"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O jogo das diferenças #10



ELVIS PRESLEY
G.I. Blues
[RCA Victor, 1960]



THE REPLACEMENTS
Pleased To Meet Me
[Sire, 1987]

Blue Hawaii


















Durante a quase totalidade da década passada, Kody Nielson foi líder dos Mint Chicks, uma das últimas glórias do chamado kiwi-rock da Nova Zelândia e da excelsa Flying Nun Records. Praticante de uma mistura explosiva de inquietude juvenil e sentir pop, a banda seria responsável pela cunhagem da designação troublegum art-punk, deveras apropriada à sua sonoridade. Com a extinção dos Mint Chicks seguiram-se os inevitáveis projectos subsequentes que, obviamente, já não reflectem a mesma fúria de viver de outrora. O primeiro exemplo foi a Unknown Mortal Orchestra, do irmão Ruban, com as suas bizarrias de pendor psicadélico.

Agora, também Kody se deixa contaminar pela deriva psych, se bem que num quadrante bem mais aproximado da ortodoxia pop. Podem conferir em Electric Hawaii, primeiro álbum lançado na qualidade de Opossom, projecto solitário com a colaboração de uns poucos convidados. Um deles é o próprio pai, que já havia posto o trompete ao serviço dos Mint Chicks. Na sua escassa meia hora de duração, Electric Hawaii é um festim veraneante que transborda felicidade. Numa primeira abordagem, pode até sugerir aproximações ao universo dos Tame Impala, impressão que logo se desvanece com o mergulho no positivismo reinante. Aos mui louvados australianos também não se lhes reconhece igual devoção pela harmonia de Opossom, nem tão pouco a veia exótica. Neste último particular, com os ritmos contagiantes de terras distantes que percorrem a totalidade do disco, e uma vaga aura marítima, Kody faz questão de honrar as suas raízes polinésias.

 
"Blue Meanies" [Fire, 2012]

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Mixtape #18: Demons Sing Love Songs




Como já é hábito nesta altura do ano, o April Skies faz uma pequena pausa para férias. Se também for esse o vosso caso, espero que façam tudo é que normal fazer-se nas férias e também, porque não, aproveitem o tempo disponível para explorar "outras músicas". Eu deixo-vos algumas dicas com esta compilação de 18 faixas extraídas de outros tantos álbuns que, em meu entender, mereciam mais do que a adoração de meia dúzia de curiosos. A década abrangida é a que vai de 2001 a 2010, mas outras se seguirão, fica prometido.


01. DESOLATION WILDERNESS - "Come Over In Your Silver Car" (White Light Strobing, 2008)
02. THE CLIENTELE - "Since K Got Over Me" (Strange Geometry, 2005)
03. CLEARLAKE - "Wonder If The Snow Will Settle" (Cedars, 2003)
04. TAP TAP - "100,000 Thoughts" (Lanzafame, 2006)
05. MAZARIN - "The New American Apathy" (We're Already There, 2005)
06. NEVEREVER - "Blue Genes" (Angelic Swells, 2010)
07. ALLO DARLIN' - "If Loneliness Was Art" (Allo Darlin', 2010)
08. COMET GAIN - "Don't Fall In Love If You Want To Die In Peace" (Réalistes, 2002)
09. THE FRESH & ONLYS - "Summer Of Love" (Play It Strange, 2010)
10. THE PHANTOM BAND - "Folk Song Oblivion" (Checkmate Savage, 2009)
11. CYMBALS EAT GUITARS - "And The Hazy Sea" (Why There Are Mountains, 2009)
12. UNWOND - "Demons Sing Love Songs" (Leaves Turn Inside You, 2001)
13. GRAVENHURST - "Hollow Men" (The Western Lands, 2007)
14. WEEKEND - "Coma Summer" (Sports, 2010)
15. PARTS & LABOR - "Fractured Skies" (Mapmaker, 2007)
16. THE PONYS - "Double Vision" (Turn The Lights Out, 2007)
17. ERASE ERRATA - "Tongue Tied" (Other Animals, 2001)
18. LIFE WITHOUT BUILDINGS - "Sorrow" (Any Other City, 2001)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Little brothers are watching us

















A história do rock está recheada de talentos precoces. Nos tempos recentes, e sem sair do espectro garage, lembro-me de The Strange Boys, a descair para uma tendência rootsy, e Smith Westerns, com visíveis inflexões glam. Ao rol juntemos The Orwells, um quinteto de adolescentes dos arredores de Chicago que, demarcando-se dos citados, envereda por uma toada mais punky

Remember When é o título do álbum de apresentação recém editado, um petardo rock que não deixará os aficionados indiferentes. A maioria dos temas combina sujidade garage com energia punk, com as convenientes letras de inanidades sobre miúdas e fé eterna ao rock'n'roll. Nada de particularmente profundo, como é hábito em discos do género. À fisicalidade dominante apresentam algumas alternativas, como sejam algumas guitarras e vocalizações da escola do risível dos Pavement, ou uns parcos assomos de jangle pop. Não será certamente Remember When, na sua naïvité injectada de adrenalina, o disco que irá ser responsável pela salvação do rock, nem tão pouco se distingue grandemente do vasto pelotão de intrépidos norte-americanos munidos de guitarras sujas. Mas dá algum conforto saber que existem putos com melhor conhecimento de sessenta anos de rock que muitos veteranos já calejados. E que pelos também são conhecedores da história da América. Senão vejamos:

"Under The Flowers" [Autumn Tone, 2012]

Singles Bar #77








CATH CARROLL
Moves Like You
[Factory, 1991]




Algo desaparecida do mapa, Cath Carroll foi, em tempos, figura de proa no universo indie britânico. Para além de ser uma carinha laroca, era colaboradora do New Musical Express, precisamente no tempo em que esta publicação era uma espécie de "bíblia" indie. Como vocalista, encabeçou os Miaow, que figuram na célebre C86 do mesmo NME, e depois The Hit Parade, banda com ligações à Sarah Records. Era, portanto, a musa twee por excelência. Que o digam os Unrest, que deram o seu nome a uma canção de pura devoção.

Depois de casar com Santiago Durango, antigo baixista dos Big Black, Carroll aventurou-se numa carreira a solo que a levaria a ser a "ave rara" numa Factory Records que já definhava. Por intermédio do marido, England Made Me, o único álbum que gravou para o selo de Tony Wilson, contou com a colaboração de Steve Albini, na altura uma presença completamente inesperada num disco que se movia na mesma pop revivalista de uns Saint Etienne de então. Embora o álbum no seu todo esgote uma fórmula até à exaustão, um punhado dos seus temas cintilam hoje como há mais de vinte anos. Do todo destaca-se "Moves Like You", não por acaso escolhido para single promocional. Encurtada relativamente à versão do álbum, a mistura do single, ligeiramente mais arejada, sublinha a voz delicada de Carroll, as linhas rítmicas de uma elegância irresistível, e as invitáveis "pianadas Ibiza" que à data eram lei na Inglaterra dançante. Ouvido hoje, "Moves Like You" retém toda a frescura original e, tal como muitos temas dos citados Saint Etienne, ainda é capaz de fazer boa figura em pistas de dança de gosto sofisticado.

Vídeo

domingo, 12 de agosto de 2012

Espectáculo de variedades















Agora que há muito derivaram para um bucolismo cósmico, e na viragem  condicionaram as tendências musicais dos últimos quinze anos, já pouca gente se lembrará dos Mercury Rev do primeiro par de álbuns. Nessa altura, eram uma entidade bem diversa, um laboratório de experiências sónicas que agitou o universo "alternativo" de inícios de noventas. Jonathan Donahue, o actual vocalista, tinha protagonismo apenas pontual, pois as vozes - e muito do carisma - ficavam quase em exclusivo entregues a David Baker. Deste último contavam-se histórias de comportamentos desviantes, talvez até demasiado para a já de si política anárquica do colectivo, e a expulsão acabou por ser a consequência.

De David Baker já não havia sinais de vida há uns longos dezoito anos, por alturas do lançamento do único disco gravado sob a alcunha Shady. Contudo, conta-se que tem ocupado o tempo e alimentado a paixão pela música a produzir para outrém. Portanto, nada de particularmente visível até ao reaparecimento como parte integrante da dupla Variety Lights, projecto baptizado a partir do primeiro filme de Fellini para o qual concorre também Will MacLean, tal como Baker um interessado por teclados e sintetizadores vintage. O fruto desta colaboração é Central Flow, álbum que, inevitavelmente, envereda por uma via dominada pela electrónica. Aos primeiros sons, rudes e angulosos, deixa-nos a impressão de estarmos perante algo de semelhante à colaboração de Mark E. Smith com os germânicos Mouse on Mars. Mas cedo essa sensação se desvanece, à medida que as texturas mais contemplativas, algures entre a psicadelia e kraut, tomam conta das operações. A espaços, Central Flow penetra também em territórios cinemáticos, quase pastoris, que remetem para algumas das aventuras da saudosa Beta Band. Concebido a partir de estilhaços e colagens de ambientes, Central Flow surpreende não só pela sua homogeneidade, como também pela fácil digestão.

 
"Feeling All Alone" [Fire, 2012]

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Discos pe(r)didos #65










ALAN VEGA, ALEX CHILTON, BEN VAUGHN
Cubist Blues
[Thirsty Ear, 1996]



Algures, em meados da década de 1990, o mundo pop entrava (irremediavelmente?) numa espécie de buraco negro. Num reinado bipartido pelas xaropadas pós-triphop e as novas formas de rock FM, parecia ter ficado pelas intenções o underground takes overground um punhado de anos antes. À parte alguns nomes com culto alargado que conseguiram chegar às massas, não estava fácil a vida para quem se aventurava por meandros mais "alternativos". Datam desse período muitos óptimos discos completamente negligenciados, mesmo quando resultado da colaboração de três lendas vivas do "outro" lado do rock: Alan Vega, o provocador dos seminais Suicide; Alex Chilton, o pequeno génio que reagiu ao insucesso dos brilhantes Big Star com a sabotagem da própria carreira; e Ben Vaughn, um devoto das raízes rock que, entre outros, já tinha acompanhado o infame Kim Fowley.

Fruto do trabalho conjunto de tais desalinhados, Cubist Blues nunca poderia ser um disco convencional. Resultado de duas noites inteiras de processo criativo informal, tal como o regime inerente às grandes obras jazz, deixa entrever um espírito jam. Musicalmente, tem incutido o sentir rock dos primórdios, algo que, de forma diversa, sempre foi matéria da obra artística dos três músicos envolvidos. Com o exclusivo das vozes, Alan Vega é, obrigatoriamente, o mestre de cerimónias. Sente-se perfeitamente à vontade neste ambiente "orgânico", bem distinto do universo electrónico dos Suicide. As letras por si escritas para o efeito, provavelmente de improviso, são autêntica poesia beat de fim-de-século. Semi-cantadas, semi-declamadas, no inconfundível estilo de Elvis de becos esconsos, propiciam ainda mais uma série de truques ao nosso enfant terrible. Como por exemplo, os urros demoníacos no longo inaugural "Fat City", uma espécie de hip-hop fantasmagórico tresmalhado de rock'n'roll, o Lou Reed impersonator no conto marginal de "Candy Man", ou o nasalado próprio de um desenho animado em "Come On Lord". Alex Chilton e Ben Vaughn são responsáveis pelo suporte instrumental, alternando na guitarra e no baixo, mas também com algumas incursões pela bateria ou pelo piano. A fidelidade ao bom e velho rock'n'roll vigora, mas acontecem algumas cedências aos tais blues "cubistas" do título, como no citado "Come On Lord" ou em "Too Late", este último a encarnação de um Jim Morrison sobrevivo à subversão post-punk. Bem diverso dos demais, e da versão original dos Suicide, é  o remake "Dream Baby Revisited" que encerra o disco, valsa rock para fim de noite. Diria que soa a algo de semelhante à aparição de Gene Vincent ou Bobby Vinton, zombieficados, no palco de um bar obscurecido das imediações de Twin Peaks. Diga-se, rematando, que toda a atmosfera do restante de Cubist Blues também não anda longe de sugerir semelhante imagem.


"Fat City" 


"Candy Man"


"Dream Baby Revisited"

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Missão cumprida














Na América subterrânea de inícios de oitentas, dividida pela fúria hardcore a oeste e as incursões disco/funk a este, os Mission of Burma foram os responsáveis por incutir densidade cerebral ao primitivismo punk. Um pouco, diga-se, à semelhança dos Wire no Reino Unido. Deixaram apenas gravados um álbum e um EP, mas seriam responsáveis pelo lançamento da primeira pedra na edificação de Boston como uma das capitais da música independente dos states. Quando findaram actividades, em 1983, fizeram -no pela frustração das expectativas junto do público, mas sobretudo pela tinnitus do guitarrista Roger Miller, agravada com os concertos que, segundo reza a lenda, se pautavam por um volume de som demolidor.

Aos anos de semi-esquecimento, seguiu-se um período de veneração por parte de muitos dos intérpretes da "revolução alternativa" da década de 1990, o que terá motivado o regresso dos Mission of Burma, faz agora dez anos. De então para cá, contam já com a bonita soma de quatro álbuns. Em qualquer um deles, os problemas auriculares de Miller parecem não intimidar a banda a enveredar por uma certa dureza sonora. Assim é também no novo Unsound, seguramente o mais conseguido dos registos desta segunda vida dos MoB que, contudo, ainda não apresenta mácula. Sem diferir grandemente dos antecessores, parece-nos que neste disco a banda encontrou o balanço perfeito entre um sentir mais melódico e a visceralidade ruidosa. Nessa alternância, as diferentes características dos três vocalistas (Miller, Clint Conloy e Peter Prescott) são aproveitadas em consonância. Para os ouvidos menos treinados, é óbvio que, à superfície, Unsound não soará a mais que um esgrimir de recados e lamentações de homens de meia idade aborrecidos com o mundo. Mas nós já sabemos que com os MoB cada tema esconde mil e um pormenores nos interstícios. Mais agora, que da formação oficial faz parte Bob Weston, o mago de estúdio dos Shellac e de uma míriade de discos alheios, responsável pelas fitas pré-gravadas e os inúmeros sons acidentais que fazem de Unsound uma revelação a cada audição mais atenta.


"Second Television" [Fire, 2012]

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Virar o bico ao prego

















No percurso dos Portishead os discos sucedem-se de forma tão espaçada que, a cada nova aparição, a banda opera uma mudança estética relativamente ao último registo. Por conseguinte, hoje já estão radicalmente afastados dos sonhos desencantados que conquistaram as massas no álbum debute. Oiça-se, por exemplo, o terceiro e último álbum de 2008, no qual as referências kraut espreitavam a cada esquina. O ideólogo do projecto é, não é novidade para ninguém, Geoff Barrow, e é natural que os discos espelhem os seus interesses musicais na altura da sua confecção. Contudo, o mergulho mais profundo de Barrow nas sonoridades de origem teutónica ficaria por conta dos Beak>, o trio que encabeça desde 2009.

Com um primeiro álbum, quase totalmente instrumental, editado logo no ano da formação, os Beak> propunham uma deriva mental, algo impenetrável para os ouvidos menos treinados, que navegava na vertente mais psicadélica do kraut. Já o sucessor, que de forma inteligente aproveita o grafismo do nome da banda e se chama >>, é substancialmente mais imediato, tanto pelo maior pendor rítmico, como pela maior predominância dos temas com vozes. Alegadamente gravado durante uma única tarde, >> transpira o ambiente jam pela coesão do todo, e resulta como um apaixonante compêndio de referências às duas maiores eminências do universo kraut. As vocalizações quase indecifráveis de Barrow, que nos remetem para os Can, surgem imersas na propulsão motorika típica dos Neu!. Ora mais contemplativos, ora mais obtusos, os dez temas sucedem-se num todo que vale mais, muito mais, que a soma das partes. Para o encerramento, com "Kidney", os Beak> propõem uma longa progressão minimalista que ecoa a uns Sonic de há mais de um quarto de século. Se é uma pista de futuros desenvolvimentos, ou apenas a expressão da veia experimentalista dos todos os três integrantes dos Beak>, apenas o tempo nos poderá responder.


"Yatton" [Invada, 2012]

domingo, 5 de agosto de 2012

R.I.P.



JASON NOBLE

Ontem, dia 4 de Agosto, Jason Noble sucumbiu a um raro tipo de cancro que lhe havia sido diagnosticado acerca de três anos, infortúnio que desencadearia uma intensa campanha de solidariedade que envolveu a nata do underground norte-americano. O próprio Noble, enquanto membro dos Rodan, dos Rachel's e dos Shipping News, era uma das figuras mais destacadas e respeitadas desse meio nas últimas duas décadas.

Noble iniciou carreira musical ainda muito jovem, no fervilhante ambiente musical de Louisville, Kentucky, de inícios de noventas, o mesmo onde nasceram os incontornáveis Slint. Como guitarrista e vocalista nos Rodan tinha, com aqueles imensas afinidades musicais, bem evidentes em Rusty (1994), o único trabalho da banda para além de um par de EPs. Talvez por ter sido três anos posterior ao emblemático Spiderland, dos Slint, aquele álbum esteja hoje um algo esquecido. No entanto, um e outro, na sua confluência de post-hardcore e math-rock, acabaram por ser conjuntamente a matriz para o post-rock de bandas como os Mogwai e similares. 

Após a extinção dos Rodan, em 1995, Jason Noble reactivou os Rachel's, banda de formação variável que lhe haveria de garntir um estatuto de culto no espectro do post-rock instrumental. Com uma linguagem musical que ia beber à música erudita, os Rachel's seriam responsáveis pelo estreitar de relações de Noble, um artista pluridisciplinar, com o cinema e a dança. Paralelamente, e na companhia de Jeff Mueller, seu companheiro nos Rodan, Noble mantinha activos desde 1996 os Shipping News, estes com uma sonoridade mais próxima da abrasividade rock da banda que primeiro lhes deu visibilidade.

Rachel's _ "Water From The Same Source" [Quarterstick, 2003]

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

10 anos é muito tempo #36











THE CORAL
The Coral
[Deltasonic, 2002]



Há dez anos exactos, o mundo vivia todo o fulgor do chamado "novo rock". Olhando agora para trás, a esta distância, facilmente constatamos que a quase totalidade das bandas associadas ao "movimento" mais não era do que mero revisionismo de expressões proto e pós-punk. Portanto, todo o burburinho terá sido, em boa medida, gerado pelo saudosismo da geração de oitentas, como que vingando-se da tendência electrónica e dançante a que esteve sujeita durante boa parte da década anterior.

Neste cenário, em clara contra-corrente, surgiram os The Coral, um sexteto de putos originário de Hoylake, pequena cidade costeira separada de Liverpool pelo Rio Mersey. Vindos de tais paragens, as mesmas que nos deram Echo & The Bunnymen e The La's, não renegaram as origens e, tal como aqueles apontavam para o psicadelismo da costa oeste da América de sessentas. Os Love eram a referência mais notória, embora no disco de apresentação os The Coral enveredassem por um melting pot que incluía o merseybeat e as primeiras manifestações ska liverpulianas, umas pinceladas country e folk, e técnicas de produção dub, tudo num caldeirão que não perdia o norte pop. Neste particular faça-se a devida vénia ao produtor Ian Broudie, velha raposa dos estúdios capaz de fazer carvão passar por diamante.

A opção por géneros algo fora de moda é algo de insólito em músicos de tão tenra idade (à data da edição deste primeiro álbum, apenas o vocalista James Skelly tinha ultrapassado a barreira dos 20 anos), mas mais imprevisíveis são as bizarrias devedoras de uns Pink Floyd da "era Syd Barrett" ou de um Captain Beefheart. Os primeiros deixam a sua marca em "Simon Diamond", um primo afastado do "Arnold Layne" daqueles, enquanto o personagem criado por Don Van Vliet assombra o tresloucado frenesim de "Skeleton Key". Este tema é uma espécie de sea shanty abastardada, algo que confere a tradição marítima da região de origem dos The Coral. Pelo mesmo diapasão enveredam em "Spanish Main" e em "Shadows Fall", embora nestes num formato bem mais ortodoxo, apesar da abertura mariachi via-Morricone do segundo. Quando querem, os The Coral também sabem extrair o romantismo imaculado próprio da sua idade, algo que sucede no belíssimo "Heartaches", no qual Skelly exibe toda a sua gama de truques vocais, e em "Dreaming Of You". Este último, o tema mais rodado e imediato de todo o disco, é dono de uma combinação intemporal de beat irresistível, sopros a preceito, e coros harmoniosos, resultando num convite à dança desenfreada.

Na sua homogénea variedade, The Coral não deixa de ter algumas pontas soltas, algo que, não só se compreende, como até se saúda em bandas de tão baixa média etária. Não deixa, no entanto, de ser um entusiasmante cartão de visita que nos deixa de sobreaviso. A promessa haveria de confirmar-se com o decorrer dos anos e dos álbuns (e até agora já lá vão sete!), à medida que os The Coral se iam assumindo como a mais coerente, esclarecida, e peculiar de todas as bandas da pop britânica do que já lá vai deste século XXI. Venham mais sete!

 
"Dreaming Of You"


 
"Skeleton Key"

terça-feira, 31 de julho de 2012

R.I.P.



BILL DOSS
[1968-2012]

Morreu, por causas ainda desconhecidas, Bill Doss, vocalista, guitarrista, co-fundador e co-compositor da banda The Olivia Tremor Control, colectivo responsável por alguma da música mais estimulante da década de 1990.

Fundados em 1992 por Doss, Will Cullen Hart e Jeff Magnum, antes desde último abandonar para seguir carreira com os Neutral Milk Hotel, os OTC cedo demonstraram uma obsessão pelas sensibilidades pop de meados de sessentas. Um par de álbuns imersos em The Beatles, The Zombies ou The Beach Boys, e imbuídos de uma forte componente psicadélica, seriam o seu passaporte para o estatuto de banda de culto. Ambos os discos são compostos por um número infindável de temas, que tanto podem ir dos escassos segundos de duração aos 10 minutos. Não obstante a concepção lo-fi, e as múltiplas interferências de bizarria de origens várias, qualquer deles procura seguir um conceito. Music From The Unrealized Film Script, Dusk At Cubist Castle (1996), por exemplo, funciona como uma espécie de banda sonora para um filme surrealista imaginário. Desde o fim dos OTC, em 2000, Doss dedicou-se ao projecto pessoal The Sunshine Fix, uma aproximação experimental ao universo dos Beatles de meados da carreira. De há um par de anos a esta parte, esteve também envolvido na reunião dos OTC, que já havia rendido diversos concertos e até um single, bem como na formação de palco dos The Apples in Stereo.

O nome de Bill Doss fica também registado para a posteridade como um dos fundadores, juntamente com o camarada Will Cullen Hart, Jeff Magnum e Robert Schneider (The Apples in Stereo), do colectivo Elephant 6, um coglomerado de músicos e bandas - e por vezes também editora - com igual afectividade pelas sonoridades psych-pop de outras eras. Para além das bandas dos citados, o colectivo que marcou indelevelmente a produção musical de meados de noventas em diante, incluía afiliados como Beulah, The Ladybug Transistor, Elf Power, ou Of Montreal, entre muitos outros.

 
The Olivia Tremor Control _ "Love Athena" [Elephant 6, 1994]

 
The Sunshine Fix _ Innerstates [spinART, 2004]

segunda-feira, 30 de julho de 2012

First exposure #46
















Foto: Steve Gullick

SAVAGES

Formação: Jehnny Beth (voz); Gemma Thompson (gtr); Ayse Hassan (bx); Fay Milton (btr)
Origem: Londres, Inglaterra [UK]
Género(s): Post-Punk, Noise-Rock, Indie-Rock
Influências / Referências: The Pop Group, Killing Joke, Liars, Joy Division, Siouxsie & The Banshees, Public Image Ltd.

https://www.facebook.com/savagestheband


"Husbands" [Pop Noire, 2012]

terça-feira, 24 de julho de 2012

A sexta mentira


















Quando apareceram, nos alvores do século XXI, os Liars foram pioneiros na reapropriação das linguagens post-punk que, em pouco tempo, se tornaria uma tendência gasta. Os próprios terão profetizado tal esgotamento rápido, e cedo se demarcaram da "corrente". Abandonaram Nova Iorque, rumaram a Nova Jérsia, depois a Berlim, e foram operando metamorfoses estéticas capazes de apanhar desprevenido o mais acérrimo seguidor. Nos três álbuns seguintes à estreia, sucessivamente, ensaiaram o experimentalismo noise, as potencialidades da percussão como ferramenta principal, e o indie-rock de cariz fuzzy. Só no último Sisterworld (2010) davam alguns sinais de abrandamento com um disco que resulta como uma mescla dos vários caminhos percorridos.

Se esse último álbum, o primeiro concebido desde a mudança para Los Angeles, dissertava sobre a vivência naquela metrópole, o novo WIXIW (leia-se "wish you") é anunciado como uma viagem interior dos membros da banda na sua relação com a nova cidade de acolhimento. Criado e gravado numa cabana nos arredores remotos de L.A., sob a supervisão de Daniel Miller (fundador e patrão da Mute Records), o disco, o mais reflexivo dos Liars até à data, espelha essa atmosfera de isolamento numa aura vagamente sinistra. Falta dizer que marca também mais uma reviravolta estilística, desta feita privilegiando as ferramentas electrónicas. É por isso, o disco mais "sintético" da meia dúzia que os Liars já levam no currículo. Não se pense, porém, que houve uma rendição a qualquer praga dançante da época. Longe disso, WIXIW mantém intactos os impulsos experimentalistas, fazendo da criação de atmosferas uma prioridade em relação à elaboração de temas indistintos. Não é descabido, salvas as devidas distâncias, citar alguns trabalhos de Aphex Twin ou The Future Sound of London como produtos aparentados. Como um todo, WIXIW deixa escapar um certo mal de vivre, bem evidente na voz desencantada de Angus Andrew, por vezes num timbre assustadoramente semelhante ao de um Beck em dia não. A única excepção à toada dominante talvez seja "Brats", um assalto de bleeps distorcidos com vocalizações animalescas. Para ilustrar WIXIW, porque melhor representa o conjunto, escolhemos aquele que foi o single de avanço, merecedor de vídeo promocional ao nível do melhor que os Liars já nos habituaram.

 
"No. 1 Against The Rush" [Mute, 2012]

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Pára tudo!
















Já não será novidade para os devotos mais atentos, mas fica aí a notícia do ano para os mais distraídos: os Sebadoh estão de volta aos discos! Não é a formação "clássica", pois Eric Gaffney abandonou o barco logo a seguir à série de concertos que assinalou a reedição de boa parte do catálogo desta que é uma das mais importantes "instituições" indie de noventas. Nem tão pouco é a formação que gravou o último The Sebadoh (1999), pois o papel de baterista é agora entregue ao ex-Fiery Furnaces Bob D'Amico. Mas tem, obviamente, os eternos Lou Barlow e Jason Loewenstein que, como é hábito, alternam os créditos da composição e as vozes.

Secret, o EP de cinco temas hoje lançado pode ser escutado aqui. Como poderão constatar, longe vão os tempos das catarses de ruído e berraria. Agora os Sebadoh, sem beliscar a identidade, apostam em temas mais ortodoxos, pese embora a distorção e o modo caseiro de fazer as coisas ainda façam parte da ementa. Os três temas de Barlow têm uma maior carga melancólica, os dois de Loewenstein alternam entre o rock descarnado e o folksy e são mais ambíguos. As boas notícias não se ficam por aqui, pois o EP antecede um álbum já em preparação com edição prevista para o próximo ano. Este regresso súbito é também motivo para mais uma ronda de concertos, por ora com datas marcadas apenas para os states. Agora, é tudo uma questão de cruzar os dedos e torcer para que as boas gentes da Catalunha nos realizem um desejo antigo...

Ao vivo #91
















Moon Duo + Pega Monstro @ MusicBox, 21/07/2012

Apesar de todo o reconhecimento de que são alvo os Wooden Shjips, Erik "Ripley" Johnson parece presentemente mais apostado na promoção do Moon Duo, a aventura paralela que mantém com a companheira Sanae Yamada. No que concerne à vida na estrada, talvez a opção se justifique com a maior "portabilidade" deste projecto, logo com menores custos versus maiores proveitos. Por outra lado, e embora as referências das duas bandas sejam similares (todas as décadas de rebeldia rock filtradas pelos Spacemen 3), há no Moon Duo um certo groove que os torna mais imediatos.

Por conseguinte, o alinhamento do concerto de sábado, que visava promover o álbum Mazes (2011) e preparar terreno para o sucessor lá mais para o Outono, consistiu numa réplica dos tiques e truques sónicos que fizeram a fama da banda de Sonic Boom e J Spaceman. Invariavelmente, cada início de tema bem que poderia ser o de um dos Spacemen 3 ou de um dos seus derivados subsequentes. Na estrutura também não se registam grandes variações, pois a totalidade dos temas consiste na combinação batida sintética e teclado kraut + solo de guitarra intermédio + apoteose de ruideira final. Tudo acompanhado pela voz monocórdica de Ripley e o menear de Sanae. A grande vantagem que o Moon Duo extrai da aposta da monotonia, quando combinada com a alto volume do som irrepreensível (curiosamente mais sentido nas partes mais afastadas do palco) e com as projecções cromáticas, é a facilidade com que induzem estados de relativa hipnose. Caso o espectador não esteja propriamente virado para a deriva mental, o concerto poderá ser apreciado como relativamente aborrecido e parco em ideias próprias.

Quanto às Pega Monstro, dupla de jovens irmãs lisboetas geradora de um relativo hype nos circuitos indie lo-fi, o maior elogio que se lhes pode fazer é admitir que estão a par das tendências externas, algo pouco comum por cá. Ainda algo verdes, retiram alguns ensinamentos das Vivian Girls mas, ao contrário destas, não aprofundam as fontes na procura da essência da canção pop a partir dos mais escassos recursos. As letras, duma inanidade flagrante, não são propriamente uma pecha, pois estão de acordo com os padrões do género. Piores são as vozes, algo desencontradas quando procuram o uníssono. Em particular a da guitarrista, francamente inferior à da baterista (que ganha também em carisma), pelo que não se compreende o maior protagonismo da primeira. Têm, portanto, um longo caminho a percorrer, pese embora um ou outro apontamento nos novos temas apresentados faça crer que, num futuro próximo, possam convencer alguém mais além da meia dúzia de acólitos irrequietos que marcaram presença.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Good cover versions #67
















THE COLOURFIELD _ "Can't Get Enough Of You Baby" [Chrysalis, 1985]
[Original: The Toys (1966); Popularizada por: ? and the Mysterians (1967)]




No contexto da história da música popular britânica, Terry Hall é uma figura incontornável. Em rescaldo punk, indicou novos caminhos e granjeou considerável sucesso tanto à frente dos The Specials como dos Fun Boy Three. Depois da curta aventura new wave destes últimos, rumou da ghost town de Coventry a Manchester e lá formou The Colourfield. Antes da subida aos píncaros da crítica com um excelente álbum de estreia, e do flop do segundo e derradeiro, o projecto lançou um punhado de singles nos quais foi desenvolvendo uma linguagem musical em consonância com a intelectualizada pop "sofisticada" da Inglaterra de meados de oitentas. Alguns desses temas preparatórios para voos mais altos eram versões, algo pelo qual Terry Hall sempre teve alguma predilecção. Um dos temas visados foi "Can't Get Enough Of You Baby", curiosamente com uma estrutura em tudo semelhante à versão que o imortalizou. Contudo a suavidade da voz de Hall, a produção "limpa" própria da época, e uma certa aura de romantismo clássico, fazem da versão uma actualização perfeitamente válida para o seu tempo.

Embora originalmente gravado pelo girl group The Toys num registo típico das bandas do género, "Can't Get Enough Of You Baby" conheceu a sua versão definitiva, e aquela que foi revista uma míriade de vezes, um ano mais tarde pela mão de ? and the Mysterians. Hoje votado a uma relativa obscuridade, este colectivo norte-americano de origem hispânica (talvez a primeira banda rock desta etnia a obter sucesso de monta) é nome de referência para os arqueologistas do garage-rock e do chamado proto-punk. Liderados por um carismático Question Mark (de seu verdadeiro nome Rudy Martinez), senhor de um timbre capaz de ir do charme meloso ao grito animalesco num instante, os Mysterians tinham como imagem de marca os riffs desengonçados de um órgão Vox, os mesmos que os Colourfield recuperam logo no início da sua versão. Por isso, faz todo o sentido subverter os factos históricos, e atribuir aos Mysterians a autoria de "Can't Get Enough...".

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Mil imagens #31



Johnny Marr (The Smiths) - Rough Trade, Kings Cross, Londres, 1985
[Foto: Tom Sheehan]

terça-feira, 17 de julho de 2012

Always crashing in the same car


















Acompanhada desde há muito por estas bandas, a dupla escocesa Strawberry Whiplash é ideia da cabeça de Lawrence McCluskey, responsável pela totalidade dos instrumentos. Se nos similares Bubblegum Lemonade trabalha em solitário, aqui conta com a preciosa ajuda da voz cândida de Sandra. O nome do projecto deriva de uma combinação do das bandas conterrâneas Strawberry Switchblade e Meat Whiplash, o que diz algo da sonoridade da parelha, com a doçura dos primeiros e a propensão fuzzy dos últimos. Depois de uma série de lançamentos em pequeno formato, saídos quase a conta-gotas, tardou mas chegou o álbum de estreia. Chama-se Hits In The Car e está ao nível das expectativas criadas junto da falange devota da indie-pop mais canónica.

Tendo a dupla base em Glasgow, não surpreende que o álbum vagueie num limbo entre as memórias da C86 e da pop "clássica" de sessentas, o que por si só não traz grandes novidades. Sucede, porém, que os treze temas que compõem Hits In The Car são de primeira estampa sob o ponto de vista melódico, com a particularidade de o todo ser vagamente conceptual. Na circunstância discorre-se sobre as minudências de uma relação amorosa: os altos e os baixos, a felicidade e a amargura. Quando envereda por uma via retro, o par faz lembrar os melhores The Primitives do recente e surpreendente álbum de versões. Já quando o fuzz contamina as melodias, vêm-nos à memória uns My Bloody Valentine de Isn't Anything injectado de uma boa dose de luminosidade, ou até uns Mary Chain de meados de noventas. Para amostra fica um exemplar de cada uma destas últimas estirpes. Oiçam e depois digam-me das semelhanças do segundo com determinado dueto da banda dos manos Reid.


"Sleepy Head" [Matinée, 2012]


"You Make Me Shine" [Matinée, 2012]

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Ao vivo #90

















Foto: JN

Optimus Alive 2012 @ Passeio Marítimo de Algés, 13/07/2012

Chamem-me pretensioso, chamem-me mete-nojo, mas cada vez me falta mais a paciência para os festivais realizados no rectângulo (desde que não organizados por espanhóis, está claro!). O Optinus Alive em particular, com as pretensões a Rock in Rio, tem a particularidade de me afugentar como nenhum outro. Ele é a salganhada do cartaz, ele é a morosidade inexplicável no acesso ao recinto, ele é o próprio recinto de dimensões mais que reduzidas para o número de público... Só que, no meio da salganhada, vai de quando em quando aparecendo um nome que me faz esquecer a fobia e lá me faz rumar ao circo de Algés. Foi assim há quatro anos por causa dos Spiritualized, e foi assim na passada sexta-feita por causa dos Stone Roses

Sobre a actuação da regressada banda de Manchester já muito se disse, em particular da fraca prestação vocal de Ian Brown. São justas as críticas, mas se querem que lhes diga dele não esperava propriamente um tenor, pelo que neste aspecto não fui tomado de surpresa. Porém, também serei justo se referir que o rapaz se desenrasca com maior desenvoltura quando se lhe pede que cante num tom mais melódico, e isso acontece na maioria dos temas que interessam, ou seja, os do simbólico primeiro álbum. Pontos altos, sem falhas dignas de nota, foram "This Is The One", o fulgurante final com "I Am The Resurrection", e "Fools Gold". Neste último, transfigurado para palco, com Brown fora de cena, John Squire, Mani e Reni, qual máquina afinada, proporcionam uma longa deriva psicadélica que sacia a maioria dos fiéis. Voltando aos débeis dotes vocais de Ian Brown, eles estiveram mais evidentes quando procurava ser mais contido, e isso aconteceu essencialmente com os temas do desequilibrado segundo disco, pelo que penso que ninguém que realmente tenha alguma devoção pelos Stone Roses terá ficado particularmente desiludido. Excepção feita, claro está, a "Love Spreads" e "Ten Storey Love Song", o par de canções pelos quais o disco ainda vale a pena, e onde o vocalista não comprometeu. Quando ao resto da banda, e em adenda ao que acima se disse, estará hoje tecnicamente mais evoluída do que no seu período de maior fulgor, na viragem dos oitentas para os noventas. Mas não é por isso que entra em demonstrações técnicas desnecessárias, limitando-se a executar a música na sua essência, com um ou outro floreado que em nada a descaracteriza.

Do resto do cartaz gostava ainda de realçar, muito pela positiva, os Death in Vegas. Antes do início do concerto disse a alguém que o aguardava com alguma curiosidade e algumas reticências, tal a particularidade dos discos do projecto de Richard Fearless, normalmente pejados de convidados que, obviamente, estavam ausentes. Cedo se desvaneceu o cepticismo, com a imersão numa espiral de densidade que incorpora laivos de kraut em fundo de negritude. Combinando o lado electrónico com a vertente orgânica sem predominância de nenhuma das facetas, a banda transfigura cada tema como parte de um todo, deixando escapar pontos de reconhecimento, quanto mais não seja pelas extractos de vozes sampladas. No final, soube a pouco pela curta duração.

Gostava ainda que ficassem a saber que, à margem de um verdadeiro delírio infanto-juvenil, tomei finalmente contacto com a música do fenómeno LMFAO. E se querem que lhes diga, palhaçadas da dupla à parte, detectei um hip-hop festivo de travo clássico que não me causa qualquer aversão. O mesmo não se poderá dizer de uma tal Zola Jesus, que quando se cruzou pela primeira vez no meu caminho mal sabia ainda encarar o público em cima de um palco. Agora é toda ela de uma teatralidade despropositada, e como tal, não menos ridícula. Quanto à "música" propriamente dita, é toda uma súmula de clichés da facção mais negra do post-punk, com os tiques de uma Siouxsie mais madura (e mais desinteressante) em maior evidência.