"Please don't think of us as an 'indie band' as it was never meant to be a genre, and anyway we are far too outward looking for that sad tag." - Stephen Pastel

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Singles Bar #67









NO AGE
Eraser
[Sub Pop, 2008]




Em tempos recentes, não haverá rótulo aplicado no meio musical mais insólito do que o chamado shitgaze. Para quem não sabe, esta caracterização é normalmente aplicada à vaga de bandas surgidas no final da década pasada, essencialmente no Ohio e na Califórnia mas com disseminação por toda a América do Norte, a operar na confluência do lo-fi com o noise. Catalogação vaga, sugere alheamento e desleixe, algo de redutor para bandas como os No Age, dupla de Los Angeles muitas vezes apontada como os padrinhos do "género". Redutor porque, na sua fórmula musical, embora rugosa e aparentemente inacabada, pressente-se risco e ambições de experimentação.

Os mais atentos já os tinham detectado com os primeiros discos em pequeno formato (reunidos na compilação Weirdo Rippers). Desde logo se anteviu neles um banda para provocar impaciência por cada novo lançamento, algo caído em desuso desde a primeira metade de noventas, no tempo em que o mundo indie oferecia uma boa mão cheia propostas interessantes a cada semana. Estava assim criado o quadro de expectativas em alta para Nouns, o primeiro álbum propriamente dito. Tanto mais que, a antecedê-lo, o 7" Eraser apresentava uns No Age incrivelmente evoluídos na sua sonoridade. Rigoroso na economia de tempo, o single oferece um total de quatro temas em pouco mais que oito minutos. De todos, é imperativo destacar o tema-título (o único incluído no álbum), verdadeira reactualização da urgência dos primeiros contactos com os Nirvana para os sons mais difusos do presente. Dividido em duas partes de durações semelhantes, tem na secção introdutória um mantra de guitarra circular que poderia, por hipótese, ter resultado das últimas experiências sonoras conhecidas dos My Bloody Valentine, se estes não tivessem enterrado definitivamente o passado jangly. Coincidindo com a entrada em cena da voz de Dean Spunt, a guitarra de Randy Randall enfurece-se e sob de tom. Embora as palavras sejam praticamente imperceptíveis, na forma acusatória com que são proferidas, deixam imaginar uma descarga de ennui juvenil acumulado. Um grito de revolta abafado e perturbado pela "imperfeição" de uma omnipresente pandeireta percutida com desdém.

Para o lado B, e um pouco à semelhança dos citados Nirvana, os No Age reservam o tributo aos seus heróis mais obscuros, sob a forma de três versões de originais que vão do power-pop ao punk mais primevo. As bandas contempladas são gente como The Nerves, Urinals e um tal de Nate Denver's Neck. Mais não são do que versões informais, provavelmente captadas num único take. Meros esboços de canções que podem ir da descarga punky ao puro abstraccionismo sónico que têm como único propósito aguçar a curiosidade do ouvinte.


terça-feira, 30 de agosto de 2011

First Exposure #35














FANZINE

Formação: Jock (voz, gtr); Ed (gtr); Kit (bx); Billy (btr)
Origem: Londres, Inglaterra [UK]
Género(s): Indie-Pop, Noise-Pop, Slacker-Rock
Influências / Referências: Yuck, Dinosaur Jr., Teenage Fanclub, Archers of Loaf, Graham Coxon, Weezer

http://www.myspace.com/fanzinetheband

"Rocket Fuel" [Transparent, 2011]

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Good cover versions #57












THE RAINCOATS _ "Lola" [Rough Trade, 1979]
[Original: The Kinks (1970]



Em toda a história da música popular não haverá, certamente, banda que melhor exprima a englishness que os Kinks. Nas suas canções está bem patente o saudosismo de Ray Davies, o vocalista e dandy incorrigível por uma Inglaterra que, na visão do próprio, se desintegrou. Neste contexto, "Lola", por sinal um dos seus temas mais populares, é corpo estranho. É uma canção assumidamente cómica, que conta detalhadamente o encontro e consequente envolvimento de um jovem, presumivelmente pacóvio, com um travesti. Pela letra, subentende-se que o nosso protagonista, verde em matéria de relações amorosas, é desconhecedor do verdadeiro sexo da sua "amada", a tal Lola do título. No campo musical, é também uma canção de importância significativa, muito por culpa do riff do guitarrista Dave Davies, provavelmente dos mais emblemáticos da história do rock, e que assinala o início da deriva dos Kinks rumo a uma sonoridade mais árida.

Atendendo a tal temática, "Lola" assenta como uma luva no reportório das Raincoats, talvez a banda feminina mais desafiadora em matéria de "questões do género" surgidas no Reino Unido post-punk, facção que engloba ainda The Slits, Delta 5, ou Au Pairs. Na sua formação de sempre contam com Gina Birch e a portuguesa emigrada Ana da Silva, ambas com papel fulcral e activista na afirmação do papel da mulher no rock. Com uma pop fracturada, e deliberadamente amadora, por oposição ao virtuosismo do original, fazem desta uma versão estranha, autenticamente desconstruída na cadência atípica dos ritmos. Nas entrelinhas, ainda que mais dissimulada que na música das suas comadres, as Raincoats deixam entrever alguma influência da música jamaicana, algo muito em voga à data, desde que John Lydon e os seus PiL confessaram a adoração pelo reggae e pelo dub. Como curiosidade refira-se que esta interpretação das Raincoats aproveita a letra da versão single dos Kinks, na qual "cherry cola" substitui o "Coca-Cola" da versão do álbum, manobra fundamental ao airplay radiofónico atendendo ao veto da BBC relativamente às referências a marcas comerciais.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Prids in the name of ex-love















Mesmo nesta era em que tudo parece estar à distância de um clique há bandas que escapam à nossa sede de novidades. Ou melhor, nesta era de excesso de oferta, é compreensível que muita boa música se obscureça na escassez de tempo disponível para a ouvir. É neste contexto que "descubro", com considerável atraso esta banda chamada The Prids, norte-americanos de Portland, cidade com muita e boa oferta musical. É preciso dizer que já levam 15 anos de existência, muitos dos quis com a coabitação pacífica do ex-casal que os lidera: David Frederickson e Mistina La Fave. Consta também, embora pouco me interesse, que, no passado, revelavam alguma inclinação para as chamadas sonoridades "góticas".

O que realmente me interessa nos The Prids é o presente. Ou melhor, o passado recente. Mais concretamente Chronosynclastic, o álbum do ano passado (apenas o terceiro) que, apesar da densidade e de algum negrume em linha com algum post-punk da alvorada de oitentas, está longe de merecer tão triste catalogação como a supra citada. Contudo, a imediata impressão que fica da audição é que este um disco mais de acordo com o indie-rock americano de inícios da década de 1990, com guitarras desalinhadas e a urgência típica do post-hardcore que encontramos nos Fugazi e em certos períodos da vivência dos Sonic Youth. O que mais sobressai, porém, é a grandiosidade emotiva e a complexidade que caracterizam a maioria das canções, a remeter obrigatoriamente para os fantásticos Built to Spill. Na maioria dos casos, por entre a muralha sónica, a harmonia eclode do enlace das vozes masculina/feminina. Como na amostra infra, por exemplo.

"I'll Wait" [Velvet Blue Music, 2010]

terça-feira, 23 de agosto de 2011

R.I.P.

Na foto: Mike Stoller, Elvis Presley e Jerry Leiber - MGM Studios, 1957

JERRY LEIBER
[1933-2011]

Jerry Leiber, letrista e produtor norte-americano, incontornável na história dos primeiros passos da história pop/rock morreu ontem em Los Angeles. Tinha 78 anos.

O seu nome surge indissociado do de Mike Stoller, o compositor com o qual fez dupla na escrita de extenso rol de temas que são hoje autênticos standards da música popular. Da pena de ambos saíram temas como "Jailhouse Rock", "Stand By Me", "Searchin'", ou "Is That All There Is?", todos eles alvo de um infindável número de interpretações mas imortalizados nas versões "definitivas", respectivamente, de Elvis Presley, Ben E. King, The Coasters, e Peggy Lee. Juntos, foram também uma equipa de produtores extremamente inovadores no seu tempo, ao ponto de impressionarem um jovem de nome Phil Spector, a dada altura aprendiz das técnicas da dupla com os resultados que todos conhecem.

Ben E. King _ "Stand By Me" [Atco, 1960]

Peggy Lee _ "Is That All There Is?" [Capitol, 1969]

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Um V na fronte

















Já esperávamos por um disco assim desde que os Mazzy Star entraram em hibernação. Ou pelo menos desde a doce preguiça daquele segundo disco dos saudosos Beachwood Sparks. Ou ainda, na melhor das hipóteses, desde o último trabalho da menina Chan Marshall antes do aburguesamento (leia-se You Are Free, de 2003). São estas, e algumas mais, as referências dos Widowspeak, um trio com sede em Brooklyn, via Chicago, no qual ando verdadeiramente viciado. As similaridades são mais evidentes com os primeiros, muito por culpa da voz de Molly Hamilton, em tudo comparável à da estonteante Hope Sandoval, se bem que substancialmente mais arejada.

Mas nem só de comparações com os citados se faz Widowspesk, o álbum que acabam de dar à estampa e que é uma afirmação de personalidade, apesar do curto período de convivência musical do trio. Assente numa country-pop de cariz outonal, é contido na melancolia, deixando que uma brisa o percorra de fio a pavio. Portanto, as paisagens desoladas que a primeira referência poderia sugerir dissipam-se rapidamente após algumas audições. Para tal, desconfia-se, contribuirá a juventude dos músicos, também expressa no ligeiro travo surfy com que contaminam cada um dos dez temas, o que coloca os Widowspeak a par de algumas das mais interessantes manifestações pop da actualidade. A título ilustrativo deixo-vos os dois temas que compõem o primeiro single promocional. O tema principal, incluído no álbum, com uma voz em estado de graça, é bem representativo da veia melódica e da reverberação quase omnipresentes. O lado B, precisamente uma versão do tema mais popular de Chris Isaak, parece ter sido escrito de propósito para os Widowspeak.


"Gun Shy" [Captured Tracks, 2011]


"Wicked Game" [Captured Tracks, 2011]

Upa, upa!

















Daniel Blumberg é um rapaz ocupado. Esqueçamos o passado pouco edificante à frente de uns tais Cajun Dance Party, e lembremos que é ele o frontman dos mui recomendáveis Yuck, autores de um disco homónimo que é tão somente do melhor que a música pop pariu nos últimos anos. Não que seja um trabalho particularmente inventivo, pois tresanda às linguagens indie da alvorada de noventas, com óbvias filiações em bandas como Teenage Fanclub, Dinosaur Jr. e similares, mas impressionante na frescura e sinceridade que patenteia numa dúzia de canções prenhes de espírito juvenil. Tem sido alvo de intensa promoção, numa preenchidíssima agenda de concertos com a qual já fui em feliz contemplado.

Não obstante a azáfama que o quarteto que lidera implica, Blumberg ainda consegue arranjar tempo para os projectos pessoais. Sob a designação Oupa, e em regime solitário, acaba de lançar Forget, um pequeno álbum que exibe uma faceta que a música dos Yuck não deixa revelar. Os temas, em número de sete, estendem-se em durações um pouco além das convenções pop. Impera uma certa melancolia contemplativa, materializada em frágeis melodias de piano e teclados texturais. A voz, normalmente em falsetto suavizado, revela intimismo e introspecção. Lançado em auto-edição, Forget não é propriamente a oitava maravilha do mundo. Mas também é verdade que não deixa de ser algo mais que mera curiosidade, para admiradores dos Yuck e não só. As ambiências criadas estão em perfeita sintonia com estes dias de ar pesado e denso.

"Physical" [Boiled Egg, 2011]

sábado, 6 de agosto de 2011

Mixtape #12 - Metal Babies & Kitty Cats







Há muito, muito tempo, antes da experimentação dos discos das "fase crescida", os Beatles faziam canções assumidamente pop, que não pretendiam levar-se demasiado a sério. Anos mais tarde, na década de 1970, inspirados por essa inocência, e também pela de contemporâneos como The Kinks e The Who, um grupo de jovens músicos desenvolveu uma linguagem musical que captava esse espírito juvenil, abordando quase invariavelmente temas tão mundanos como festas, carros, ou miúdas. Ou seja, os princípios genuínos do rock'n'roll. Essa corrente extremamente melódica ficou conhecida como power-pop, e integrava bandas como Badfinger, The Nazz, Cheap Trick, Raspberries, ou os geniais Big Star. Nas três décadas seguintes, e até ao presente, embora mais esporadicamente, a descendência dos originais power-poppers tem-se feito ouvir, sobretudo nos Estados Unidos mas também um pouco por outros pontos do globo. É nesta segunda vaga que se centra a escolha dos dezasseis temas da compilação infra, com os ingredientes adequados às férias do April Skies que agora se iniciam. E pode também colorir as vossas, caso a reclamem no link indicado antes do alinhamento. Antes da despedida e do download, deixo um sério aviso: contém melodias guitarrísticas e coros grudantes em doses que podem ser contra-indicadas ao "urbano-depressivo" mais circunspecto. 




01. NADA SURF _ "Blankest Year" [2005]
02. MATTHEW SWEET _ "Girlfriend" [1991]
03. THE dB's _ "Neverland" [1982]
04. SUPERCHUNK _ "Crossed Wires" [2009]
05. WEEZER _ "Buddy Holly" [1994]
06. SMUDGE _ "Desmond" [1994]
07. THE LEMONHEADS _ "Confetti" [1992]
08. LET'S ACTIVE _ "Easy Does" [1984]
09. THE SMITHEREENS _ "Hand Of Glory" [1986]
10. TEENAGE FANCLUB _ "Metal Baby" [1991]
11. BANGLES _ "Going Down To Liverpool" [1985]
12. THE MICE _ "Bye Bye Kitty Cat" [1986]
13. SLOAN _ "G Turns To D" [1996]
14. SUPERDRAG _ "Destination Ursa Major" [1996]
15. THE POSIES _ "Golden Blunders" [1990]
16. VELVET CRUSH _ "Drive Me Down" [1991]

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Isto é uma história de produtividade que já tem barbas













Não deve ser fácil a vida dos seguidores mais acérrimos de Robert Pollard, tal o caudal de edições com que este os presenteia. Só desde que desmantelou os Guided by Voices, no final de 2004, e entre discos em nome próprio ou com os mais variados projectos, a coisa já ultrapassa largamente as duas dezenas. O melhor de tudo isto é que, pelo menos nos casos com que tomei contacto, a média qualitativa é consideravelmente alta.

Tal como julgo que não deverá ser fácil a vida dos restantes integrantes dos Boston Spaceships (o multi-instrumentista Chris Slusarenko e o baterista John Moen, este também dos The Decemberists), permanentemente confrontados com o fantasma de uma entidade como os GBV. Mas nada que pareça afectar a produtividade do trio pois, nos três anos que leva no activo, aquele que é talvez o mais visível dos projectos actuais de Pollard conta já cinco álbuns. O mais recente é Let It Beard, um duplo definido pelos próprios como "a subconscious concept album about the sorry state of rock and roll" (mais um, portanto!). 

Mas nada disto seria grande novidade se este não fosse um fulgurante trabalho, sem qualquer ponta de exagero, capaz de ombrear com os melhores discos da extensa obra dos GBV. E, como bónus, desta feita os 26 temas não se limitam a ser meros esboços, mas sim canções de corpo inteiro. Apesar da variedade estilística, não passam, como já habitual no seu autor, de extensões da profunda adoração de Pollard por bandas como The Who e The Beatles, ainda que soem como gravados ao primeiro take. Por fim, para desfazer o cepticismo daqueles que julgam o lo-fi como algo desprovido de qualquer técnica, enumerem-se alguns dos ilustres convidados, todos com créditos firmados na arte de manusear as cordas da guitarra: J Mascis (Dinosaur Jr.), Steve Wynn (Dream Syndicate), Colin Newman (Wire), e Mick Collins (The Dirtbombs). Segue uma amostra, uma das muitas possíveis que não envergonham Pete Townshend da sua descendência:


"Tabby And Lucy" [Guided by Voices Inc., 2011]

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Loving the alien
















Há qualquer coisa de dois anos e meio chegaram de mansinho com Why There Are Mountains, um disco auto-editado e danado de bom. No dito, os Cymbals Eat Guitars remavam contra a corrente vigente, recuperando memórias do indie-rock mais emocionalmente intenso de noventas (quase sacrilégio, nesses tempos), e em particular, por via da complexidade estrutural das canções, dos Built to Spill. Ao vivo então, como tive a felicidade de comprovar, a coisa assumia uma intensidade tal que, em comparação, bandas como The Walkmen não passam de coisinha leve para ouvir em esplanadas de praia. O vocalista/guitarrista Joseph D'Agostino, em particular, é daqueles que, passe o cliché, encara cada concerto como se fosse o último.

E agora, precisamente na altura em que apenas pensamos em ócio e sol, e em nada que estimule a seriedade, parece que os Cymbals Eat Guitars estão de volta. Lenses Alien, o segundo álbum (agora com patrocínio de uma editora), chega no final do mês, mesmo a tempo de ensombrar os últimos dias de férias de muitos com uma dose de letras que, quando penetráveis, deixam discorrer um intenso negrume. A primeira amostra está disponível abaixo, e é uma clara evidência da evolução na continuidade. Ou, trocado por miúdos, um reforço da complexidade sem descaracterização dos autores. Para além da citada referência, há também uma maior evidência das tendências prog que encontramos em bandas do chamado post-hardcore como os óptimos Unwound, ou até mesmo nos Sunny Day Real Estate. E isso é bom ou é mau? É ouvir e chorar por mais, minha gente!


"Rifle Eyesight (Proper Name)" [Barsuk, 2011]

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Selo de Qualidade #3












SARAH RECORDS
Bristol, Inglaterra [UK], 1987-1995

Fundada por Clare Wadd e Matt Haynes, a Sarah Records ficará para sempre conotada com essa expressão da inocência à qual convencionou chamar-se twee-pop. O último tinha já algum currículo como editor da fanzine Are Scared To Get Happy?, uma das muitas fundamentais para a emergência indie do Reino Unido de meados de oitentas, coroada na C86, a já mítica cassete oferecida pelo New Musical Express. Um pouco à semelhança da já estabelecida Creation Records, o objectivo da Sarah era recuperar e celebrar o espírito pop de sessentas, privilegiando o single em detrimento do álbum, formato que, na opinião destes puristas, matou esse mesmo espírito. A grande diferença no trajecto das duas editoras reside precisamente na maior resistência da Sarah à tentação de editar álbuns.

Numa primeira fase, a história faz-se essencialmente de edições frequentes de três bandas: The Sea Urchins (que figuraram na citada C86), Another Sunny Day (banda especialmente indicada a quem acha The Smiths demasiado mainstream), e os escoceses The Orchids. Neste período, a "aves raras" do catálogo eram os 14 Iced Bears, já com edições noutros selos e a ensaiar timidamente a rendição ao psicadelismo, e The Springfields, banda que serviu de embrião aos power-poppers Velvet Crush e que provinha dos Estados Unidos. Com um apoio firme da rádio e da imprensa especializadas, e promovendo festas vespertinas especialmente dirigidas à "tribo dos anoraques", rapidamente a Sarah se tornou a editora de eleição para um largo número de jovens que não se reviam nos tiques sexistas normalmente associados à música que povoava as tabelas de vendas.

Depois da afirmação, o período dourado, aquele que fica marcado pelas duas grandes "vedetas" do catálogo, às quais pertence uma boa parte dos escassos álbuns editados pela Sarah - The Field Mice e Heavenly. Os primeiros são, eventualmente, a banda com uma sonoridade mais elaborada na história da editora e foram fortemente divulgados pelo influente John Peel, enquanto os últimos integravam Amelia Fletcher, antiga líder dos seminais Talulah Gosh e uma espécie de heroína na nação twee. Nesta fase convém também destacar os escoceses The Wake, banda já com um largo historial que, no início, integrou um Bobby Gillespie pré-Mary Chain e pré-Primal Scream.

Na década de 1990, com a música de guitarras a seguir outras tendências (shoegaze, grunge, lo-fi), a Sarah conheceu a perda de protagonismo e o consequente declínio. À parte a prossecução da carreira dos Heavenly, com edições regulares, neste período merecem destaque os Boyracer, relativamente mais enérgicos que o restante catálogo, os norte-americanos Aberdeen, e os deliciosos Blueboy, banda cujo nome remete inevitavelmente para os Orange Juice, outra das fontes de inspiração predilectas da brigada twee.

O fim premeditado ficou assinalado pela edição da compilação retrospectiva There And Back Again Lane (o nome de uma rua em Bristol), justamente o centésimo lançamento com selo da Sarah. Nos dias que correm, o saudosismo e o espírito da Sarah são perpetuados por um extenso rol de editoras. Entre elas, destaque para a norte-americana Slumberland Records, responsável, juntamente com a incontornável Cherry Red, por um bom número de reedições do catálogo da seminal Sarah.


12 SINGLES ESSENCIAIS


  • The Sea Urchins _ Pristine Christine [1987]
  • Another Sunny Day _ Anorak City [1988]
  • 14 Iced Bears _ Come Get Me [1988]
  • The Springfields _ Sunflower [1988]
  • Another Sunny Day _ I'm In Love With A Girl Who Doesn't Know I Exist [1988]
  • The Field Mice _ Emma's House [1988]
  • The Wake _ Crush The Flowers [1989]
  • The Field Mice _ Sensitive [1989]
  • The Orchids _ What Will We Do Next? [1989]
  • Heavenly _ I Fell In Love Last Night [1990]
  • Blueboy _ Popkiss [1992]
  • Heavenly _ P.U.N.K. Girl [1995]


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Discos pe(r)didos #56








THE CLIENTELE
Strange Geometry
[Merge, 2005]




Embora funcionado como banda de corpo inteiro, os londrinos The Clientele são, acima de tudo, o veículo para a expressão musical muito peculiar de Alasdair MacLean, vocalista, guitarrista, e compositor em exclusivo. Contando com a fase intermitente dos primórdios, levam já duas décadas de actividades, vinte anos a alimentar o estatuto de segredo mais bem guardado da pop britânica. Eu próprio me penitencio pelo pecado de só tardiamente os ter descoberto. De então para cá, tenho tentado redimir-me, explorando a fundo toda a sua discografia que, até ao momento presente, ainda não apresenta mácula.

Como disco mais representativo desse catálogo elejo Strange Geometry, o segundo álbum (há também um compilação de singles prévia que deve entrar nas contas), talvez por ser aquele que assinala a maturação do conceito The Clientele. Conceito esse que consiste numa essência pop profundamente letrada, com forte carga de dramatismo e melancolia. A dose de romantismo incurável poderia remeter para alguma twee-pop, não fosse a sobriedade adulta desta dúzia de canções apontar mais para a sofisticação pop professada por bandas de meados de oitentas como Pale Fountains e Prefab Sprout. Na actualidade, não é descabido estabelecer paralelismos com os Belle & Sebastian, embora não exista na dos londrinos uma deriva bucólica tão acentuada como na música dos escoceses.

Nem de propósito, a "epifania" ocorreu com "Since K Got Over Me", tema que abre Strange Geometry fazendo a introdução do lado mais poppy e catchy que a banda conheceu. Desde logo, nota-se um especial cuidado na produção que, acentuando a reverberação, permite à voz sentida de MacLean destacar a importância das palavras. E até ao final, com "Six Of Spades", pressente-se que essas palavras expiam os demónios de uma relação sem final feliz. Com alguma habilidade, e ao invés de dirigir o discurso à outra variável da equação amorosa, MacLean prefere centrar a escrita no cenário desse affair, mais concretamente a cidade de Londres. Com um detalhe quase cinemático, detém-se longamente sobre as ruas, os edifícios, as praças, os jardins, dando assim uma possível explicação para a "geometria" a que alude o título. O desquite com a cidade é assumido em "Losing Haringey", um tocante monólogo totalmente falado que funciona como nota de despedida, francamente exasperante, àquele cenário carregado de recordações

Ao longo de todo o alinhamento, as canções não revelam variações de maior entre si, funcionado antes como um todo, sóbrio e elegante, adornado por arranjos de cordas de extremo bom-gosto. A voz raramente se eleva, com as excepções, ainda que breves, dos picos emotivos de "When I Came Home From The Party" e "Spirit". Por outro lado, "K" (a insistência nesta letra lança suspeitas sobre a eventual referência a um nome feminino), "E.M.P.T.Y.", e "Step Into The Light" assumem algum risco pela experimentação, nomeadamente pelo uso discreto da dissonância.

Há coisa de dois anos, e gerados por declarações algo enigmáticas do próprio mentor, surgiram rumores de um possível fim dos The Clientele. Felizmente, o desmentido foi rapidamente avançado com Minotaur, o mui recomendável mini-álbum do ano passado que sacudiu alguma estagnação da fórmula musical. Talvez com o intuito de evitar algum desgaste, MacLean envolveu-se recentemente em Amor de Días, projecto conjunto com a espanhola Lupe Núñez-Fernández, vocalista do duo Pipas.


"Since K Got Over Me"


"(I Can't Seem To) Make You Mine"


"Losing Haringey"

domingo, 31 de julho de 2011

Mil imagens #21


Teenage Fanclub, 1997
[Foto: Tom Sheehan]

Run for covers















Cada uma à sua maneira, cada uma no seu tempo, Nirvana e The Strokes foram, porventura, as bandas que mais marcaram o curso da história da música popular na última vintena de anos. Os primeiros com Nevermind (1991), que deu uma até aí impensável visibilidade ao underground norte-americano, pelo menos até que os senhores que decidem na indústria discográfica decidirem subverter a coisa com a aposta em produtos formatados nascidos já com um intenso cheiro a mofo. Os nova-iorquinos com Is This It (2001), que insuflou sangue novo no moribundo rock, renovando o interesse do público no dito ao ponto de, no curto espaço de 2/3 anos, haver um imenso rol de seguidistas cujos horizontes de "arqueologia musical" dificilmente iam além da "moda" do mês anterior.

Separados por dez anos, um e outro disco foram lançados em Setembro, pelo que ambos estão perto de cumprir aniversários redondos. Antecipando as efemérides, começaram já a surgir acções comemorativas. Primeiro foi a revista norte-americana Spin a oferecer gratuitamente Newermind, um conjunto de versões de cada uma das canções do histórico disco dos Nirvana, e mais recentemente a publicação digital Stereogum a patrocinar idêntica oferta com Stroked.

Em ambos os casos, e como e como já vem sendo comum em iniciativas do género, os resultados variam entre o óptimo e o desastroso, passando, obviamente, pelo satisfatório. No tributo aos Nirvana, as maiores desilusões ficam a cargo de Meat Puppets e The Vaselines, curiosamente duas bandas que beneficiaram sobremaneira com a adoração desmedida de Kurt Cobain. No pólo oposto, a merecer nota francamente positiva, estão Telekinesis, que realçam o sentir pop de "On A Plain", Titus Andronicus, personalizados no respeito pelo demolidor "Breed", EMA com uma catártica interpretação de "Endless Nameless", e o fantástico Charles Bradley, que reinventa "Stay Away" em cenário soul profusamente groovy. Mais equilibrada, a homenagem aos The Strokes é feita por alguns dos nomes queridos do buzz blogosférico. Tem, porém, um par de versões para esquecer a cargo de Owen Pallett (nada que me surpreenda, portanto) e de uns tais de Austra, muito próximos de alguns cozinhados recentes na peugada de Kate Bush. Muito acima da média está Frankie Rose, em estado de graça pop na interpretação de "Soma". Nas reinterpretações radicais de Heems (dos Das Racist), e dos Real Estate, Stroked conhece os seus pontos altos. O primeiro ataca "New York City Cops" com um arrojado hip-hop abastardado, enquanto os últimos dão mais um passo rumo à coroação como uma das bandas mais interessantes da actualidade com o assombro de pop estelar de "Barely Legal".


Charles Bradley & The Menham Street Band _ "Stay Away" [Spin, 2011]


Real Estate _ "Barely Legal" [Stereogum, 2011]

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Um míssil apontado ao coração da América















Os The War on Drugs não são daquelas bandas fáceis de colar a um único rótulo. Produto da mente de Adam Granduciel, tanto são capazes de pintar a desolação das paisagens áridas como, logo a seguir, atacar com as imponentes cavalgadas dignas de um Springsteen. Às referências, inevitavelmente presentes na colecção de discos do mentor da banda, podem ainda adicionar-se coisas tão díspares como os Sonic Youth, os Neu!, os My Bloody Valentine, os impulsos eléctricos de Bob Dylan, ou até os Spacemen 3. Chegaram de mansinho há cerca de três anos com Wagonwheel Blues, um disco aqui listado na base da listagem dos melhores do ano mas que, progressivamente, tem subido a olhos vistos na cotação deste escriba.

Na altura desse primeiro álbum, um dos integrantes da banda era Kurt Vile, prodígio da guitarra e da composição a quem se augura igual destino que aos próprios The War on Drugs: a inevitável subida de nível na escala mediática musical a breve trecho. Talvez derivado do abandono deste wonder kid, o EP do ano passado (Future Weather) era mais contido na pirotecnia, apostando antes na elaboração de texturas mais complexas. Terá sido esse o tubo de ensaio Slave Ambient, o segundo álbum que sai em meados do próximo mês e que inclui regravações de duas canções do anterior registo. Para já, é conhecido também um par de temas do alinhamento. Um deles é uma estranha progressão que combina raízes americana com uma pulsão rítmica absolutamente motorik. O outro, que podem escutar (e vejam, sff!) mais abaixo, também não deixa de lado o travo teutónico. Contudo, mais de acordo com aquilo que conhecíamos do primeiro álbum, invoca simultaneamente o Boss e Dylan num daqueles números em que o coração fica muito próximo da garganta. Um dia, quando os Arcade Fire resistiram aos ímpetos de grandiosidade barroca talvez possam soar assim:

"Baby Missiles" [Secretly Canadian, 2011]

terça-feira, 26 de julho de 2011

10 anos é muito tempo #31








SUPER FURRY ANIMALS
Rings Around The World
[Epic, 2001]




Dizem os "analistas" que os Super Furry Animals foram a última grande banda recrutada para o catálogo da Creation Records e eu tendo a concordar. Quando partiram para o quinto álbum (o segundo fora da alçada da editora de Alan McGee) já estes irredutíveis galeses tinham no currículo loucuras como manobras promocionais com verdadeiros tanques de guerra a debitar música techno, hits sob a forma de canções que repetiam a F word um número incontável de vezes, e discos integralmente cantados na impenetrável língua materna. Colectivo de freaks nada tolos, os SFA são profundos conhecedores dos vários espectros da música popular, que combinam de forma engenhosa e sem preconceitos. Tanto recorrem à sunshine pop dos Beach Boys como à sumptuosidade soul instituída de setentas, aos desvarios psicadélicos como ao imediatismo do easy-listening.

Concebido como mais uma amálgama de diferentes linguagens, Rings Around The World é, porventura, o mais convencional dos discos dos SFA. Contudo, os conhecedores sabem que, no léxico da banda, o termo "convencional" tem um significado mais difuso do que para os restantes mortais. A título de exemplo desta invulgar proposta, remeto de imediato para "Receptacle For The Respectable", um tema que começa no mais puro registo ensolarado, com palminhas, pa-pa-pas e harmonias vocais incluídas, e termina num devaneio com vocalizações guturais mais consentâneas com o género death metal. É um dos pontos altos de Rings... - na realidade, não há por aqui pontos baixos -, tal como o é "Run! Christian, Run!", este contaminado por uma preguiça birdsyana que se arrasta por mais de sete minutos. No capítulo das referências óbvias, "(Drawing) Rings Around The World" tem paralelismos com um conhecido tema de uns tais Status Quo que vão muito para além do título. Também "No Sympathy", que ataca com o mais terno "you deserve to die" alguma vez pronunciado, deixa escapar ecos de uma aberração intitulada "Bohemian Rhapsody", felizmente por breves instantes. Num e noutro caso, estamos em querer estas são apenas manifestações do humor inteligente, mas profundamente satírico e retorcido, que caracterizam tanto a abordagem da banda como as letras de Gruff Rhys. Tal como em "Presidential Suite", espécie de balada para grandes salões que menciona os hábitos nada politicamente correctos das vidas pessoais dos líderes das duas grandes super-potências: Bill Clinton e os affairs com secretárias, Boris Yeltsin e os problemas com a bebida. Ou em "Juxtaposed With U", tema perfeitamente enquadrável em bailes de cruzeiros marítimos, apesar da utilização abusiva do vocoder, que atira com um genial "you've got to tolerate all those people that you hate / I'm not in love with you but I won't hold that against you". Igualmente dado ao salão de festas, com bola de espelhos e tudo, "Shoot Doris Day" é o apogeu da veia orquestral que aflora timidamente noutros temas.

Em certa medida, Rings Around The World deve ser catalogado como um disco conceptual. Como antídoto ao período louco do fim de milénio que o antecedeu, celebra valores nobres como a tolerância, a amizade e a compreensão, porém sem a militância e os clichés de hippies mal-cheirosos. Antes com muito optimismo (oiça-se "It's Not The End Of The World?") e sem se querer levar demasiado a sério. Tão pouco que, convoca antigos membros de bandas da dimensão de The Beatles e The Velvet Underground, e resume a participação de ambos à maior discrição...

Outra particularidade associada ao quinto álbum dos SFA é o facto de ter sido o primeiro álbum lançado simultaneamente em DVD, com vídeos criados por diferentes realizadores para cada canção. Alguns deles têm como protagonistas os "bonecos" criados pelo amigo e compatriota Pete Fowler, autor de (mais) um fabuloso trabalho no artwork de Rings Around The World. Deixo-vos três deles:

"Receptacle For The Respectable"

"Presidential Suite"

"It's Not The End Of The World?"

segunda-feira, 25 de julho de 2011

First Exposure #34














BLEEDING KNEES CLUB

Formação: Alex Wall (voz, btr); Jordan Malane (gtr, voz)
Origem: Brisbane, Queensland [AU]
Género(s): Indie-Rock, Punk-Rock, Lo-Fi, Jangle-Rock, Surf-Rock, Rock'n'Roll
Influências / Referências: Wavves, No Age, Japandroids, The White Stripes, Ty Segall, Pixies

http://www.myspace.com/thebleedingkneesclub

"Have Fun" [Noir, 2011]

Transístor em AM













Mesmo com a torrente de informação e novidades com que diariamente somos assaltados, há bandas e projectos, já com carreira feita, que nos fogem ao radar. Aconteceu-me com The Ladybug Transistor, "descobertos" por um feliz acaso num simpático concerto que abriu um pequeno festival no país vizinho há perto de dois anos. Investigações posteriores fizeram-me saber que já cá andam desde meados da década de 1990, que inicialmente eram um projecto de formação variável em torno do mentor Gary Olson, e que numa fase posterior evoluíram para line-ups com alguma estabilidade. Fiquei também a saber que, embora originários de Brooklyn, Nova Iorque, estiveram outrora ligados ao colectivo Elephant Six, coglomerado de alquimistas pop com sede no Colorado.

Após a descoberta, tenho feito os possíveis por explorar a sua discografia que, até há pouco, compreendia já meia dúzia de álbuns. O sétimo, chegado há pouco, interrompe um silêncio de quatro anos motivado pela indefinição após a morte do baterista de longa data. O disco chama-se Clutching Stems e consiste numa dezena de temas de uma pop elegante e sem tempo, cujo maior adorno é a suavidade do barítono de Gary Olson. Por vezes, revela ecos do romantismo desencantado dos Go-Betweens, outras da nostalgia implícita nas novas canções dos Feelies, outras ainda, ostenta uma ligeira dose da melancolia sóbria típica de The Clientele. Não sendo propriamente o disco que vai mudar o mundo, não deixa de ser uma óptima companhia para a lazeira de fim de tarde típica deste período de estio. Fazendo jus à categoria de pop referencial, de uma penada, a amostra abaixo cita dois clássicos de outras eras: uma dos Joy Division, outra de um tal Neil Young. Desafio-vos a descortiná-las:


"Oh Cristina" [Merge, 2011]

domingo, 24 de julho de 2011

R.I.P.


AMY WINEHOUSE
[1983-2011]

Por esta altura, sobre Amy Winehouse já muito foi dito e escrito. Até demais! Sobre ela, vou acrescentar apenas uma achega, talvez a fundamental: com a sua morte a soul perdeu a mais digna representante das últimas duas décadas, o que não deixa de ser irónico tendo em conta que era inglesa e era branca...

"You Know I'm No Good" [Island, 2006]

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Ao vivo #68















Dirty Beaches @ Galeria Zé dos Bois, 21/07/2011

Tal como no caso de Alan Vega, dos Suicide, Alex Zhang Hungtai, o rapaz que adoptou a denominação Dirty Beaches, tem uma obsessão com o ícone do Elvis decadente. Mas, se o primeiro tem uma abordagem visceral e de confronto, o nativo de Taiwan migrado na Califórnia, via Vancouver, opera com algum recolhimento, numa espécie de tela sépia que remete para a beleza extraída das sombras nas películas de David Lynch.

As diferenças acima referidas, evidentes em disco, esbatem-se em palco. Neste habitat, Alex, sozinho com guitarra eléctrica e "máquinas", solta-se e entremeia o balbuciar melancólico com urros catárticos. A adopção deste cenário minimalista, combinado com os ecos e o baixo volume do som granuloso, revela-se o ideal para uma música de tons esbatidos, percorrida por um certo sentimento de nostalgia. O público, em número invulgarmente alto para uma quinta-feira, sabe ao que vai, e sintoniza-se desde o primeiro instante. 

Com tal clima de empatia mútua, o concerto não se poderia ficar pelos cerca de 40 minutos, e Alex percebe-o, adiando até ao limite a saída de palco. Primeiro com uma versão dos DNA, tocada com igual teor cacofónico ao das lendas da no-wave. Seria o fim perfeito, não fosse o músico ceder aos caprichos da turba e tocar mais dois ou três temas que soaram mal preparados. Mais do que empobrecer o resultado do todo, este final serviu, essencialmente, como momento de comunhão que satisfez ambas as partes.