver do mesmo júbilo juvenil de então. O que já não é nada mau, pois não?

 
"Dust In The Gold Sack" [Salinas, 2013]

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Ao vivo #112














Dean Blunt @ Teatro Maria Matos, 05/11/2013

Embora seja ainda um nome que não circula com insistência na boca das massas, é indesmentível que Dean Blunt seja já um dos músicos mais relevantes dos nossos dias. E também dos mais imprevisíveis na trajectória. Basta lembrar a evolução desde a revelação ainda como Hype Williams (juntamente com Inga Copeland), uma lufada de ar fresco no universo da electrónica, com um pé nas tendências vigentes entre artistas britânicos, e outro na minimal wave de um passado já algo distante. Desde o ano transacto, e em nome próprio, evoluiu para formas de expressão relativamente mais convencionais para os parâmetros pop, mas ainda algo improváveis, abarcando tanto a soul como a música erudita contemporânea, sem esquecer a técnica cut'n'paste que o notabilizou. Tudo começou com o EP The Narcissist II e teve prolongamento no álbum The Redeemer, já deste ano. São dois trabalhos que têm de ser vistos como complementares, o primeiro expositor de uma relação em desagregação, o segundo uma espécie de redenção após a separação.

É este último disco que Dean Blunt traz ao Maria Matos, não para o apresentar na íntegra, mas para nos brindar com uma encenação das confissões e reflexões que o percorrem. A leitura do folheto oferecido à entrada para o espectáculo anuncia-nos o cariz teatral do mesmo, algo que nos faz aumentar a curiosidade para o que a próxima hora nos reserva. Independentemente desse conhecimento prévio, tudo o que se passa no palco, num nível abaixo do da bancada é uma surpresa. A longa introdução, em completa escuridão e ao som de uma chuva diluviana faz aumentar o mistério. Ainda no escuro, Dean Blunt senta-se ao piano por breves instantes. Quando a luz tímida nos permite vislumbrar algo, já este tem um microfone à frente e um segurança daqueles gorilóides atrás. Este figurante aí havia de permanecer, imóvel, durante todo o espectáculo. Nas colunas ecoam sons pré-gravados, um trompetista invisível solta umas notas, e na penumbra um ser feminino vagueia, entra e sai de cena. Ela é Joanne Robertson, cantora e guitarrista convidada em The Redeemer que aqui representa a outra metade do casal dissoluto. Antes de colocar a voz profunda, Dean Blunt, hesita, contorna o segurança, reaproxima-se do microfone, parece querer rebentar num acesso de fúria, e hesita de novo. É toda uma encenação de desconforto perante a outra parte, e também de algum remorso. O mesmo desconforto contagia o público, levado a partilhar esta exibição da intimidade alheia. No final, já só com Joanne, mais a sua voz delicada e a sua guitarra desalinhada, em palco, toda a tensão se esvai. Neste momento, sentimos ter presenciado algo de especial, um espectáculo único, por um lado extremamente simples, por outro não menos intenso.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Singles Bar #89









SOUL II SOUL
Keep On Movin'
[Ten, 1989]




No idos de oitentas a cultura dance era olhada com alguma desconfiança, até apontada como algo de menor, por parte do público branco e "bem pensante". Só com o impulso hedonista trazido pelo "fenómeno" acid house, e os tratados na arte de samplagem de gente como S' Express ou Bomb The Bass, aquele universo começou a ser olhado com algum respeito, mas talvez ainda não o merecido. O esbater definitivo das barreiras do preconceito, se bem me lembro, só ocorreria com a estreia a solo de Björk - em 1993 -, que arrastou para a dança o público indie-pop dos seus Sugarcubes. No entanto, pelo meio, é inestimável o papel dos Soul II Soul, colectivo londrino idealizado pelos músicos, produtores e DJs Jazzie B e Nellee Hooper, este último, não por acaso, com créditos naquele disco da islandesa.

Inicialmente um sound system animador de convívios dançantes, como era habitual entre a juventude negra do Reino Unido, os Soul II Soul cedo incluíram nos seus sets música da feitura dos seus dois principais estrategas. Eram normalmente singles de pequena tiragem, lançados em white labels, destinados basicamente ao uso pessoal e, eventualmente, a outros DJs com idênticas sensibilidades. Entre esses lançamentos inclui-se Keep On Movin', um single cuja aceitação crescente do tema principal obrigou a uma edição convencional. O sucesso comercial foi galopante, até aos lugares cimeiros do top britânico. A partir deste tema foi gerada toda uma onda de miscigenação entre comunidade negra e branca, que passava ainda pela imagem e pela indumentária. Ouvindo "Keep On Movin'" quase um quarto de século volvido, percebe-se ainda o porquê do apelo daquele espírito de comunhão, que congrega o calor soul, o relaxamento reggae, a cadência da batida hip-hop, e a coolness jazz, sem que se possa restringir apenas a um desses géneros. A mensagem é extremamente positiva, com o protagonismo inevitável para a voz quente e soul de Caron Wheeler, a voz convidada que repetiria a gracinha em "Back To Life", o hit seguinte e definitivo dos Soul II Soul. Em clima de plena euforia e com o Reino Unido rendido a esta onda cool, que encontrava paralelo do outro lado do Atlântico nos De La Soul ou no realizador Spike Lee, seguiu-se o álbum Club Classics Vol. One, um clássico instantâneo que faz jus ao título. Entretanto, a iminente vaga acid jazz, e até os Massive Attack, iam recolhendo apontamentos para proveitos futuros. Infeliz e injustamente, a voragem do tempo terá votado os Soul II Soul a um certo esquecimento, pouco condizente com o estatuto pioneiro que tem de lhes ser reconhecido.


domingo, 3 de novembro de 2013

Ao vivo #111















A Place to Bury Strangers + Bambara @ Centro Cultural do Cartaxo, 02/11/2013

Não é apenas a austeridade dos tempos que me faz ser cada vez mais criterioso na escolha de concertos a ir, mas sobretudo o medo de uma eventual desilusão. No caso dos nova-iorquinos A Place To Bury Strangers, a indecisão até a uma data próxima da do concerto prendeu-se principalmente com dois motivos: o entusiasmo nulo relativamente à obra mais recente do trio, e o temor de uma possível mancha na boa memória de um concerto passado na capital espanhola, na altura ainda deslumbrado com o brilhantismo sob a forma de descarga sónica do primeiro álbum (e repetido, se não melhorado, no segundo).

Em boa hora tomei a decisão acertada, pois, pese embora o desinspirado Worship (2012) seja o prato forte do espectáculo, os A Place To Bury Strangers são ainda um caso sério em cima de um palco, uma descarga de electricidade e ruído que não deixa nenhum adepto do alto volume sonoro indiferente. É óbvio que não são particularmente originais, e que têm a seu desfavor alguns tiques "góticos" que se têm agudizado recentemente. Mas até neste último factor conseguem exibir algum bom-gosto, revelando apenas uma afeição pela escuridão nocturna e as temáticas dos amores no fio da navalha, sem resvalar para as patetices da devoção necrófila. A simpatia pela escuridão corporiza-se em palco no jogo cénico, não raras vezes mergulhando o auditório do CCC na total ausência de luz. Como nem só de música de faz um concerto rock, os APTBS são também um inteligente exercício de estilo, desde logo pelo abuso da escuridão e dos fumos, mas também pelo recurso insistente a strobs, tudo factores que potenciam a densidade da massa sonora que vem do palco. Inclusive na postura há algo de estudado, como por exemplo a destruição de duas guitarras por parte de Oliver Ackermann, número que saiu demasiado perfeito para que acreditemos não ser encenado. Face à frieza desta análise clínica, não se julgue que entro em contradição com o começo deste parágrafo, pois com todas as suas idiossincrasias, os APTBS ainda são daquelas bandas capazes de levar a adrenalina a níveis elevados, preferencialmente em salas sem o rigor dos lugares sentados, como foi o caso de ontem. A seu favor, face à inúmera concorrência da "escola sónica" contemporânea, terão sempre a omnipresença de uma linha melódica, o que faz dos seus temas, descargas de ruideira à parte, canções dignas desse nome. A este propósito, é inevitável compará-los com os conterrâneos e companheiros de estrada Bambara, responsáveis pelo aquecimento com uma massa sonora de volume bem alto e distorção, algo indistinta para quem já não é facilmente impressionável.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

First exposure #60

















HONEYBLOOD

Duas moças para nos lembrar que Glasgow ainda é a capital mundial da pop açucarada com grão na asa e areia na engrenagem.

Formação: Stina Tweeddale (voz, gtr); Shona McVicar (btr, voz)
Origem: Glasgow, Escócia [UK]
Género(s): Indie-Pop, Twee-Pop, Lo-Fi, Noise-Pop
Influências / Referências: Strawberry Switchblade, Best Coast, Talulah Gosh, Shop Assistants, Vivian Girls, Throwing Muses, The Breeders

http://honeyblood.bandcamp.com/

"Bud" [FatCat, 2013]

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Frankie, a selvagem

















Desde praticamente o momento em que a conhecemos que sabemos que Frankie Rose é uma pára-pouco indomável. Basta lembrar que, num ápice, foi integrante fundadora de bandas como Vivian Girls, Crystal Stilts e Dum Dum Girls, em qualquer dos casos com curta permanência. Igualmente breve foi a vida do quarteto por si encabeçado - Frankie Rose and The Outs. Em qualquer dos casos, o que a movia eram as reminiscências da C86 britânica, bem como da imediata descendência norte-americana liderada pelos simbólicos Black Tambourine. O mesmo já não sucedia em Interstellar (2012), o primeiro álbum lançado em nome próprio que enveredava por um dream-pop luxuriosa, com texturas vaporosas que reconhecemos de determinada fase dos eighties de bandas como The Cure.

Se naquele disco já se sentia algum apelo pela dança, o novo Herein Wild vem esclarecer que no espaço de um ano da vida de Frankie Rose as mudanças não se restringem à coloração capilar. Este impulso dançante, que ganha terreno à tendência atmosférica do antecessor, assoma a cada esquina, materializado em batidas penetrantes e teclados borbulhantes, embora as guitarras ainda sejam responsáveis pelo gizar de melodias assumidamente pop. Tímidas, as seis cordas estão em sintonia com muita da chamada bedroom-pop com que temos sido bombardeados no último par de anos, enquanto as características dançantes se aproximam perigosamente das futilidades que têm feito as delícias das pistas ditas "sofisticadas". No entanto, o respeito pela norma da canção pop ainda retém Frankie como uma das nossas. Nas extremidades do disco - "You For Me" a abrir, "Requiem" a fechar - apontam-se diferentes caminhos, primeiro um retorno à pop granulosa de outrora, depois a tentação por algo de idílico. No global, talvez Herein Wild seja o trabalho menos conseguido a que Frankie Rosa tenha estado associada, mas, pelas características atrás referidas, também o mais capaz de fazer dela uma pequena estrela. Algo que, desconfiamos, ela persegue desde que não se conformou com a figura de segundo plano das bandas por onde passou.

[Fat Possum, 2013]

terça-feira, 29 de outubro de 2013

R.I.P.


LOU REED
[1942-2013]

A esta hora já quase tudo foi dito sobre a morte de Lou Reed, notícia recebida com alguma surpresa na tarde do passado domingo, dia 27. No tocante à conversa de circunstância, diria até que já se disse demasiado. Pela importância do cidadão nascido Lewis Allan Reed, há 71 anos em Nova Iorque, e o seu contributo para a música rock nas últimas cinco décadas, não poderia, no entanto, deixar de fazer a justa homenagem.

Como se dizia acima, a triste notícia da morte de Lou Reed, inesperada pelo desconhecimento do seu estado de saúde, foi uma surpresa para uma imensa multidão. Na despedida, este vulto das facções mais rebeldes do rock, acabou por ser coerente com o trajecto de uma longa carreira, feita de muitas viragens e outras tantas surpresas. As primeiras foram a bordo dos The Velvet Underground, banda unanimemente reconhecida pelo seu contributo para o derrubar de muitas barreiras e clichés estabelecidos na linguagem rock, com enorme abertura à experimentação. Cada um dos quatro álbuns da banda em que participou, sempre como a principal força criativa, apesar das limitações técnicas, abre um novo capítulo evolutivo, feito tão mais valoroso se tivermos em conta que entre o primeiro e último distam apenas três anos e meio. Neles, a sua verve poética, fruto do precoce interesse pela literatura, é a transposição da cultura de rua nova-iorquina para canções que deixaram uma descendência imensurável, que vai das tendências arty aos maiores desafios experimentalistas da música popular. Feita de muitos altos, mas também de alguns baixos, a carreira a solo (pontuada também por discos de colaboração com outrem) prossegue essa aversão à estagnação, percorrendo diferentes géneros e aproximando aquilo a que chamamos "alta" e "baixa cultura", nunca temendo a controvérsia. Nada mal para quem, em tempos, apenas esperava pelo dealer com uns quantos dólares na mão...

I’m Waiting for the Man by The Velvet Underground on Grooveshark
[Verve, 1967]
 
Satellite of Love by Lou Reed on Grooveshark
[RCA, 1972]

Dirty Blvd. by Lou Reed on Grooveshark
[Sire, 1989]

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Inventário dos estragos e novos caminhos















Os tempos estão mais para desilusões do que propriamente para surpresas. No entanto, volta e meia ainda somos bafejados com uma ou outra descoberta, que nos faz crer que a música actual ainda nos pode surpreender. No meu caso, com os norte-americanos Parquet Courts, o prazer da descoberta foi redobrado, pois aconteceu num concerto que não sabia bem ao que ia. Ao concerto verdadeiramente revelador seguiu-se a exploração a fundo de Light Up Gold, álbum já de finais do ano passado. Desde esse feliz acaso tenho notado um número crescente de gente deslumbrada com o quarteto, e com o seu cocktail infalível do seu indie-rock irrequieto herdeiro da linhagem clássica, que vai dos The Feelies aos Pavement, e passa pelas várias expressões post-hardcore da década de 1990.

Com esta espiral crescente de visibilidade, talvez já houvesse a necessidade de apresentar música nova, por um lado para tornar mais variados os numerosos concertos dos Parquet Courts, por outro para satisfazer a sede dos seguidores da primeira vaga. Eventualmente, poderão ter sido estes os motivos por detrás da edição de Tally All The Things That You Broke, recente EP de cinco temas ainda ancorado nas referências de noventas. Relativamente ao antecessor há, porém, algumas diferenças, desde logo pelo maior pendor de "baixa-fidelidade", facto realçado na capa a marcador vermelho, no melhor espírito do-it-yourself, com a inscrição "God damn, it's just a bootleg". Há, no entanto, uma pequena variação - ligeira mas mais significativa - nestes cinco temas, que é a verificação de uma maior gravidade, expressa na voz de Andrew Savage, ao estilo militante de uns Fugazi, que ameaça a atitude "que-se-lixe" que conhecíamos dos Parquet Courts. No final do alinhamento do EP, mas talvez apenas uma brincadeira sem repetição, a banda brinda-nos com o atípico "He's Seeing Paths", incursão ao mundo rap a aventar como soariam os Beastie Boys se tivessem enveredado pela tendência lo-fi. O que é certo é que, a brincar, a brincar, os Parquet Courts envergonham aquelas tentativas de crossover entre o rock e o hip-hop datadas de mais de quinze anos.

[What's Your Rupture?, 2013]

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O futuro foi lá trás
















Filho da imigração russa na América, Daniel Lopatin é já uma figura incontornável da electrónica nos nossos dias. Os seguidores mais atentos deste universo há muito que seguem o seu trabalho como Oneohtrix Point Never, trabalho esse que ganhou maior visibilidade com a edição dos álbuns Returnal (2010) e Replica (2011). Os conhecedores mais profundos não enjeitam também o seu trabalho anterior, espalhado por registos de pequena tiragem, e resumido no fundamental Rifts, de 2009. A obra compilada nesse disco ainda demonstra muitas afinidades com os universos noise e drone, portanto bem distinta da dupla de últimos álbuns, autênticas peças de bricolage com recurso frequente à samplagem de velhos jingles publicitários.

Com o crescendo do interesse gerado pelo seu trabalho, Oneohtrix Point Never granjeou entretanto o interesse da histórica Warp Records, que acabou por contratá-lo. Para Daniel Lopatin foi o cumprir de um sonho, o de pertencer ao selo dos mestres que o inspiraram na mesma medida que os percursores do minimalismo; para a editora, a mais representativa do mundo electrónico no último quarto de século, foi uma lufada de ar fresco no catálogo, entretanto algo descaracterizado e a pedir sangue novo na sua especialidade. É por via da editora de Sheffield que recebemos o recento R Plus Seven (mais um R na colecção, portanto), porventura o mais acessível dos discos de OPN para os ouvidos menos treinados, mas nem por isso um trabalho menos desafiante. Por contraste a esse maior acessibilidade, é talvez o mais frio dos seus trabalhos, logo com o gelo digital a indiciar uma tendência futurista. No entanto, e uma vez mais, esta ideia de futuro não rejeita o passado, já que a matéria prima principal são velhos sons sintéticos, do tempo em que a simples menção do computador implicava uma imagem de futuro algo distante do presente da maioria de nós. Ao neófito, numa primeira abordagem, talvez R Plus Seven possa soar desorientador, já que Lopatin baralha cada tema, não se detendo numa ideia por demasiado tempo. Uma vez absorvida a dinâmica intrínseca, a de criar tensão nos trechos mais densos e libertá-la nos momentos lúdicos, quase de infantilidade, a imersão nesta obra sublime é inevitável.

 
"Problem Areas" [Warp, 2013]

sábado, 19 de outubro de 2013

Mil imagens #43


Jim O'Rourke - Londres, 2001
[Foto: Jake Walters]

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A idade da emacipação
















Nascido na Nova Zelândia, onde na juventude terá assimilado a vasta herança pop daquele longínquo território, mas desde há muito emigrado nos states, Dean Wareham deve ser daquelas pessoas com fobia a ver o seu nome impresso sozinho na capa de uma obra. Foi já na pátria de adopção, à frente dos míticos Galaxie 500, que ele próprio se tornou um ícone indie de dimensão maior do que aqueles que o inspiraram. Apesar de significativa, a história da banda foi curta e teve um fim pouco amistoso, o que não desencorajou o seu principal cantor e compositor de tentar nova aventura com uma banda, agora com os Luna, que o mantiveram ocupado durante quase década e meia, até 2005. Com o fim destes, resgatou a esposa Britta Phillips, com a qual tem gravado e actuado em dupla. Pelo meio, os completistas ainda se lembrarão da breve colaboração com Claudia Silver, a coberto do aliás Cagney & Lacee.

Só agora, já com meio século de vida, e depois de digeridos muitos atritos típicos do universo das bandas rock, o nosso Dean se decide por uma obra a solo. Isto se excluirmos um single isolado, já no distante ano de 1992, entre os Galaxie 500 e os Luna. Por conveniência, vamos considerar que esta é uma estreia, por sinal uma estreia em grande estilo. Por "esta" entenda-se Emancipated Hearts, um mini-álbum (ou EP, é como preferirem) de seis temas do mais personalizado que Dean Wareham nos apresentou em muitos anos. Sim, porque apesar de todo o seu charme, os discos de Dean & Britta mais não são do que interessantes variações das duplas promovidas por um Hazlewood ou por um Gainsbourg. Pelo contrário, o novo registo tem todos os traços próprios à personalidade musical do seu autor, por via da interferência de reconhecidas referências, seja a exultação de uma certa languidez, seja a sugestão de um torpor de solidão nocturna, ou até aquele misto de melancolia e beleza espectral que faz dos Galaxie 500 algo muito especial. Desta feita, as influências não são apenas musicais, pois é o próprio Dean que nos confessa que cada um dos temas de Emacipated Hearts partiu do desenvolvimento de uma ideia pilhada a uma obra artística alheia, que pode ser uma música da Incredible String Band, um livro de George Orwell, ou um filme de Rainer Werner Fassbinder. Por exemplo, a obra homónima do realizador alemão deu o mote para a amostra infra, single de avanço já com um par de meses.

[Sonic Cathedral, 2013]

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Saúde de ferro



















Há quase uma década, as publicações nos mais diversos formatos apontavam o Canadá como o novo epicentro da pop. O público obedecia, entusiasmado, com os então novos canais de divulgação a despacharem bandas à razão de mais de uma por semana. Cedo se percebeu que a montanha tinha parido um rato, quer porque muita desta gente não justificava o valor para tamanho hype, quer porque até muitos dos nomes mais credíveis confirmaram o falhanço nos chamados "discos da confirmação". Na altura estranhei a falta de atenção relativamente a um combo chamado The Heavy Blinkers, já de uma fornada anterior, a dos sobreviventes da segunda metade de noventas. Tal desatenção ganha contornos de injustiça se atentarmos que, precisamente na aura do "fenómeno canadiano", a banda lançou The Night And I Are Still So Young (2005), disco maior numa carreira de extrema coesão construída ao serviço da pop orquestral.

De então para cá foi o silêncio quase absoluto, ficando o interim ainda marcado pelo abandono de dois dos fundadores, o que faz do principal compositor Jason Michael McIsaac o único membro original do projecto. Este não esmoreceu com os abandonos, e ao fim de quase uma década de trabalho lançou finalmente Health, em regime de auto-edição. Para compensar as perdas, este novo registo conta com a participação de um vasto número de convidados, entre os quais se destacam o norueguês Sondre Lerche e o irlandês Sean O'Hagan (The High Llamas), vozes masculinas no todo dominado pelas femininas. Como suponho que saibam, este último é um estudioso da busca da perfeição pop de Brian Wilson, interesse partilhado com os Heavy Blinkers, estes igualmente reverentes à obra de Harry Nilsson. Por esta altura imagino que já tenham depreendido que Health é um daqueles discos sumptuosos, feito de canções ricas em detalhes de bom-gosto. Tem um pouco mais de uma hora de duração, portanto algo longo para os parâmetros actuais, mas leva o tempo necessário para extrair toda a elegância dos arranjos de cordas, toda a exuberância dos sopros, e toda aura harmoniosa. Pode até não ter um brilho tão intenso como o antecessor, mas dificilmente lhe escapará o título de sinfonia pop de 2013, sucedendo ao último dos escoceses BMX Bandits, vencedor incontestado do ano transacto.

"I Should Be Sleeping " [The Heavy Blinkers, 2013]

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O jogo das diferenças #22


NEW ORDER
Power, Corruption & Lies
[Factory, 1983]

APHEX TWIN
"Girl/Boy" E.P.
[Warp, 1996]

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Good covers versions #78
















THE PRIMITIVES - "I'll Be Your Mirror" [RCA, 1989]
[Original: The Velvet Underground (1967)] 

I'll Be Your Mirror by The Primitives on Grooveshark

Vejo-me na obrigação de concordar com alguns amigos que tendem a classificar Nico como um logro, um mito criado em torno da imagem e da lenda, com dotes vocais diminutos. Por outro lado, também compreendo aqueles que a idolatram, como o elemento de uma frieza gélida no meio dos temas de mundanidades narcóticas no álbum de estreia dos Velvet Underground. Suponho que fosse esse o efeito que Andy Warhol tinha em mente quando a impingiu à banda nova-iorquina. Com efeito, por oposição à extridência do restante alinhamento, o trio de temas por ela cantado é solene no ambiente lúgubre, temas esses que parecem extraídos de um cabaré negro. No entanto, e em particular "I'll Be Your Mirror", o manto de negrume não consegue ofuscar o potencial pop latente, pelo menos noutra voz.

Assim o entenderam os britânicos The Primitives, uma das bandas mais visíveis do período pós-C86, graças essencialmente ao sucesso do inevitável "Crash". Embora não seja "oficialmente" reconhecido, esta banda vale bem mais do que esse hit retumbante, já que o primeiro par de discos editados em finais de oitentas estão pejados de pérolas inspiradas no classicismo pop dos girl-groups dos sessentas à luz dos conceitos indie da altura. É esta a receita aplicada à revisão de "I'll Be Your Mirror", pop de guitarras em estado de graça, de um brilho resplandecente, com o suave toque de distorção a não molestar o sentido melódico. O maior trunfo desta versão, misto de inocência e perversão, é a voz de Tracy Tracy, de uma pureza quase juvenil, portanto, bem distinto do registo grave do anjo negro germânico no original.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Silver Rockets & Kool Things



Antes que comecem a gabar o meu gosto certeiro para a escolha de títulos, um esclarecimento: o do post de hoje é descaradamente roubado ao documentário do ano 2001 realizado pelo alemão Christoph Dreher para o canal ARTE. Na altura comemoravam-se os vinte anos dos Sonic Youth o que, feitas as contas, quer dizer que, até ao hiato que pode ser definitivo anunciado em 2011, tivemos três décadas completas de história desta "instituição" nova-iorquina. Trinta anos representam muitas dezenas de canções, diversas viragens estilísticas, das franjas do underground norte-americano, à aceitação mais ou menos consensual da banda como uma das patronas do indie-rock. Afigura-se, portanto, ingrata a tarefa de elaborar um top ten dos temas favoritos de tão vasta obra, top esse que nunca será definitivo. Aqui no April Skies não viramos a cara aos grandes desafios, e hoje, possuídos pelo síndroma Alta Fidelidade que julgávamos erradicado, arregaçamos as mangas para escolher 10-temas-10 que resumem uma carreira fulgurante. Com a primazia às canções mais dignas desse nome, este top assenta essencialmente no período que vai de meados de oitentas a meados da década seguinte, precisamente a partir da altura que os Sonic Youth "aprenderam" com os mais novos The Jesus and Mary Chain ou Dinosaur Jr. que era possível a aproximação à canção pop sem abdicar da manipulação do ruído. Por esse motivo, ficam arredados das escolhas os espasmos no-wave, ou os experimentalismos mais radicais de a partir de finais de noventas, facetas igualmente importantes numa banda de percurso muito próprio. Sem mais delongas, let the countdown begin...

10. "Expressway To Yr. Skull (EVOL, 1986)
09. "The Empty Page" (Murray Street, 2002)
08. "100%" (Dirty, 1992)
07. "Schizophrenia" (Sister, 1987)
06. "The Diamond Sea" (Washing Machine, 1995)
05. "Silver Rocket" (Daydream Nation, 1988)
04. "Shadow Of A Doubt" (EVOL, 1986)
03. "Kotton Krown" (Sister, 1987)
02. "Tunic (Song For Karen)" (Goo, 1990)
01. "Teen Age Riot" (Daydream Nation, 1988)



"Teen Age Riot" [Enigma, 1988]

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Ao vivo #110















Scout Niblett @ Teatro Maria Matos, 09/10/2013

Tanto em disco como em palco, já nos habituámos à imagem de uma Scout Niblett solitária, guerreira da causa da dor-de-corno armada de guitarra eléctrica. Na sua obra, para além da dureza das seis cordas e das palavras doridas, as raras intromissões de outros instrumentos são normalmente da sua responsabilidade. No seu devir, tem contado com a parceria de Steve Albini, talvez o mais indicado aliado para extrair da sua música toda a crueza pretendida. Com o recente álbum It's Up To Emma foi interrompida esta aliança já de vários anos, ao mesmo tempo que Scout abria a sua música à colaboração de outros músicos. Contrariamente ao esperado, o novo disco - auto-produzido - é talvez o mais pessoal dos seis já editados (esclareça-se que Emma é o nome de baptismo da moça), sem perder pitada da aridez que é característica dos anteriores trabalhos.

Sendo este último registo o mote para o concerto de ontem à noite, Scout Niblett fez questão de se acompanhar de baterista e segundo guitarrista para a reprodução o mais fiel possível do trabalho gravado. A estes juntaram-se, em temas específicos, um violinista e uma violoncelista, concedendo à música da cantautora uma nova riqueza textural. No entanto, a entrada em palco dá-se em solitário, para um par de temas de um passado recente em jeito de acontecimento. Só ao terceiro tema, com a trupe completa, se inicia o desfile dos temas de It's Up To Emma, tocado na íntegra com a excepção da versão de "No Scrubs", original das TLC. O desenrolar dos acontecimentos dá-se em crescendo de envolvimento, com os novos elementos, estranhos à catarse emocional da sua chefe de fila, a potenciarem a força destas canções que encontram local perfeito nas óptimas condições do Maria Matos. A estrela, porém, ainda é Scout Niblett, voz e guitarra, com a dupla acompanhante a limitar-se a participações esparsas, porém determinantes no sublinhar dos clímax de tensão. No ribombar da bateria sublima-se a profundidade da dor, nos desalinhos da guitarra assinala-se uma intenção mal contida de vingança. Nas muitas explosões sónicas é impossível não pensar na eterna comparação (algo injusta, diga-se) à PJ Harvey de outros tempos. Ontem, na sua melhor forma, Scout Niblett teve a seu favor o factor que melhor pode desfazer a colagem: uma evidente herança da folk britânica, por oposição aos arremedos bluesy da outra. O maior trunfo, no entanto, é aquela voz versátil de menina-mulher, ora dorida e delicada, ora erguendo-se com força renovada, quase sempre aguda para combinar com a rispidez da afinação aberta da guitarra. É uma voz que, no desconforto das palavras, que questionamos sejam todas inspiradas em experiências pessoais, chega a comover.