"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel

terça-feira, 29 de novembro de 2011

R.I.P.


KEN RUSSELL
[1927-2011]

Morreu no passado domingo, aos 84 anos de idade, o cineasta britânico Ken Russell. Com uma carreira iniciada na televisão na longínqua década de 1950, foi um experimentalista que não dispensava a controvérsia nos seus filmes, normalmente obcecados com a sexualidade e os ataques corrosivos à Igreja. Da sua filmografia destaca-se Women In Love (1969), obra premiada que se baseou no romance homónimo de D. H. Lawrence. 

Amante da música, Russell dedicou obras biográficas, num registo bastante livre, a compositores eruditos como Mahler, Debussy, Richard Strauss, Wagner, ou Liszt, todas elas com especial ênfase na tónica das fantasias sexuais. Já os seguidores de músicas de cariz mais popular, recorda-lo-ão como realizador de Tommy, a ópera-rock que marcou a ascenção megalómana dos The Who, adaptada pelo próprio juntamente com Pete Townshend a partir do álbum de 1969 com o mesmo título.

Trailer de Tommy [Columbia Pictures, 1975]

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Ao vivo #76














Clubbing Optimus @ Casa da Música - Porto, 19/11/2011

Antes demais, queria manifestar o meu desagrado pela escolha da Sala Suggia para os principais acontecimentos daquele que terá sido o Clubbing mais aliciante a que a Casa da Música pôde assistir. Somado ao desconforto de assistir aos concertos sentado, mesmo perante as sonoridades "delicadas" que vinham do palco, não apreciei a postura do staff, mais treinado para as "picuíces" associadas a actos de outro nível de erudição.

A abrir a noite, Lætitia Sadier não se mostrou tão eficaz como o tinha sido há mais de um ano e meio, quando se apresentou no "aquário" da ZdB. Bem pelo contrário, estas canções marcadas pela fragilidade acústica, tingidas ora de tropicalismo, ora de chanson, não resultam nas dimensões da sala, sendo muitas vezes motivo de bocejos na assistência. A própria acusou a tensão logo ao fim do primeiro tema, agradecendo ainda antes dos aplausos para, logo de seguida, manifestar um pouco simpático desagrado pelo ruído de algumas conversas. O "incidente" terá deixado marcas no resto da actuação, já que a desejada empatia entre artista e público não chegou a gerar-se. Diria mesmo que, da parte dela, ficou a impressão de que estava ali apenas para fazer um frete.

Contrariamente ao esperado, Lee Ranaldo não enveredou pelo experimentalismo improvisado que caracteriza boa parte do seu trabalho extra Sonic Youth. Vem, isso sim, igualmente apostado em seguir a toada acústica da antecessora. Ao longo do curto concerto muda constantemente de guitarra, envergando inclusive uma de fabricação portuguesa que qualquer um gostaria de ter em casa para lhe poder apreciar a beleza. Pouco dotado vocalmente, Ranaldo opta pelo seu habitual tom semi-declamado, desta feita discorrendo invectivas de cariz sócio-político, as quais faz questão de sublinhar nos declarações proferidas entre temas. Se esta foi uma amostra do álbum que aí vem, apraz-me registar a entrada de Ranaldo no clube da meia-idade da serenidade acústica ao qual já pertencem os velhos companheiros Thurston Moore e J Mascis.

Após um intervalo inesperadamente curto quando comparado com o anterior, Dean Wareham chegou disposto a honrar o legado dos geniais Galaxie 500, algo que, com o passar do tempo, parece vir a ganhar uma aura quase mítica. Recuperando o formato daquela banda, apresenta-se à frente de um trio, no qual pontifica a companheira Britta Phillips, senhora que não passa despercebida a qualquer humano, qualquer que seja o seu género. Os desprevenidos com a "partida" pregada pela organização já não puderam assistir ao espectral "Snowstorm", talvez interpretado ainda em registo de aquecimento. Daqui, e encontrada a equalização adequada, arrancou-se para um desfilar de verdadeiros hinos para geeks militantes do indie-pop/rock."When Will You Come Home", "Sorry", "Blue Thunder", o seminal e inocente "Tugboat", e as versões de "Ceremony" (Joy Division/New Order) e "Don't Let Our Youth Go To Waste" (Jonathan Richman) foram alguns dos pontos altos, mas nenhum ao nível do original de Yoko Ono "Listen The Snow Is Falling", interpretado por Britta com uma candura que contrasta com a frieza da versão imortalizada em disco na voz de Naomi Yang. Pelo alinhamento, é fácil perceber que, quando o trio abandonou o palco, a reacção da plateia, saciada, tenha sido efusiva. Regressaram pouco depois para a consagração absoluta com o delicioso "Fourth Of July" seguido de mais uma ovação ruidosa. De mais uma noite de estado de graça, tenho a dizer-vos que, quando à genialidade da música, da mais marcante no percurso deste que vos escreve, se soma a companhia de alguns dos melhores seres que habitam este planeta, só me ocorre um adjectivo: perfeito!

Ao vivo #75

















The Microphones @ O Meu Mercedes - Porto, 18/11/2011

Com uma noite de avanço relativamente à apresentação na Casa de Música como Mout Eerie, a mais recente encarnação, Phil Elverum compareceu na lendária casa tripeira na qualidade de The Microphones, o alter-ego que lhe granjeou um culto sólido nas hostes do lo-fi mais dadas à psicadelia. Munido de guitarra eléctrica, entrou em palco acompanhado de um teclista e de um percussionista, formação extremamente escassa para os ouvidos menos treinados para sonoridades diminuídas do elemento rítmico de um baixo.

Embora a ocasião tenha servido essencialmente para a confraternização com o grupo de bons amigos da Cidade Invicta, a insuficiente atenção dedicada ao concerto permitiu aferir da quão tocantes podem ser as canções de Elverum, cruas, negras e de uma autenticidade desarmante. Aos sons esquálidos dos instrumentos sobrepõe-se a voz, não especialmente moldável mas com uma sinceridade só ao alcance dos cantores/compositores que fazem da música um acto de pureza. Contrastando com a gravidade das temáticas abordadas, por vezes a roçar o asfixiante, Elverum mostra-se de uma simpatia a toda a prova, dirigindo-se amiúde ao público com sinceras palavras de agradecimeto por tão intensa devoção.

Antes e depois do prato principal da noite, o palco foi reservado às sonoridades electrónicas com dois projectos dos quais não retive o nome. O primeiro move-se nos meandros do dark-ambient a puxar ao abstraccionista, o segundo é uma aproximação algo decorativa ao drum'n'bass. Embora ambos não consigam escapar à adjectivação de genérico, reconhece-se no primeiro acto algumas boas ideias a merecer desenvolvimento.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Magia branca














Aos poucos, vai ficando na ordem do dia a recuperação das sonoridades de noventas - aquela década tão mal tratada mas que, sobretudo, na sua primeira metade, produziu música em quantidade e qualidade suficientes para marcar irremediavelmente a vida deste que vos escreve. Para não estender o rol de exemplos, e falar apenas de dois casos paradigmáticos, posso referir-vos os nomes dos Japandroids e dos Yuck, bandas já com forte afirmação no espectro indie-rock actual. Dessa tendência revisionista do mesmo período da história rock, descobri recentemente os Witches, banda com origens em Athens, na Geórgia, a mesma terra que produziu lendas como R.E.M. e The B-52's.

Embora só contem com um elemento do belo sexo -  a vocalista/guitarrista Cara Beth Satalino - os Witches apresentam-se como dignos sucessores do rock "feminino" de inícios de noventas. Pelo menos é essa a sensação que emana da escuta de Forever, o primeiro álbum lançado ainda no decorrer do primeiro semestre deste ano, que se pode descrever como um possível cruzamento de Throwing Muses e Sleater-Kinney com The Breeders a espreitar à esquina. Ou seja, ponto de confluência de uma sensibilidade pop com uma atitude punky, a primeira manifestada no pendor melódico da dezena de temas, a última nalguma rugosidade das guitarras e no ligeiro incómodo que se sente na voz de Cara, a estrela da companhia com um timbre maleável que sabe dosear a melancolia, a ternura, e a raiva em quantidades adequadas. E não é que o disquinho (34 minutos apenas), ultrapassado o impacto inicial das semelhanças entre temas,  se revela danado de bom!... Tão bom que, depois da "descoberta" há coisa de um mês, a ele regressei na última semana e ainda não o consegui largar, com a agravante de a duração do dito se propiciar às 3/4 audições diárias...


"Creature Of Nature" [Bakery Outlet, 2011]

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Mixtape #14 - (Under)covers


[Foto: Man Ray, 1928]

A temática das versões e reinterpretações assume especial papel neste pasquim, ao ponto de a elas haver um rubrica regular especificamente dedicada. Nesta lógica de importância, para a compilação de hoje proponho-vos um conjunto de dezoito temas interpretados por outrém, que não os intérpretes originais. O único critério de escolha foi o facto de todos os originais serem relativamente conhecidos. Algumas mais fiéis ao original, outras verdadeiramente radicais, algumas expectáveis, outras completamente inesperadas. Caso o alinhamento vos desperte a curiosidade, façam o favor de dispor no link indicado.



01. BLACK TAMBOURINE _ "Dream Baby Dream" (Suicide)
02. CODEINE VELVET CLUB _ "I Am The Resurrection" (The Stone Roses)
03. THE POLYPHONIC SPREE _ "Love My Way" (The Psychedelic Furs)
04. THE WONDERMINTS _ "Arnold Layne" (Pink Floyd)
05. BEACHWOOD SPARKS _ "By Your Side" (Sade)
06. WIDOWSPEAK _ "Wicked Game" (Chris Isaak)
07. JOHN AUER _ "Beautiful Stranger" (Madonna)
08. THE TRIFFIDS _ "Rent" (Pet Shop Boys)
09. PAUL QUINN & EDWYN COLLINS _ "Pale Blue Eyes" (The Velvet Underground)
10. SAINT ETIENNE _ "Only Love Can Break Your Heart" (Neil Young)
11. LES DEMONIAQUES _ "Teenage Lust" (The Jesus and Mary Chain)
12. TASHAKI MIYAKI _ "All I Have To Do Is Dream (The Everly Brothers)
13. TH' FAITH HEALERS _ "S.O.S" (ABBA)
14. FLYING SAUCER ATTACK _ "The Drowners" (Suede)
15. LUNA _ "Bonnie And Clyde" (Serge Gainsbourg & Brigitte Bardot)
16. THE WEDDING PRESENT _ "Falling" (Julee Cruise)
17. SLOWDIVE _ "Some Velvet Morning" (Lee Hazlewood & Nancy Sinatra)
18. JAPANCAKES _ "Only Shallow" (My Bloody Valentine)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

First Exposure #38













MILK MUSIC

Formação: Alex Coxen (voz, gtr); Charles Warrinf (gtr); Dave Harris (bx); Joe Rutter (btr)
Origem: Olympia, Washington [US]
Género(s): Indie-Rock, Noise-Rock, Post-Hardcore, Stoner-Rock
Influências / Referências: The Replacements, Dinosaur Jr, Hüsker Dü, Volcano Suns, Nirvana, Mudhoney, Japandroids

"Fertile Ground" [edição de autor, 2010]

Ao vivo #74
















Pink Mountaintops + Asimov @ Galeria Zé dos Bois, 12/11/2011

Pelo trabalho desenvolvido de há uns anos a esta parte, tanto nos Black Mountain como nos Pink Mountaintops, Stephen McBean tem já lugar cativo no cenário da música canadiana da última década. Se nos primeiros recupera alguns delírios stoner-rock, no projecto pessoal e paralelo olha igualmente para o passado, concretamente para a facção mais transgressora da história rock que vai dos Velvet Underground aos Spacemen 3, dos Pink Floyd aos Suicide. À excepção destes últimos (ainda assim com "sentir europeu"), todas as referências são inglesas, contudo, McBean faz questão de "americanizar" o todo por meio do seu timbre nasalado.

Para o concerto do passado sábado, no qual se apresentou à guitarra, acompanhado apenas de um teclista, o menu consiste na revisitação dos três álbuns do reportório, com os temas devidamente contextualizados para este formato de banda reduzida. Na transfiguração a que se assiste em palco, o companheiro das teclas desempenha especial papel ao sustentar a estrutura de cada tema, deixando para o protagonista a tarefa de impregnar a sala da ZdB com pequenos trechos de cariz narcótico. O som é preparado a rigor com bastante eco, essencial para a criação de uma atmosfera de delírio. Inicialmente num volume demasiado baixo, só com decorrer do espectáculo se encontra a equalização óptima para a envolvência pretendida. Em regime relaxado, talvez até com alguma carência de dinamismo, McBean confirma algo do qual já se desconfiava: como poucos músicos contemporâneos sabe conjugar as diferentes linhas com que se cose a história pop/rock das últimas cinco décadas, sem que o resultado final soe a algo de pessoal e não meramente derivativo. 

Os primeiros sons da noite ficaram a cargo dos portugueses Asimov, dupla nascida das cinzas de uns tais Brainwashed by Amalia (sérios candidatos ao título de pior nome de banda de sempre da música moderna nacional). Depois de se apresentarem com nome de escritor de ficção-científica, os primeiros acordes deixam claro que se poderiam ter apresentado como Wolfmother que ninguém daria pela diferença. Como já terão percebido, estamos perante mais um projecto rendido a essa estranha tendência para o rock mais primitivo e "azeiteiro" de setentas. Reacção às tentações punky e arty de outros? Quer-me parecer que sim. A meio do segundo tema, ruma-se ao exterior numa entrega aos prazeres tabagistas que amenizam a tortura que soa em fundo.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Mil imagens #24


Broadcast - Londres, 1996
[Foto: Joe Dilworth]

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Quinta edição














Ainda os Buzzcocks davam os primeiros passos e já Howard Devoto, membro fundador, abandonava o barco, num gesto que poderá ser visto como genuinamente imbuído do espírito punk. Logo em seguida fundava os Magazine, uma entidade distinta que aspirava a níveis mais intelectualizados da expressão rock. Por mérito próprio, e juntamente com bandas como PiL, Gang of Four, ou Wire, estiveram na primeira linha do chamado post-punk britânico, ainda numa altura que o sucesso comercial não estava vedado à obliquidade musical. Até à extinção, em 1981, os Magazine tiveram intensa actividade, deixando para a posteridade quatro álbuns, três deles autênticos clássicos da época.

Embarcando na onda de reuniões que parece não deixar ninguém indiferente, os Magazine regressaram ao activo em 2009, inicialmente com o propósito único de tocar ao vivo, iniciativa que, segundo consta, teve forte adesão popular e aceitação crítica. A formação envolvida era a mais aproximada do line-up "clássico", com o guitarrista John McGeoch, desaparecido em 2004, a ser substituído por Noko, companheiro de Devoto nos posteriores Luxuria. De então para cá, também o baixista Barry Adamson, provavelmente ocupado com a trabalho em nome próprio, foi substituído por um tal de Jon White. Portanto, aquele já não participou nas gravações do novíssimo e "inesperado" No Thyself, o quinto álbum, editado precisamente trinta anos depois do último.

A falange familiarizada com a sonoridade típica dos Magazine não estranhará o novo disco, uma vez mais assente nas texturas irrepreensíveis e quase liquifeitas dos sintetizadores de Dave Formula. A principal diferença com os bons velhos tempos reside nas partes de guitarra, com Noko a enveredar por riffs com um balanço assumidamente funky, por oposição à angularidade muito peculiar do seu lendário antecessor. Também os maneirismos vocais de Devoto, entre o declamado e o cantado, entre o arrogante e o cáustico, são mais ostensivos que nunca. São os mesmos tiques que causaram forte impacto noutros vocalistas ingleses que fazem da crónica de costumes modo de vida, tais como Lawrence e Jarvis Cocker. À falta de novidades de maior para os versados na matéria, posso assegurar aos neófitos que No Thyself tem ainda obtusidade suficiente para dar e vender às novas gerações art-rock. Façam o favor de conferir na amostra infra, na qual não se discerne ao certo se as referências a dois dos mais idolatrados mártires rock é vénia ou ironia. É a ambiguidade devotiana em todo o seu esplendor...


"Hello Mister Curtis (With Apologies)" [Wire-Sound, 2011]

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ao vivo #73
















Max Richter @ Teatro Maria Matos, 05/11/2011

Nome geralmente associado a esse rótulo vago que é a neo-clássica, Max Richter é daqueles que não enjeita a oportunidade de imiscuir a electrónica com a ortodoxia normalmente associada às correntes musicais em que se movimenta. É também useiro e vezeiro no mercado das bandas sonoras, factor que, por si só, terá determinado a afluência de público em número suficiente para lotar o anfiteatro do Maria Matos. O músico e compositor, nascido na Alemanha mas de nacionalidade britânica, apresenta-se em palco munido de piano e laptop, este gerador de interferências electrónicas. A acompanhá-lo, um quinteto de cordas: dois violinos, uma viola de arco, e dois violoncelos. 

A primeira parte do concerto (ou o concerto propriamente dito) é reservada à execução de Infra (2010), último trabalho da chamada discografia não-concessionada. Como o próprio título indica, esta é uma obra de elementos minúsculos, quer na duração dos diferentes "andamentos", quer nos pormenores que se revelam sob o manto da melancolia. Precisamente pela curta duração dos trechos, a envolvência não é equiparável à da experiência da audição em disco, pois em palco deixam a sensação de não fluir o suficiente para enlear o espectador. Só perto do final, com o crescendo da tensão, se dá o clique que faz o público estremecer na pacatez entretanto instalada, e apenas abalada pelas imagens projectadas, inspiradas pela própria capa do disco e que remetem para a temática da solidão nas sociedades modernas. Se o propósito era o de "adormecer" o público para, por fim, lhe injectar ondas de choque, podemos dizer que Richter cumpriu os seus intentos. 

Seguindo um longo intervalo, a segunda parte do concerto é quase uma espécie de greatest hits. É nesta fase que são apresentados alguns trechos compostos propositadamente para filmes, tais como os celebrados Shutter Island (logo a abrir) e Valse Avec Bachir. Ao rigor formal da primeira parte, este "segundo acto" prima pela variedade, tanto de tonalidades, como de ambientes sensoriais, sacrificando, obviamente, alguma coesão. Para finalizar em ponto de rebuçado, o magistral "The Trees", do já distante The Blue Notebooks (2004), seria a escolha perfeita. Seria, porque toda a magia foi atraiçoada pelas medíocres condições sonoras, uma constante ao longo de todo o espectáculo e agravadas perto do encerramento. Porém, para a maioria do público, esta foi apenas uma questão de pormenor que não impediu a ovação final.

Ao vivo #72











The Antlers @ Lux Frágil, 03/11/2011

Cruzei-me pela primeira vez com os nova-iorquinos The Antlers à coisa de ano e meio. Na altura, traziam na bagagem o críptico Hospice, disco pelo qual nutria tal entusiasmo que o encontro se revelou uma desilusão, não só pela deficiente transposição para palco imputável à banda, como também pelas sofríveis condições sonoras do concerto. Para o acto da passada quinta-feira, uma espécie de prova dos nove pela minha parte, traziam o recente Burst Apart, registo apenas mediano que, embora alinhando pela melancolia, dissipa muito do negrume do antecessor.

Antes de mais delongas, gostaria de pronunciar que os Antlers falharam no teste, mesmo em condições técnicas satisfatórias para os parâmetros Luxianos. Uma vez mais, a música parece ganhar uma nova identidade, um clima bem diverso do propiciado pelos discos. Nestes, as omnipresentes electrónicas são a cola que liga, com alguma discrição, a estrutura de cada canção. Já em palco, embora menos presentes, soam mais ostensivas, rudes, quase intrusivas. À falta do envolvimento e do recato que caracteriza a obra gravada, o líder Peter Silberman exibe toda a sua gama de tiques vocais, por vezes a aproximar-se demasiado dos territórios de Bon Iver. O truque, repetido ad nauseum, a roçar o exibicioismo, parece não esmorecer a histeria da fileira emo situada mesmo à minha frente.

Em abono do trio (alargado a quarteto quando em palco), podemos até dizer que foi um concerto competente e esforçado na simpatia nervosa (com franqueza, há um certo tipo de humor americano que eu não atinjo...). No entanto, a sensação com que saio da cerca de hora e meia de função, é que a performance carece de dinamismo, como se as canções fossem despejadas, umas a seguir as outras, sem que se vislumbre a naturalidade que faz de um concerto um acto uno. Perdoem-me os entusiastas (e houve muitos a manifestar-se com convicção), mas com The Antlers há duas sem três...

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O jogo das diferenças #1


BIG BLACK
Songs About Fucking
[Touch and Go, 1987]



KID606
Songs About Fucking Steve Albini
[Important, 2010]

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A decadência em tons de negro














Um pouco à semelhança de muitos confrades da actual "cena" californiana, Luis Vasquez sofre de hiper-actividade. À parte o envolvimento nos mui recomendáveis e psicadélicos Lumerians, fez nome como The Soft Moon, projecto assumidamente solitário que só em palco se alarga a trio. Foi sob esta designação que, recta final do ano transacto, deu à estampa um excelente álbum homónimo, plenamente imerso nas facções mais minimalistas e soturnas do post-punk. Com algumas afinidades com a nação gótica, The Soft Moon mereceu comparações com Joy Division, Bauhaus, ou The Sisters of Mercy. Porém, embora estejam lá, as referências não traduzem por si só a singularidade da proposta de Vasquez.

Desenvolvimento natural daquela obra, o novo Total Decay rende-se a um certo abstraccionismo que anula os resquícios de canção que ainda afloravam no antecessor. Igualmente envolto num espesso negrume que deixa transparcer o isolamento do acto criativo, este EP de quatro temas sabe esquivar-se à previsibilidade das "novas" sonoridades coldwave, supostamente na ordem do dia. Uma vez mais original na abordagem, tem um certo travo  "industrial", lembrando em "Repetition" a frieza mecânica dos Cabaret Voltaire, e em "Alive" as desconstruções de uns já distantes Nine Inch Nails, ainda do tempo em que estes tinham alguma relevância. Em ritmo lento de marcha fúnebre, o tema-título é, apesar da maior presença do elemento humano, uma porta de entrada num mundo gélido e obscurecido. De mais difícil digestão no imediato que o álbum de estreia, Total Decay consegue, contudo, repetir os ambientes envolventes daquele. 

"Total Decay" [Captured Tracks, 2011]

Singles Bar #69








MY BLOODY VALENTINE
Sunny Sundae Smile
[Lazy, 1987]




Já o disse algures, dando eco à teoria mais ou menos vigente, que o ponto de viragem dos My Bloody Valentine, de mera nota-de-rodapé indie a referência incontornável, se deu com a entrada para a formação de Bilinda Butcher. Hoje corrijo (parcialmente) a mão para salientar aquele que foi o último registo da banda antes da chegada da referida vocalista/guitarrista, também o último antes da estabilização na Creation Records depois de um período de mudança constante de editora.

Quando Sunny Sundae Smile foi lançado, ainda um tal de David Conway militava nos MBV, ocupando unicamente as funções de vocalista. É ele que dá a voz ao tema-título, de forma sobejamente mais ostensiva do que os murmúrios envoltos em ruído dos lançamentos posteriores. No entanto, "Sunny Sundae Smile" tem já presente muitas das marcas identitárias dos MBV a breve trecho, como sejam as guitarras generosamente distorcidas a libertar faíscas e um inapelável sentido de harmonia pop. Já no lado B "Paint A Rainbow" é Kevin Shields quem toma conta do microfone. Não diferindo substancialmente em teor de açúcar do tema-título, superando-o até pela incorporação da segunda voz feminina, é ligeiramente mais rugoso na estrutura e na textura. Diria até que descende directamente da vaga jangle pop dinamitada pela C86, mas já tentando fazer a ponte com as sonoridades dos gloriosos tempos indie de finais de oitentas e inícios de noventas.


"Sunny Sundae Smile"


"Paint A Rainbow"

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ao vivo #71













Bardo Pond + Margarida Garcia & Marcia Bassett @ Galeria Zé dos Bois, 29/10/2011

Com duas décadas no activo, os Bardo Pond são uma verdadeira instituição do psicadelismo e linguagens musicais limítrofes, posto de refúgio para os muitos órfãos dos simbólicos Spacemen 3. Não é de espantar que, com tal estatuto, seja calorosa e numerosa a recepção para a primeira aterragem em solo luso. Tal como muitas outras bandas do mesmo raio de acção, têm recentemente vindo a injectar a sua música de um maior abstraccionismo (sobretudo na obra "paralela" à discografia "oficial"), o que poderia fazer temer por um concerto próximo do registo jam, que normalmente dá mais prazer a que executa do que a quem assiste. Pela parte que me toca, congratulo-me que o combo de Filadélfia tenha apresentado um alinhamento assente no seu reportório convencional (se é que se pode falar em convenções quando se trata dos Bardo Pond), que percorre os vinte anos que levam ao serviço da facção mais intuitiva do rock

Quem acorreu à ZdB no passado sábado foi bafejado por um conjunto de temas mergulhados em narcóticos, banhado num mar de distorção e ruído branco, encantado pela voz de fada ancestral da musa Isobel Sollenberger, ela que também recorre à flauta para nos guiar por estranhos mundos de fantasia. Ao longo de todo o concerto a banda, aparentemente desterrada da São Francisco ácida de há quarenta e tal anos, esteve irrepreensível, certeira e coesa nas descargas sónicas de riffs arrastados. Igualmente em bom nível, a voz de Isobel não deu qualquer sinal de desafinação, isto apesar de, nas vezes que se dirigiu com ternura ao público, se mostrar algo entorpecida por substâncias de composição desconhecida.

A abrir a noite, a portuguesa Margarida Garcia (contrabaixo) e a norte-americana Marcia Bassett (programações) apresentaram uma amostra de The Well, disco de parceria do ano passado. Referência do experimentalismo nacional a primeira, figura do noise enquanto integrante dos Double Leopards a última, dão em conjunto um recital noisy do mais profundo negrume, algo genérico mas suficientemente envolvente. Perto do final da noite, a dupla ainda se juntou em palco aos cabeças de cartaz para um número de catarse colectiva pela via da deriva sónica.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Good cover versions #59













TASHAKI MIYAKI _ "All I Have To Do Is Dream" [The Sounds of Sweet Nothing, 2011]
[Original: The Everly Brothers (1958)]



Recuando ao primórdios da história do rock'n'roll, muitos são os hits dos quais se torna difícil saber ao certo a autoria original, tal o número de versões gravadas dos mesmos, quer por iniciativa dos próprios songwriters, quer de intérpretes autónomos. Nessa categoria talvez não inclua, apesar da incontáveis versões de que foi alvo, "All I Have To Do Is Dream", para sempre lembrada na interpretação intemporal e imaculada dos Everly Brothers, invariavelmente a usada pela indústria de Hollywood independentemente da acção da película em causa se passar na segunda metade de cinquentas ou na primeira de sessentas. Esta é uma daquelas canções inscrita na facção mais atinhadinha do rock, a tal que privilegiava a harmonia em detrimento da fisicalidade. Juntamente com outras da mesma igualha, teve certamente forte impacto nas congeminações desenvolvidas por um tal Phil Spector poucos anos mais tarde.

Uma das versões mais recentes de "All I Have To Do Is Dream", senão a mais recente, pertence aos Tashaki Myiaki, uma dupla iniciada de Los Angeles que ainda faz questão de manter uma certa aura de mistério, a qual tive a honra de vos "apresentar" há poucos dias. Sem desrespeitar a melancolia sonhadora do original, não se pode dizer que seja a mais fiel das versões, pois as preocupações com a fidelidade áudio são diminutas. Curiosamente, os ecos e a voz juvenil falsamente inocente evocam as tais congeminações do tal Spector, que por acaso até era um perfeccionista do som. Inevitavelmente, a rugosidade da mesma evidencia parentescos próximos com a imensa descendência marychainiana, hoje, mais que nunca, na ordem do dia.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Peel slowly and... listen

















Faz hoje sete anos que John Peel sucumbiu a um ataque cardíaco, no momento em que se encontrava de férias no Peru. Embora não se trate de uma efeméride "redonda" merece ser assinalada, quanto mais não seja porque está associada ao radialista que, como nenhum outro, divulgou a música "independente". E também porque, neste sexto Peel Day, foram disponibilizados para audição on-line a totalidade dos temas constantes de todas as Festive Fifty's, as listas de fim de ano elaboradas segundo o gosto dos ouvintes, aqui e ali com o dedo do próprio Peel, desde 1976. Para vosso deleite, aqui. Caso arrisquem, vão deparar-se com um gosto ecléctico que se mantinha aquando da sua morte, aos 65 anos. Desde o psych-folk dos anos formativos, ao indie-pop do qual haveria de se tornar uma espécie de patrono, passando pela electrónica mais obtusa ou o metal mais extremo, Peel privilegiava, essencialmente, a diferença e a novidade, transgredindo o gosto formatado. A título ilustrativo, deixo-vos aquela que ficou, para sempre, lembrada como a sua pet song entre os milhares que terá escutado:

The Undertones _ "Teenage Kicks" [Good Vibrations, 1978]

Ao vivo #70
















Bonnie 'Prince' Billy @ Teatro Maria Matos, 24/10/2011

Em qualquer uma das suas encarnações, Will Oldham é há muito um valor seguro junto de um nicho específico de público. Os discos como Bonnie 'Prince' Billy, o seu eu mais produtivo, sucedem-se com frequência assinalável, e ainda que sejam progressivamente ouvidos por menos gente (falo por mim e por mais uns quantos, obviamente), cada nova vinda ao rectângulo acontece em salas progressivamente maiores. Não é de espantar pois que, há várias semanas, o espectáculo do Maria Matos estivesse esgotado.

A escolha do cenário para o concerto de ontem não poderia ter sido mais feliz, pois além das excelentes condições de acústica, as dimensões apropriadas do palco permitem que Oldham e a sua banda, com o generoso número de cinco elementos, melhor possam explorar a musicalidade e a riqueza textural das canções, que muitas vezes não se adivinha na fragilidade das versões gravadas. Ao longo de mais de duas horas, incluindo os dois encores, percorre-se todo um vasto cancioneiro de década e meia de carreira. Na maioria dos casos, os temas surgem travestidos relativamente à sua gravação original, como se os músicos estivessem a presentear o público com uma versão única e irrepetível. Numa primeira fase, privilegiam-se temas mais ritmados, tingidos de uma country hillbilly que convida a bater o pé. Na fase intermédia, a introspecção abate-se sobre o palco como um manto negro. Apesar da duração da função, a voz de fácil trato de Oldham não dá qualquer sinal de fraqueza. Antes pelo contrário, mantém intacta uma assinalável expressividade que o próprio faz questão de sublinhar com os habituais gestos teatrais. A coadjuvá-lo, outras duas grandes vozes: Angel Olsen e Emmett Kelly. A dela é daquela beleza estranha muitas vezes associada à folk britânica, a dele mais genérica, mas compensada pela mestria nas funções de guitarrista, função essa que o consagra como uma das estrelas da noite.

Em clima de desanuviamento, a parte final do "tempo regulamentar" é de novo em tom de festa. É aqui que o mestre de cerimónia que o fato envergado por Oldham faz supor se liberta, dialogando com desenvoltura e algum humor nos intervalos das canções. Cabendo-me a mim decidir, terminaria o concerto por aqui, francamente em alta. Mas, como já atrás referi, houve regresso para duplo encore, o que além de ser causador de algum cansaço, parece-me não ter acrescentado nada de novo a um concerto previamente estruturado na alternância anteriormente descrita. Peço apenas que considerem este senão como pormenor de diminuta importância num dos melhores concertos a que Lisboa pôde assistir nos tempos mais recentes.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

10 anos é muito tempo #32








FUGAZI
The Argument
[Dischord, 2001]




Depois de um percurso impoluto de aproximadamente 15 anos, nos quais construíram uma base sólida de adeptos, assente tanto nas ideias sócio-políticas como postura absolutamente independente, os Fugazi silenciaram-se em 2001. Para desespero dessa horda de devotos, ainda hoje não é claro que a banda esteja apenas num longo hiato, ou que tenha efectivamente terminado. Sendo válida a última hipótese, arriscaria afirmar, sob pena de fatwa por parte dos adeptos da ira berrada dos primórdios, que se despediram, musicalmente falando,  com o mais coeso, ambicioso, e conseguido dos seus seis álbuns.

Efectivamente, The Argument é um passo firme e consciente rumo a uma maior complexidade que não conhece amarras estilísticas, com a banda a conter a urgência em favor de uma linguagem sobejamente mais melodiosa. Quando se penetra nas estruturas intrincadas de cada tema, é impossível não pensar nos compinchas Unwound, também por esta altura a experimentar com derivações quase proggy. Este é também o disco em que, mais do que a catalogação post-hardcore, o rótulo post-punk assenta melhor aos Fugazi. As evidências surgem avulsas na veia experimentalista dominante e, mais especificamente, nas contaminações da música jamaicana em "Cashout" e "Oh", no ritmo nervoso de "Life And Limb", e nas pausas abruptas que sublinham cada "stop!" de "Epic Problem", este reminiscente do groove marcial corroído pelo gume das guitarras de uns Gang of Four. A paleta de instrumentos alarga-se também para lá da trindade rock, com o violoncelo do breve intro de abertura, ou o piano subtil  que surge em "Strangelight". 

Apesar dos riscos corridos na operação estética, The Argument não só abriu os Fugazi a novos públicos, como foi capaz de preservar a fidelidade cega dos seguidores de longa data, estes que, certamente, cresceram com a própria banda. Em boa verdade, diga-se que, tanto em matéria de ideário de rejeição em relação à norma vigente, como em raiva destilada pelas vozes alternadas de Ian MacKaye e Guy Picciotto (o baixista Joe Lally dá também um ar da sua graça no óptimo "The Kill"), os adeptos mais antigos ficam, apesar da evidente contenção, bem servidos. Em termos de agressão pura, não podíamos ainda deixar de referir o assalto sónico da dupla bateria e das guitarras contundentes de "Ex-Spectator".


"Epic Problem"


"Life And Limb"


"Ex-Spectator"

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A oriente, algo de novo














Quem aqui vem já há algum tempo e com alguma frequência sabe da minha devoção pela Stolen Recordings, uma pequena editora independente que nos faz crer na mudança do estado de coisas da actual música britânica. Do lote de excelentes bandas que já nos revelou, gostaria de destacar Pete & The Pirates (e os "derivados" Tap Tap), Let's Wrestle e My Sad Captains. Talvez menos conhecidos da generalidade, estes últimos são autores de um disquinho algo acima de simpático que me abrilhantou parte do Verão de há dois anos. Chamava-se Here & Everywhere e não se decidia entre o banho de sol e a melancolia, um pouco à semelhança do americana professado por gente como Sparklehorse e The Pernice Brothers. Contudo, tinha um intenso travo da pop campestre que não poderia ter outra origem que não fosse as ilhas britânicas.

Com a mesma discrição com que se estreou, a banda londrina prepara-se para lançar o seu segundo álbum. Leva o título, quase panfletário, Fight Less, Win More e conhecerá edição ao fim da primeira semana de Novembro. Infelizmente, as fotos promocionais mais recentes já não contam com a teclista Cathy Lucas, ela que, com os seus coros ameninados, era a responsável por uma boa parte da dose de sacarina do anterior registo. No entanto, e a julgar pela primeira amostra, parece-me não haver razões para temer pela preservação da pop hiper-harmoniosa dos My Sad Captains. Antes pelo contrário, julgo que, apesar das previsões de interrupção, este nosso Verão interminável pode regressar por alturas do São Martinho.

"Orienteers" [Stolen Recordings, 2011]