"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Mil imagens #29



Mercury Rev - País de Gales, 1998
[Foto: Steve Gullick]

Ao vivo #81
















The Strange Boys @ MusicBox, 24/04/2012

Que me perdoem aqueles que os catalogam como tal, mas não consigo vislumbrar nos texanos The Strange Boys o pendor psicadelista que lhes atribuem. Talvez o eventual equívoco esteja relacionado com a terra de origem, local que outrora pariu os delírios ácidos de Roky Erickson e seus pares. Vejo neles também uma banda que, progressivamente, vai abandonando a sujidade "garageira" em favor de uma sonoridade mais aprimorada. Apesar da idade parecer não passar pelo quarteto, Ryan Sambol e companhia ostentam já a sabedoria rock de velhas raposas, imiscuindo a coisa também com um certo sentir soul e as raízes americana.

O recente Live Music, visado na maior parte do concerto de anteontem, é um passo evolutivo seguro para uma banda que, nos primórdios, privilegiava a energia em desfavor do aprumo da execução. Agora, a contenção abrange também os movimentos em palco, reduzidos ao mínimo, revelando uma maior concentração em cada detalhe, o que faz com que a banda resulte como uma bem oleada máquina de groove contido mas não castrado. À santíssima trindade rock, juntam-se amiúde as harmónicas e as pianadas que nos remetem para "cóboiadas" no oeste remoto. Talvez os White Stripes pudessem ter evoluído neste sentido, se acaso não tivessem padecido de um surto de megalomania provocado pela fama desmesurada. Ou talvez os Libertines um dia pudessem ter soado de forma idêntica, se acaso fossem produto da América profunda ao invés de terem sido gerados no reboliço londrino. 

E já que estamos numa de comparações gratuitas, porque não registar as semelhanças espaçadas da voz precocemente amadurecida de Sambol com a do vocalista dos The Walkmen, isto se lhe subtrairmos os maneirismos miserabilistas do último. Um e outro são discípulos de Dylan, essa figura omnipresente na música popular americana do último meio século. Um revolucionário à sua maneira, este ícone não induziu nos The Strange Boys de terça-feira o espírito revolucionário que já se vivia à hora do fecho da função. Contudo, se há algo de que o numeroso público (o preço justo dos bilhetes sai recompensado...) do MusicBox não se pode queixar é da falta de subversão a partir da tradição. E isso, meus amigos, é rock'n'roll! E nós gostamos...

terça-feira, 17 de abril de 2012

10 anos é muito tempo #34








NINA NASTASIA
The Blackened Air
[Touch and Go, 2002]




Vem à baila o nome de Steve Albini e logo se atemorizam as donzelas mais delicadas perante a menção do nome do enfant terrible do rock mais abrasivo. Puro equívoco, reduzi-lo a esse nicho, principalmente se tivermos em conta os discos em que se tem envolvido na última dúzia de anos. Pela parte que me toca, prefiro vê-lo como alguém que privilegia a pureza crua da música em detrimento do artifício supérfluo. Tomemos como exemplo Nina Nastasia, cantautora por si "apadrinhada" e gravada desde o primeiro minuto. Também pela sua mão, o primeiro álbum de tiragem limitadíssima (Dogs de 2000, posteriormente reeditado pela Touch and Go) chegou aos ouvidos de John Peel, do qual o entusiasmo e a rodagem constante acabariam por gerar um pequeno culto.

Mas por ora, concentremo-nos no sucessor, o disco que apresentou a um público mais vasto a sua autora que, apesar das origens eslavas, mergulha como poucas contemporâneas nas profundezas da música tradicional norte-americana. Como o próprio título sugere, The Blackened Air é um disco tenso, por vezes críptico, que faz de Nastasia uma descendente directa de Karen Dalton e outras almas penadas da folk americana e derivados. A corroborar a atmosfera southern gothic, com paisagens outonais desoladoras, drama e miséria, a própria música, descarnada e registada sem efeitos artificiais. À guitarra de Nina juntam-se outros, poucos, instrumentos acústicos: acordeão, mandolim, violino, violoncelo. Quando todos se juntam, numa "sinfoneta" desengonçada, são a banda sonora de uma procissão funérea. E depois há a voz, que não sendo das mais elásticas, tem a proximidade calorosa que penetra nas temperaturas gélidas de todo o disco. É ouvi-la, em lamento de menina-moça, em "In The Graveyard", tema assombroso e assombrado pelos fantasmas de uma viuvez precoce. Ou em "This Is What It Is" e "Ocean", nos quais encarna a mulher submissa e conformada. Qualquer dos exemplos citados corresponde aos poucos temos de duração mais ou menos convencional, pois na esmagadora maioria, Nina Nastasia relata as suas histórias de amores desavindos, outros trágicos, em pequenos trechos que, surpreendentemente, são ricos no pormenor quase visual. Também neste particular, tal como na música, a poupança de meios é a principal arma do fascínio de The Blackened Air.

"This Is What It Is"


"In The Graveyard" 


"Ocean"

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Trópico de Capricornia
















Mais do que uma banda, os Allo Darllin' são o veículo para as canções de Elizabeth Morris, uma australiana desterrada em Londres que antes gravava a solo sob o nome The Darlings. Com este novo projecto editou, há coisa de dois anos, um compêndio de pop imaculada que evoca os tempos da saudosa Sarah Records, a piscar o olho aos tempos em que pop era sinónimo de inocência e com umas pitadas surf que convidam a agitar o corpo. Com tais credenciais, acaba por não ser por acaso que Morris alinhe também nos Tender Trap ao lado desse ícone twee que dá pelo nome de Amelia Fletcher (Talulah Gosh, Heavenly).

Por estes dias, já a prometer temperaturas mais amenas, está a chegar o segundo disco. Chama-se Europe mas terá, obviamente, edição fora do velho continente. Nas Américas leva até selo da Slumberland, nada mais apropriado se tivermos em conta que esta tem sido nos últimos a casa por excelência da pop açucarada naquelas paragens. Do álbum não se esperam propriamente revoluções estéticas, apenas que Elizabeth & C.ª nos continuem a brindar com aquelas canções que nos fazem sentir eternamente teenagers. A primeira amostra, que é uma dos mais saborosos rebuçados pop dos últimos tempos, está aí para nos assegurar mais alguns momentos de viagem à nossa juventude.

"Capricornia" [Fortuna Pop!, 2012]

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O jogo das diferenças #6

THE FEELIES
Crazy Rhythms
[Stiff, 1980]


WEEZER
Weezer (a.k.a. Blue Album)
[DGC, 1994]

A psicose do próximo Verão?















Quando surgiram aos ouvidos do mundo, incluídos no pacote das novas bandas norte-americanas a olhar para um passado indie britânico com vinte e tal anos, os Crocodiles traziam colados, não apenas na indumentária, os genes dos Jesus and Mary Chain. Summer Of Hate (2009), o álbum de estreia, estava tão próximo de algumas manifestações musicais dos irmãos Reid que roçava o plágio. Com Sleep Forever (2010), a sombra desvaneceu-se ligeiramente, abrindo espaço para ecos de outros monstros sagrados do rock malsão da mesma era - os Spacemen 3.

Um maior hiato entre discos poderá ter tido alguns efeitos benéficos, no sentido de apurar as evidentes influências numa sonoridade mais personalizada. É isso que se espera do próximo Endless Flowers, a lançar lá para inícios de Junho, mesmo a tempo de infectar os céus azuis do Verão californiano de rock sulfuroso. Já gravado por uma formação alargada a quinteto, e não apenas pela dupla nuclear Brandon Welchez e Charles Rowell, promete tudo isso e algo mais. Sou levado a tal crença pela primeira amostra, obviamente filiado na facção sónica dos "progenitores", mas com um groove de tal forma obsessivo que confere alguma identidade própria. O efeito rolo-compressor esmaga os resquícios de "baixa fidelidade" que se escondiam nas entranhas dos anteriores registos. Oiçam com o volume no máximo, sff:

"Sunday (Psychic Conversation #9)" [Souterrain Transmissions, 2012]

terça-feira, 10 de abril de 2012

Singles Bar #74








ROBERT WYATT
Shipbuilding
[Rough Trade, 1982]






Por estes dias, comemoram-se os trinta anos sobre o início da curta guerra das Malvinas (ou Falkland, em inglês), conflito que opôs o Reino Unido à Argentina pela soberania de um pequeno arquipélago ao largo do extremo da América do Sul. Levaram a melhor os europeus mas, em terras de Sua Majestade, não faltaram as vozes críticas contra os gastos provenientes da posição inflexível de Margaret Thatcher, em contradição com as políticas que antes tinham levantado semelhante coro. No meio artístico em geral, e no musical em particular, a indignação fez-se ouvir com a mesma intensidade com que no conturbado início do consulado da Dama de Ferro.

Entre os indignados não poderia faltar Robert Wyatt, o irredutível contestatário "vermelho" que, apesar de pertencer a uma geração anterior, mereceu o respeito e a admiração de muitos jovens músicos pós-punk. Insatisfeito com a letra escrita para afirmar a sua contestação, e contando com música do produtor Clive Langer, recorreu aos serviços de Elvis Costello, amigo de ambos e, precisamente, produto da fornada gerada pela eclosão punk. Este respondeu ao apelo com uma das mais engenhosamente sarcásticas letras da música popular. Com mordaz ironia, questiona o súbito impulso do governo à indústria naval britânica, apenas para servir uma guerra, quando até aí este um dos sectores votados ao esquecimento por Thatcher. A temática, porém, surge apenas nas entrelinhas, pois a letra deriva à volta do drama dos pais que vêm os filhos partir para um hipotético destino fatal. Cantada por Wyatt no seu frágil tom peculiar, venerável para uns insuportável para outros, "Shipbuilding" acabaria por ser o único caso de relativo sucesso na carreira deste respeitável barbudo. Talvez inesperado, se tivermos em conta que não respeita propriamente os parâmetros em vigor para os hits da altura. A acrescer à "estranheza" da voz de Wyatt, a parte instrumental baseia-se no seu típico piano em repetições entrecortadas e numa subtil bateria tocada com alguma parcimónia jazzística, a remeter para os tempos do cantor nos Soft Machine.

Um ano volvido, também Elvis Costello gravaria a sua própria versão de "Shipbuilding". Não muito diferente da de Wyatt, diga-se em abono da verdade. Próxima inclusive no registo vocal, portanto bem diferente do neurótico new-waver que tinha agitado às aguas musicais britânicas poucos anos antes, e também assente no piano. Ligeiramente mais longa, tem como pormenor de charme a prestação de um convidado de honra: o trompetista Chet Baker. Costello subia assim o primeiro degrau na escadaria da "aristrocracia" pop.

sábado, 7 de abril de 2012

...e a Espanha aqui tão perto


















No imenso caldeirão daquilo a que chamamos slowcore/sadcore, os Spain são uma proposta substancialmente mais "académica", por oposição ao cariz lo-fi da esmagadora maioria. Ao longo dos três discos que lançaram com o mesmo vagar com que a sua música discorre, é notório um apuro instrumental acima da média, bem como uma limpidez pouco comum aos seus pares. A estes factos não serão alheios os genes do líder, vocalista, baixista e compositor Josh Haden, filho do músico jazz Charlie Haden. Tanto que os próprios temas não deixam, em muitos casos, de conter algumas derivações jazzísticas que não esperamos encontrar, por exemplo, na sonoridade minimalista de uns Low, de uns Bedhead, ou de uns Red House Painters.

Depois de um longo hiato sem dar notícias, durante o qual o fim da banda não chegou a ser anunciado, Josh Haden e seus pares foram regressando, gradualmente, do exílio. Primeiro foram alguns concertos esporádicos, depois um par de singles a fazer crer que este não se tratava apenas de mais um regresso para alimentar a indústria da nostalgia. O regresso em pleno materializa-se agora com a notícia da edição do álbum The Soul Of Spain, prevista para aproximadamente daqui a um mês com selo da alemã Glitterhouse Records. Se atentarmos na capa, na linha dos discos de outrora, tanto ao nível do grafismo como da imagem, chegamos a uma conclusão que é mais uma certeza: os Spain nunca foram banda para operar mudanças drásticas de disco para disco. Certeza essa que sai reforçada da audição de um trio de temas já divulgados, a discorrer com aquele lume brando que realça a verve romântica da voz profunda de Haden. Embora ainda a carecer de confirmação com a audição dos restantes temas, fico com a impressão que a pequena novidade de The Soul Of Spain é o sublinhar do travo americana que pairava subtilmente nos anteriores registos.

Para gáudio da vasta falange que a banda conquistou por cá, consta que, poucos dias depois da edição do disco, os Spain aterram em solo português. Será no Porto, no novo Hard Club a 19 Maio. Rumores que ainda não confirmei dão também conta de uma eventual actuação no Lux Frágil, um dia antes. Porém, a últimas (más) experiências na sala lisboeta, somadas daquele jeito especial que as gentes tripeiras têm para receber, não me deixam outra opção senão rumar à Imbicta

sexta-feira, 6 de abril de 2012

R.I.P.



JIM MARSHALL
[1923-2012]

Morreu ontem, aos 88 anos e, ironicamente, na paz do sono, Jim Marshall, proclamado The Father of Loud. Se à partida o nome deste velhinho simpático diga pouco a muito boa gente, talvez o caso mude de figura se dissermos que, em inícios de sessentas, criou os célebres amplificadores Marshall. A partir daí, como se sabe, a guitarra tornar-se-ia uma ameaça séria aos tímpanos de todos os apreciadores do rock tocado alto-e-bom-som. Pelo feito, acabaria por ser distinguido com a Ordem do Império Britânico.

A sua criação é especialmente venerada nos meandros do heavy metal, universo no qual uma parede de amplificadores Marshall é um cliché mais que gasto. Mas também por muitos virtuosos da guitarra dados ao perfeccionismo. Entre os nomes mais caros a este pasquim, há também uma lista infindável de músicos que usaram e abusaram das possibilidades sónicas proporcionadas por Marshall. São os casos de Kurt Cobain (que morreu exactamente 18 anos antes), Thurston Moore, J Mascis, Jimi Hendrix, ou esse ícone maior da guitarra que dá pelo nome de Pete Townshend. É este último que recordamos, décadas antes de andar a alertar a juventude para os riscos de se ouvir música demasiado alto. Precisamente naquele episódio, já lendário na história do rock, que envolve explosivos em carga excessiva. Uma cortesia do impagável Keith Moon.

The Who _ "My Generation" [Brunswick, 1965]

quarta-feira, 4 de abril de 2012

First Exposure #43


















MANATEE

Formação: Keith Neal (voz, gtr);  Mike Schulman  (gtr); Nik Carlson (bx); Chris Greacen (btr)
Origem: San Francisco/Oakland, Califórnia [US]
Género(s): Indie-Pop, Power-Pop, Jangle-Pop, Punk-Pop
Influências / Referências: The Replacements, The Feelies, Guided by Voices, Ramones, Pants Yell!



"Indecision" [Slumberland, 2010]

terça-feira, 3 de abril de 2012

Good cover versions #64











ROWLAND S. HOWARD _ "Life's What You Make It" [Liberation, 2009]
[Original: Talk Talk (1986)]



O trajecto dos Talk Talk é um dos mais fascinantes volte-faces registados, não só de oitentas, como em toda a história da música popular. Nascida sob os auspícios "neo-românticos", e inicial e justamente apontada como seguidista, a banda londrina soube evoluir para algo mais personalizado, ao ponto de se tornar, em finais da década, caso de estudo para as tendências dos anos que se seguiriam (falamos de post-rock, pois claro!). Obviamente, uma mudança tão drástica não se opera de um dia para o outro, de um disco para o seguinte. Carece sempre de uma fase transitória, que no caso dos Talk Talk coincidiu com o álbum The Colour Of Spring, ainda pop na sua essência, mas já com assinalável apuro instrumental e alguma gravidade pouco comum em bandas habituadas às tabelas de vendas. É lá que encontramos "Life's What You Make It", um tema que acusa alguns dos tiques da produção da época mas ao qual as batidas sincopadas e as notas em loop do piano conferem uma aura sinistra até aí desconhecida. A própria letra, entre o confessional e o reflexivo, sugere a luta do vocalista Mark Hollis com as drogas, matéria que serviria de base, com os resultados que se conhecem, no magistral Spirit Of Eden (1988).

É nessa vida de excessos que Rowland S. Howard encontra afinidades, ou não tivesse em tempos, este músico australiano que foi apenas um dos mais carismáticos guitarristas da era post-punk, alinhado ao lado de Nick Cave, Mick Harvey, et al. na pandilha maldita conhecida como The Birthday Party. Esse trajecto errático encontrou paralelo na carreira musical que, à parte um bom número de colaborações, rendeu apenas dois álbuns a solo. O último dos quais - Pop Crimes - foi gravado escassos meses antes da sua morte, vítima de cancro. Por inerência, é todo ele um disco de reflexão em fim de vida. Portanto, a versão de um tema com a características de "Life's What You Make It" encaixa perfeitamente no alinhamento. Interpretado por Howard, respeita fielmente a cadência opressiva do original, realçando apenas a densidade da atmosfera. Algo que tanto se fica a dever ao timbre grave e seco da voz, como aos golpes contundentes da guitarra pelo meio de um ritmo maníaco pautado pelo piano.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A light that never goes out

















Embora Norman Blake goze habitualmente de uma maior visibilidade, nos escoceses Teenage Fanclub não há propriamente um vocalista/compositor principal entre os seus três membros de sempre. Gerard Love, o baixista, é inclusive responsável pela escrita de alguns dos temas mais memoráveis da banda, entre eles o efusivo "Star Sign", com presença assegurada em qualquer top 5 dos Fannies. Agora que a maturidade bate à porta, e as coisas são feitas com o vagar e a sapiência inerentes à idade, parece ser a altura certa para cada um dos compositores se dedicar a projectos extra-TFC.

Primeiro foi Blake com os Jonny, projecto a mielas com o ex-Gorky's Zygotic Mynci Euros Childs, e agora é chegada a vez de Gerard Love ao leme dos Lighships. Um projecto bastante pessoal, pois todos os temas saíram da sua pena, pese embora para a gravação de Electric Cables, o álbum editado hoje mesmo, também tenham contribuído vários amigos. Entre eles Brendan O'Hare, baterista da formação original dos TFC, e Bobby Kildea, baixista dos Belle & Sebastian que acumula com os renovados The Vaselines. Disco de combustão lenta, especialmente indicado para fruição ao fim da tarde, Electric Cables enaltece a veia melódica de Love. Com arranjos bruxuleantes e uma especial atenção ao pormenor, é descendente de alguma da pop mais terna de sessentas, em especial dos Byrds. Com o recurso frequente a instrumentos pouco comuns na música dos Fannies, tais como flautas ou mellotrons, não deixa ainda assim de revelar afinidades com Shadows, o reflexivo e delicioso último disco daqueles. Ou, diria, até mais com as últimas aventuras dos compinchas The Pastels, com os quais Love tem sido colaborador activo. E como isto em Glasgow anda tudo ligado, Elecric Cables leva selo da Geographic, subsidiária da Domino Records parcialmente "administrada" por Stephen Pastel.

"Sweetness In Her Spark" [Geographic, 2012]

sábado, 31 de março de 2012

Discos pe(r)didos #62








GNR
Defeitos Especiais
[Vadeca, 1984]




É natural que as novas gerações olhem para os portuenses GNR como o fenómeno de massas, a banda que encheu estádios e salas de grandes dimensões com o seu pop/rock conformista da primeira metade de noventas. Esses mais novos não têm idade suficiente para ter conhecido a banda no seu auge, seguramente a mais aventureira no espectro portuga de oitentas, indiscutivelmente pop sem enjeitar algumas tendências vanguardistas. Portanto, na altura em que a banda fazia jus ao nome simplificado na sigla que muitos confundem com o de uma certa corporação - Grupo Novo Rock.

Olhando para trás, não deixa de ser caricato pensar que esse período dourado, e consequentemente a posterior consagração massiva, poderiam nunca ter ocorrido. Isto se os GNR têm levado por diante a ideia que ditou uma breve dissolução, precipitada pelo abandono, com apenas o primeiro álbum editado, do fundador Vítor Rua rumo aos Telectu, estes bem mais distantes da estandardização pop. Também Alexandre Soares, o mago da guitarra, abandonou temporariamente, mas cedo reconsiderou a opção e juntou-se ao vocalista e letrista Rui Reininho e ao baterista Toli César Machado, bem como a novo baixista Jorge Romão, os quatro compondo a formação que embarcaria na mais bela aventura pop operada em Portugal.

Escutando hoje Defeitos Especiais, o segundo álbum e o primeiro desta segunda vida - que acaba de ser reeditado para gáudio de uma vasta falange e curiosidade de outra mais curta -, facilmente se afere que o quarteto, liberto do controlo de Rua, dá largas à creatividade ao mesmo tempo que inflecte para uma sonoridade mais acessível. Como já foi dito, esta acessibilidade não significa que os GNR tenham posto de lado os seus impulsos vanguardistas. A grande conquista, e neste particular apenas com correspondência nuns Mler Ife Dada, é um certo sentir indubitavelmente lusitano numa linguagem pop com origens anglo-saxónicas. A este respeito, escutem-se o doce "Muçulmania", com ecos que vão do Alentejo ao Norte de África, ou o erótico "Mau Pastor", espécie de valsa popularucha que merecia trazer a sofisticação aos arraiais desse Portugal profundo. Para quem julga estes GNR como meros seguidores dos Talking Heads, eles comunicam o desquite com o funk no bilingue "I Don't Feel Funky (Anymore)", número que cruza o doo-wop com a canção ligeira italiana. Mais convencional para o parâmetros post-punk da época, e talvez por isso o tema mais rodado de todo o disco, "Piloto Automático" é uma celebração boémia que não perdeu o seu imediatismo com estes quase trinta anos volvidos. Passando para a secção mais arriscada do ecléctico Defeitos Especiais, temos de referir um trio de temas: o tenso "Absurdina", mergulhado em ecos e com o Reininho mais animalesco que se conhece; o global "A Última Vaga", que põe o Médio Oriente em contacto com o mundo ocidental sob algumas concessões às electrónicas; e o pulsante "Pershingopólis", manifesto anti-armamento em plena Guerra Fria que percorre territórios country-western.

À riqueza de pormenores e à variedade estilística, Defeitos Especiais junta ainda aquela que sempre foi a marca mais distinta dos GNR: as letras engenhosas de Reininho. Nesta fase ainda preservam todo a sua força subversiva, algo que afrouxou com decorrer dos anos, naturalmente. Com um domínio da Língua Portuguesa ímpar no universo pop 'tuga, o vocalista consegue ser corrosivo ("Absurdina"), perverso ("Mau Pastor"), auto-complacente ("Desnorteado"), ou senhor dos melhores jogos de palavras ("A Última Vaga"). Este estado de graça conheceria novos desenvolvimentos no subsequente Os Homens Não Se Querem Bonitos (1985), e continuidade no fenómeno de vendas Psicopátria (1986), este a beneficiar de um renovado interesse na música moderna feita em Portugal. Depois disso, veio a curva descendente sob os olhares das massas, interrompida aqui e ali com algumas ideias interessantes.


"Piloto Automático"


"Mau Pastor"


"Pershingopólis"

terça-feira, 27 de março de 2012

A celebração rock
















Desafio o vasto auditório desse lado a apresentar-me o nome de uma banda que, nos últimos 3/4 anos, melhor tenha representado o sentir rock do que os canadianos Japandroids. Ressalve-se que por "espírito rock" deve entender-se aquela coisa que, em inícios de noventas, pareceu querer mudar o rumo das coisas mas rapidamente se desvaneceu às mãos de executivos calculistas. Se bem se lembram, a coisa incluía rebelião juvenil, escapismo, subversão, e energia a rodos. Não estão de acordo? Então vão re-ouvir Post-Nothing (2009) e depois digam-me qualquer coisa.

À parte esse "clássico" instantâneo, a dupla de Vancouver tem-se mostrado relativamente activa na edição de pequenos formatos para deleite de indefectíveis como este que vos escreve. Nomeadamente através de uma série de 7'' com a particularidade de incluírem um original e uma versão (Big Black, X e PJ Harvey já foram contemplados). Interrompida sem justificação, a série é retomada em meados de Maio com a edição de um disquinho que tem por tema principal "The House That Heaven Built". No lado B, os Japandroids atacam agora "Jack The Ripper", original de Nick Cave & The Bad Seeds. Escutado repetidas vezes, o tema principal leva-me a afirmar, sem pruridos, que ainda bem que há coisas que permanecem imutáveis. Quer isto dizer que, dos Japandroids, ainda podemos contar com temas rasgadinhos mas trauteáveis, ruidosos mas imediatos. Está tudo mais ou menos explicado numa linha da letra repetida inúmeras vezes: "and if they try to slow you down, tell them all to go to hell".

As boas notícias não se ficam por aqui, pois, menos de um mês depois, este tema, tal como o também já nosso conhecido "Younger Us", integrará Celebration Rock, o segundo álbum dos Japandroids. No alinhamento é também possível encontrar um tema intitulado "For The Love Of Ivy", que se presume seja uma versão dos The Gun Club, e outro intitulado "The Nights Of Wine And Roses", este demonstrativo da apetência da dupla para os trocadilhos com títulos de canções alheias. Celebre-se, então:


"The House That Heaven Built" [Polyvinyl, 2012]

De peito aberto
















Os escassos contactos que tive no passado com a música dos The Men não me deixaram particularmente entusiasmado. Ao longo de dois álbuns, este jovem colectivo de Brooklyn alinhava por uma ortodoxia hardcore que, embora estivesse em contra-corrente com muito sub-produto daquelas paragens que tem sido inexplicavelmente elevado aos píncaros, não trazia nada de novo a um "género" que não prima propriamente pela introdução de novas ideias. Posto isto, não me senti especialmente tentado a acorrer à recente passagem do quarteto pela capital deste rectângulo.

Agora, ouvido com razoável insistência o novíssimo terceiro álbum, não poderia estar mais arrependido pela minha ausência nesta ocasião única. É que, não rompendo em definitivo com o passado recente da banda, Open Your Heart é do que de melhor se ouviu ultimamente no que ao rock mais abrasivo diz respeito. Fazendo jus ao título, é também o disco mais "humano" e acessível da carreira dos The Men. Não se confunda, porém, acessibilidade com concessão, pois as guitarras continuam a soar ríspidas e a adrenalina ainda é um factor importante na música do quarteto. Pode até parecer paradoxo, mas numa boa metade dos temas, instrumentais ou quase, há até um incremento da complexidade, tanto ao nível das estruturas como da duração dos temas, inclusive com algumas pinceladas de psicadelismo. Estabelecendo uma analogia, poderemos dizer que os The Men estão neste momento num estádio evolutivo semelhante ao de algumas bandas da histórica SST Records, quando renegaram o hardcore que disseminaram em favor de sonoridades mais abrangentes e ambiciosas, o que gerou ondas de choque nos acólitos avessos à mudança. Para estes, os The Men ainda debitam berraria para dar e vender, em particular nos temas mais curtos e directos. Mas até aqui, há um sentido de melodia, vagamente buzzcockiano, que é de saudar.


"Open Your Heart" [Sacred Bones, 2012]

domingo, 25 de março de 2012

10 anos é muito tempo #33








COMET GAIN
Réalistes
[Kill Rock Stars, 2002]





Se hoje, e em particular nos states, o saudosismo da "era" C86 é uma realidade indesmentível, durante cerca de duas décadas o carregar da bandeira da "causa" coube quase em exclusivo aos londrinos Comet Gain. Colectivo de formação pouco estável, no qual o mentor David Feck tem sido o único membro constante, não assenta apenas nas limitações que a catalogação indie tout court poderia sugerir. Mais do que isso, os Comet Gain são uma espécie de mods retardados, com predilecção por uma data de sonoridades de outras eras, o que deixa adivinhar uma veia coleccionista. Garage, punk, northern soul, riot grrrl, jangle pop, são os mais evidentes ingredientes do cocktail de bom-gosto que costumam ser os seus discos.

Depois de uns bons dez anos a pregar aos peixes, a banda começou a fazer-se notar com maior determinação no circuito indie mais atento. A responsabilidade por esta subida de nível cabe por inteiro a Réalistes, o quarto álbum da discografia e o primeiro a integrar o guitarrista Jon Slade, com currículo nos saudosos Huggy Bear. Sem suprir em absoluto alguma rugosidade que caracteriza as suas edições, os Comet Gain apresentam-se aqui com o disco mais polido à data, o que deixa sobressair a pop festiva das canções. A dar o mote, a abertura faz-se com o petardo "garageiro" de "The Kids At The Club", orgia de teclados ébrios e guitarras em desalinho cujo título, eventualmente, relembra as festas da tal "brigada do anoraque" de meados de oitentas. A mesma que é descaradamente citada em "Why I Tried To Look So Bad", pop-punk em despique vocal de Feck e Rachel Evans com dose de ingenuidade semelhante à de uns Talulah Gosh. A co-vocalista rende ainda mais em solitário, como bem atestam "Carry On Living" e "Don't Fall In Love If You Want To Die In Piece", baladas lo-fi dignas de uma Lolita confrontada com as primeiras mágoas do foro afectivo. Se este par temas permitem respirar mais fundo, outros, como o festim de sopros soul de "Labour", ou o ritmo frenético de "My Defiance", não dão qual concessão à preguiça e convidam à dança desenfreada. Neste último saliente-se a prestação nas seis cordas de Jon Slade, uma mais-valia presente ao longo de todo o disco.

Uma palavra ainda para as "estrelas" externas aos Comet Gain convocadas para Réalistes. É o caso de Kathleen Hanna (Bikini Kill, Le Tigre), que liberta um travo de rebeldia feminina nos guinchos vocodorizados do punkóide  e ruidoso"Ripped-Up Suite". Já Alan McGee, uma espécie de alma-gémea de David Feck, está presente apenas em espírito na versão de "She Never Understood" (dos "seus" Biff Bang Pow!), executada com competência e reverência.


"Why I Try To Look So Bad"


"My Defiance"


"Don't Fall In Love If You Want To Die In Peace"

sexta-feira, 23 de março de 2012

Mixtape #16: (Under)Covers - Vol. 2


Depois do "sucesso" da primeira leva, o April Skies sente-se encorajado a arriscar um segundo tomo repleto de versões. Uma vez mais, a escolha recaiu sobretudo em temas que, no original, são relativamente conhecidos das massas e, na versão, são substancialmente diferentes desse original. Como sempre, a coisa é gratuita e está há distância de dois cliques. Basta seguir o link para o efeito:



01. THE FEELIES _ "Everybody's Got Something To Hide Except Me And My Monkey" (The Beatles)
02. SANDIE SHAW _ "Hand In Glove" (The Smiths)
03. THE LEMONHEADS _ "Different Drum" (The Stone Poneys)
04. THE PASTELS / TENNISCOATS _ "About You" (The Jesus and Mary Chain)
05. THE THERMALS _ "Ballad Of Big Nothing" (Elliott Smith)
06. RAINY DAY _ "I'll Keep It With Mine" (Nico)
07. BEACH HOUSE _ "Some Things Last A Long Time" (Daniel Johnston)
08. VERONICA FALLS _ "Thorn In My Side" (Eurythmics)
09. TEENAGE FANCLUB _ "Like A Virgin" (Madonna)
10. LOVE POSITIONS _ "Kiss" (Prince)
11. DUM DUM GIRLS _ "Baby Don't Go" (Sonny & Cher)
12. BLACK TAMBOURINE _ "I Wanna Be Your Boyfriend" (Ramones)
13. THE SUNDAYS _ "Wild Horses" (The Rolling Stones)
14. ROWLAND S. HOWARD _ "White Wedding" (Billy Idol)
15. PAUL QUINN & THE INDEPENDENT GROUP _ "Superstar" (Carpenters)
16. BRITISH SEA POWER _ "Tugboat" (Galaxie 500)

terça-feira, 20 de março de 2012

Pop-punk de malte


















Não sei de ainda se lembram dos Terry Malts, uma das "apostas" aqui do tasco há quase um ano e na qual, à data, se depositavam grandes esperanças no que à música puramente lúdica diz respeito. Na altura traziam o selo de qualidade da incontornável Slumberland Records com um par de pequenos formatos numa linha pop-punk foliona em tudo devedora dos Ramones. Com temas curtos e directos, questionava-se o que estes intrépidos californianos poderiam render em formato longo.

A resposta chegou recentemente, por via do álbum Killing Time que, num primeiro contacto, deixa claro que os Terry Malts se mantêm fiéis aos temas de curta duração: são 14 em escassos 33 minutos. A costela Ramones continua bem presente (cf. "Waiting Room"), mas a veia catchy de homólogos britânicos como Buzzcocks e The Undertones parece também ganhar terreno. A título de exemplo, oiçam-se "Where Is The Weekend?", "I Do", ou "I'm No Good For You", todos eles irremediavelmente pop de não mais que três acordes. Convém ainda referir que o trio vai também à origem das suas fontes, citando a cada esquina os Beach Boys, inclusive surripiados na parte final do regravado "I'm Neurotic". Por esta altura já deverão ter percebido que não há nos Terry Malts qualquer intenção de profundidade intelectual. Em Killing Time, e como se presume que aconteça em palco, o mote é a diversão, com letras inteligentemente traquinas, muita cerveja, e energia juvenil a rodos.

"I Do" [Slumberland, 2012]

segunda-feira, 19 de março de 2012

Mil imagens #28

Jane's Addiction - Londres, 1988
[Foto: Joe Dilworth]

Singles Bar #73








PRIMAL SCREAM
Loaded
[Creation, 1990]





Há muito, muito tempo, ainda era concedido às bandas tempo para "crescerem". Em muitos casos, começavam de forma imberbe, iam refinando as ideias e, quando valiam realmente a pena, lançavam o disco definitivo. Que o digam os Primal Scream, que se lançaram como um combo jangle-pop obcecado pelos Byrds e mais umas quantas lendas dos bons velhos sixties que não parecia ir a lado nenhum. Praticamente condenados a constar como nota de rodapé no livro indie-pop britânico da segunda metade de oitentas, um golpe de rins, com os ouvidos na dançante Madchester, catapultou-os para a estratosfera e, pelo caminho, moldou uma boa parte da música da década de 1990.

Para tal bastou a transfiguração de um tema dessa fase menor, uma daquelas baladas com as quais, de quando em vez, Bobby Gillespie deixa libertar o soul man interior. Quem não acredita, pode conferir a versão original de "I'm Losing More Than I'll Ever Have" no lado B da rodela. A parte de leão pelo mérito no volte-face da carreira dos Primal Scream tem de ir para Andrew Weatherall, responsável pela remistura, de tal forma radical que gerou um tema completamente novo. Do original, "Loaded" aproveita apenas resquícios: os sopros, partes da letra, partes do piano de Martin Duffy. O resto faz-se de uma significativa alteração rítmica, assente num loop hipnótico, coros gospel, e invectivas de Gillespie ao hedonismo. A dar o mote, logo no começo, o sample das palavras de Peter Fonda no filme The Wild Angels (e não Easy Rider, como erroneamente se diz por aí), de Roger Corman, confere um certo tom de transgressão. Para a celebração contribuem ainda samples avulsos das mais diversas proveniências. 

O sucesso da experiência havia de conhecer novos desenvolvimentos na ligação da banda com Weatherall, culminando no incontornável Screamadelica. Mais do que um álbum, este disco é uma colecção de singles, remisturas, e experiências várias, de uns Primal Scream que descobriram o poder libertário da dança sem deixar de lado o sentir rock. Independentemente disso, ninguém me irá desmentir se afirmar que o disco é banda sonora indissociável desses alvores de noventas em que o mais importante era to have a good time.